No passado dia 2 de Dezembro, o comité da UNESCO reunido em Windhoek, na Namíbia, anunciou os novos elementos a integrar as listas de Património Imaterial da Humanidade. A arte chocalheira da freguesia de Alcáçovas foi um dos cinco novos bens culturais a serem reconhecidos como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.

A arte chocalheira é uma prática milenar de fabrico dos chocalhos que se colocam ao pescoço das ovelhas e das vacas. Os chocalhos são afinados em tons distintos, permitindo ao pastor perceber a localização dos animais quando estes andam a pastar e colorindo os campos com o som dos badalos. O seu fabrico tem particular expressão nos municípios de Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, com destaque para a freguesia de Alcáçovas.

Saber passado de geração em geração, a arte chocalheira está actualmente ameaçada pela indústria e pelo diminuir de mestres chocalheiros que ainda manufacturam os chocalhos. Foi por isso considerada pela UNESCO uma arte em risco e a sua candidatura, coordenada pelo antropólogo Paulo Lima, aceite. Ao receber o título de Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente, as entidades responsáveis pela candidatura comprometem-se a encontrar meios de protecção da arte, garantindo a transmissão do saber-fazer. O projecto apresentado na candidatura prevê, entre outras iniciativas, promover o ensino do ofício, nomeadamente entre os reclusos do Estabelecimento Prisional de Beja, criar um centro de interpretação da pastorícia e da metalurgia tradicional, promover a sua protecção jurídica e fomentar a investigação académica em torno da arte. Para se ficar a saber um pouco mais sobre a arte chocalheira, proponho o visionamento do documentário “Arte chocalheira de Alcáçovas”, de Luís Godinho, em que se explica o processo de manufactura dos chocalhos.

Os outros bens classificados como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente este ano foram: a música tradicional Vallenato, da região de Magdalena Grande, na Colômbia; o ritual de treino dos camelos, da Mongólia, que recorre ao canto e música para ajudar as mães a aceitarem os camelos recém-nascidos; Glasoenchko, canto a duas vozes da região de Dolni Polog, da Macedónia; a tradição oral Koogere, dos povos Basongora, Banyabindi e Batooro, do Uganda. Foram ainda inscritos como Património Cultural Imaterial da Humanidade a peregrinação anual ao mausoléu de Sidi El Hadj Belkacem em Gourara, deserto do Saara (Argélia), os festivais de fogo no solestício de Verão nos Pirinéus e a técnica de pintura decorativa tradicional de Buenos Aires, conhecida como Filete porteño.

Sobre o autor

Mariana Calado

Mariana Calado encontra-se a realizar o Doutoramento em Ciências Musicais Históricas focando o projecto de investigação no estudo de aspectos dos discursos e das sociabilidades que caracterizam a crítica musical da imprensa periódica de Lisboa entre os finais da I República e o estabelecimento do Estado Novo (1919-1945). Terminou o Mestrado em Musicologia na FCSH/NOVA em 2011 com a apresentação da dissertação "Francine Benoît e a cultura musical em Portugal: estudo das críticas e crónicas publicadas entre 1920's e 1950". É membro do SociMus – Grupo de Estudos Avançados em Sociologia da Música, NEGEM – Núcleo de Estudos em Género e Música e do NEMI – Núcleo de Estudos em Música na Imprensa, do CESEM. É bolseira de Doutoramento da FCT.

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