No dia 15 de maio, realizou-se na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) o III Forum Gestão Orquestral e Compromisso Social. O forum visou reunir diversos representantes culturais ligados à música de concerto em discussões sobre questões administrativas, artísticas e de responsabilidade social.

A programação iniciou-se com a mesa-redonda Curadoria Musical, com a participação da maestrina Mônica Giardini (curadora da série Música na Biblioteca, no Memorial da América Latina), de João Marcos Coelho (curador dos concertos de música contemporânea no Espaço Cultural CPFL) e do maestro Júlio Medaglia (responsável pelo programa Prelúdio, na TV Cultura). Giardini e Coelho destacaram a importância de acolher o público e fazer com que se sinta participante, seja por meio do incentivo ao contato direto com os artistas ou de abordagens que promovam a relação da música com outras artes ou temáticas. Medaglia alertou para a necessidade da ampliação do universo sonoro no ensino escolar básico.

Uma instigante e provocativa palestra foi-nos apresentada por Maria Elisa Pasqualini, coordenadora do Arquivo Artístico do Theatro Municipal de São Paulo. Ao abordar as questões legais envolvidas no uso de partituras, apontou as grandes responsabilidades dos arquivistas nos processos de negociação com editoras, diálogo com maestros e diretores, organização, manutenção e disponibilização do material para os músicos, mostrando a atribulada rotina de profissionais pouquíssimo valorizados em um sistema carente de formação especializada na área.

Pela tarde, tivemos a mesa Divulgação da música de concerto, com Nelson Kunze (diretor da revista Concerto), Rebello Alvarenga (idealizador do portal Música e Sociedade) e Mariana Garcia (analista de comunicação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais). Kunze destacou a relação entre a atividade musical e a crítica como uma via de mão dupla. Mariana comentou sobre os diferentes programas da orquestra, destacando as ferramentas didáticas e de divulgação nas plataformas online. Alvarenga iniciou sua fala afirmando que o século XIX, com as noções de gênio e autonomia da música, está agora “cobrando o preço pelo que ele próprio criou”: o distanciamento do público, apesar da manutenção de um discurso de senso comum sobre a “grande arte”. Comentando as atividades de seu portal, atentou para a importância da seriedade e qualidade de conteúdo e para a necessidade de, por vezes, se temperar a abordagem com irreverência e humor.

Na última mesa, Os novos públicos da música de concerto, Vânia Pajares, diretora e regente de teatro musical, afirmou que o afastamento do público dos teatros é um problema de acesso e não de gosto. Abel Rocha contou sua experiência como regente e diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Santo André, apresentando iniciativas de inserção social, como a realização de programas com grupos menores em diferentes espaços da cidade e “concertos sensoriais” para deficientes auditivos.

Um importantíssimo ponto aqui levantado foi a necessidade de se abordar questões de gestão no currículo universitário de música, preso a um modelo anacrônico de formação de compositores e intérpretes. Feliz iniciativa nesse sentido; o forum merece e precisa ser mais divulgado entre os músicos em formação.

Sobre o autor

Guilhermina Lopes

Guilhermina Lopes é doutora em música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Brasil, com tese sobre a obra musical de temática brasileira de Fernando Lopes-Graça. Realizou um estágio de pesquisa PDSE-CAPES entre 2015 e 2016 sob a coorientação de Mário Vieira de Carvalho. É actualmente investigadora colaboradora do CESEM-UNL, membro do Grupo de Investigação Música, Teoria Crítica e Comunicação, participante do projecto temático “O Musicar Local” (FAPESP – UNICAMP/USP) e segunda-secretária da Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET), gestão 2017-2019. Participou de diversos eventos académicos nacionais e internacionais, tendo apresentado comunicações em Portugal, Brasil, Chile e Espanha. Dedica-se também ao estudo do canto lírico e integra o Coro Contemporâneo de Campinas, grupo ligado à sua universidade de origem.

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