Inserido nas actividades do pólo da Universidade de Aveiro do INET-md, Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, está actualmente em curso um projecto de investigação designado Euterpe revelada: as mulheres na criação e interpretação musical portuguesas nos séculos XX e XXI, cujo objectivo principal é dar a conhecer o trabalho e o papel das mulheres portuguesas na Música. Sob a coordenação de Helena Marinho, professora do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, este projecto reúne 24 investigadores das universidades de Aveiro, Nova de Lisboa e La Rioja e do Instituto Politécnico de Lisboa, bem como investigadores independentes, congregando a colaboração do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md) e do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) e parcerias com a editora AvA e com o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa.

Entre os trabalhos contemplados por este projecto contam-se o levantamento de obras de compositoras, a subsequente edição crítica das suas partituras, a recolha e tratamento de dados biográficos, as entrevistas a compositoras e intérpretes, ou, nos casos em isto não é possível, a familiares e pessoas próximas, num formato próximo do documentário.

Segundo a coordenadora do projecto, em informações divulgadas pelo Gabinete de Comunicação da Universidade de Aveiro, a partir do trabalho desenvolvido até ao momento é possível distinguir três períodos fundamentais no concernente ao papel e à notoriedade das mulheres no meio musical do Portugal contemporâneo: o primeiro, que parte da implantação da República e se estende até à década de trinta, um segundo período coincidente com a maior parte da vigência do Estado Novo e o último, dos finais da década de sessenta até aos nossos dias. Mais uma vez de acordo com o texto divulgado pela UA, Helena Marinho explica que, segundo investigação de André Vaz Pereira, no Sindicato dos Músicos havia registos de duas centenas de mulheres até 1934, número que cai abruptamente no período seguinte para 80. Regra geral, “no que diz respeito à música erudita, a participação das mulheres na criação musical, pelo menos até à década de setenta, foi difícil e limitada por convenções sociais”. Esta realidade profissional da composição, como também refere a mesma fonte, é contrariada por algumas excepções notáveis de personalidades que mantiveram carreiras nacionais e internacionais de relevo, como a maestrina e compositora Berta Alves de Sousa (1906-1997), professora do Conservatório do Porto e uma das primeiras mulheres portuguesas a dirigir uma orquestra sinfónica (designadamente a Orquestra Sinfónica do Porto, nos anos cinquenta).

Elvira de Freitas (fotografia: Glosas)

A própria Universidade de Aveiro é depositária do espólio de outro destes mais importantes exemplos, Elvira de Freitas (1928-2015). Por decisão de seus filhos, na sequência de uma decisão anterior e idêntica de Elvira de Freitas em relação ao espólio do pai, o compositor Frederico de Freitas, a obra desta importante compositora e pedagoga, em que Helena Marinho, citada pela mesma fonte, salienta o carácter ecléctico e a extensão da produção musical vocal, foi integrada nas colecções à guarda da UA, onde tem vindo a ser objecto de diversos estudos. Elvira de Freitas desenvolveu uma longa carreira na Emissora Nacional e alargou ainda a sua produção a outras áreas de expressão artística, como a escrita de ficção e as artes plásticas.

Na óptica da coordenadora, o meio musical é ainda marcado por uma diferença entre sexos, e, sobretudo no passado, a dificuldade de acesso a meios editoriais reflectia-se no conhecimento do trabalho das compositoras: “A falta de edições de partituras musicais é um factor a ter em conta, conjugado com uma certa tendência da musicologia portuguesa em centrar-se na actividade dos compositores e intérpretes masculinos”, refere Helena Marinho no mesmo comunicado da Universidade de Aveiro.


O projecto Euterpe Revelada teve início em Julho de 2018 e tem conclusão prevista para Junho deste ano. Mais informação sobre as actividades em curso pode ser consultada através desta ligação.

Sobre o autor

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Estudou cravo, órgão e música antiga em Lisboa, exercendo intensa actividade, quer a solo, quer com agrupamentos de música antiga e orquestras. Licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou Filologia Clássica e em cujo Centro de Estudos Clássicos é investigador. Prepara actualmente a primeira tradução portuguesa das Cartas de Plínio. Integra a Direcção da revista 'Glosas'.