No passado dia 19 do presente mês, pelas 17 horas, pudemos assistir à estreia, em Lisboa, do Concerto para violoncelo e orquestra de Luís Tinoco (1969-), num espectáculo de música orquestral inserido na temporada sinfónica do Teatro Nacional de São Carlos. A Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção de Pedro Neves, executou também a abertura da ópera cómica L’Hôtellerie portugaise, de Luigi Cherubini, e a 3.ª Sinfonia (Escocesa) de Felix Mendelssohn, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB). A obra de Tinoco fora apresentada, em estreia mundial, no dia anterior, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, tendo sido encomendada pelo OPART e pelo Teatro Nacional de São Carlos para a precisa temporada em que Luís Tinoco é aí compositor residente. Esta obra constitui, segundo Bernardo Mariano (Diário de Notícias), o primeiro concerto para violoncelo de compositor português após o composto por Joly Braga Santos (1924-88), com estreia em 1987, inserindo-se entre as poucas criações de Luís Tinoco para instrumento solista e orquestra. Tinoco tem-nos mostrado essencialmente a relevância da dimensão visual nos seus espectáculos, maioritariamente a partir da criação de música de cena e obras vocais, ocupando o Concerto uma posição de certo modo única na sua produção.

Ainda que consideremos que a escolha das obras apresentadas em conjunto com a obra de Tinoco fora um pouco arbitrária, ou, pelo menos, não explicada, parecendo o evento, por esse motivo, carecer de um fio condutor, assistimos sem dúvida a um concerto bem conseguido nas três obras executadas, sendo visível o óbvio empenho do maestro, da orquestra e do solista, Filipe Quaresma, amigo próximo do compositor e violoncelista dedicatário da obra. No entanto, o evento aparenta, sob um certo ponto de vista, ter falhado pela inegável falta de público, que nem pela distribuição e dispersão pela plateia, balcão e camarotes do Grande Auditório dava a ilusão de nos encontrarmos numa sala “composta”. É altamente provável que uma sala meio-vazia se tenha devido à ineficiência na divulgação ou à falta de incentivos dentro do meio musical, musicológico e académico nacional – que, embora restrito, aparenta procurar estar actualizado e informado – à presença nesta estreia, manifestando desta vez uma possível indiferença face ao concerto em causa. Na cidade onde o próprio compositor se licenciou (pela Escola Superior de Música de Lisboa) e onde se localizam inúmeras escolas e universidades que providenciam hipóteses de especialização nas mais variadas áreas musicais e musicológicas, reunindo uma grande comunidade de possíveis interessados nos mais recentes eventos da vida musical nacional, parece-nos bizarro que a informação acerca da estreia de uma nova obra de um compositor português contemporâneo, não tenha circulado de forma insistente, nomeadamente em meios onde à partida eventos como estes seriam considerados centrais, tendo a divulgação principal sido feita pela imprensa escrita, onde se pode ler, em muitas notícias, exactamente as mesmas – e poucas – palavras.

No entanto, é inegável o interesse geral da obra de Luís Tinoco, e principalmente da execução de Filipe Quaresma, que soube evidenciar claramente uma escrita em que, a nosso ver, o trabalho em torno da exploração de timbres é fundamental e um dos principais interesses do próprio compositor. Este último salienta, ao longo dos três andamentos do Concerto, os diálogos entre instrumentos e naipes, resultando daqui cumplicidades audíveis entre violoncelo solista e tutti, ou entre o solista e instrumentos como o piano, também incluído nesta obra, a harpa ou as percussões (em relação às quais podemos também destacar a originalidade da inserção na orquestra de instrumentos não ocidentais). Aplaudido entusiasticamente pelo (pouco) público que se encontrava na sala, Filipe Quaresma, instrumentista que, de acordo com as notas de programa ao concerto, “já tocou nas principais salas portuguesas e europeias (…), trabalhando com os mais prestigiados músicos portugueses e estrangeiros da actualidade”, conseguiu conferir ao violoncelo imaginado por Luís Tinoco timbres por vezes inesperados, causando ilusões auditivas curiosas de que estávamos perante um, ou vários, instrumentos de sopro nas partes solistas do Concerto.

De igual modo muito bem recebido pelo público, Luís Tinoco assistiu à estreia do seu Concerto, de acordo com Bruno Caseirão, uma “obra de maturidade”, que transmite “um lirismo e nostalgia na escrita do instrumento solista, a par com uma enorme exigência”, exigência essa, como já referido, plenamente transmitida e bem ultrapassada por Filipe Quaresma, em mais um concerto em que tanto maestro como orquestra demonstram como prioridade a divulgação e execução de obras de compositores nacionais – ainda que, desta vez, para um número modesto de espectadores.

Sobre o autor

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Isabel Pina é doutoranda e bolseira de doutoramento em Ciências Musicais Históricas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, interessando-se principalmente pelo estudo da história da música em Portugal nos séculos XIX e XX, música e ideologia, nacionalismo, análise e semiótica musical, e imprensa e crítica musical. Concluiu o mestrado em Ciências Musicais tendo apresentado a dissertação “Neoclassicismo, nacionalismo e latinidade em Luís de Freitas Branco, entre as décadas de 1910 e 1930”. É actualmente voluntária na Biblioteca Nacional de Portugal, tendo estagiado no Museu da Música. Enquanto colaboradora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM), é membro do Grupo de Teoria Crítica e Comunicação, do SociMus (Grupo de Estudos Avançados em Sociologia da Música), e co-fundadora do Núcleo de Estudos em Música da Imprensa.