“Desde sempre houve música em minha casa”. É com esta frase que Maria Antónia Esteves inicia o texto que acompanha o CD Entre França e Aragão, quinto trabalho discográfico da autora açoriana, editado em 2014.

Professora de profissão, tem encontrado na música tradicional açoriana muito mais que uma mera ocupação de tempo livre, com uma carreira musical que conta já com mais de três décadas, iniciada no plano discográfico em 1981 com a edição de Açores, um EP de 45 rotações. Para além de interpretar, Maria Antónia Esteves também tem desenvolvido um importante trabalho na recolha de música tradicional açoriana, no seguimento do trabalho desenvolvido pelo seu tio, o Padre José Luís de Fraga. O CD conta ainda com a participação de Miguel Pimentel na viola de arame açoriana.

O alinhamento do CD é composto por uma dúzia de canções que variam entre interpretações com voz e viola e versões instrumentais com viola. Estas canções foram recolhidas maioritariamente na ilha de S. Miguel (faixas 3, 4, 6, 8, 10 e 12), mas também nas ilhas de S. Jorge (faixas 5, 7 e 9), Terceira (faixa 5) e Flores (faixa 1). Foram também incluídas duas canções recolhidas no estado brasileiro de Santa Catarina (faixas 2 e 11), um dos principais destinos da emigração açoriana, cuja influência na cultura local é visível actualmente.

Aqui, a vivência da autora completamente integrada na cultura açoriana terá certamente permitido um acesso total à riqueza e profundidade, assim como o entendimento dos contextos que envolvem os dez temas que compõem este CD. Este é, a meu ver, um aspecto fundamental que envolve este trabalho: o da percepção de como esta música era vivida pelas gentes açorianas. Este foi um ponto de certa forma ignorado ou relegado para um segundo plano nas várias recolhas feitas no arquipélago durante o século XX, por motivos vários (escassez de recursos, má orientação no terreno, entre outros) que restringiram uma eficaz compreensão do contexto local, inúmeras vezes reduzido às escassas zonas urbanas de cada ilha.

A apresentação gráfica do CD é irrepreensível, sobretudo tratando-se de uma edição de autor, em que por vezes este aspecto é descurado. A capa foi trabalhada  a partir do detalhe de um um retrato da autora, por Aristides Âmbar. Aqui, a simbologia foi pensada ao pormenor, centrando-se na viola de arame, sobre a qual repousa a mão já algo enrugada da autora, representando não ó o instrumento omnipresente ao longo da sua carreira musical como também toda a experiência adquirida ao longo de mais de três décadas expressa neste registo discográfico.

Numa primeira audição, destacam-se algumas “imperfeições” técnicas, como os intérpretes a conversar (faixa 7), que soam desagradáveis aos ouvidos esteticamente formatados para gravações comerciais. Contudo, entendendo este CD não como um producto comercial mas como o registo de um momento, surgem novas e interessantes conclusões assim como uma possível leitura da intenção da autora. No respeitante à conversa que inicia a faixa 7 O meu bem, é a própria que explica, no texto dedicado à canção, que esta foi gravada com o cantador e tocador José Inácio de Freitas (de Santo Amaro) como forma de deixar registada a proveniência da versão.

Relativamente à interpretação musical, é de notar a preocupação de Maria Antónia Esteves em manter uma forma de cantar o mais próxima possível do que seria a entoação popular. De facto, ao ouvir o CD pela primeira vez, surpreendeu-me a exactidão com que as canções aparecem vocalmente interpretadas. Aqui, afasta-se de quaisquer técnicas ou colocação erudita (lírica) que inúmeras vezes transparecem para o plano da música tradicional, geralmente no âmbito dos grupos folclóricos, por cantores menos informados relativamente ao contexto da música interpretada. De notar a utilização subtil de um ligeiro portamento nas notas finais de cada verso, nas canções com um ritmo mais lento, fazendo lembrar a forma despreocupada com que esta música era interpretada no seu contexto original. Um breve apontamento ainda para o acompanhamento, assim como para os arranjos das canções, da autoria de Miguel Pimentel: da simplicidade de quem acompanha a voz, para interpretações mais técnicas nas faixas instrumentais, percebe-se a correcção técnica de quem conhece os vários instrumentos utilizados e a sua afinação.

Em suma, o CD Entre França e Aragão, sem pretenções de o ser, acaba por se revelar um importante e actual contributo para um melhor conhecimento e estudo da música tradicional açoriana, e uma importante referência quanto ao contexto em que esta música era feita, muito bem ilustrado pelos ricos textos da autoria de várias  figuras de referência da cultura açoriana.

Sobre o autor

Natural dos Açores, é doutorando em Musicologia na Universidade de Évora, Mestre em Ciências Musicais pela FCSH-NOVA e Licenciado em Musicologia pela Universidade de Évora. É colaborador no Pólo de Évora do CESEM e no MPMP (edições mpmp e revista glosas) e consultor do atelier de conservação e restauro Acroarte. Entre 2011 e 2012 realizou o catálogo do fundo musical do Arquivo Capitular da Sé de Angra e, entre 2014 e 2015, foi bolseiro no projecto “Orfeus”, integrando actualmente o projecto "Música Sacra em Évora no Século XVIII". Em 2012 fundou o Ensemble da Sé de Angra, em 2013 o Ensemble Eborensis com quem gravou um CD. O seu trabalho centra-se na polifonia vocal portuguesa dos séculos XVI e XVII (Sé de Évora) e a música no arquipélago dos Açores desde o povoamento até ao final do século XIX.

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