Amílcar Vasques-Dias
compositor-pianista

Tenho muito gosto em reconhecer e felicitar uma fantástica equipa de gente sonhadora, empreendedora, criativa e competente! A enorme tarefa realizada ao longo destes longos dez anos na divulgação da música clássica e de seus autores está bem patente na qualidade e quantidade de edições de variadíssimas obras em partituras e em CDs! Também a cuidadosa programação e realização de inesquecíveis concertos por distintos intérpretes constituíu uma iniciativa de estimado alcance artístico e pedagógico. Porventura a cereja no topo do empreendimento MPMP será, a meu ver, a edição da revista Glosas que, elegante e profissionalmente, recolheu, registou e divulgou o passado e o presente enquanto alicerce-promessa-casa-cultura em que vivemos, na esperança de um futuro melhor! Parabéns!

 

Eduardo Luís Patriarca
compositor

Quando em penso em glosas, as minhas primeiras lembranças, além das estudantis sobre a poesia camoniana, assentam em Fernando Lopes-Graça e suas Glosas (sobre temas populares portugueses) e nas Glosas I a IV de Jorge Peixinho. Fizeram, durante longo tempo, parte do meu imaginário musical, e permitiram-me, como compositor, associar o conceito algumas vezes.

Nos últimos anos, outras glosas vieram enquadrar este panorama e ganhar a mesma consistência de importância musical, alargando-se ainda à estruturação académica. A revista Glosas, editada pelo MPMP, atingiu um patamar que carecia de estabilização há muitos anos, sendo a única que venceu o tempo e se conseguiu manter e estruturar, ultrapassando as diversas tentativas criadas ao longo dos anos, que gradualmente desapareceram, e foram deixando o espaço de apresentação crítica e informativa em branco, retirando uns dos aspectos fundamentais para a discussão e divulgação científica da música em Portugal.

Na persistência de um trabalho cuidadoso, envolto dum processo editorial criterioso e sustentado em comissões científicas e não meramente editoriais, a Glosas preencheu o vazio ao qual nos íamos habituando, e permitiu que vários artigos, críticas, pensamentos e investigações obtivessem lugar para a sua discussão e transmissão.

No alargamento da sua actividade, e como sua consequência directa, surgem as edições das partituras do MPMP, cuidadas, preciosas no estabelecimento de uma literatura musical bastas vezes esquecida, e capazes de uma divulgação, partilhada com a revista, das obras a que se propõem editar. Entende-se a selecção conjunta de edições discográficas e de partituras, em blocos de tempo específicas, num sistema de temporada editorial, como um saber fazer, bem, dos critérios a que se propuseram.

Tenho o prazer de ter o MPMP como editora, sabendo assim a atenção dada à edição e ao seu funcionamento. Espero que daqui a dez anos possamos voltar a escrever sobre Glosas e manter a mesma relação, gosto e agradecimento pelo trabalho realizado.

 

Eduardo Fragoso Soares
Presidente da Associação António Fragoso

Foi há dez anos que nos conhecemos… Decorria o ano de 2009 e pensei que devia conjugar esforços com o recém-criado MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Com um simples telefonema tive a alegria de combinar encontro com o Edward Luiz Ayres d’Abreu, o Presidente dessa nova associação. Foi uma longa tarde em que falámos dos nossos sonhos, dos nossos concertos, discos, conferências e também de António Fragoso. Logo encontrámos as pontes existentes que uniam as nossas associações. E, com o evoluir dos tempos, os nossos sonhos começaram a concretizar-se, chegando ao ponto em que os mesmos artistas eram comuns nos projectos musicais de ambas as associações. Mas a vontade expressa, quer pelo Edward, quer por mim, de fazermos projetos em comum foi sendo adiada porque cada associação seguiu, naturalmente, o seu caminho. Até que nos encontrámos novamente num almoço, num restaurante junto a Santa Apolónia, onde estava também o Martim Sousa Tavares. E puxando, enquanto comíamos, pelo relato do que se começava a estruturar, as Comemorações do Centenário da Morte de António Fragoso, convidei o Edward para nos orquestrar a Petite Suite. A aceitação foi imediata. Ficaram para os dias seguintes o orçamento e o timing dessa orquestração, que eu desejava estrear no concerto inaugural.

Aquele almoço, numa tasca de Santa Apolónia, tudo mudou nas nossas relações pessoais e profissionais. Na verdade, a partir desse dia aconteceram vários episódios que estreitaram a nossa relação pessoal e profissional. O Edward convidou-me para ir assistir a um concerto do MPMP na Igreja de São Roque e eu aproveitei essa oportunidade para conhecer todos os seus mais importantes colegas na MPMP, como o Duarte Pereira Martins, o Phillipe Marques, o Luís Salgueiro e o Jan Wierzba… todos fazendo uma equipa unida que lutava por engrandecer a Cultura Portuguesa. Soube, tempos depois, que o Martim Sousa Tavares se tinha alinhado com tal equipa. E os pontos comuns continuavam a acontecer. Uns meses depois, em 5 e 6 de Janeiro de 2018, contratámos o Ensemble MPMP para dois concertos: o de dia 5 teve lugar na Igreja Matriz de Cantanhede e o de dia 6 na Antiga Igreja do Convento de São Francisco, ambos sob a direcção de Sousa Tavares. António Fragoso teve como companheiros os seus “amigos” Edvard Grieg (relembremos que foi A morte de Ase de Grieg a última peça pianística que Fragoso tocou antes de se ir deitar, falecendo no dia seguinte!!), Maurice Ravel e Claude Debussy. Eram todos admirados por António Fragoso, que iria para Paris (Schola Cantorum) estudar Composição oito dias depois da sua morte. Foram dois concertos sublimes, tal a magia do trio composto pela orquestra, pelo programa e, claro, pela música de António Fragoso.

As dúvidas que me roíam a alma dissiparam-se e no fim dos concertos tratei de acordar com o Edward e o Jan Wierzba que o Ensemble MPMP, na sua versão sinfónica, faria o Concerto de Encerramento das Comemorações, dirigido pelo enorme maestro Pedro Neves. Seleccionámos vários comentários sobre este memorável concerto e só lamentamos que as solistas não tivessem a coragem de o deixar transmitir na Antena 2, que o gravou integralmente, sendo também sido gravado em vídeo pela TV UC.  Era nossa intenção fazer um vídeo deste fantástico concerto, mas… mas as ideias comuns permitiram que estas duas associações fossem “caminhando” cada vez mais em uníssono: assinámos um protocolo de parceria que vai ter como primeira realização a gravação para a editora NAXOS da integral para orquestra de António Fragoso. Partimos há dez anos só com uma peça orquestral dele, e agora teremos que gravar um CD duplo. Deve-se agradecimento ao Edward Luiz Ayres d’Abreu, ao Rui Paulo Teixeira, ao Sérgio Azevedo, ao Vasco Mendonça e ao Martim Sousa Tavares o terem aceite um repto: orquestrar Fragoso partindo das suas belas peças para piano. Todos o fizeram e muito bem.

 

Daniel Cunha
pianista, professor e investigador

Antes de mais, queria dar os parabéns à revista Glosas pelo seu 10.º aniversário! A associação MPMP, que também partilha este aniversário, é uma das associações musicais mais dinâmicas que surgiram em Portugal nos últimos anos, tendo razões para estar orgulhosa de ter lançado, há dez anos atrás, este ambicioso projecto editorial. A revista Glosas veio colmatar uma lacuna que existia no mundo musical português. Aliás, o seu espectro musical é extensivo à lusofonia, visto que é uma revista que se dedica à música clássica não só de Portugal, mas também à dos países de língua portuguesa.

O perfil editorial da revista Glosas destaca-se pela variedade de oferta para o leitor, visto que inclui artigos de cariz científica, entrevistas mais informais (mas elaboradas com todo o rigor e interesse) a músicos e compositores da actualidade, críticas de discos, etc., procurando oferecer um panorama do que se faz musicalmente em Portugal e nos países da lusofonia. Além disso, a revista tem uma relação privilegiada tanto com o Museu Nacional da Música, como com a área de música da Biblioteca Nacional de Portugal, podendo o leitor ficar ao corrente dos importantes espólios e arquivos que estas duas instituições possuem.

A revista tem por hábito dar destaque especial, em cada número, a um determinado compositor da lusofonia, contemporâneo ou de séculos anteriores. Neste prisma, a revista tem incidido luz sobre a vida de múltiplos compositores, tanto do presente como do passado, e sobre reportório pouco divulgado, prática que tem grande mérito.

A minha experiência pessoal relacionada com a revista Glosas remonta ao ano de 2017. Nesse ano, assinalou-se o centenário da morte do compositor e pianista do romantismo português Alfredo Napoleão (1852-1917). Já há algum tempo que a vida e a obra deste compositor português pouco conhecido era um dos meus principais objectos de investigação. Já tinha recolhido uma série de obras para piano solo, tendo estudado algumas delas, chegando à conclusão de que a sua obra estava esquecida injustamente e que merecia ser mais tocada e divulgada.

Consequentemente, decidi planear, para 2017, uma série de concertos em que incluí várias obras para piano solo de Alfredo Napoleão, aproveitando a ocasião da efeméride para a divulgação deste compositor e das suas obras. Os concertos levaram-me a Manchester (Reino Unido), mas também a vários festivais e salas de concerto em Portugal, como o Festival Internacional de Música Estoril-Lisboa, os Festivais de Outono da Universidade de Aveiro e a Casa da Música, no Porto.

Foi justamente em 2017 que o MPMP e a revista Glosas me convidaram para elaborar um artigo, a sair no número 16 da revista, em Maio, sobre Alfredo Napoleão, incluído na rubrica “Compositores a descobrir”. Obviamente, este convite não surgiu do acaso, pois já existia um grande entusiasmo e interesse dos membros do MPMP, nomeadamente do Duarte Pereira Martins e do Edward Ayres de Abreu, pela figura do compositor Alfredo Napoleão. Aliás, existia um desejo, que partilhávamos, de retirar este compositor do esquecimento. Devo acrescentar que não era a primeira vez que era publicado um artigo na revista sobre Alfredo Napoleão. O historiador Gonçalves Guimarães, que tem sido também incansável na divulgação dos irmãos compositores Napoleão, tinha publicado, no número 13 da revista, em Novembro de 2015, o artigo “Os quatro Napoleão”, escrevendo sobre o pai Alexandre Napoleão e sobre os seus filhos, os três irmãos músicos e pianistas, incluindo Alfredo Napoleão.

A publicação do meu artigo sobre Alfredo Napoleão teve a dupla intenção de, por um lado, acrescentar algo à efeméride do centenário da sua morte, em 2017, e, por outro, ser o reflexo de um estudo mais aprofundado sobre a sua vida e obra. É claro que aceitei o desafio proposto com bom grado. A figura de Alfredo Napoleão que, apesar de português, viveu no Brasil grande parte da sua vida, alcançando por lá um grande sucesso, encaixou muito bem no perfil editorial da revista.

A elaboração do artigo sobre a vida e a obra de Alfredo Napoleão foi crucial para o alargamento do meu conhecimento sobre o compositor e sobre a sua obra. Para além disso, a investigação exigida para a sua preparação foi essencial para a descoberta de novas obras deste compositor, que encontrei escondidas em bibliotecas e em arquivos espalhados pelo mundo. Estas descobertas importantes viriam a cimentar ainda mais o meu desejo de realizar o projecto de gravação de um disco com obras para piano solo de Alfredo Napoleão. Este projecto de gravação viria a realizar-se em 2018, tendo sido editado pela editora alemã Decurio, com o título de Solitude – Piano Works by Alfredo Napoleão. O disco teve o seu lançamento mundial em Novembro desse ano, em Paris, na Maison de Portugal. Posteriormente, os concertos de lançamento do disco em Portugal realizaram-se no Museu Nacional da Música (Lisboa) e no Salão Árabe do Palácio da Bolsa (Porto). Felizmente, o disco e a música de Alfredo Napoleão têm tido uma adesão bastante positiva e entusiasta por parte do público português e estrangeiro.

A Revista Glosas e o MPMP, pela sua abertura e missão de divulgação da música portuguesa, foram essenciais na divulgação do nome de Alfredo Napoleão.

Espero, sinceramente, que daqui a dez anos estejamos a celebrar os vinte anos de actividade da associação MPMP e da revista Glosas, que tanto têm dado à música clássica portuguesa. Espero continuar a colaborar com a associação e com a revista em futuros projectos, o que muito me honraria.

 

Jenny Silvestre
cravista e presidente da Academia Portuguesa de Artes Musicais

As palavras que escrevo em resposta ao honroso convite do MPMP para me associar à celebração dos dez anos da revista Glosas são delineadas no âmbito do contexto absolutamente extraordinário em que vivemos presentemente. Habituámo-nos a visitar ciclicamente momentos históricos de pandemia, como as famosas “peste negra” ou “gripe espanhola”, encarando-as como capítulos longínquos e, no entanto, desta vez, somos os protagonistas de uma página da história totalmente nova, que ultrapassa em muito as fronteiras predominantemente europeias das anteriores e que, no imediato, interrompeu abruptamente uma fase ascendente da produção cultural, abrindo as portas ao desconhecido.

Dez anos da Glosas, uma década inteira que mais parece uma peça escrita em forma de arco…  Há dez anos lutávamos para sair da crise mundial lançada pelo crash de 2008-2009. Durante esta última década fomos obrigados a reinventar-nos, de forma a apresentarmos as práticas musicais como um “activo”, termo este importado da linguagem económica, totalmente desconhecido de muitos de nós e que passou a ser vulgarmente utilizado em conjunto com outros, como “indústria criativa” ou “economia da experiência”. De repente, fomos confrontados com a necessidade de desenvolver elos de ligação com sectores de actividade incomuns para nós, integrando os chamados clusters (um outro termo novo no contexto cultural de então).

Da nossa parte, reagindo a esses novos ventos e desafios, assumimos, em 2014, um posicionamento totalmente novo na época, ao convidar para a sessão de abertura do nosso congresso internacional de musicologia histórica de âmbito ibero-americano, dedicado à música praticada durante a segunda metade do século XVIII, o professor Augusto Mateus, responsável pelo desenvolvimento em Portugal do conceito de “indústria criativa” e de “economia da experiência” aplicada à cultura, trazendo, assim, à colação esta nova perspectiva de matriz económico. Apesar da estupefacção de alguns investigadores mais ortodoxos, assumíamos, desta forma, a abertura das portas para novos caminhos, onde as fronteiras entre áreas de conhecimento anteriormente blindadas, se esbatiam cada vez mais, aumentando definitivamente a abrangência do conceito de “parceria”. “Parceria” assumiu-se, de resto, como o motor de desenvolvimento da cultura da década, um período de grandes transversalidades, elevando-se exponencialmente o patamar da criatividade e originalidade dos seus protagonistas. À medida que os artistas das diferentes áreas culturais se iam familiarizando com um contacto cada vez mais pró-activo com outros domínios, as inibições desapareciam, dando lugar à explosão da criatividade. De repente, parecia que estávamos a replicar de alguma forma o espírito experimentalista do início do século XX, mas, agora, de uma forma globalizada. Fomos assistindo ao desenvolvimento de projectos que conjugam música com agricultura, engenharia, moda, arquitectura, etc., coadjuvados pelas potencialidades que as novas tecnologias têm para oferecer. Daí a vulgarização nas artes do termo “economia da experiência”, directamente importado do léxico associado ao turismo.

A par desta tendência, fomos assistindo ao caminho que jovens, como os que constituem o MPMP e outros, foram fazendo na procura da partilha do nosso património musical que, talvez por efeito do aumento exponencial do turismo em Portugal, um Portugal que nos habituámos entretanto a sentir como um país in, ou “na moda”, é cada vez mais visto como uma fonte de orgulho e não de preconceito. Esta realidade constitui a prova da capacidade de renovação que os nossos musicólogos séniores têm imprimido à investigação musicológica, garantindo a sua continuidade. O fantasma de uma globalização que, no inicio deste milénio, parecia poder absorver a nossa identidade, acabou, assim, por alavancar a assunção das virtudes do que é nosso. Muito há a fazer, como sabemos, mas, pelo menos, já não rotulamos como “provinciano” ou “pobre” a nossa herança musical com o mesmo imediatismo de outros tempos.

Certamente que nem tudo o que subsiste nos inúmeros arquivos e espólios por explorar tem qualidade, como acontece em qualquer outro país, mas vale a pena continuar a trabalhar no sentido de trazer à luz do dia o maior número de fontes e, mais do que tudo, fazê-las executar pelos nossos músicos.

Esta foi também a década em que o trabalho de aproximação dos jovens à execução prática da música começou a dar os seus frutos. Hoje, como nunca, exportamos músicos para algumas das mais prestigiadas orquestras mundiais. Hoje, como nunca, atingimos um inquestionável nível de excelência na prática instrumental, visível, desde logo, nas orquestras de jovens estudantes, cada vez em maior número e de maior qualidade… Ainda me lembro da existência quase exclusiva da Orquestra Sinfónica Juvenil; ainda me lembro da inexistência de uma orquestra de qualidade na própria Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudei. É claro que esta realidade levanta novos problemas: de que forma poderá o mercado de trabalho profissional assimilar tantos músicos de calibre? Este constituirá certamente um problema a resolver na década que agora começa, agravado, obviamente, pela incerteza que a actual pandemia nos impõe.

A pandemia, o estado de emergência, a quarentena…Fechamos o arco da década da revista Glosas como a começámos: com a incerteza de tempos totalmente imprevisíveis, pelo ineditismo e gravidade dos seus contornos. Acreditamos, no entanto, que os obstáculos que agora enfrentamos acicatarão ainda mais a nossa capacidade de nos recriarmos. De todos os que referimos, há um termo que julgamos encerrar em si mesmo as qualidades necessárias para se tornar no pilar dos tempos futuros: “parceria”.

Muito embora as novas tecnologias se assumam como a ferramenta da solução instantânea nestes dias extraordinários, pela inegável possibilidade que facultam de podermos comunicar, na segurança das nossas casas, em tempo real, com qualquer outra pessoa, em qualquer parte do mundo, acreditamos que a arte e, no nosso caso particular, a música, constituirá a porta de saída para a manutenção das relações humanas presenciais, âncora da natureza gregária e afectiva do Homem.

O futuro terá de passar necessariamente pelo equilíbrio entre esta dualidade. O futuro terá de passar também, porque não poderíamos deixar de o referir, por um maior empenhamento das tutelas no desenvolvimento de uma cultura que privilegie, de uma vez por todas, o que é nosso, sem populismos, sem efeitos especiais, aproveitando esta crise como uma grande oportunidade para resolver alguns dos problemas estruturais que assolam o nosso meio há décadas.

Esperamos poder celebrar a segunda década da revista Glosas, a da maioridade, sem a constatação de mais uma forma em arco. Bem-haja.

 

Jocy de Oliveira
compositora

Enquanto, no Brasil, atravessamos uma era de obscurantismo e de desmonte cultural, miramos como exemplo o florescimento artístico, social e político de Portugal, desejando que nosso destino em breve reencontre seu rumo pelo respeito ao meio ambiente, à educação, à cultura e aos direitos humanos. Espero que meu texto seja oportuno em dias que marcam a comemoração do 10.º aniversário da revista Glosas, que mantém uma posição de guardiã da cultura musical em Portugal.

Em 2015, lembro-me bem que meu livro Diálogo com cartas (Prêmio de Literatura Jabuti) foi muito bem recebido pela revista Glosas. Após o gigantesco trabalho daquele livro, compilando e comentando mais de cem cartas escritas para mim pelos mais proeminentes compositores do século XX, como Stravinski, Messiaen, Berio, Cage, Stockhausen, entre outros, atualmente me lanço em um ato de resistência cultural tomando o árduo caminho de conceber e produzir uma ópera cinemática em filme de longa metragem, Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescu, e seu roteiro em forma de livro de arte, Além do Roteiro. Li recentemente uma estatística comprovando que 70% dos cineastas fazem apenas um filme de longa metragem durante a sua vida! Embora tenha feito inúmeros vídeos, estreei este ano meu primeiro filme. Isso me daria o direito de escrever sobre cinema?

Nasci na música, e, como compositora , me incomoda observar que há muita gente no Brasil escrevendo sobre música sem o mínimo conhecimento da matéria. Mas música, nesse país, se tornou um terreno sem dono! E o cinema tem uma forte mídia e corporativismo em seu favor, mas também está sofrendo um abalo sísmico de desmonte, caminhando para censura prévia de gênero e de contexto. Na música, os símbolos musicais são abstratos e indecifráveis para os leigos, e assim é mais difícil censurar. Refiro-me à música erudita e não à popular, que pode ser cantarolada por qualquer um. Mas, mesmo assim, durante o nazismo, a obra de arte (ou música) que não exaltasse o nacionalismo nazista era dizimada! Na União Soviética, linguagens musicais também foram suprimidas e Chostakovich teve que se submeter a escrever música ultra-nacionalista. Somente depois da derrubada do regime soviético foram descobertas suas inúmeras e geniais obras escondidas. Mas havia uma diferença: apesar de tirano, Stalin ia assistir a uma ópera de Chostakovich… e no Brasil nunca se ouviu dizer que um presidente se tenha dado a esse trabalho ou tenha mostrado esse interesse!

Voltando ao cinema, porque não existe no nosso país espaço para o filme de arte, música-vídeo, filme experimental? Afinal, como a música, o cinema pode ser de arte ou de entretenimento. Mas o Brasil teria como meta um público pensante? O Brasil teria como meta a educação? A cultura?

O jornalista e escritor Romeno Matei Vişniec afirma que os “arquitetos do nosso futuro são banqueiros, militares, publicitários e políticos, enquanto escritores, filósofos, poetas, artistas e professores são excluídos da mesa em torno da qual poderosos decidem os rumos da humanidade”. Assim como o atual programa econômico brasileiro que tem como centro o mercado em lugar do ser humano, o cinema também é regido pelo mercado… O cinema-arte poderia suprir esta fatia da contrapartida social que não é regida pelo lucro. Fugindo dos shoppings, seria um forte veículo cultural de enorme alcance para o público de baixa renda. Um tipo de arte didática, sutil maneira de sensibilizar, estimular a percepção, aguçar o senso estético, a imaginação. Mas esse tipo de cinema obviamente precisaria de apoio do poder público (como em países europeus, Canadá e mesmo alguns países em desenvolvimento). No Brasil isso parece utopia!

Meu filme de longa metragem lançado em 2019-2020, Liquid Voices, foi concebido especificamente para o cinema e escolhido (categoria música-vídeo) para a Seleção Oficial de seis festivais europeus, sendo premiado no London International Film Festival, Nice International Film Festival, Madrid International Film Festival, Polish International Film Festival (Varsóvia), New Nazareth, Israel. Aqui no Brasil não poderia ser incluído em festivais de cinema pois não existem categorias apropriadas, apenas ficção ou documentário! Somente em Abril será estreado em cinemas de arte como o Espaço Itaú de Cinema no Rio de Janeiro, em São Paulo e, posteriormente, em outras capitais.

Mas onde ficam o fomento para pesquisa, inovação, reformulação de formatos convencionais, a busca por outros caminhos? Esse desinteresse do poder público brasileiro está acontecendo em todas as áreas da cultura e até mesmo esmagando a pesquisa científica. Que futuro esperamos para as próximas gerações? Destruindo a cultura, que país estamos construindo? Um povo sem arte é um povo sem identidade, amorfo, fadado a não subsistir. E na opacidade desses dias escuros em que mergulhamos, resta o pensamento de Fernando Pessoa: “De eterno e belo há apenas o sonho”…

 

João Pedro Silva
saxofonista

A fraca relação entre teoria e prática no contexto musical, o abandono do elemento interpretativo da ribalta dos estudos musicais, é um facto em grande parte dos estudos musicológicos do passado. O livro do autor Wallace Berry, Musical Structure and Performance (New Haven, 1989), parece ser uma das primeiras tentativas de verdadeiramente incorporar a prática musical no campo de investigação da teoria musical, não obstante grandes nomes do meio musical já o defenderem antes, como o consagrado pianista canadiano Glenn Gould, que marcou a história da música pela sua particular abordagem à interpretação, em particular pelas soluções que normalmente advinham da sua leitura de obras consagradas do repertório para piano; segundo o próprio, “the ideal way to go about making a performance…is to assume that when you begin, you don’t quite know what is about. You only come to know as you proceed”. Felizmente, a história recente da musicologia ocidental, nas mãos de musicólogos como Nicholas Cook, mostra que os caminhos agora trilhados apontam para uma convergência e unificação de conceitos, onde a orgânica musical parece ser a base do centro de estudo, onde nenhum elemento parece ficar de fora e todos são usados como parte integral de um todo.

Constatar que um grupo de jovens portugueses (muito jovens) tinham já esta consciência, esta visão, e que a materializaram num dos projectos recentes mais consistentes e dignificantes da música portuguesa é, no mínimo, notório. O MPMP e todos os seus projectos, nomeadamente a revista Glosas, assume, a meu ver, um ponto de viragem no trabalho musicológico português, não por serem os primeiros (naturalmente) mas pelo conceito orgânico no tratamento da música portuguesa, e pelo despertar de consciências que, inevitavelmente, um projecto deste âmbito, assumido por jovens músicos, trouxe a uma camada jovem que normalmente se situava mais distante destes assuntos.

Foi com enorme prazer e honra que colaborei quatro vezes com o MPMP, duas delas no âmbito da revista Glosas e outras duas em projectos artísticos. Foi na terceira edição da Glosas (2012) que foi publicado um artigo de autoria de Duarte Pereira Martins sobre o meu primeiro disco a solo, TIBI, assente sobre nova música portuguesa para saxofone. Mais tarde, na quinta edição (2014) era publicado um artigo sobre o livro O saxofone pedagógico, o primeiro manual português para a aprendizagem do saxofone, em que partilho a autoria com Lino Guerreiro. Mais recentemente, em 2019, fui convidado pelo MPMP a integrar o ciclo Proximidades, apresentando um programa para saxofone solo, maioritariamente de compositores portugueses como Felipe Pires, Lino Guerreiro, Jorge Salgueiro e a talentosa e jovem compositora Mariana Vieira, que escreveu uma obra (Música para uma fábrica) encomendada pelo MPMP. Esta última obra, juntamente com Figurações IV, de Felipe Pires, foram já gravadas, novamente comigo no saxofone, e serão editadas em breve pelo MPMP. Por fim, a parceria com FISP, Festival Internacional de Saxofone de Palmela, do qual sou director artístico, onde o Ensemble MPMP se apresentou em Julho passado, na Igreja do Castelo de Palmela, para acompanhar alguns dos mais prestigiados nomes do saxofone internacional como Vincent David, Mario Marzi ou os Apollo Saxophone Quartet, onde se estreou a obra do compositor Alexandre Almeida A eternidade de um coração, com Ricardo Pires como saxofone solista.

Finalizo com o meu agradecimento e reconhecimento, na esperança de que este modelo plural e aberto (que podemos inserir numa nova e mais abrangente perspectiva do conceito de performance musical) possa (continuar a) assumir a base do desenvolvimento artístico do MPMP. Citando Nicholas Cook, “Performativity, in short, is the foundation of pluralism”.

 

José Sá Machado
violinista e membro do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa

A propósito do décimo aniversário da revista Glosas e na sequência do convite que o Edward Ayres de Abreu muito amavelmente me endereçou, e que agradeço, venho com todo o gosto deixar o meu depoimento. Dez anos sem parar, a realizar um trabalho da qualidade a que revista nos habituou, no nosso país, é só por si um feito de grande importância. Este facto deixa um marco na nossa história da música recente. Bem sabemos das dificuldades que implica um iniciativa desta especificidade e, por consequência, temos de valorizar a forma notável como têm sido superadas.

Particularmente, o meu reconhecimento e gratidão tem múltiplas incidências: desde logo como músico atento; como filho reconhecido pelo carinho e competência com que dedicaram uma edição à minha mãe, a compositora e harpista Clotilde Rosa; por terem dedicado um número a Constança Capdville, grande amiga e compositora, muito ligada ao GMCL, de quem fui aluno; igualmente por terem dedicado parte de uma revista ao compositor e guitarrista José Lopes e Silva, grande amigo, elemento fundamental do GMCL e figura marcante; por se terem dedicado a outras personalidades que, não estando tão próximas pessoalmente, povoaram o nosso cenário musical e muito enriqueceram a nossa vida colectiva.

Faço votos, para que continuem por muitas e boas décadas a enriquecer, informando e formando, várias gerações, não só de profissionais da música como de toda uma comunidade de melómanos e outros cidadãos atentos ao fenómeno musical. Muito obrigado, Glosas!

 

Lino Guerreiro
compositor

Na quinta edição da revista Glosas, de Janeiro de 2014, foi publicado um artigo sobre O saxofone pedagógico o primeiro manual português direccionado para o ensino e aprendizagem do saxofone, método que elaborei em coautoria com o saxofonista João Pedro Silva, concebido na nossa língua materna e posteriormente traduzido para mais duas línguas, inglês e francês. Esta sua característica, já a apontar para uma perspectiva de diversidade, pluralidade, também se pode encontrar ao longo do método. Essa “consciência da diversidade”, apontada como um dos aspectos-chave do método, é para mim e para João Pedro Silva de extrema importância para a arte musical contemporânea. Olhando para a revista Glosas, colocando-a sob a alçada do projecto MPMP, parece-me evidente que essa “consciência da diversidade” é algo muito presente na filosofia da revista e de todos os projcetos que desenvolve desde a sua criação em 2009. A criação de uma “plataforma dedicada à valorização integrada” do património, desenvolvido por compositores, por musicólogos, por intérpretes, por melómanos, é mais do que prova dessa consciência.

Nos dias que correm, felizmente, assistimos a uma convergência das áreas da composição, da interpretação, da musicologia, graças ao trabalho que se tem desenvolvido nas últimas décadas no sentido de aproximar estes universos. Num determinado momento da história da música ocidental, por razões mais ou menos coerentes, estes universos tenderam a afastar-se, dando praticamente origem a diferentes áreas da arte musical. Actualmente, tais áreas são desenvolvidas em constante transversalidade, situação em que a “consciência da diversidade” é imprescindível. Se pensarmos bem, esta converge para uma ideia de pluralismo e, no fundo, em pleno século XXI, todos nós temos consciência da importância e das vantagens destas características que, a meu ver, estão bem presentes em toda a filosofia do MPMP. Não deixo de salientar que são “actores” deste projecto jovens portugueses que, com enorme determinação, têm vindo ao longo destes últimos anos a contribuir para o meio musical português de forma exemplar. Espero que continuem a desenvolver o vosso trabalho nessa mesma perspectiva. Deixo-vos aqui o meu mais profundo agradecimento.

 

Marina Pacheco
soprano

A revista Glosas é uma publicação de excelência no panorama musical português. O brio, o profissionalismo e o detalhe são o segredo do seu impacto. Foi com muito gosto que integrei o 10.º número da revista, divulgando um dos meus trabalhos discográficos numa entrevista muito bem conduzida e que me permitiu dar-me a conhecer, apresentar o meu projecto e divulgar música nova de quatro compositores portugueses.

Não poderia deixar de referir o brilhante trabalho promovido pelo MPMP, com quem partilhei momentos de palco absolutamente maravilhosos, não me esquecendo, nunca mais, dos ensaios mais hilariantes de sempre. O rigor musical e técnico e o entusiasmo pelo trabalho, aliados à boa disposição e ao saber saborear a música e o palco, fizeram desses momentos episódios marcantes. Sou muito grata por estas colaborações e desejo que a revista Glosas e o MPMP continuem a presentear-nos com a qualidade a que já nos habituaram. Bem-hajam!

 


 

Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

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