Da música ao cinema, assinala-se uma frente coesa contra a invasão das tropas de Moscovo à Ucrânia, a qual tem registado efeitos colaterais nos próprios meandros artísticos. Tudo começou quando a Carnegie Hall, uma aclamada sala de espetáculos nova iorquina, decidiu substituir Valeri Gerguiev, impossibilitando-o de se apresentar como maestro da Filarmónica de Viena, bem como Denis Matsuev, que seria pianista solista num dos três concertos a decorrer na instituição. A decisão deveu-se à declarada proximidade de ambos com o líder russo, Vladimir Putin, que já apoiaram no passado. De facto, o nome de Gerguiev tem sido o mais transversal neste ‘cancelamento cultural’, dada a expansão da sua atividade. A sua permanência na Filarmónica de Munique e no La Scala de Milão, no qual havia estreado uma nova produção da ópera A dama das espadas de Tchaikovski horas antes do eclodir do conflito, atuação que já havia contado com o descontentamento de alguns elementos do público, dependeria de uma declaração a favor da resolução pacífica do conflito. Face a um silêncio total, ambas as demissões já foram divulgadas. Também a Orquestra Filarmónica de Roterdão, na Holanda, prometeu cancelar um festival planeado por Gerguiev, o qual decorreria em Setembro, à semelhança dos Festivais de Verbier, na Suíça, e de Edimburgo, na Escócia.

Mas o boicote às produções russas vai além de Gerguiev e Matsuev. No comunicado da Met Opera, instituição com proeminente exposição de produções russas, é citado também o nome da soprano Anna Netrebko, a qual é apoiante de Putin há décadas, tendo entretanto feito, cedendo à pressão que lhe foi dirigida, declarações “contra a guerra”, ainda que sem um posicionamento claro em face do conflito. Peter Gelb, diretor geral da casa de ópera nova iorquina, ressaltou que a decisão era consequente de um sentido de responsabilidade que deveria ser transversal nas companhias internacionais, as quais podem servir como ferramenta contra a opressão. Ainda assim, este comunicado veio com um atraso considerável e com uma ressalva de rutura temporária, a permanecer apenas enquanto a invasão estiver a decorrer.

Há quem coloque também esta questão sob uma ótica mais objetiva. Afinal, é ou não ético coagir artistas, num cenário democrático, a fazer declarações em que não acreditam, apenas para poderem continuar a desempenhar funções que tinham até então? O maestro Semion Bichkov, de nacionalidade russa-americana, afirma que sim, posição partilhada pelo pianista russo Alexei Volodin e por Elena Kovalskaia, a qual se demitiu, em forma de protesto, do seu cargo como diretora do Teatro de Moscovo.

“Ficar em silêncio hoje é trair a nossa consciência e os nosso valores, o que, em última análise, define a nobreza da natureza humana” (Bichkov, 2022).

Já antes da invasão das tropas, muitos artistas russos manifestavam alguma preocupação em relação a eventuais retaliações e exclusões generalizadas do discurso cultural internacional. Produções associadas ao Teatro Mariinski, cujo diretor é também Gerguiev, e ao Ballet Bolshoi foram afastadas dos palcos da Met Opera e da Royal Opera House, em Londres, sob o pretexto de serem financiadas pelo Estado Russo. Mas Vladimir Urin, diretor do Teatro Bolshoi, é um dos vários artistas que clamam por um “cessar-fogo” neste conflito cultural. Neste sentido, e a seis meses da 83.ª edição da Quincena Musical, o diretor do festival espanhol, Patrick Alfaya, ressalva a necessidade de cautela em relação a proibições impostas a artistas russos, na sua generalidade.

“A linha vermelha para vetar um músico é a defesa de uma agressão, não a sua nacionalidade” (Alfaya, 2022).

Em consequência deste debate e onda de cancelamentos, também Robert Brufau, diretor do L’Auditori, sala de concertos catalã, salienta que é essencial distanciar o indivíduo da estrutura estatal a que lhe é associada.

“Colocar o foco no artista é um erro, especialmente em países como a Rússia, no qual a liberdade de expressão tem consequências” (Brufau, 2022).

Em Portugal, ainda nada aconteceu neste sentido, embora haja, naturalmente, intérpretes russos a trabalhar nas formações das grandes casas de espetáculos portuguesas. Ressalve-se que, em Abril, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Casa da Música receberão Grigori Sokolov. O pianista encontra-se atualmente numa digressão por Espanha, a qual também tem envolvido alguma controvérsia, dada a ausência de qualquer declaração categórica da sua parte. Ainda assim, e curiosamente, Sokolov incluiu no seu programa, após a invasão à Ucrânia, como encore, o Prelúdio Op. 23 n.º 10 de Rachmaninov. Para a crítica Teresa Cascudo, este detalhe é bastante significativo: “É especialmente importante para mim recordar que Rachmaninov foi um dos mais famosos exilados do regime estabelecido na Rússia em 1917, do qual o actual presidente da Federação Russa se declara, hoje em dia, por via de facto, herdeiro. Os sinos do Prelúdio […] dobraram, como o resto da obra de Rachmaninov, pelo povo russo”. Será que as duas instituições portuguesas exigirão alguma declaração clara, à semelhança do cenário internacional, arriscando-se a perder concertos, já esgotados, por um dos mais brilhantes pianistas da atualidade, definindo, portanto, a arte pela nacionalidade do seu intérprete, ou preferirão definir o intérprete pela sua arte, à semelhança dos nossos parceiros ibéricos?

 


(1) “To remain silent today is to betray our conscience and our values, and ultimately what defines the nobility of human nature” (Bychkov, 2022).

(2) “La línea roja de Quincena para vetar a un músico es que defienda una agresión, no por su nacionalidade” (Alfaya, 2022).

(3) “Posar el focus en l’artista és un error sobretot en països com Rússia, on la llibertat d’expressió té conseqüències” (Brufau, 2022).

(4) “ganó para mí una especial relevancia recordar que Rachmaninov fue uno de los más célebres exiliados del régimen instaurado en Rusia en 1917, del que el actual presidente de la Federación Rusa se declara, actualmente por vías de facto, heredero. Las campanas del Preludio […] doblaron, como en el resto de la obra de Rachmaninov, por el pueblo ruso” (Cascudo, 2022).

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