Num programa integrado apenas por compositores portugueses contemporâneos – António Victorino d’Almeida (1940), César Viana (1963), Paulo Jorge Ferreira (1966) e Sérgio Azevedo (1968) – apresentou-se na Igreja da Misericórdia, em Tavira, no Sábado 28 de Fevereiro, o Duo Contracello, formado pelo violoncelista Miguel Rocha (51 anos) e pelo contrabaixista Adriano Aguiar (54 anos). O Duo Contracello iniciou a sua actividade em 1993, tendo por objectivo a execução de repertório para esta rara formação de dois instrumentos da mesma natureza: corda friccionada. Aliou-se a este desafio a dificuldade inerente à receptividade da música contemporânea.

Apesar de pouco frequente, este tipo de agrupamento já tem alguma tradição na história da música. Recordemos, por exemplo, Domenico Dragonetti (1763-1846), veneziano pioneiro na introdução do contrabaixo na música de câmara e orquestra, que se apresentou várias vezes em duo com o violoncelista Robert Lindley (1775-1855), ou Gioachino Rossini (1792-1868), que escreveu um dueto para violoncelo e contrabaixo em ré maior. Nos últimos cinquenta anos, quase todos os grandes compositores escreveram para esta formação.

O concerto integrou o projecto Música nas Igrejas, já há oito anos em vigor, realizando concertos todos os sábados, às 18h, na cidade de Tavira. De acordo com Josué Nunes, director da Academia de Música de Tavira, o projecto Música nas Igrejas tem como objectivo aliar a música à arquitectura, em particular ao património arquitectónico religioso, pois Tavira tem dentro do seu casco urbano vinte e uma igrejas, cifra que lhe valeu o cognome de “cidade das igrejas”ou “Roma do Algarve”. Estando muitas destas igrejas des-sacralizadas, a utilização das mesmas para a realização de concertos de música erudita de qualidade reavivou a sua existência e contribui para a sua preservação.

A Igreja da Misericórdia, edificada entre 1541 e 1551, situa-se Vila-a-dentro, junto à Porta D. Manuel I, e é considerada a mais notável expressão renascentista do Algarve. De acordo com a informação do Município de Tavira, que apoia logisticamente o projecto, a Igreja da Misericórdia  é “obra do mestre pedreiro André Pilarte, então residente em Tavira, que trabalhou na construção do Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. As características renascentistas estão bem patentes na composição e decoração do pórtico principal, em arco de volta perfeita, decorado com motivos inspirados em gravados italianos, rematado por um admirável conjunto escultórico que integra a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, ao centro, ladeada pelas figuras de São Pedro e São Paulo e pelas armas do reino e da cidade. Este edifício utiliza uma tipologia de três naves e quatro tramos formados por arcos moldurados assentes sobre colunas com capitéis renascentistas cuidadosamente ornamentados. Em substituição do anterior retábulo quinhentista, pintado por Pedro da Campânia, encontramos do período barroco três magníficos retábulos: o da capela-mor e dois colaterais, datados de 1722. O retábulo principal é da autoria do mestre entalhador tavirense Manuel Abreu do Ó. Em 1754 foram abertas quatro janelas barrocas no corpo da igreja pelo distinto mestre Diogo Tavares de Ataíde, e em 1760 foram colocados dezoito painéis de azulejos figurativos azuis e brancos, executados na oficina de um mestre lisboeta. Representam as catorze obras espirituais e corporais que norteiam a actividade da irmandade da Misericórdia e alguns Passos da Vida de Cristo.”

 

fotografia de Rui Beja

Com a crise, a Academia de Música de Tavira que anteriormente contava com apoio financeiro de diversas fontes, permitindo a gratuitidade dos concertos, passou a solicitar uma contribuição de €5. No entanto, o projecto continuou porque conseguiu fidelizar o público. Mas que público? De acordo com Josue Nunes, 90% do público é estrangeiro e idoso: reformados que escolheram o solarengo Algarve para residir e que anseiam por alguma cultura. Raramente se regista presença portuguesa na audiência. Trata-se de um público tradicional, facto em virtude do qual um concerto composto apenas por música contemporânea constituiu um enorme risco.

 

fotografia de Rui Beja

 

Como dar a ouvir música contemporânea? Talvez uma das formas seja o exemplo dado por Adriano Aguiar que de um modo muito acessível se dirigiu ao público apresentando as obras, contextualizando-as e, sobretudo, apelando à imaginação do ouvintes. Recordou também como durante o nazismo a música atonal foi considerada degenerada, “um estigma do qual nos estamos ainda a tentar livrar!”. Luis Conceição, pianista e musicólogo, director pedagógico da Academia de Música de Tavira, traduziu para inglês as palavras de Adriano Aguiar cativando assim a assistência estrangeira. Com a motivação adequada, criado um estado de disponibilidade receptiva, abertura de mente e imaginação, ninguém arredou pé!

 

fotografia de Rui Beja

 

De Paulo Jorge Ferreira ouviu-se Duplum, peça com um pé na tonalidade, outro fora dela. Explicadas as influências da 2.ª Escola de Viena, os ambientes severos de Schoenberg, Berg e Webern, despertou-se a curiosidade dos ouvintes para uma obra que, apesar da impossibilidade de previsão, nunca chegou a entrar na zona de estridência. Como o próprio compositor afirma: “o nome, Duplum, encerra uma das características base desta peça. Existem alguns momentos durante a obra em que os dois instrumentos se entrelaçam de tal forma que chega a não ser perceptível ‘quem está a tocar o quê’. Apesar de um ambiente por momentos algo misterioso, até mesmo melancólico, a imagem mais presente é sempre de grande agitação, conferida por um carácter rítmico muito marcado, vivo e, por vezes, complexo.”

Seguiu-se-lhe de César Viana o 2.º Andamento, “Lento”, da obra L’eau qui dort (A água que dorme). De novo, dirigindo-se ao público, Adriano Aguiar afirmou que aquela música apela a um sentido de oração e por isso se tornava tão adequado interpretá-la numa igreja. No entanto, chamou a atenção para o facto de que, sendo a obra inspirada nos judeus sefarditas, não deixa de ser insólito tocá-la numa igreja católica, ainda que des-sacralizada. E assim se passou da musicologia à reflexão sobre os tempos complexos em que vivemos, e se apelou à paz e à união dos povos.

De António Victorino d’Almeida, profícuo compositor, pianista, escritor, cineasta, musicólogo, figura bem conhecida do público, interpretou-se Toccata Dupla. Obra em dois andamentos, um lento, outro rápido, que parece ter sido escrita num só gesto de improvisação. Aliás, a capacidade de improvisação de Victorino d’Almeida é sobejamente conhecida: faz recitais inteiros pedindo um tema ao público e improvisando, depois, sobre ele. Sobre esta obra o compositor afirmou: “o contrabaixo deve encarar-se como uma voz autónoma, particular e inconfundível, razão pela qual escrevi esta pequena tocata – por natureza uma obra virtuosística –, ao longo da qual tanto o violoncelo como o contrabaixo transmitem as suas respectivas mensagens na plena fruição da sua natural independência expressiva. E por isso a tocata é dupla.”

Finalizou o concerto Divertimento Concertante de Sérgio Azevedo: seis mini-peças em que nenhuma delas chega a alcançar três minutos: Entrada, Valsa, Presto, Arioso, Marcha e Ostinato. Um desafio de contenção, de ida à essência, que evoca Debussy mas também o prazer e o humor, bem patentes na virtuosa interpretação dos executantes. Sérgio Azevedo afirmou: “Fundamentalmente, tentei equiparar os dois instrumentos, não deixando que o violoncelo, naturalmente mais ágil e agudo, e de timbre mais penetrante, dominasse. Trata-se verdadeiramente de um duo, e de um duo de características concertantes dada a dificuldade de cada parte. No entanto, formalmente, é uma suíte, um conjunto de peças separadas, de peças de carácter (scherzo, valsa, marcha, etc.), embora unidas por uma ambiência sonora comum.”

Ao longo de duas décadas de existência o Duo Contracello actuou em Portugal, Espanha, França, Suíça e Estados Unidos da América. Em Portugal destaca-se a sua participação nos Festivais de Música de Espinho, de Leiria, no Porto 2001 e no Festival CriaSons. O seu repertório, que se estende de Couperin a Berio, tem sido enriquecido com obras originais especialmente dedicadas ao duo, algumas das quais tivémos a oportunidade de ouvir neste concerto.

O novo CD, Duo Contracello III, será lançado no próximo dia 23 de Março na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, em Lisboa, às 21h30, continuando a assumir o espírito de missão que os caracteriza: divulgar música portuguesa contemporânea.

Sobre o autor

Maria João Neves

Correspondente da GLOSAS no Algarve e investigadora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente realiza um Pós-Doutoramento no âmbito da Estética Musical, sendo bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Doutorou-se em Filosofia Contemporânea em 2002 com uma tese sobre o pensamento de María Zambrano, tendo sido orientada por Maria Filomena Molder. Publica regularmente em revistas científicas. Iniciou os seus estudos em piano com quatro anos de idade, canto e dança um pouco mais tarde, actividades que não seguiu profissionalmente, mas também nunca largou, porque é impossível deixar o que nos alimenta a alma.

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