José Carlos Araújo | entrevista e transcrição
Catarina Furtado | fotografia


A entrevista teve lugar a 5 de Dezembro de 2015, por ocasião do concerto de lançamento do CD e documentário José Luis González Uriol in Lisbon: Iberian Organ (Arché Music, 2015), na Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. A Glosas agradece a Tiago Manuel da Hora todas as diligências que possibilitaram a sua realização.


 

 

Senhor Professor José Luis Uriol, muito obrigado pelo tempo de que dispôs para estar connosco hoje. É um grande gosto reencontrá-lo, aqui, em São Vicente de Fora!

Muito obrigado eu!

Eu devo, em primeiro lugar, referir este disco que aqui gravou e que hoje é apresentado, acompanhado de um documentário: José Luis González Uriol in Lisbon

Bom, isto foi uma espécie de milagre… e de reencontro, também, com a vida que vivemos naquela época, ao lado do Professor Santiago Kastner e do meu grande amigo Joaquim Simões da Hora. Aconteceu que as fitas e todo o material da gravação se tinham perdido; mas, finalmente, após muitos anos (desde 1994), encontraram-se e foi possível fazer um trabalho excelente com aquelas gravações, que tiveram lugar justamente após a inauguração deste órgão monumental – um órgão que, claro, merecia ter uma memória para a posteridade, para que fosse possível ouvir, mais tarde, todas as faces da sonoridade deste magnífico instrumento (1).

E que aspectos determinaram a selecção do repertório que foi objecto dessa gravação?

Esse repertório foi constituído sobretudo por música ibérica, mas também com a inclusão de algumas obras da escola organística italiana, por uma razão simples: para que fosse possível ver a ductilidade deste órgão, a sua flexibilidade – que não apenas é um órgão especificamente ibérico, que é evidentemente, mas que, não se tratando de um instrumento que possa responder exclusivamente aos interesses da música ibérica, há também outra música, como é o caso da italiana, que cabe perfeitamente na estética deste órgão magnífico.

 

 

Nesse aspecto, Senhor Professor, não posso deixar de lhe perguntar, sendo o órgão um instrumento sempre único, em todos os casos – e todos conhecemos os seus numerosos registos, em tantos instrumentos tão diferentes como importantes –, como é para um organista que tem a possibilidade de visitar instrumentos que podemos ouvir actualmente num estado próximo ao original, regressar sempre, vinte, dez anos, um ano depois, a um monumento como este ou como outros?

Pois isso é simplesmente, digo-te já, uma espécie de milagre tornado possível pela arte de organeiros que sabem exactamente chegar à alma do instrumento, quer do ponto de vista tímbrico, quer do ponto de vista mecânico, claro; mas é também uma enorme emoção. A primeira vez que pomos as mãos num novo instrumento é emocionante; isto, claro, em geral, porque por vezes também não responde: nós, homens, somos imperfeitos e não se chega à perfeição, pelo que acontece haver instrumentos que não foram bem elaborados, em que não houve esse contacto, essa relação entre organeiro e instrumento como deveria… mas, realmente, é emocionante, não há dúvida; é o que posso dizer-te. Chegar a descobrir algo que amamos, com que estamos numa relação constante, como esta música antiga, esta música que nos transporta a outras épocas, e encontrá-lo através dos timbres de um instrumento como o órgão é emocionante.

Eu gostaria ainda, a propósito de outro projecto que acaba de concretizar – uma nova gravação dedicada às sonatas de Carlos de Seixas –, de perguntar como é, para um intérprete como o Senhor, justamente uma das maiores autoridades no mundo sobre a música antiga ibérica, regressar, uma e outra vez, à música de Seixas.

Volto a dizer-te também que é muito emocionante. Eu tenho para com Carlos de Seixas uma devoção muito especial. Há muitos anos, gravei aqui, precisamente com Joaquim, o meu primeiro disco de Seixas (2). Fiz um segundo, em Coimbra (3), e este terceiro (4), com os dois concertos, num novo instrumento, que é uma cópia fiel do cravo Antunes de 1785 que está actualmente no Reino Unido. Isto é, para mim, voltar mais uma vez às origens da música de Seixas. Tenho-lhe muita devoção, pois é um compositor realmente muito sensível e muito do nosso gosto, do Sul, o que é também precisamente aquilo de que mais gosto, na nossa área, e a que me dedico; descobrir toda esta nossa música. Regressar à obra de Seixas é sempre muito emocionante e de grande interesse.

E como vê esta música de um autor que surge quase sem sinal e desaparece também subitamente, aos 38 anos, antes do auge expectável da sua criação?

Verdadeiramente… este foi, não há dúvida, o grande labor do meu professor Santiago Kastner, que investigou toda a música portuguesa da época de Quinhentos até Setecentos, e que o fez, ademais, com paciência e arte absolutas, com um grande amor para com esta música, a que dedicou toda a sua vida. Foi a descoberta mais formidável de Macário Santiago Kastner, que culminou com a primeira edição completa das sonatas de Seixas. A partir daí, o que nós fazemos é reconstituir constantemente o extraordinário universo sonoro de Seixas, que é muito próximo de nós, muito próximo do mundo do Sul, e onde se ouve frequentemente o eco da música popular, não apenas de Portugal, mas de Espanha também.

Senhor Professor José Luis Uriol, tenho a agradecer-lhe muitíssimo o tempo que nos dedicou antes do seu ensaio e a desejar-lhe as maiores felicidades para este recital, que todos tanto aguardamos!

Sou eu quem agradece. Para mim foi um grande prazer.

 

 


 

1) O órgão histórico da Igreja de São Vicente de Fora foi construído em 1765 por João Fontanes de Maqueira. Considerado um dos mais importantes órgãos históricos da Península Ibérica, quer pela sua monumentalidade, quer pela excepcional qualidade da manufactura, quer ainda por ter chegado ao século XX preservando todas as características da construção original, foi objecto de um importantíssimo trabalho de restauro da responsabilidade dos organeiros Claudio Rainolter e Christine Vetter, com a supervisão de Joaquim Simões da Hora, nos anos de 1993 1994, por ocasião da organização da Capital Europeia da Cultura em Lisboa (1994). (Nota do transcr.)

2) Carlos Seixas – Sonatas para cravo; José Luis Uriol. Strauss/Portugalsom, 1988. A gravação decorreu em 1981, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. (Nota do transcr.)

3) Carlos Seixas – Concerto / Sonatas; José Luis Uriol, Segréis de Lisboa, Manuel Morais (direcção). Portugaler, 2002 (nesta gravação é utilizado o cravo Antunes de 1758, actualmente preservado na colecção instrumental do Museu Nacional da Música e classificado como Tesouro Nacional). (Nota do transcr.)

4) Carlos Seixas – Harpsichord Concertos & Sonatas; José Luis González Uriol, Ensemble Arcomelo. La Bottega Discantica, 2015. (Nota do transcr.)

 

Sobre o autor

José Carlos Araújo

Estudou cravo, órgão e música antiga em Lisboa, exercendo intensa actividade, quer a solo, quer com agrupamentos de música antiga e orquestras. Licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou Filologia Clássica e em cujo Centro de Estudos Clássicos é investigador. Prepara actualmente a primeira tradução portuguesa das Cartas de Plínio. Integra a Direcção da revista 'Glosas'.

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