Tavira é uma pequena cidade do sotavento algarvio, tem cerca de 13 400 habitantes. No entanto “faz 40 anos que Tavira assiste à instalação de grupos cada vez maiores de europeus no seu solo. Os ingleses, para começar, seguidos dos suecos e mais recentemente dos franceses. Há também um bom número de alemães e de holandeses. Uma espécie de tectónica dos povos. As razões desta afluência de residentes vindos de paragens longínquas são múltiplas. A qualidade de vida e o clima, obviamente. O menor custo de vida, claro. O efeito de arrasto, de moda em rápido desenvolvimento nos países insulares ou de tamanho modesto. Mas também a abertura de linhas aéreas directas e low cost, a martelagem mediática em torno de Portugal e as vantagens fiscais concedidas pelo governo português aos reformados suecos e franceses. Uma população estrangeira considerável e que vem em aumento. Além dos britânicos, holandeses e alemães, a população sueca começa agora a ganhar expressão” (Público, 29 de Novembro de 2015).

De facto, este 14 de Maio de 2016 foi Peter Morawetz, Cônsul da Suécia residente em Tavira, quem organizou o concerto de Marcelo Montes na Igreja da Misericórdia em Tavira. “Entrei na Igreja e vi o Marcelo a estudar. Achei-o tão talentoso, comoveu-me tanto, que pensei em organizar um concerto. Divulguei-o em primeiro lugar para a comunidade sueca mas é aberto ao público”.

Marcelo Montes nasceu em Faro a 28 de Janeiro de 1991. Em 2009 iniciou o curso de Piano em Vila Real de Santo António com o professor russo Nestor Tomynets. Marcelo Montes tem 25 anos e quer ser pianista profissional. Tem lutado muito por este sonho e não lhe faltam nem técnica, nem talento nem inspiração! Falta-lhe apenas um mentor adequado. Acedendo ao pedido de “um programa variado” organizou-o de forma quase cronológica, começando pelo barroco com Bach: Partita n.º 2 em dó menor e Variações Goldberg (ária), fez uma pequena incursão na música para cinema tocando duas valsas do filme Amélie compostas por Yann Tiersen, regressando logo depois ao território clássico com Mozart: Fantasia KV. 397; espraiando-se depois pelo romantismo de Chopin, o compositor de eleição do intérprete: Nocturne Op. 20Valsa Op. 64 n.º 2, Mazurka Op. 67 n.º 4, Nocturne Op. 9 n.º 2, Valse Op. 69 n.º 2, Fantasie Impromptu Op. 66; finalizando com duas composições do próprio intérprete: Romance Virtuoso e Variações sobre temas de Chopin e Liszt.

Quarta-feira 25, pelas 19h, a Igreja da Misericórdia voltou a ser palco da música erudita acolhendo o concerto de Irina Donde, totalmente dedicado a Johann Sebastian Bach. Irina nasceu em São Petersburgo onde iniciou e completou os seus estudos de piano. Além de ser professora de Piano no Conservatório Superior de Música daquela cidade, foi também a pianista do Balé-Teatro de São Petersburgo, dirigido pelo coreógrafo Boris Eifman. Apresentou-se nos palcos mais famosos do mundo. Aos dezassete anos de idade já era uma pianista de renome.

Com a Perestroika a antiga União Soviética dá uma reviravolta. Irina é uma entre muitos artistas russos talentosos que perdem o seu emprego. Tinha duas hipóteses: emigrar ou mudar de vida. Irina tinha então 28 anos, estava no auge da sua carreira pianística, mas decidiu permanecer em São Petersburgo junto da sua família e trocou o piano pelo mundo da moda tornando-se uma empresária de sucesso. Uma vez mais percorreu o mundo, representando as melhores marcas e sendo consultora de prestigiados nomes da moda contemporânea.

Como acontece agora um concerto de Irina Donde nesta pequena cidade do sul de Portugal chamada Tavira?

O público sentado na igreja aguardava com expectativa, o burburinho das vozes depressa se silenciou quando Irina entrou com o seu esplêndido vestido vermelho, que realçava o seu cabelo loiro e a tez agora morena do sol algarvio. Com a emoção na voz disse-nos: “Bem-vindos ao terceiro estádio da minha vida, ao meu regresso ao piano. Hoje, neste concerto inteiramente dedicado a Johann Sebastian Bach, quero agradecer àquele que considero o maior compositor de todos os tempos e à cidade de Tavira por me ter acolhido e ser agora o o meu lar”.

Sentou-se e tocou emocionada alguns prelúdios de Bach, revelando com a sua técnica e interpretação o profundo conhecimento que possui sobre estética deste compositor. Pouco depois falou-nos da biografia de Bach, da sua família, dos seus filhos, de como apenas uma obra sua foi publicada em vida! Recordou-nos como foi Mendelssohn quem um século depois o descobriu e deu a conhecer à Europa. Para ilustrar a grande diversidade de Bach, Irina tocou um excerto do Prelúdio em si menor e depois a Fantasia em ré menor, falando-nos da liberdade de tempo que se sente sobretudo durante o Recitativo. Explicou à audiência como até os princípios do jazz já se encontravam em Bach que se movia tão bem na rigidez do tempo exacto, como no tempo livre; apelidou-o um ás da improvisação e exemplificou alguns do seu acordes “picantes” (spicy chords). Sempre comentando as obras de forma didáctica mas muito cativante, criando um clima intimista com o público, tocou, entre outras obras, alguns excertos da sexta Partita e terminou com uma Sarabande.

Assim aconteceu. Em dois concertos, em semanas consecutivas, o emergente pianista português Marcelo Montes conhece a consagrada pianista russa Irina Donde. A igreja da Misericórdia de Tavira foi o palco deste encontro de talentos. Ficamos na expectativa dos frutos que daí advirão.

 

Sobre o autor

Maria João Neves

Correspondente da GLOSAS no Algarve e investigadora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente realiza um Pós-Doutoramento no âmbito da Estética Musical, sendo bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Doutorou-se em Filosofia Contemporânea em 2002 com uma tese sobre o pensamento de María Zambrano, tendo sido orientada por Maria Filomena Molder. Publica regularmente em revistas científicas. Iniciou os seus estudos em piano com quatro anos de idade, canto e dança um pouco mais tarde, actividades que não seguiu profissionalmente, mas também nunca largou, porque é impossível deixar o que nos alimenta a alma.

Uma resposta

  1. Fernanda

    Adorei o artigo.
    Estas palavras estão carregadas de cumplicidade e emoção.
    Obrigada Maria João.

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