De Leeds para Lisboa: chegou ao Teatro Nacional de São Carlos a produção inglesa de Madama Butterfly, concebida pela Opera North, agora com recurso a um elenco maioritariamente português à excepção dos principais Cio-Cio-San, interpretada por Hye-Youn Lee, soprano sul-coreana, e F. B. Pinkerton, defendido por Antonio Gandía, tenor espanhol.

Ambos excelentes nos seus registos agudos, passando sobre a orquestra com clareza e fraseando correcta e emotivamente (mais a soprano do que o tenor), ofereceram ao público presente vários momentos de grande beleza. Das passagens nos registos graves destes cantores (e por vezes até nos registos médios) foi-nos porém difícil – se não impossível – admirar a prestação: praticamente não se ouviram. Onde terá ficado, dentre tantos outros momentos de Hye-Youn Lee, o colérico “o t’uccido” quando Cio-Cio-San se insurge contra o cepticismo de Suzuki? Ou a nostálgica profundidade de “i nomi che mi dava al suo venire” quando sonha com o regresso de Pinkerton e lembra o seu passado? Ou a definitiva recusa face ao já desanimado Yamadori em “Il guaio è che non voglio…”? Antonio Gandía não mostrou menos dificuldades, especialmente confrangedoras quando cantava junto de Luís Rodrigues – Sharpless, o cônsul –, momentos em que o abismo de poder e uniformidade vocal entre os dois se revelou de forma flagrante: o primeiro, salvando-se apenas nos seus agudos, o segundo enchendo o teatro em todas as solenes sílabas de todo o seu texto soberbamente cantado (arrepiante o Sarebbe gran peccato le lievi ali strappar e desolar forse un credulo cuor…). Será isto, contudo, defeito apenas dos cantores? Lá iremos.

Regressando ainda a Hye-Youn Lee, destaquemos, em especial, como foi absolutamente convincente sobretudo no segundo e terceiro actos, por exemplo quando apresentou o seu filho pela primeira vez ou quando dele se despediu na hora derradeira: Amore, amore mio, fior di giglio e di rosa… A profundidade psicológica e a destreza dramática da soprano debutante no teatro lírico nacional não foi, todavia, constante. Excelente na exposição da relação afectiva com o seu filho, razoável no envolvimento empático com outros personagens, falhou na subtilização de um libreto que pedia mais gesto, mais corpo, mais perspicácia. Por outras palavras, o libreto ele-mesmo parecia ter mais energia, mais ironia, mais graça e mais elã do que o de facto conseguido em palco, como quando procurou um pouco mais do que ingenuidade ao mostrar os “oggetti da donne” e ao público não chegou senão um momento de fait-divers. Ou como quando, dirigindo-se a Sharpless, na presença de Goro, e iniciando um desabafo (Egli osò…) subitamente sucumbe à urgência de uma resoluta curiosidade (No… prima rispondete alla dimanda mia…) sem que, entre um estado e outro, houvesse uma acção gestual, corporal, cénica que o sublinhasse expressivamente. Definitivamente frágeis foram, cenicamente, o desmaio do segundo acto (Oh, mi fate tanto male, tanto male, tanto, tanto!) ou a queda de costas do terceiro acto… Não se terá apercebido disto a encenadora Maxine Braham?

As boas “surpresas” da noite foram enfim Cátia Moreso como Suzuki e o já referido Luís Rodrigues como Sharpless, este último irrepreensível na tranquila maturidade e segurança com que incarnou o personagem, fora a já aplaudida qualidade vocal, que em nenhum momento frustrou as muito altas expectativas. O mesmo para Suzuki, com redobrado aplauso, pela constância, precisão e projecção vocal e, sobretudo, pela presença impactante e apaixonada comunicabilidade com que se dirigiu à plateia. Impecáveis a prece com que abriu o segundo acto, a força com que dominou a cena quando entra em palco arrastando Goro (Vespa! Sapo maldito!), o desespero com que se debateu em conhecendo a esposa americana (Anime sante degli avi!), o laconismo (e com que cortante justeza!) com que respondia às perguntas de Butterfly sobre o que se estava a passar depois de cumprida a sinistra vigília… ou mesmo a doçura com que aveludadamente acompanhou Cio-Cio-San no dueto das flores: Rose al varco della soglia… Tutta la primavera voglio che olezzi qui

No que concerne aos restantes cantores, Mário João Alves foi um Goro bem conseguido quanto à construção do personagem como “parasita”, Marco Alves dos Santos um Príncipe Yamadori de uma nobreza vocal irrepreensível, Mário Redondo um Tio Bonzo implacavelmente enérgico, Carolina Figueiredo uma Kate Pinkerton com presença delicada e vocalmente excelente, João Oliveira igualmente correctíssimo como Comissário Imperial, e os demais secundários foram perfeitamente proficientes. Sublinhamos a muito boa prestação do coro, como aliás vem sendo hábito nas últimas produções.

 

 

Encenação, cenografia e desenho de luz: impactantes alguns gestos e quadros como o arrancar a bandeira, o florir o chão (muito graciosa Hye-Youn Lee neste percurso) e o anoitecer no fim do segundo acto, quando a casa se abre para a paisagem nocturnal, Suzuki trazendo uma luz ténue em quebra-luz vermelho, que elegantemente dialoga com o vermelho das velas dos dois barquinhos em miniatura com que brincará o filho de Pinkerton, e que por outro lado evoca o sangue por derramar ao fim do terceiro acto… De resto, porém, pouco inventivo e muito insosso o remanescente deste espectáculo, salvando-se a parcimoniosa cenografia e o frio desenho de luz de pior impressão graças talvez ao minimamente suficiente colorido do guarda-roupa.

Assunto sério: a suposta direcção musical de Domenico Longo. Se Hye-Youn Lee e Antonio Gandía não se ouviram em vários momentos tal se deveu, seguramente, à inexistência de maestro. Abandonados a seu bel-prazer, cantores e orquestra constantemente se desencontravam em tudo quanto fossem entradas, fins de frase ou melodias em uníssono, mesmo em tempo regular. Não se salvou sequer Un bel dì, vedremo levarsi un fil di fumo dall’estremo confin del mare, que pela excelência da soprano correu maravilhosamente bem mas a que a falta de um regente comprometeu a mínima proficiência do acompanhamento orquestral. Descontrolada, ora a orquestra se sobrepunha aos intervenientes (pobre Tio Bonzo, já agora, ou pobre Cio-Cio-San que não logrou sequer fazer passar a verve contra a picardia de Goro em appena F. B. Pinkerton fu in mare mi venne ad assediare com ciarle e con presenti per ridarmi ora questo, or quel marito…), ora caía numa tibieza confrangedora como quando se pretenderia de uma candura e delicadeza insuperáveis no célebre dueto de amor do fim do primeiro acto, Vogliatemi bene, un bene piccolino…, ou como quando o magnífico coro em bocca chiusa do terceiro acto se viu acompanhado pelos pizzicati mais desleixados de que tenho memória – fora angustiantes problemas de afinação e a total ausência de requinte tímbrico e polifónico nesta que é, a este respeito, uma partitura de ímpar sofisticação.

Claro que Madama Butterfly, drama pungente e arrebatador, leva sempre às lágrimas. Como ontem levou. Nesta produção, porém, para tal catarse concorreram sobretudo Cátia Moreso, Luís Rodrigues, Luigi Illica, Giuseppe Giacosa e Giacomo Puccini. Não deixa por isso de ser irónica a ideia de que “Madam[a] Butterfly no São Carlos ajuda a lançar cantores portugueses”, como anunciou uma manchete da Rádio Renascença. Neste caso diremos antes que Madama Butterfly, no São Carlos, e nesta produção, “ajuda” outrossim a lançar um maestro italiano. Uma inexcedível benemerência parece aliás ter vindo a pautar a matriz diplomática e as agendas da generalidade dos programadores lusitanos…

 

MADAMA BUTTERFLY
Giacomo Puccini (1858–1924)
Libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa

Teatro Nacional de São Carlos
20, 22, 24, 26, 28 e 30 de Outubro às 20h00  e 1 de Novembro às 16h00

Direcção musical
Domenico Longo

Encenação
Maxine Braham

Produção original
Tim Albery

Cenografia
Hildegard Bechtler

Figurinos
Ana Jebens

Madama Butterfly (Cio-Cio-San)
Hye-Youn Lee

Suzuki
Cátia Moreso

Kate Pinkerton
Carolina Figueiredo

F. B. Pinkerton
Antonio Gandia

Sharpless
Luís Rodrigues

Goro
Mário João Alves

Princípe Yamadori
Marco Alves dos Santos

Tio Bonzo
Mário Redondo

Comissário Imperial
João Oliveira

Um Notário
Costa Campos

Yakuside
Nuno Cardoso

Mãe de Cio-Cio San
Ana Serôdio

Tia de Cio-Cio San
Ana Luísa Cardoso

Prima de Cio-Cio San
Maria do Anjo Albuquerque

Dolore (Filho de Cio-Cio San)
Vitória Desidério (20, 24, 28 de Outubro e 1 de Novembro)
Matilde Penedo (22, 26 e 30 de Outubro)

Produção
Opera North

Madama Butterfly — ossia Il Trionfo di Suzuki e Sharpless
Solistas (Cátia Moreso e Luís Rodrigues)
Solistas (restantes)
Direcção
Coro
Orquestra
Encenação, cenografia e luz
3.7Pontuação geral

Sobre o autor

Edward Ayres d'Abreu

Concluiu o Curso Complementar de Piano no Conservatório Nacional. É licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou sob orientação de Sérgio Azevedo e de António Pinho Vargas. Durante um ano, em programa Erasmus, frequentou o Conservatório Nacional Superior de Paris (CNSMDP), estudando com Gérard Pesson. É Mestre em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e doutorando em Musicologia Histórica enquanto bolseiro da FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É membro fundador e Presidente da Direcção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, tendo sido Director da revista 'Glosas' nos seus primeiros quinze números.

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