Inaugurado a 30 e 31 de Outubro de 2014, o O’culto da Ajuda celebra quase um ano de actividade. Dedicando-se exclusivamente à apresentação de obras experimentais, este espaço apresenta-nos desde projectos dos próprios compositores e seus fundadores, Miguel Azguime e Paula Azguime, a outros compositores contemporâneos maioritariamente portugueses. O O’culto da Ajuda, em que se cruzam a música com o espaço, poesia, teatro, movimento e design, tornou-se indispensável tanto na estreia de obras da actualidade, como na apresentação dos desenvolvimentos mais recentes das metodologias e processos criativos da composição.

Em destaque neste mês de Julho está o início da residência artística de Igor C. Silva, com a composição de uma obra para instrumentos acústicos, electrónica e vídeo em tempo real, pensada para os músicos e os meios tecnológicos do Miso Studio. Será uma colaboração mobilizada pelo Laboratório Electroacústico de Criação (LEC), que oferece a possibilidade de experimentação durante todo o processo criativo da obra, naturalmente com a assinatura da Miso Music.

Não foi a primeira vez que Igor C. Silva colaborou com o O’culto, tendo já apresentado o seu projecto com o clarinetista Frederic Cardoso na quinta-feira passada, a 2 de Julho, no âmbito do lançamento do CD Press the Keys, Clarinet & Electronics PROJECT. Na última edição do Música Viva 2015, este compositor apresentou a obra Gin#122, para kalimba e electrónica, que se destacou num dos concertos do festival, dedicado ao projecto CARA (Ano Zero). Em conjunto com peças de Filipe Lopes, Rui Penha, Rui Dias e Gustavo Costa, Gin#122 explorou as características acústicas de um instrumento pouco utilizado na tradição ocidental, a referida kalimba, numa performance com uma componente indubitavelmente teatral.

A não esquecer, e talvez já em retrospectiva, a referência à ópera multimédia Itinerário do Sal, de composição, textos e performance de Miguel Azguime, apresentada entre 23 e 25 de Junho no O’culto da Ajuda, com Paula Azguime na encenação e vídeo, e com o Miso Studio no desenvolvimento tecnológico.

Noutro contexto, será importante mencionar a emissão de obras de compositores portugueses a 18 de Julho, no programa Música Hoje da RTP Antena 2, uma colaboração recorrente que se repetirá também no próximo mês de Agosto. Integrando a secção portuguesa da Sociedade Internacional de Música Contemporânea, a Miso Music apresenta anualmente seis candidaturas de compositores portugueses aos júris dos festivais World Music Days, radiodifundindo obras de compositores contemporâneos que representaram Portugal nestes festivais desde o ano de 2000 e garantindo deste modo a exposição e divulgação destes compositores num contexto internacional.

O espaço O’culto apresenta-nos obras assumidamente contemporâneas e experimentais, através de projectos que, infelizmente, seriam difíceis de incorporar na agenda da maior parte das salas de concerto em Portugal, mas que se apresentam indispensáveis na programação da música contemporânea em geral.

 

Sobre o autor

Beatriz Noronha Dilão

Terminou o curso complementar de piano na Fundação Musical dos Amigos das Crianças em 2007, completando também o ensino secundário na área de Artes Visuais. Em 2010, completou a licenciatura em Música no Goldsmiths College, University of London, com uma dissertação acerca dos desenvolvimentos contemporâneos do fado. Realizou o mestrado na mesma universidade, concluindo o curso Contemporary and Popular Music Studies em 2012. Foi com o apoio do Professor Sérgio Azevedo que desenvolveu a sua tese sobre Constança Capdeville, com uma análise do ‘Libera me’. Entre 2010 e 2014, deu aulas de piano e formação musical em diversas escolas de Londres, tendo também colaborado num projecto de inclusão social pela arte. Durante este período, realizou actividades de produção, curadoria e divulgação de música contemporânea.

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