A igreja matriz de São Paulo manteve, desde a sua fundação, em 1611, mestres-de-capela com específica função de compor e dirigir música para os ofícios religiosos e manter escola pública para a instrução musical da juventude. A mais remota notícia conhecida é de 1649 e cita o mestre-de-capela Manoel Pais de Linhares. Como a matriz de São Paulo encontrava-se, até a criação do bispado, em 1745, sob a jurisdição eclesiástica do Rio de Janeiro, as provisões para o mestrado-de-capela eram expedidas pelo bispo desta última cidade e geralmente pelo prazo de um ano.

Em março de 1775 chega a São Paulo o terceiro bispo, Dom Manoel da Ressurreição. Traz em sua comitiva como mestre-de-capela da Sé um jovem de 21 anos, nascido e formado em Lisboa: André da Silva Gomes.

Sua formação européia passaria por rigoroso teste econômico, social e estético: rivalidade civil-eclesiástica em matéria de provimento da capela de música; heterogeneidade de solicitações influenciando as condições da criação musical; repertório e organização da capela de música e sua participação no serviço religioso; luta por imposição e prestígio social; integração inevitável das relações do monopólio da música nas igrejas.

O certo é que a data de 1774 constitui um marco decisivo na implantação de uma nova fase na atividade musical da Sé de São Paulo, estreitamente vinculada ao brilhantismo e suntuosidade das festas anuais promovidas pelo bispado e à contribuição organizativa e criativa de André da Silva Gomes.

Até 1765 São Paulo vivera administrativamente dependente. A presença dos governadores-gerais, após essa data, o primeiro dos quais o eficiente Dom Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, incentivaria uma vida social mais intensa, integrando razoável cultura musical leiga e disseminando o gosto pela música em geral.

André da Silva Gomes, quarto mestre-de-capela da Sé de São Paulo, nasceu em Lisboa, por volta do mês de dezembro de 1752, conforme consta do assento de seu batismo realizado na freguesia de Santa Engrácia. Era filho de Francisco da Silva Gomes e Ignacia Rosa. A pesquisa sobre as condições de sua formação musical em Lisboa foi extremamente dificultada pela perda quase total da documentação referente ao Seminário da Patriarcal. Sabemos, entretanto, pelo registro de Provisão passada pela Rainha Dona Maria, confirmando André no cargo, em 1790, que o mesmo foi provido “pela ciência da música no canto de órgão e contraponto”.

Em 1797 é nomeado interinamente e depois efetivado no cargo de mestre régio de gramática latina na cidade de São Paulo. Tal função lhe conferia salário de quatrocentos mil réis anuais, dez vezes maior do que o percebido como mestre-de-capela da Sá. Nele se aposenta em 1827.

Integrou, como representante de instrução pública, o Governo Provisório estabelecido em São Paulo a 23 de junho de 1821, em consequência de um movimento popular liberal refletindo a instauração de sistema constitucional em Lisboa, no ano anterior. Tal governo teve como presidente o ex-capitão-general João Carlos de Oeynhausen e, como vice-presidente, José Bonifácio de Andrada e Silva. E nos episódios subsequentes, o mestre-de-capela insere-se na corrente favorável à permanência de Dom Pedro I, em torno do qual polarizavam-se as forças políticas da independência. Após a independência André subscreve as diversas “representações do povo de São Paulo” para a conservação dos Andradas no Ministério do Império recém-proclamado.

André da Silva Gomes faleceu aos 17 de junho de 1844 com 91 anos. Seu corpo, revestido do hábito de São Francisco, foi acompanhado por todos os capelães da Sé em enterro solene. Enquanto viveu foi a personalidade mais destacada da música em São Paulo, pátria adotada de onde nunca se afastou desde que aqui se radicou 70 anos antes.

 

 

O excerto que podemos aqui ouvir é o excerto inicial do seu Stabat Mater, numa gravação histórica de 1980, em LP (ed. BASF), pelo Madrigal e Orquestra São Paulo Pró Música sob a regência do maestro Jonas Christensen. Como solistas, Martha Herr (soprano), Lenice Prioli (contralto), Percio Ribeiro Gomes de Deus (tenor) e Antonio Carlos Ferraz de Campos (baixo).

A partitura do Stabat Mater foi restaurada por Régis Duprat entre 1970 e 1974 a partir de um protótipo manuscrito de Manoel José Gomes, de 1831, depositada no Arquivo Carlos Gomes, de Campinas. Não dispomos de nenhuma referência documental para datar a sua composição. Aqui, igualmente, o estudo de dezenas de manuscritos do autor e análise de inúmeros pormenores do processo composicional conduzem-nos a situar a época de sua composição entre 1785 e 1800.

Sobre o autor

Régis Duprat

Formado pela Universidade de São Paulo e Universidade de Brasília. Na Música foram seus professores Johannes Oelsner (viola de arco e música de câmara), Olivier Toni e Claudio Santoro (Harmonia, Contraponto e Composição). Em Paris, na década de 1960, estudou com Fernand Braudel (História) na Escola de Altos Estudos, Jacques Chailley (Musicologia) no Instituto de Musicologia da Sorbonne e Marcel Beaufils (Estética Musical) no Conservatório de Paris. Especialista em música do período colonial brasileiro, resgatou a obra do mestre-de-capela da Matriz e Sé de São Paulo, André da Silva Gomes, realizando o catálogo de obras, edição de partituras, concertos e gravações de inúmeras obras. A sua contribuição para a história da música popular brasileira abrangeu géneros desde o século XVIII até a ascensão do rádio e da indústria fonográfica. Envolvido com a música contemporânea, foi signatário do Manifesto Música Nova (1963). É membro eleito da Academia Brasileira de Música. Foi Professor Titular da Universidade Estadual Paulista e da Universidade de São Paulo.

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