Geografias : Roma

Rafaela Albuquerque

de A a Z

Amor | É algo inexplicável. Qualquer palavra parece pouco face a um sentimento tão profundo e delicado. Felizmente, tenho a sorte de o poder sentir em pleno, quer profissionalmente, quer pessoalmente. Deveria ser o valor número um da nossa humanidade. .

Barbarina | Todas as personagens devem ter dois lados visíveis, quanto à sua personalidade. A Barbarina é muito interessante, porque tanto aparenta ser aquela rapariga de 14 anos muito fresca e cheia de energia, como, ao mesmo tempo, apresenta já alguma maturidade e melancolia, presentes na ária L’ho perduta (a única ária em modo menor de toda a ópera), onde, de forma subentendida, diz que acabara de perder a sua virgindade.

Canto lírico | O meu meio de expressão. Posso dizer que é das coisas mais difíceis. Mas, quando é bem feito, é mágico.

Disciplina | Essencial para quem quer ser cantor de ópera. Todos os dias é precisa uma disciplina interior muito grande. É muito fácil cantar ópera de uma forma superficial. A disciplina é algo que nos irá distinguir dos outros. O prazer de fazer bem e cada vez melhor.

ESML | A Escola Superior de Música de Lisboa ensinou-me muito. Tive a sorte de poder estudar, trabalhar e partilhar ideias com a professora Sílvia Mateus, uma pessoa cheia de talento e imaginação, quer como encenadora, professora ou cantora, o professor Nuno Vieira de Almeida, com quem partilhei muita música e de quem retenho sempre muitos conselhos e a partilha da sua grande sabedoria: pessoas que nos marcam e palavras que ficam para a vida.

Felicidade | Quando penso em felicidade, penso na sensação de estar em cima de um palco a representar. Um cantor de ópera deve ser também um actor, e poder representar é das coisas que mais alegria me dão.

Gosto O gosto pessoal é muito importante. É aquilo que nos faz diferentes de todos os outros cantores. Não interessa imitar, fazer o mesmo que já foi feito. A magia está em criar. Fazer algo de novo, diferente. Mesmo interpretando a mesma ópera. Em tudo o que faço, é sempre a minha interpretação. Claro que muitos gostam e muitos não gostam. Chama-se Arte.

História da Música Portuguesa | Uma história muito rica e pouco explorada e partilhada. Dou um exemplo: Aqui em Roma, tenho acesso a grandes maestros, encenadores, cantores, orquestras, etc. Uma vez, estávamos a falar de música, a partilhar opiniões, e decidi mostrar Eurico Carrapatoso (um compositor que admiro imenso) e a reacção foi memorável! Todos disseram que a sua música era de grande qualidade e que merecia ser ouvida, tocada por todo o mundo. O mesmo acontece com a maior parte das obras que temos. Em Itália, dão prioridade ao que é italiano, às suas óperas, obras, compositores. Em Portugal, apesar de estarmos bastante melhor, penso que temos ainda um longo caminho a percorrer.

Instinto | Uma das coisas mais importantes, neste mundo da Ópera. Toda a nossa vida é uma aprendizagem. Mas há algo que não se ensina: o instinto, a musicalidade, o verdadeiro sentir. Em cima do palco, acontecem sempre coisas que não esperamos e o instinto é extremamente importante para tudo parecer muito natural. Ou seja, na vida real, agimos, muitas vezes, por instinto. No palco, apesar de termos quase todos os movimentos escritos, o instinto, face a qualquer situação, permitirá que haja uma grande naturalidade no desenrolar da Ópera. Isto falando fisicamente. O instinto musical é ainda mais especial.

Juventude | Uma parte da nossa vida, cheia de energia, força, quando achamos que podemos mudar o mundo. Eu, pessoalmente, gosto muito de viver cada dia como se fosse o último. Tudo o que faço é sempre muito intenso. Talvez daqui a uns anos já não seja assim, mas acho que faz parte e é a altura da minha vida em que posso investir, lutar, fazer, estudar…

Lendas | Adoro lendas! Tudo o que tenha fantasia, imaginação, contos, fascina-me. Uma das primeiras coisas que me contaram, quando cheguei ao Teatro dell’Opera di Roma, foi a lenda de um fantasma que anda pelos corredores e aparece sempre na primeira récita de cada ópera. Ainda não o vi…

Masterclasses | Extremamente importantes para a formação de um cantor. Podemos e devemos aprender e absorver tudo o que pudermos de toda a gente. Todas as pessoas têm algo a ensinar, seja positivo ou negativo. O que fará a nossa carreira, na minha opinião, é a junção de todos os ensinamentos que fomos colectando ao longo da vida.

Não quero… Ser obrigada a mudar de país. O meu sonho era morar em Portugal, mesmo tendo concertos e óperas fora. O meu lugar é, e sempre será, Lisboa.

Ópera |O que mais gosto de fazer na vida. É a minha vida, de facto. Tenho muito respeito pela Ópera e espero poder servi-la da melhor forma.

Pastel de nata | Muitas saudades! De Belém, do sabor, do cheiro… de tudo! Quando penso em Pastel de Nata só me vem a palavra Saudade à cabeça.

Quero… | Ser feliz, cantar, amar, rir.

Razões de viver | Família, o melhor namorado do mundo, Amigos, a Ópera, a minha gata linda! Tenho mais do que razões de viver!

Saudades | É um sentimento muito forte e muito presente nesta fase da minha vida. Tento lidar com isso da melhor forma possível, mas não posso dizer que é fácil. Estando no Teatro dell’Opera com contrato a tempo inteiro, não posso ir a Lisboa tantas vezes como queria. Mesmo no Natal, é complicado. Por exemplo, este ano acabo o Rigoletto a 18 de Dezembro, e a 27 de Dezembro começam os ensaios para a Traviata, em Janeiro.

Teatro dell’Opera di Roma | Um teatro lindo! Cheio de história! E nunca me vou esquecer de que foi o primeiro teatro de ópera a dar-me a oportunidade de cantar e de fazer aquilo de que gosto, investindo, ao mesmo tempo, na minha formação na Fabbrica Young Artist Program. A Fabbrica dá-nos a possibilidade de crescer, quer a nível profissional, quer a nível pessoal. O contacto diário com a vida no teatro é incrível e algo que só se aprende estando lá, vivendo aquele dia-a-dia ansioso, mas ao mesmo tempo fascinante.

Urgências Mudar a visão das pessoas, em Portugal, em relação à ópera. Parece-me uma coisa bastante urgente. Estando em Itália, deparo com a grande diferença de investimento, de respeito existente pela Música Clássica, em geral. Entristece-me.

Vitória | Todas as vitórias são importantes. Mas só as alcançamos trabalhando, discutindo, criando: e, na minha opinião, as derrotas são tão ou mais importantes!

Xaile | O xaile português, do Fado. Um símbolo muito nosso. Tradições que representam o nosso país e que, felizmente, se mantêm. Respeito muito o Fado e tenho muito orgulho em ser portuguesa.

Zerlina | É a personagem mais importante, até agora, que fiz no Teatro dell’Opera di Roma. A próxima será em Setembro de 2019 e já me sinto ansiosa! Agora estou a fazer a Barbarina com o famoso encenador Graham Vick e será o mesmo a fazer o Don Giovanni, onde representarei a Zerlina. Trabalhar com Vick é uma grande honra. Todos os dias aprendes qualquer coisa nova: cenicamente, o texto, a caracterização. O trabalho que fizemos com a Barbarina foi muito interessante e mal posso esperar para aprofundar ainda mais a personagem de Zerlina. Será, seguramente, uma personagem que ficará no meu coração.


Rafaela Albuquerque iniciou os estudos na Academia de Música de Santa Cecília aos 4 anos de idade. Completou o ensino secundário em Canto e, simultaneamente, o 8.º grau de violino. Na Escola Superior de Música de Lisboa, termina a licenciatura em Canto, em 2014.

Protagonizou “Dido”, em Dido e Eneias de Purcell, “Donna Anna” em Don Giovanni e “Fiordiligi” em Così fan tutte de Mozart, com encenação de Sílvia Mateus (2013-2017). Em colaboração com a Orquestra Gulbenkian, protagonizou “Sofia” em Il Signor Bruschino de Rossini e “Lauretta” em Gianni Schicchi de Puccini, com encenação de Claudio Desderi.

Foi a melhor classificada na categoria Canto, no concurso Prémio Jovens Músicos, em 2015. Pertence ao ENOA (Gulbenkian) desde Fevereiro de 2015.

Em 2017, foi seleccionada para o Young Artist Program do Teatro dell’Opera di Roma, onde actualmente trabalha como soprano solista. Para o Teatro dell’Opera di Roma, cantou os papéis de Zerlina em Don Giovanni, Annina em La Traviata, Musetta em La Bohème e Barbarina em Le Nozze di Figaro, esta última numa encenação de Graham Vick.

Participou em diversas masterclasses, com June Anderson, Renata Lamanda, Lucrezia Messa, Jessica Pratt, Claudio Desderi, Cecilia Gasdia, Roberto Abbado, Jordi Bernacer, Luca Salsi e Stefano Montanari.

Sobre o autor

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Luzia Rocha possui os graus de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. É investigadora no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. É membro do ‘Study Group on Musical Iconography’ e do ‘Study Group for Latin America and the Caribbean’ (ARLAC-IMS), ambos da International Musicological Society. É colaboradora na Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no Grupo de Iconografia Musical da Universidad Complutense de Madrid/AEDOM. Trabalhou como docente na Academia de Amadores de Música, Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), Instituto Piaget (ISEIT de Almada, também como Coordenadora da Licenciatura em Música) e na Academia Nacional Superior de Orquestra e colabora actualmente como docente na Licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada. Tem participado como oradora, por convite, em conferências nacionais e internacionais e publicado artigos em periódicos com arbitragem científica. É autora do livro "Ópera e Caricatura: O Teatro de S. Carlos na obra de Rafael Bordalo Pinheiro".