Geografias : África do Sul

Filipa van Eck

de A a Z

África do Sul | Nasci na África do Sul, o país onde os percursos de meus pais se cruzaram. Sou filha de mãe nascida em Angola e de pai sul-africano. Meus pais conheceram-se por um acaso em Joanesburgo, quando a família da minha mãe ali se refugiou da guerra civil em Angola, nos anos 70. Identifico-me como sul-africana, mas sinto-me igualmente em casa em Portugal. Fui crescendo ao som de várias línguas e a ouvir as maravilhosas histórias de meu avô materno, fonte de imensa alegria na minha infância. Talvez por isso ainda hoje a hora do jantar seja sagrada para a família.

Belinda (Dido e Eneias de Purcell) | Belinda foi um dos primeiros papéis que desempenhei no âmbito da música antiga. Já tinha cantado Rossini, Janacek, Strauss, Mozart, mas nada como Purcell. Subsequentemente, a música antiga tornar-se-ia numa grande paixão minha, especialmente quando fui estudar para o Royal College of Music. A Opera School do RCM trabalha em estreita colaboração com Laurence Cummings e o London Handel Festival. Tive a sorte de trabalhar com os verdadeiros mestres da música barroca naquele ambiente e de aprender a apreciar verdadeiramente a arte do canto e da ornamentação barroca.

Compositor (favorito) | É quase impossível escolher. Aprecio diferentes compositores por diferentes razões. Madame Butterfly, de Puccini, ofereceu-me a inspiração para estudar canto clássico, mas não é algo que cantaria actualmente. Mozart, Handel e Rossini terão tido um papel mais proeminente na minha vida, mas sou igualmente fã de Verdi, Massenet e de compositores da actualidade como Jonathan Dove… a lista é infindável.

Diva(s) | Diva em latim significa deusa, artista ou mestre de uma determinada arte, porém a conotação moderna remete-nos para uma pessoa com quem se torna difícil trabalhar, é exigente e muito centrada em si mesma. Cada vez se tolera menos esse tipo de comportamento. Hoje espera-se que as pessoas se apresentem e façam devidamente o seu trabalho. Dificilmente as pessoas se esquecem da forma como são tratadas. Defendo que, num ambiente marcado pela arrogância, é importante ser-se profissional, ser-se generoso para com os colegas.

Elegância | Para mim, é estar em paz com a pessoa que somos, ter uma postura graciosa e generosidade de espírito. É sentirmo-nos em sintonia com o ambiente que nos rodeia.

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Felicidade (é…) | Estar com a família e amigos, partilhar uma refeição, rirmo-nos de nós próprios, ou estar no palco, naquele espaço mágico que nos faz sentir como se noutro plano, longe das preocupações e ansiedades terrenas.

Gosto (de) | Gosto muito de música e de actuar, mas também me interessam muitas outras formas de arte. Aprecio o teatro, fotografia, design, literatura, até pratos bem confeccionados e apresentados! Outra paixão é a Natureza – ter crescido na África do Sul, no seio de uma família fortemente ligada à conservação do ambiente, significa que a vida selvagem, particularmente a africana, foi sempre tema de interesse e de conversa entre nós.

História (de vida) | Nasci no extremo sul de África. De meu pai trago herança holandesa, alemã, inglesa, e de minha mãe, nascida em Angola, sangue português, francês, espanhol. Meu pai faleceu quando eu tinha 8 anos e minha mãe cuidou de mim e do meu irmão. Acredito que as crianças são, em grande parte, educadas pela comunidade, daí sentir que devo muito aos meus avós, tios e a toda a família alargada. Apesar do profundo trauma na infância, nunca me faltou amor em abundância. Minha mãe é exemplar a superar adversidades e na capacidade que tem para descobrir uma qualquer semente e resiliência na dor mais profunda.

Imprensa | A internet e a comunicação social têm um papel relevante na vida dos artistas e podem ser instrumentos fortíssimos, mas essa mesma capacidade de disseminar, quer os nossos triunfos, quer os erros, pode tornar-nos excessivamente conscientes de nós mesmos. É importante não deixar esse receio da crítica tornar-se num factor debilitante ao longo da carreira artística, e à medida que evoluímos. É essencial concentrarmo-nos no que podemos fazer para efectivar uma mudança positiva e prestar menos atenção a quem possa criticar sem compreender a arte em si.

Júbilo | Sempre gostei de celebrações. A antecipação, o planeamento, a preparação do cenário, a selecção musical, a concepção da ementa e depois o próprio evento. Isto provavelmente acontece porque é tudo teatral: planear e preparar um momento transitório de júbilo. Um momento maravilhoso no tempo que permanece na minha memória e ao qual, futuramente, ficará associada alguma nostalgia. A vida é para ser celebrada e tenho a sorte de sentir que também o meu trabalho é uma celebração.

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London’s Royal College of Music | Fiz uma audição na Opera School, em Londres, em 2010, e foi-me atribuída uma bolsa por um período de 3 anos, combinando o Mestrado e o curso de ópera. Tive o privilégio de ter sido distinguida como Kiri te Kanawa scholar, e de ter tido excelentes oportunidades de actuação, coaching, aulas e masterclasses com pessoas de excepção. Sinto-me grata pela instrução, exposição e oportunidades que me concederam enquanto lá estive.

Música | É a linguagem transcendente da alma, tão fundamental quanto simples. Pode também ser complexa, estruturada e matemática. Como tudo na vida, precisamos tanto de estrutura/forma como de liberdade/criatividade. A música ensina-nos disciplina e técnica, mas aquela torna-se mais interessante quando somos capazes de transcender essas competências para criar magia. É uma luta que todos aqueles que são criativos entendem bem; ser tão senhor da sua técnica que é possível “esquecê-la” no palco. É nesse momento que o artista verdadeiramente cresce e progride.

Nação | A ideia de nação sempre foi complexa para mim. A minha herança cultural é múltipla, e sinto-me em casa em mais do que numa nação. É meu objectivo celebrar todos os países onde eu possa viver ou visitar, falhas e complexidades incluídas. Sinto que a ideia de casa é um conceito em mudança. Vivi na África do Sul e no Reino Unido e resido agora em Portugal e gosto muito de cada um desses países. Sinto que todos eles são a minha nação.

Ópera | É, na minha opinião, a fusão perfeita de todas as grandes formas de arte que aprecio. Não só existem elementos musicais, mas é necessário representar e comunicar (quase sempre em línguas estrangeiras), é necessário compreender culturas e épocas diferentes, saber de design, de iluminação, de dança e movimento, e ainda duma vertente adicional que é o filme – quer para projecção, quer para transmissão directa. Sempre gostei de desafios, e a ópera surge para mim como uma das formas de arte mais desafiantes. Mais do que nunca, o cantor moderno deve ser um actor cantor que faz com que a produção vocal seja parte integral da narração.

Portugal | É uma nova casa para mim, mas parece que já vivo nela há muito tempo. Estou apaixonada pelo país, pelas possibilidades que oferece e pela humildade das pessoas. Possui tanta história, tanta luz dourada e nostalgia… É um verdadeiro paraíso para aqueles que são românticos por natureza. Vivo actualmente em Lisboa, onde o novo e o antigo vibram lado a lado, e não penso que o desenvolvimento da cidade e a sua reabilitação sejam uma coisa má. Cada cidade deve desenvolver-se em direcção ao futuro, respeitando o passado. Julgo que Lisboa está a conseguir fazê-lo com graça e facilidade.

Quid pro quo | A compensação mais óbvia e vital que um cantor pode ter é o sentido de cumprimento e de satisfação. É necessário gostar daquilo que se faz e sentir que os sacrifícios valeram a pena. Não é fácil, muitas vezes é uma batalha contra nós próprios desculparmo-nos por sermos humanos e não nos castigarmos pelas nossas falhas e erros. Quando a nossa performance corre bem e as horas de sacrifício se alinham, então a alegria que se sente é a maior das compensações. De um ponto de vista mais prático, há uma compensação financeira. Haverá alturas na vida de um músico em que ele decide cantar sem ser pago por isso, por amor à profissão, para ganhar maior exposição, networking ou por favor. Talvez nada seja gratuito, a reciprocidade existe na mais simples troca. É bom investir na carreira a longo termo, particularmente quando nos sentimos felizes sobre um determinado projecto. Mas há uma linha ténue, sobretudo quando alguém tira partido de um cantor mais novo. Não podemos sentir-nos apologéticos por sermos remunerados justamente, devendo proteger e defender os nossos direitos enquanto músicos, mas também não desprezemos projectos cujo orçamento é reduzido. O importante é sentir que a compensação é positiva para o nosso crescimento artístico.

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Realização (pessoal) | Para um músico, o desenvolvimento e crescimento pessoais nunca terminam. É essencial trabalharmos continuamente ao nível pessoal, procurar solucionar os bloqueios mentais e físicos que possam surgir, e reflectir. Ser capaz de cantar é o ponto de partida dessa viagem.

Saudade | Tenho inclinação para a nostalgia, porque sou sentimental por natureza, mas tudo isso ganha mais amplidão pelo facto de a minha família e amigos estarem espalhados por todo o mundo. Procuro desfrutar deste aspecto agridoce, aproveitando e convertendo a saudade em algo positivo em vez de deixar que ela se torne debilitante. Tenho a sorte de ter muitas pessoas de quem sinto saudade. Ser cantora de ópera em sistema freelance também significa que muitas vezes me afasto, mas acabo por encontrar outras famílias por onde passo. As pessoas entram e saem da nossa vida e acabamos por formar laços especiais com elas. E a ‘depressão pós-produção’ e a saudade das pessoas com quem acabámos de trabalhar também fazem parte da descrição do nosso trabalho! Gosto imenso do facto de a saudade ser celebrada na cultura portuguesa, é algo com que me identifico pois podemos existir num espaço onde nos é permitido sentir a dor de uma forma bela e fazê-lo abertamente.

Tournée | Gosto de andar em digressão com as companhias de ópera. No início de 2016, fiz uma tournée com a Ópera da Escócia. Conheci tanto da Escócia, que é um país incrivelmente belo no Inverno, e cheguei a cantar em localidades onde raramente há ópera. Levar esta arte às pessoas e provar-lhes que é acessível e aprazível torna-se cada vez mais importante numa altura em que as pessoas tendem a não querer deixar o conforto de casa para assistirem a diversas formas de entretenimento. Aquela digressão foi um dos momentos de que mais me orgulho pois os públicos das pequenas cidades, de tão gratos pela experiência, ofereceram-nos o mais positivo feedback. É algo que nunca esquecerei.

Uno | Nesta área, sermos auto-suficientes e sentirmo-nos bem na nossa própria pele é essencial. Viaja-se muito, muitas vezes sendo mesmo necessário forçarmo-nos a isso, e depois todo o processo de audições, ou ensaios com colegas desconhecidos… No fim, independentemente do sistema de apoio que se possa ter, quando se está no palco temos de acreditar que somos capazes de actuar sozinhos; claro que estar no palco é fundamentalmente um trabalho de equipa, mas é necessário sentirmo-nos fortes para estarmos abertos a receber as energias dos outros artistas; só assim podemos retribuir, ou oferecer algo novo, presente e livre de auto-crítica.

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Viagem | Tudo em torno desta profissão inclui viagens. Viagens no espaço, no tempo e de auto-descoberta. Tem que ver com a viagem que se faz até ao momento final da performance. O espectáculo é, de facto, a ponta do iceberg – pois para lá chegar já se viajou uma vida inteira.

Xenofobia | Tendo crescido na África do Sul na época imediatamente pós-apartheid, não posso deixar de estar vivamente consciente do que significa ser tratado de modo diferente por quem somos e de onde vimos. O nosso passado foi violento e todos os dias os sul-africanos procuram lidar com questões complexas e sobre como tratar quem aparentemente é diferente. Esta é também uma questão global. A humanidade tem um longo caminho a percorrer até se alcançar igualdade para todos. Actualmente, faço o papel de Maria numa produção de West Side Story, na África do Sul. É um trabalho que gira em torno da xenofobia e da tragédia que resulta dessa falta de compreensão relativamente aos outros.

Zoom (à música Internacional) | O mundo da música parece tornar-se simultaneamente mais pequeno e maior com a possibilidade de hoje se poder assistir a actuações online e a emissões directas das casas de ópera, como o MET. Abriu-se ainda a possibilidade de fazer audições em países onde não estamos sediados e mesmo através de gravações em vídeo, ou de masterclasses via Skype. O trabalho na área da música clássica torna-se, assim, mais acessível aos artistas em freelance, sendo muito raro os cantores clássicos trabalharem exclusivamente na cidade onde residem.


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Filipa van Eck é uma soprano sul-africana/portuguesa detentora de um Mestrado em Vocal Performance atribuído em 2014 pela International School of Opera, Royal College of Music, em Londres, cidade onde residiu de 2011 a 2016. Bolseira de Kiri Te Kanawa em 2013/14, foi igualmente Samling Scholar e Britten Pears Young Artist.

Os seus compromissos mais recentes e futuros incluem a tournée Opera Highlights com a Scottish Opera; Frasquita, Grange Festival; L’Agrippina, Porpora Barber Opera, Birmingham; Anna, Concertgebouw, Amesterdão, acompanhada pela Brussels Radio Orchestra e Der Zwerg, Teatro Nacional de São Carlos.

Outras actuações incluem:

Maria (West Side Story) e Valencienne (The Merry Widow) – Cape Town Opera;

Sabine (Adriano in Siria) – Classical Opera Company;

Susanna (Le Nozze di Figaro), Lisetta (La Gazzetta), Gabrielle (La Vie Parisienne), L’Enfant (L’Enfant et les Sortilèges) e Laurette (Le Docteur Miracle) – RCM;

Arianna (Arianna in Creta) e Rosmene (Imeneo) – London Handel Festival;

Barbarina (The Little Green Swallow) – Jonathan Dove British Youth Opera;

Micaela (Carmen) – Woodhouse Opera;

Poppea (L’incoronazione di Poppea) – English Touring Opera.

Nascida na África do Sul e a residir em Lisboa desde meados de 2016, Filipa estudou na Universidade de Cape Town, onde obteve o Bachelor of Music in Western Classical Performance e a Pós Graduação em Ópera. Naquele país desempenhou o papel de Belinda (Dido e Aeneas), Vixen (The Cunning Little Vixen), Corinna (Il Viaggio a Reims) e Lucy Lloyd (Words from a Broken String). Foi solista em Requiem de Mozart (Cape Town Opera), Gloria, Requiem de Brahms e Sea Symphony (Cape Phillarmonic Orchestra). Presentemente na África do Sul a convite do Fugard Theatre e Cape Town Opera, Filipa sobe ao palco no papel de Maria (West Side Story), desta vez em Joanesburgo.

Sobre o autor

Luzia Rocha

Luzia Rocha possui os graus de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. É investigadora no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. É membro do ‘Study Group on Musical Iconography’ e do ‘Study Group for Latin America and the Caribbean’ (ARLAC-IMS), ambos da International Musicological Society. É colaboradora na Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no Grupo de Iconografia Musical da Universidad Complutense de Madrid/AEDOM. Trabalhou como docente na Academia de Amadores de Música, Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), Instituto Piaget (ISEIT de Almada, também como Coordenadora da Licenciatura em Música) e na Academia Nacional Superior de Orquestra e colabora actualmente como docente na Licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada. Tem participado como oradora, por convite, em conferências nacionais e internacionais e publicado artigos em periódicos com arbitragem científica. É autora do livro "Ópera e Caricatura: O Teatro de S. Carlos na obra de Rafael Bordalo Pinheiro".

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