A História da Música não seria a mesma sem Domenico Scarlatti, que celebra 330 anos em Outubro e que decidimos homenagear neste 12.º número da glosas impressa. É o primeiro compositor barroco a ser escolhido como capa e, dos compositores barrocos que viveram em Portugal, certamente o mais famoso. A singularidade da sua estada no nosso país foi já amplamente discutida e explorada, e mais ainda os traços gerais dos seus notáveis percursos artístico e biográfico. Não obstante, este breve dossiê evocativo procura despoletar um novo olhar de aproximação ao compositor, ao Portugal seu contemporâneo, ao barroco joanino. Um retrato das colecções da Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça – a única pintura a óleo retratando o compositor, hoje conhecida no mundo inteiro –, foi o ponto de partida para novas breves reflexões e para uma entrevista a Cristiano Holtz, cravista que tem interpretado as partituras do compositor homenageado com especial dedicação. Para além de Scarlatti, dois contributos em torno da música no período colonial brasileiro permitirão ainda lançar a discussão sobre a construção do cânone ocidental e sobre a (in)existência do património musical lusófono no nosso imaginário colectivo.

Num salto até à música da nossa contemporaneidade, entrevistámos o compositor Vasco Mendonça e o violoncelista Filipe Quaresma e reservámos algumas páginas para o necessário e imprescindível tributo a Nella Maissa (1914-2014), pianista incansável na divulgação de literatura para piano de compositores portugueses, e ao realizador Manoel de Oliveira (1908-2015), surpresa constante no que à sensibilidade musical das suas criações diz respeito.

Na rubrica “Compositores a descobrir”, procurámos despertar a curiosidade para dois nomes hoje caídos no quase completo esquecimento: Francisco Eduardo da Costa (1819-1850) e José Siqueira (1907-1985). E este número recebe a estreia de duas novas rubricas: “Às escuras (em Portugal)”, que será muito do agrado dos amantes do jazz, e “Tesouros instrumentais”, espaço de divulgação da valiosa colecção organológica do Museu da Música – ou, aliás, Museu Nacional da Música, segundo as recentíssimas e auspiciosas notícias que assim nos dão conta da conquista de um novo e merecido estatuto institucional e até simbólico.

Agora com uma equipa ainda maior – a glosas foi neste número foi concebida, pela primeira vez, segundo um plano programático desenvolvido pelas novas direcções departamentais, lideradas por Luzia Rocha e José Carlos Araújo (Portugal), Maria Alice Volpe, em representação da Academia Brasileira de Música (Brasil), e Jorge Castro Ribeiro (África e Ásia) – e com um novíssimo espaço em-linha – consultável em www.glosas.mpmp.pt, aberto à comunidade e alimentado regularmente com conteúdos diversificados –, a revista glosas continua a crescer e a instigar à descoberta. Junte-se a nós!

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Post Scriptum

Ouvimos dizer que o AO90, vulgo “acordo ortográfico”, é legalmente obrigatório a partir de 13 de Maio, data em que – coincidência irónica! – se celebram as Aparições de Fátima. Dando-se o compungido caso de nem os autores da revista nem os leitores que nos têm contactado acreditarem em milagres ortográficos, e não compreendendo, de resto, nem os pressupostos nem os objectivos de tão atabalhoadas e cientificamente desastradas directivas, a Direcção-geral da revista sente-se intelectual e moralmente coagida a ignorá-lo na sua qualidade impositiva e totalitária e a primar, sempre e cada vez mais, pela enriquecedora, gratificante e admirável diversidade da Língua Portuguesa.


 

GLOSAS 12 | Clique aqui para comprar a revista .
Maio de 2015
96 páginas
Dep. legal 310097/10
ISSN 2182-1380

 


 

 

LANÇAMENTOS

 

  • 29 Maio, 21h30 | Casa dos Patudos, Alpiarça | apresentação de Luzia Rocha, Edward Luiz Ayres d’Abreu e Mário Vieira de Carvalho, seguida de concerto com The Bells Brass Ensemble e BASC / Quarteto de Clarinetes
  • 6 de Junho, 18h | Museu da Música Portuguesa (Monte Estoril) | apresentação de José Carlos Araújo, seguida de concerto de Duarte Pereira Martins (piano)
  • 9 de Junho, 19h | Concerto Aberto — Antena 2 / Instituto Superior de Economia e Gestão | apresentação e concerto de Duarte Pereira Martins (piano) e José Carlos Araújo (cravo)
  • 12 de Junho, 15h | Conservatório de Música do Porto | apresentação de Duarte Pereira Martins, seguida de concerto com professores do Conservatório
  • 14 de Junho, 21h | Academia de Música de Tavira | apresentação de Luzia Rocha, seguida de concerto de Isobel Barton (soprano) e Luís Conceição (piano)
  • 16 de Junho, 19h |  Colégio Mateus d’Aranda, Departamento de Música da Escola de Artes da Universidade de Évora| apresentação de Vanda de Sá e Luís Henriques, seguida de concerto de Duarte Pereira Martins (piano) e José Carlos Araújo (cravo)
  • 26 de Junho, 18h | Colóquio Internacional ‘A Serenata e a Festa Teatral nas Cortes europeias do séc. XVIII’ — Palácio Nacional de Queluz | apresentação de José Carlos Araújo, seguida de concerto com Divino Sospiro (estreia moderna de L’Isola disabitata de David Perez)
  • 27 de Junho, 18h | Salão Nobre da Câmara Municipal do Funchal | apresentação de Edward Ayres d’Abreu e Carlos Gonçalves seguida de concerto com Funchal Baroque Ensemble

 

Sobre o autor

Edward Ayres d'Abreu

Concluiu o Curso Complementar de Piano no Conservatório Nacional. É licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou sob orientação de Sérgio Azevedo e de António Pinho Vargas. Durante um ano, em programa Erasmus, frequentou o Conservatório Nacional Superior de Paris (CNSMDP), estudando com Gérard Pesson. É Mestre em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e doutorando em Musicologia Histórica enquanto bolseiro da FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É membro fundador e Presidente da Direcção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, tendo sido Director da revista 'Glosas' nos seus primeiros quinze números.

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