Começa sexta-feira, dia 16 de Fevereiro, a terceira edição do Aveiro_Síntese, festival nacional dedicado à música electroacústica e mista. O programa, que se estende ao longo de mais de uma semana, convida à reflexão sobre o passado e prepara o futuro desta prática musical.

Uma das propostas do festival é celebrar dois dos eixos técnicos e estéticos que organizaram primordialmente a prática da música electracústica: a musique concrète e a música por computador. Tomando os pioneiros Cinq études de bruits de Pierre Schaeffer, compostos em 1948, como exemplo primeiro da música concreta, ou os anos de 1967 e ’68 como os da descoberta das aplicações da modulação de frequência no campo da síntese por John Chowning, constatamos que se assinalam os 70 e os 50 anos, respectivamente, sobre a constituição de uma e de outra corrente.

Cinquenta, setenta anos — estas práticas musicais (contemporâneas por excelência) são ainda concebíveis à escala de uma vida. O reverso desse espanto é a comunidade de prática ter que ver partir aqueles que indubitavelmente foram decisivos na sua fundação. Serão, pois, lembrados dois pioneiros, falecidos no intervalo desde a última edição deste festival bienal: Jean-Claude Risset — compositor, cientista e uma das figuras-chave no campo da síntese, e que esteve presente na edição anterior, antes de falecer ainda no ano de 2016 — e Pierre Henry — um dos pioneiros da musique concrète, falecido no ano passado. O Aveiro_Síntese prestará também homenagem à compositora Clotilde Rosa, cuja derradeira obra, A Lira de Orfeu, é precisamente uma encomenda da Arte no Tempo para este festival.

Serão dois os concertos dedicados ao repertório clássico da musique concrète. A noite de quarta-feira, dia 21, será inteiramente dedicada a alguma da produção mais emblemática dos Pierres, Schaeffer e Henry, ditos pais da música concreta; dia 23, pelas 18h30, será dada carte blanche a Daniel Teruggi, ex-director do Groupe de Recherches Musicales, o estúdio fundado por Pierre Schaeffer para encorajar a criação de música electrónica. Além de música sua e de Pierre Henry, Teruggi dará a ouvir outro nome cimeiro da música electroacústica, ligado ao GRM: Bernard Parmegiani.

A mesma deferência é concedida a John Chowning, que tem sido convidado do Aveiro_Síntese desde a primeira edição. Como Teruggi, Chowning programará um concerto, a decorrer na tarde de 21, cujo programa será composto por música de compositores com vínculos ao Center for Computer Research in Music and Acoustics da Universidade de Stanford, que fundou. Mas mais notável ainda, talvez, será o concerto da noite de 23, onde, após prestar homenagem a Jean-Claude Risset (através da escuta de Sud), dará a ouvir integralmente a sua obra, até à mais recente peça: Voices, para soprano e electrónica (com a participação de sua esposa, Maureen Chowning).

Mas entre 1948 e 1968 far-se-á uma outra paragem, bem a meio do caminho, no ano de 1958. O ano foi um de invulgar importância na história da música contemporânea — uma revolução silenciosa particularmente barulhenta. Para além da Exposição Universal de Bruxelas, onde foram apresentadas obras seminais como Poème électronique de Edgard Varèse ou Concret PH de Iannis Xenakis, é também o ano de algumas das reflexões de Stockhausen sobre a música mista e a música no espaço, ou da chegada à electroacústica de compositores que viriam — com base nestas experiências — a engendrar novos e determinantes caminhos na escrita de música instrumental. É o caso, por exemplo, de Ligeti ou Berio, que compuseram neste ano Artikulation e Thema (Omaggio a Joyce).

Para além desta celebração dos já clássicos desta música nova, o festival serve também de montra pública relativamente ao extraordinário cuidado por parte da Arte no Tempo, associação promotora do festival, na criação de laços significativos com as comunidades com que partilha o meio em que opera e na capacitação das gerações mais novas. Uma série de concertos merecedores de destaque têm como público-alvo ou como intervenientes jovens músicos e ouvintes. É o caso de À Escuta dos sonhos (17 de Fevereiro, 18h30), uma criação comunitária de João Martins partilhada com alunos da Escola Básica 1 de Santiago, ou de Bartolomeu, o voador (25 de Fevereiro, 18h30), teatro musical infantil composto por Jaime Reis em torno do Bartolomeu de Gusmão visto pela lente literária de José Saramago. Uma das mais interessantes ofertas do festival será o concerto Nova Música para Novos Músicos (domingo, dia 18, pelas 18h30), que propõe a alunos com idades compreendidas entre os 6(!) e os 18 anos a estreia absoluta de peças mistas de alguns dos mais notáveis compositores portugueses das últimas gerações — bem como, à laia de mote para todo o concerto, a estreia nacional de uma peça de carácter pedagógico de Jean-Claude Risset. E, para a próxima geração de criadores, a Arte no Tempo recupera a rubrica Música em Criação (dia 18, 21h30), onde faz estrear obras de novíssimos nomes.

O programa é completado por outros recitais e concertos, bem como por oficinas — de difusão, de gravação de campo ou de construção de instrumentos —, uma instalação de Rui Dias e um colóquio, onde alguns dos participantes falarão na primeira pessoa. O concerto inaugural, na noite de 16 de Fevereiro, estará a cabo do clarinetista Horácio Ferreira, cujo recital, o primeiro onde o vencedor do Prémio Jovens Músicos se debruça sobre a música mista, se concentrará na música de Jean-Claude Risset e de Carlos Caires. O Aveiro_Síntese é uma iniciativa da Arte no Tempo — uma associação cultural e sem fins lucrativos, sediada em Aveiro, cujo objectivo é a promoção da arte musical contemporânea — e conta com o apoio da Direcção-Geral das Artes e da Câmara Municipal de Aveiro.

Aveiro_Síntese

16 a 25 de Fevereiro | 18h30 / 21h30

Teatro Aveirense

3€ / concerto


Mais informações disponíveis no site oficial do festival.

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