Ana Seara
compositora

O MPMP, movimento patrimonial pela música portuguesa,
Único pelo carácter e âmbito da sua intervenção no
noSso país e pela (e por toda a) Portugalidade,
Investiga, incentiva, dá voz e espaço
À Criação, à interpretação, à expressão musical e
Artística em português!

Parabéns pelos dez anos de existência!
Outros muitos dez virão, com toda a certeza,
Recuperando e honrando o nosso património musical do passado,
Trocando, partilhando experiências entre
MÚsicos de diferentes gerações,
Garantido uma inequívoca qualidade e diversidade de propostas musicais,
Unindo esforços e vontades,
Esquecendo as reais dificuldades,
Sempre, e sempre pela música!
Ame-se e honre-se a música portuguesa de ontem, de hoje e de amanhã!

Obrigada, MPMP!

 

Bethany Akers Carmo
oboísta

Muitos parabéns pelos dez anos, repletos de concertos fantásticos, programas desafiantes, grandes músicos, tanto talento e tanta visão, boas amizades, muitas gargalhadas e gente tão tão TÃO boa. (E saladas muito muito MUITO grandes!) Um grande beijo. Mal posso esperar pelos próximos dez!!!

César António Faria de Carvalho
professor de música

Penso que o MPMP e a revista Glosas são um excelente contributo para a divulgação da música, de todo um património musical que enriquece culturalmente, informa, que se dá a conhecer a todos os leitores que se interessem por se envolver na cultura musical.

Penso que a revista Glosas, para a qual senti o maior prazer e orgulho de poder contribuir com um artigo no n.º 5 (Maio de 2012, pág. 37), e outro no n.º 6 (Setembro de 2012, pp.67-71), envolvendo-me e ao mesmo tempo fazendo parte de um conjunto de conceituados nomes da música portuguesa, que tiveram também igual oportunidade de divulgação, de informação e de contributos apreciáveis, é imprescindível. Não queria deixar também de referir a boa qualidade de impressão, tanto de textos como de imagens, graças ao excelente papel utilizado.

Sou da opinião de que tudo o que se fizer em prol da música, todo o tipo de trabalho que contribua para uma justa divulgação da boa música, especialmente da música portuguesa com qualidade, é sempre bem-vindo. Devemos procurar não esquecer o património musical português, devemos lembrá-lo, divulgá-lo, dar a conhecê-lo, através de todos os meios que estiverem ao nosso alcance, como eu senti um justo dever de fazê-lo quando publiquei o livro Lembrando quatro grandes figuras da história da música portuguesa em 2007, com uma segunda edição em 2008.

A revista Glosas é mais um meio, uma forma de divulgação; por isso, aplaudo com todo o vigor a ideia deste projecto, que tem atrás de si já alguns anos, e que merece todo o respeito, todo o apoio, todo o carinho. Entrego-me de bom grado, estarei sempre ao dispor. Termino com um forte aplauso de parabéns e um bem-haja!

 

Eurico Carrapatoso
compositor

Alguns aspectos se destacam nas forças que animam o MPMP:

. o facto de ser industrioso nesta sua acção continuada de dez anos.

. o facto de ter um leque vasto de iniciativas nessa mesma acção de apoio à música portuguesa sob múltiplas formas: interpretando-a, gravando-a, comentando-a, editando-a, estudando-a, redescobrindo-a, dela ou sobre ela falando.

. o facto de resistir à inércia proverbial do assunto cultural português que gasta demasiada energia a queixar-se do seu destino periférico em vez de canalizar essa energia para obra feita, com barra dupla, substituindo o tom do célebre fadinho em modo menor sob o mote da irrelevância cultural aquém-Pirenéus (maçadora visão dorida das coisas, inflacionada de tão cantada, ajaezada a véu e xaile preto) pelo tom maior de quem foca tal energia em algo concreto, ao invés, efectivo e palpável, algo que dessa periferia em modo menor, aos poucos, se resgata.

. o facto de ser contemporâneo e entrar em fase com um fenómeno que vou denominando, de há uns anos a esta parte, de segundo renascimento da composição portuguesa, um movimento que tem vindo a ganhar rosto nos últimos vinte anos e que tem uma dinâmica firmada no binómio qualidade / quantidade, que, também aqui, e agora na área estrita da criação, parece dar sinais, tímidos que sejam, de estar a resgatar tal velha conformidade da nossa música desse gueto atávico de sua periferia no plano internacional. Só pode ser esse o caminho: mais obra feita e menos Calimero. É também esse o espírito que se reconhece no MPMP. Os portugueses, há que lembrá-lo, não nasceram propriamente de rabo voltado para a lua no que à musicalidade diz respeito. Já deram provas internacionais na poesia. Dá-las-ão, por ventura, na música também, por este caminho que, nesta fase, se trilha: um caminho mais firme, com rumo e norte, como o MPMP acompanha e cumprimenta.

Bem sei que nos países setentrionais com pouca luz, as pessoas têm as pupilas mais dilatadas. Os artistas aproveitam o ensejo para a sublimar. Cantando-a, à luz, decantam-na. O Rijksmuseum agradece. A humanidade também. Bem sei que o sol tende a ser o protagonista único em países meridionais como o nosso. Imperial e cálido, solista de tão sulista, de uma luz ensurdecedora, deixa menos espaço para quem o cante, convidando à sesta quem o sente. Que o MPMP continue esta sua travessia por mais dez anos. Óculos escuros e muito cafezinho, pois, são os meus votos.

 

Filipe Coelho e Óscar Carmo
trompetistas

95505087_10158917641290628_4787512771115745280_o.jpg

> Já passaram 10 anos???
2 > Têm sido um prazer os momentos de colaboração em clima de amizade, boa disposição, seriedade e comprometimento.
3 > Profundo agradecimento ao MPMP por toda a dedicação e empenho em prol da música, em especial a portuguesa.
4 > Parabéns MPMP; que contes muitos sempre com a mesma energia!! Um brinde🥂 .

 

Helena Santana
musicóloga

Testemunho em forma de agradecimento

A criação musical em Portugal, e toda uma informação que sobre si desponta, floresce não do interesse de muitos mas, e ainda, da acção e persistência de poucos. Este facto não se evidencia somente hoje; emerge, de alguma forma, ao longo de todos os tempos. Contudo, as ocasiões, os meios e os lugares de hoje consentem o desenvolvimento de formas de ser, fazer e estar, mas também de dizer, mostrar e divulgar arte que, se de novo se cobrem, de velhas intenções se destapam. Exigindo meios e ferramentas de suporte à divulgação de conhecimento cada vez mais exigentes, a todos se reconhece a intenção de relevar a nossa criação musical, mas também a investigação que sobre ela se faz, promovendo o rigor e a competência dos que nela se afirmam. No que concerne à criação musical em Portugal, mormente uma criação musical contemporânea, que se mostre histórica e cientificamente informada, apuramos a necessidade de um acesso a fontes que se mostrem fidedignas, bem como às obras e a todo um conjunto de informação técnica e científica sobre elas. Esta realidade se faz urgente, premente e relevante. Para tal, os acervos, arquivos, repositórios, revistas e todas as plataformas de interacção e divulgação de informação e arte são essenciais, pois, se os investigadores necessitam de se debruçar sobre fontes de um conhecimento construído que, no caso da música, estão para além, quantas vezes, de uma notação autógrafa, aos melómanos é oferecida a possibilidade de apaziguar um desejo de conhecimento. A todos surge a necessidade de obter elementos de estudo concretos e correctos, profundos e informados.

No caso da música, o objecto de arte musical, sendo sempre alvo de uma interpretação, revela-se construção de um conhecimento proposto por um novo autor: o intérprete. Contudo, e à semelhança das outras artes, é através da construção proposta por esse novo autor, o intérprete, que o espectador se impregna da obra construída e, agora, legada pelos dois: compositor e intérprete. Se o acesso à obra, e a investigação que sobre ela podemos produzir, surge de um interesse pessoal que, à semelhança de toda a criação, carece de divulgação, o acesso espontâneo ao conhecimento que sobre ela foi construído se faz também de um interesse que necessita ser satisfeito. Neste sentido, todas as possibilidades oferecidas para a divulgação de conhecimento surgem relevantes e importantes, permitindo um seu acesso, uma sua fruição e uma sua aplicação. Referimos aqui a pertinência de plataformas de divulgação de conhecimento científico alocadas às grandes instituições de ensino e investigação do país, mas também aquelas que, não menos importantes, permitem um acesso mais alargado a uma informação que, se de mais geral se faz, de uma consistência e pertinência se diz.

Um breve olhar sobre a criação musical contemporânea mostra que a música erudita em Portugal, desde finais do século XIX, revela ideias e ideais progressistas que foram implementados por numerosos e proeminentes intelectuais da época. Surgem, nesta data, diversas sociedades de concertos, formam-se várias orquestras, nascendo, em 1884, a Real Academia de Amadores de Música, sociedade que muito contribuiu para o ensino e divulgação da música erudita em Portugal. Por outro lado, na passagem do século XIX para o século XX, a crise da monarquia provoca o ultimato de 1890. Este facto acalenta os ideais republicanos. Um patriotismo profundo e um heróico anseio de modernização que conduzem, em primeiro lugar, à Revolta de 31 de Janeiro (1891), em seguida, ao Regicídio (1908) e, por último, à proclamação da República, a 5 de Outubro de 1910. Este facto acarreta inevitáveis consequências, não só a nível político como a nível social e artístico. A renovação da sociedade e o processo de industrialização, promovendo a circulação de ideias, acentuam a busca de uma identidade. Notório é o interesse pelas raízes étnicas e culturais, iniciando-se assim diversas pesquisas no campo da música folclórica que visam a definição de uma arte dita nacional, a necessidade de fontes e meios de divulgação do conhecimento construído. Se, ao longo do tempo, músicos e intérpretes, compositores e musicólogos, editores e divulgadores, rádio e televisão, abraçaram a causa, hoje em dia também o verificamos, segundo os meios, as formas e as normas vigentes, permitindo um acesso à informação e uma determinada consulta de dados.

Se no início do século este foi o dizer, denotamos que o interesse conhecido à época por materiais, sons e sonoridades mais genuínas não negligencia o interesse em todas as actividades de cariz intelectual, científico ou artístico, que se fazem além-fronteiras. Esse interesse procura a sintonia com diversos centros europeus de investigação, nomeadamente os presentes nas cidades de Paris, Londres ou Berlim, intentando o desenvolvimento da produção científica e artística no nosso país. Neste sentido, e fruto de uma proximidade, mas também de um exílio de diversos artistas, criadores e pensadores portugueses, nomeadamente em França, apuramos uma influência marcada, prioritária e decisiva da cultura musical deste país em Portugal, nomeadamente sobre a Geração de Setenta. Este grupo, do qual fazem parte intelectuais e figuras da época como Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Teófilo Braga, José Leite de Vasconcelos e Batalha Reis, impulsionará os meios intelectuais de orientação predominantemente positivista e francesa. Interrompendo uma criação artística marcada pela tradição romântica, exprimem-se numa linguagem clara, simples e directa, edificando numerosas críticas a diversos sectores da sociedade.

Este fazer e dizer, alvo de forte publicitação e divulgação, mostra-se relevante à época, sendo por nós agora adquirido de forma informada e qualificada. A actividade criativa e investigativa reflecte-se assim, e de forma inequívoca, no domínio que exercem sobre a música erudita, através de consideráveis investigações que consumam a nível musicológico. Surgem várias sociedades e colectividades musicais, visando a organização de diferentes eventos musicais, bem como o desenvolvimento musical e artístico da sociedade em diversas regiões de Portugal, mormente o Portugal dito profundo. Em conformidade, no Porto, Bernardo Valentim Moreira de Sá funda, em 1874, a Sociedade de Quartetos e, em 1881, o Orpheon Portuense. Conjuntamente com a Sociedade de Música de Câmara, divulga um vasto e prestigioso repertório, algum inédito em Portugal. Em 1910, a Sociedade de Concertos Sinfónicos, fundada por Raimundo de Macedo, promove igualmente diversas temporadas de concertos corais e sinfónicos desenvolvendo-se, no país, uma intensa actividade artística. Em Lisboa, a Sociedade de Música de Câmara, fundada, em 1899 por Miguel Angelo Lambertini, promove, pela primeira vez, um concurso destinado unicamente a obras de música de câmara. Com esta acção, pretende revelar jovens compositores nacionais, beneficiando, entre outros, Luiz de Freitas Branco. A vida musical lisboeta, e do país em geral, possui, assim, inúmeras iniciativas culturais, com a apresentação regular de concertos sinfónicos e de música de câmara; Lisboa e Porto tornam-se dois centros de cultura musical cuja prática carece de investigação e reflexão.

Se a história das transformações sociais e culturais em Portugal, em finais do século XIX, revela tendências estéticas inovadoras, consequência da oscilação de gosto e da dinâmica gerada pelo Realismo português, o movimento nacionalista, valorizando a igualdade entre os homens, e salvaguardando os seus direitos face ao Estado, conduz a um ambiente criativo mais livre e dinâmico. Ultrapassando os perfis social e político de períodos anteriores, perfis caracterizados pelo predomínio de regras morais e sociais bastante rígidas, releva-se, agora, a dimensão particular da pessoa humana, intensificando-se o ímpeto democrático, consagrando-se o direito à livre escolha. Consequentemente, a criação artística em geral, e a musical em particular, transportam à afirmação de regras e valores peculiares e a uma maior independência das forças criativas, determinativas e formativas da arte.

Neste fazer, a geração de compositores do pós-I Grande Guerra Mundial, revoluciona de forma ímpar a arte musical, deixando uma marca indelével em toda a produção musical desde meados do século XX. A sua inteligência visionária e as aquisições técnicas que exprimem, resultam em obras que se mostram plenas de ensinamento. Neste contexto surgem Fernando Lopes-Graça, Álvaro Salazar, Jorge Peixinho, Constança Capdeville, Clotilde Rosa, Cândido Lima, Emmanuel Nunes, entre muitos outros, uma obra que urge estudar e revelar. Em outro, e se no início do século XX se vislumbra que a actividade criativa em Portugal segue pressupostos mais tradicionalistas, as gerações mais recentes mostram um corpus de obras e uma intenção criativa que se desenvolve de forma diversa e expressiva, exigindo o seu estudo e divulgação. Nesse sentido, são necessários os meios, as ferramentas, as intenções e as formações, revelando-se, através dos seus dizeres, que os novos autores utilizam para além dos meios mais tradicionais de produção sonora e musical as mais diversas e actualizadas técnicas de suporte à criação e difusão musical. Indaguemos o património.

A exploração das técnicas utilizadas na concepção e criação das suas obras leva-nos, por isso, a vastos domínios da criação e interpretação musical. Compositores como Fernando Lopes-Graça, Constança Capdeville, Jorge Peixinho, João Pedro Oliveira ou Emmanuel Nunes foram os responsáveis pelo aflorar de uma nova geração de compositores, contribuindo para o desenvolvimento de uma nova música portuguesa, uma música dita contemporânea. Dela fazem parte compositores como Miguel Azguime, António Chagas Rosa, Tomás Henriques, António Sousa Dias, João Rafael, Isabel Soveral, Sara Carvalho, Rui Penha, Ângela Lopes, entre muitos outros. São hoje os promotores, pesquisadores, divulgadores e impulsionadores da formação musical em Portugal, mas também das novas gerações de músicos e compositores, bem como da nova música portuguesa, sendo alguns deles os responsáveis por estúdios, institutos e instituições que contribuem para a criação, produção e divulgação da nova música e de conhecimento. Neste contexto referimos o Centro de Investigação e Informação em Música Portuguesa, o Centro de Investigação em Música Eletrónica, ou os diferentes institutos de investigação, nomeadamente o Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança ou o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical.

Salvaguardando alguns autores e obras, tentamos mostrar que a produção musical, em Portugal, é significativa, sendo que a qualidade que dela emana nos sugere universos de profunda reflexão técnica, estilística e estética. Se, ao longo destes anos, temos efectuado um estudo, queremos nós profundo e alargado, da música portuguesa contemporânea, o facto faz-nos procurar, dentro do panorama musical nacional, a oportunidade de o mostrar, dando a conhecer este nosso trabalho, divulgando esta nossa investigação. Tendo ao longo dos últimos anos surgido uma forte produção musical que nasce do esforço e da dedicação de compositores, músicos e intérpretes, nasce igualmente a necessidade de efectuar um seu estudo, que atento e competente se deve revelar. A sua divulgação junto não só dos pares como, de forma mais alargada e criativa, junto de todos, necessita dos meios necessários a esta intenção.

Neste sentido, e convidada a dar um testemunho sobre o que projecto da revista Glosas ou o que o MPMP representa, encaramos o facto como uma possibilidade de falar sobre dois projectos importantíssimos para a divulgação de toda uma produção musical. Quando encontrámos a revista Glosas, vimos nela a oportunidade de publicar, dando a conhecer o nosso trabalho. Em outro, sendo o MPMP criado pela necessidade de dar voz e movimento ao património material e imaterial da nossa música, conforme consta na sua plataforma, a visibilidade oferecida à produção artística que se faz, e que, infelizmente, se encontra, muitas das vezes, esquecida nos arquivos deste país, surge como uma oportunidade ao seu estudo e divulgação.

Da experiência que possuímos, devemos referir que o acesso aos documentos de que necessitamos é muitas vezes feito pelos compositores e intérpretes, dado que a maior parte deles se encontram dispersos ou indisponíveis. O desaparecimento de alguns dos compositores portugueses, os mais relevantes do século precedente, revela-se uma dificuldade acrescida. Sendo que a música portuguesa possui um número significativo de obras que são um importante legado para as gerações futuras e para o seu conhecimento e estudo, todas as plataformas e meios concebidos para a divulgação desta nossa música são, a nosso ver, de fomentar e, sobretudo, de manter, a bem da música portuguesa.

Assim, a Glosas surge como uma oportunidade de conhecimento do trabalho desenvolvido por musicólogos, analistas, intérpretes e compositores, oferecida a todos aqueles que se interessam pela música portuguesa contemporânea, mas não só. A ela, e a quem a permite existir, o nosso maior e mais sincero agradecimento.

 

Idalete Giga
musicóloga

Se nada entenderam do passado, nada podem sonhar para o futuro
Agostinho da Silva (1906-1994)

Ao concluir dez anos de existência, a revista Glosas está de parabéns! Sendo a preciosa mensageira de toda a actividade do MPMP, a Glosas nunca traiu o principal objectivo desta associação cultural, ou seja, a divulgação dos compositores portugueses ao longo da nossa História até à actualidade, com destaque  para a música erudita de tradição ocicental. Neste sentido, tem dado a conhecer, em todo o mundo lusófono, não só compositores e intérpretes nacionais, mas também brasileiros.

No deserto cultural em que tem mergulhado o nosso país há muitas décadas, sobretudo no que concerne à música erudita, a criação da revista Glosas foi um verdadeiro oásis no deserto. Foi, sem dúvida, a revista de divulgação musical de carácter científico, artístico e pedagógico que faltava em Portugal.

Manter durante uma década uma revista com duas publicações anuais e com o rigor de qualidade que sempre a tem caracterizado não foi tarefa fácil. Tal trabalho ficou a dever-se a um pequeno grande grupo de jovens músicos talentosos e amantes da genuina música erudita portuguesa que não só fundou, em boa e feliz hora, o MPMP, mas idealizou e concretizou também a revista Glosas.

Tenho acompanhado sempre com o máximo interesse toda a actividade do MPMP. Como associada, tive a honra de poder colaborar com a Glosas, propondo à direcção alguns trabalhos musicológicos que foram, desde logo, aceites. Aqui expresso a minha gratidão.

Ao longo da minha actividade profissional sempre me preocupou a educação cultural e artística das crianças. Uma criança a quem é negado o conhecimento da cultura e da arte do seu país; uma criança que é lançada às feras da pobreza, da ignorância, da mais escandalosa desigualdade social; uma criança que nunca teve a possibilidade de desenvolver as suas capacidades criativas, a sua imaginação; em suma, uma criança mal amada, pode ser feliz? Será, sem dúvida, infeliz, e muito possivelmente um delinquente em potência! Sendo as crianças o que há de mais importante em qualquer sociedade, devemos dar-lhes o que há de melhor, de mais harmonioso, de mais belo no mundo. Serão elas os futuros governantes do País. A minha preocupação constante com a educação cultural e artística das crianças levou-me a sugerir junto do MPMP a publicação de uma obra destinada às crianças em idade escolar, que contemplasse os compositores mais representativos da História da Música em Portugal. A sugestão foi aceite e o projecto foi realizado, tendo tido a colaboração do tenor portuense Mário João Alves, que escreveu dozes histórias com grande sentido de humor e criatividade. As ilustrações foram da autoria da Madalena Matoso. O sucesso da obra com o título Histórias da Musica em Portugal  (com CD integrado) conduziu à sua reedição.

Pouco tempo antes do seu falecimento (em 21 de Setembro de 2011), o pintor Júlio Pomar afirmou numa entrevista televisiva que “a arte tem um papel fundamental no entendimento do mundo”. Mais recentemente, a escritora Lídia Jorge, numa entrevista no jornal Público, afirmava com impressionante lucidez que “a arte é o exercício mais fino do pensamento […] e, se não tivéssemos a arte, há muito tempo teríamos desaparecido como espécie”.

E a Música? A Música é a mãe de todas as Artes. Mas como fazer compreender aos decisores políticos a importância das Artes na nossa sociedade?

Desde o 25 de Abril ainda não houve um único Governo que tenha tido a coragem de abolir o pernicioso e sinistro economicismo que reina no sector da Educação, da Saúde e, sobretudo, no sector da Cultura. Nenhum foi capaz, até hoje, de apresentar aos portugueses uma Política Cultural com cabeça, tronco e membros, ou seja, considerar o sector da Cultura como uma prioridade na vida do país. Infelizmente, há uma maioria para quem as artes e sobretudo a música são actividades de entretenimento, logo, não há que as levar a sério! Que visão distorcida, que miopia cultural! A desorientação política em relação a este problema adiado sine die revelou-se e agravou-se, de forma surrealista, ao ser criada, no período da troika de má memória, uma Secretaria de Estado da Cultura, sem poder de decisão, ficando dependente do campeão do economicismo, o Primeiro Ministro. Depois da troika, os portugueses exigiram um Ministério da Cultura e não uma Secretaria de Estado. O Ministério foi criado, mas o sector da Cultura continuou e continua à espera de melhores dias. No Orçamento de Estado para 2020, a percentagem destinada ao sector, incluindo a RTP (!) não ultrapassa a miséria de 0,55%. Qualquer Governo que menospreze e secundarize desta forma a Cultura e a Arte não é digno de governar os povos.

A pandemia do novo vírus que estamos todos a viver há mais de três meses, como um karma colectivo, veio mostrar as fragilidades, os erros tremendos da nossa civilização e as políticas economicistas praticadas a nível global. Portugal não é excepção. Com um sector das Artes desregulado e com a total ausência de apoios por parte do Governo, muitos artistas, sobretudo na área da Música, do Teatro e da Dança, foram os que mais sofreram. É uma injustiça.

Ao terminar este depoimento, não posso deixar de lamentar ao escassos apoios que foram atribuídos pela DgArtes ao MPMP. Atrevo-me a afirmar que esta associação contribuiu mais numa só década para a divulgação do património musical português do que todos os Ministérios e Secretarias de Estado da Cultura  juntos desde o 25 de Abril.

Para além da revista Glosas, a edição de CDs, livros, partituras e inúmeros concertos por todo o país tem sido uma realidade graças à grande generosidade, competência e talento dos jovens músicos que têm dirigido o MPMP.

Como associada e profundamente consciente do valor do MPMP no universo da Cultura em geral, e da música portuguesa em particular, desejo que viva por muitos e muitos anos e que a revista Glosas continue a revelar a todos os portugueses que vivem em Portugal, ou espalhados pelo mundo, a imensa riqueza do nosso património musical.

Musica nunc et semper!

 

Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
antropóloga

Acordes da Lusofonia

Quando se comemora os dez anos do MPMP e da revista Glosas, rememoramos com alegria os seis anos da chegada desse magnífico movimento ao Brasil, em 2014, quando o mundo das artes aqui festejava o centenário de nascimento do grande maestro César Guerra-Peixe.

Até então, os encontros de artistas e escritores aficionados da cultura lusófona no Rio de Janeiro aconteciam no Real Gabinete Português de Leitura, no Liceu Português e na frequentadíssima Livraria Camões, no Edifício Avenida Central, grande referência da Avenida Rio Branco.

Naquele ano, o MPMP foi recebido entusiasticamente na Academia Brasileira de Música, no Centro Cultural São Paulo, em várias salas de concerto, universidades de seis capitais do Brasil, além de se ter feito uma gravação de cinquenta minutos no programa Partituras, da TV Brasil, em horário nobre, posteriormente disponibilizado em-linha…

Através da intitulada turnê “Música portuguesa em viagem”, pela primeira vez músicos e interessados em música portuguesa no Brasil tiveram acesso ao conhecimento da produção de música erudita de autores portugueses, histórica e contemporaneamente. Amigos espalhados entre Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador e Brasília, a quem enviei a programação em cada uma dessas cidades, pedindo-lhes impressões, me comunicaram eufóricos a emoção diante dos concertos e conferências assistidos, praticamente “deslumbrados” com a experiência vivida. E tudo isso acrescido do prazer de adquirir o número 10 (dez) da revista Glosas e um CD, Mosaic, de João Pedro Oliveira, entre outros, representando mais de vinte compositores portugueses, desde o barroco Carlos Seixas até aos contemporâneos, passando pelos clássicos (destaque para João Domingos Bomtempo), românticos e modernos (destaque para Fernando Lopes-Graça).

A importância desse encontro, integrando o Brasil a todo o mundo musical dos povos de língua portuguesa, respondeu a um desejo muito grande de todos nós, que aprendemos a gostar de fados, colecionando os discos de Amália Rodrigues, e depois de Cesária Évora, e de tantos outros cantores de fados e modinhas, e de conhecermos a música de concerto e seus autores. Afinal, se tanto cultivamos Camões, Guerra Junqueira, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, e se Bocage era muito citado pelos poetas repentistas, por que não conhecíamos seus congêneres na música portuguesa de concerto?

Atravessando crises de escassez de recursos para o Ministério da Cultura e as Secretarias de Educação e de Cultura do Estado e da Prefeitura do Rio de Janeiro, após aquele período vivido com tanto entusiasmo se seguiu no Estado do Rio o sacrifício da cultura, com falência das principais orquestras, falta de verbas para todas as atividades artísticas, até inexistindo decoração das ruas para as festas de Natal e de Carnaval, nos anos 2016 e 2017.

As universidades em crise, a chegada do corona 19 pondo a sociedade em isolamento preventivo e todas as instituições de ensino fechadas, desenham cenário de desânimo face à incapacidade de trabalho para além das redes de comunicação, agora com o rápido empobrecimento dos artistas em todos os setores da cultura. A morte pela pandemia de artistas ícones como o compositor Aldir Blanc, vítima também de dificuldades econômicas, advindas da “ação governamental contra a cultura do país”, mobilizou a sociedade que, recorrendo ao Poder Legislativo, conquistou nesse mês de junho a Lei Aldir Blanc, disponibilizando verba federal para garantir a sobrevivência de membros da classe artística mais atingidos pela tragédia da pandemia.

Sob o terror do desconhecido, que é a tentativa de antevisão do “mundo pós-pandemia”, que tanto pode ser a “volta ao normal dos sacrificados artistas”, professores e profissionais da saúde, num país que não privilegia a  Educação e a Cultura, com a chamada “uberização de todo trabalho humano” fora da gerência das grandes corporações, num mundo globalizado, os governantes vão suprimindo todas as leis garantidoras do bem-estar social, com a precarização do Direito de Educação, Emprego, Saúde e Aposentadoria na velhice.

Em todo o mundo sacrificado e em pânico, os artistas estão oferecendo sua arte como antídoto ao desespero, grito de esperança e convite à união pela sobrevivência da Humanidade atingida pelos vírus, tanto o de nome Corona 19 como o nominado “Luta pelo Poder da Riqueza a Qualquer Preço” — responsável pela abissal desigualdade social entre os filhos de um só e único criador: Deus!

 

Tatiana Martins
fagotista

Para mim é um orgulho fazer parte desta família. Sim, porque este não é um ‘ensemble’ qualquer. Aqui, fazer música ainda se torna mais especial, pois todos nos respeitamos! Desejo a esta família MPMP muitas felicidades pelos magníficos 10 anos vividos! Agradeço a todos os intervenientes do Movimento, pois têm desenvolvido um trabalho notório, que dignifica a música portuguesa! Um bem-haja a todos! Parabéns e… já sabem… fiquem em casa e em segurança!

 

96247440_10158932905640628_5599297517461176320_n.jpg

Sobre o autor

Avatar photo

[Publicações de amigos, colaboradores, associados, no contexto do aniversário do 10.º aniversário do MPMP]