No próximo dia 11 de Maio irá a leilão, pela segunda vez na sua história recente, um dos mais importantes cravos portugueses sobreviventes do nosso século XVIII, seguramente o mais conhecido em todo o mundo: o instrumento construído em Lisboa, em 1785, por Joaquim José Antunes (1731–1811), o maior construtor português de cravos e pianofortes de que temos notícia, que trabalhou em Lisboa, no Bairro Alto, na oficina que partilhava com seu irmão Manuel Antunes (1707-1796), e onde manteve actividade registada até ao início do século XIX. Esta actividade encontrou continuação através da construção de pianos desenvolvida por João Baptista Antunes, desaparecido em 1865, neto de Manuel Antunes. A par dos instrumentos construídos por outros mestres seus contemporâneos que mantiveram actividade em Lisboa em meados de Setecentos, como José Calixto, Mathias Bostem ou Henrique van Casteel, os instrumentos da família Antunes são considerados autênticos monumentos da cultura musical portuguesa e cada um deles um documento único, pela extrema raridade em que as difíceis condições da sua preservação os fizeram chegar aos nossos dias, para a reconstituição da sonoridade da Música Portuguesa anterior a 1800.

Seguramente matéria estranha a muitos interessados, este é, não obstante, o ponto que mais importa aqui salientar: da oficina de Manuel e Joaquim José Antunes, activa em Lisboa, por exemplo, no ano do terrível desastre de 1755, se é certo que terão saído, ao longo de décadas de construção do melhor que a manufactura de instrumentos de tecla logrou alcançar em Portugal, dezenas de instrumentos, hoje não conhecemos senão três cravos e um pianoforte (ou um “cravo de martelos”, como era conhecido em Portugal no séc. XVIII). O mais antigo destes cravos, assinado Joachim Jozè Antunes, preserva-se actualmente na colecção instrumental do Museu da Música, em Lisboa, e encontra-se classificado como Tesouro Nacional. O seu valor organológico, patrimonial, cultural, é, a todos os títulos, inestimável e inexplicável.

O último instrumento conhecido que terá com certeza saído da oficina de Antunes está apenas assinado Antunes (sendo, assim, admissível que tenha sido objecto do trabalho de ambos os irmãos, Manuel e Joaquim José) e data de 1789. Todavia, a idade extremamente avançada de Manuel Antunes ao tempo da construção leva-nos a admitir que se deva considerar este instrumento produto do trabalho do irmão mais jovem, Joaquim José, e, assim, o seu opus ultimum conhecido até hoje. Também este instrumento se preserva na colecção do Museu Nacional da Música, aguardando actualmente uma intervenção de restauro.

Um pianoforte construído em 1767 por Manuel Antunes é, por conseguinte, a única obra conhecida deste importante construtor que possamos afirmar com certeza ter sido produzida pelo seu trabalho a título individual. Proveniente de uma colecção privada portuguesa, foi vendida sem que o Estado Português exercesse o direito de preferência e constitui actualmente uma das peças mais importantes do National Music Museum de Vermillion, South Dakota (EUA), caso para sempre infamante para a memória e, caso existisse, a consciência dos responsáveis pelo património cultural português de então, que, a título de inusitada impreparação técnica e de ignorância crassa, inescusável e inadmissível, permitiram a saída de Portugal de uma peça que nunca poderia, em condições normais, ter deixado o País. Não temos notícia também de que algum dos responsáveis pela gestão deste processo tenha, nas décadas entretanto decorridas, sido confrontado com as responsabilidades judiciais que deveriam ter advindo de uma inacção tão gravemente lesiva para o Património Cultural Português.

Destino semelhante teve o cravo assinado Joachim José Antunes, 1785. Instrumento sumptuoso, de cinco oitavas completas (de Sol subgrave a Sol sobreagudo), de decoração elaborada no interior da tampa, com duas pinturas classicizantes, uma das quais de inspiração claramente mitológica representando a deusa Atena, é o mais imponente cravo construído pela oficina Antunes. Vendido pela leiloeira Sotheby’s a 12 de Dezembro de 1985, foi felizmente adquirido, pelo valor tristemente irrisório de £33,000 por um dos mais criteriosos proprietários que poderia ter encontrado, o Dr. Richard Burnett, que o fez restaurar, em 1987, num trabalho confiado aos cuidados de Christopher Nobbs e Andrew Dipper (responsáveis por que o instrumento se mantenha até hoje em perfeitas condições e num diapasão de 415Hz.), e o expôs, juntamente com a sua restante colecção de instrumentos de tecla, no Finchcocks Musical Museum, em Kent. A notícia – pois o processo foi estranhamente sigiloso em Portugal – seria dada ao mundo culto por J. Henry van der Meer apenas em 1988 (“Um cravo português desconhecido em propriedade particular em Inglaterra”, Boletim da Associação Portuguesa de Educação Musical 58 (1988), pp. 17-22).

Não obstante, os (ir)responsáveis que permitiram o impensável – que este instrumento saísse de Portugal em 1985 – não se aperceberam certamente das consequências da sua imprudência e inacção. Para a Cultura Portuguesa, em particular para a Música, são maiores do que é possível contabilizar. Para o instrumento, poderiam certamente ter sido mais nefastas: graças ao patrocínio do Dr. Burnett, tornou-se o mais célebre dos instrumentos portugueses à escala mundial, visitado semanalmente por interessados de todas as partes do mundo, objecto de gravações no instrumento original (entre estas, recordemos as de Robert Wooley com sonatas de Seixas, Christophe Rousset com Scarlatti e Carole Cerasi com obras de Nebra), estudado pelos mais conceituados construtores da actualidade, que produzem a partir dos desenhos originais de Nobbs cópias modernas usadas em concertos e gravações discográficas pelos maiores intérpretes (entre estes construtores contamos facilmente Ugo Casiglia, Michael Cole ou Robert Greenberg, entre os intérpretes os nomes reverenciados de Ottavio Dantone, Emilia Fadini, Enrico Baiano ou Richard Lester); resumidamente, quando se pensa num cravo português, fora de Portugal, o arquétipo é o cravo Antunes da colecção Finchcocks.

Recentemente, surgiu a notícia de que o Dr. Burnett pretendia leiloar a sua importantíssima colecção de instrumentos de tecla. Além do cravo Antunes de 1785, serão vendidos outros instrumentos que não se pode classificar senão como verdadeiros tesouros. Este, todavia, é um tesouro da Cultura Portuguesa, e um tesouro muito raro. O valor estimado, uma vez que o leilão reverterá para fins de caridade, é extremamente reduzido, tendo em conta o que seria um hipotético valor de mercado (se é que é admissível estabelecer um tal valor para objectos que, na verdade, não têm preço), estando admissivelmente ao alcance de qualquer cidadão particular e sendo, portanto, irrisório para qualquer instituição cultural. O lugar deste instrumento é em Portugal e esta poderá ser a última ocasião para reparar o crime de lesa-pátria que os responsáveis pelo Património Cultural que exerciam (melhor, que não exerciam) as suas funções em 1985 cometeram.

Os responsáveis pelos museus competentes da área, pelo Ministério e Secretaria de Estado da Cultura e pela Direcção-Geral do Património Cultural foram – soubemo-lo entretanto – informados há muito por personalidades respeitadas do sector cultural para o processo agora impendente. Aguardamos as notícias da chegada da peça a Portugal, sabendo que falhar pela segunda vez, em condições que de tão favoráveis diríamos irrepetíveis, será sempre um fracasso de muito infausta memória para quem por ele pudesse ser responsável, a menos que, uma vez mais, não houvesse consciência da importância deste processo, o que se nos afiguraria ainda mais grave, sinal iniludível que seria da nefasta inevitabilidade de os destinos da Cultura Portuguesa estarem continuamente confiados a incompetentes.

O leilão terá início às 10h00 de quarta-feira, 11 de Maio, em Donington (Newbury, Berkshire), sendo o cravo Antunes de 1785 o lote 24.

Sobre o autor

José Carlos Araújo

Estudou cravo, órgão e música antiga em Lisboa, exercendo intensa actividade, quer a solo, quer com agrupamentos de música antiga e orquestras. Licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou Filologia Clássica e em cujo Centro de Estudos Clássicos é investigador. Prepara actualmente a primeira tradução portuguesa das Cartas de Plínio. Integra a Direcção da revista 'Glosas'.

Uma resposta

  1. João Chambers

    Infelizmente, uma vez que a música continua (e continuará) a ser o parente pobre da nossa (in)cultura, não houve um movimento igual ao que o quadro de Domingos Sequeira há pouco mereceu!

    Responder

Deixa uma resposta a João Chambers Cancelar resposta

O seu endereço de correio electrónico não será publicado.