O palacete de Michel’Angelo Lambertini (projetado em 1901 pelo arquiteto Nicola Bigaglia), para além da sua beleza arquitetónica, que lhe valeu o prémio Valmor em 1904, era um espaço de confluência de diferentes artes e de grandes personalidades daquele tempo. Alfredo Pinto Sacavém, no livro Horas d’Arte de 1913, descreve o palacete da Avenida da Liberdade, em Lisboa, como um “verdadeiro museu de preciosidades”. Apesar das transformações sofridas no seu interior ao longo dos tempos, podemos imaginar, a partir de registos fotográficos, o ambiente da casa de uma das personalidades que mais marcou a musicologia portuguesa.

Michel’Angelo Lambertini (1862-1920) era musicólogo, pianista, compositor, musicógrafo, ocupando-se de muitas outras atividades relacionadas com a música. Com isto, não é de estranhar que a sala de música da sua casa fosse um dos espaços de maior destaque. Antes de analisar em pormenor o teto desta sala, para o qual foi encomendado um óleo sobre tela ao pintor José Malhoa, é necessário perceber o triângulo social entre Lambertini, José Relvas e José Malhoa.

José Relvas (1858-1929), político responsável pela proclamação da República a 5 de outubro de 1910, era também melómano, músico amador e colecionador de arte. Chegou a fundar, juntamente com Lambertini, José da Costa Carneiro, D. Luiz da Cunha Menezes e Cecil Mackee, a Sociedade de Música de Câmara, em 1899, cujo primeiro concerto contou, inclusive, com a participação de todos. Apoiou Lambertini na sua caminhada pela formação de um Museu Instrumental na capital, cuja coleção é ainda hoje visível no Museu Nacional da Música. Para além disso, é sabido que um dos compositores preferidos do político era Beethoven. Pois bem, a sala de música do palacete é claramente dedicada a este compositor, por indicação do próprio José Relvas. Por outro lado, a sua relação de amizade com José Malhoa estabelecia-se não só pela admiração mútua como também pela partilha de ideologias e estéticas. Numa das várias visitas de Malhoa à Casa-Museu dos Patudos em Alpiarça (residência de José Relvas), o pintor chegou a eternizar a vertente violinística do político, em 1898.

 

Pintura a óleo de José Malhoa -“Tecto da sala de música da Casa Lambertini”. Fotografia: Joana Santos, 2021.

Fotografia do quadro no periódico Ilustração Portuguesa, 11 de junho de 1906.

 

Posto isto, Lambertini encomenda a Malhoa inúmeros quadros para compor a sua sala de música, entre os quais este óleo sobre tela para o teto (também designado como “O Quarteto de Beethoven” ou “Alegoria à Música”). Na decoração da sala há também outras obras alusivas ao tema: “Apoteose a Beethoven” e “A música com as suas harmonias atrai a brisa e os murmúrios da noite que escutam enlevadas a 7ª Sinfonia de Beethoven” (ambos de 1903). Nuno Saldanha, na sua tese de doutoramento (“José Vital Branco Malhoa (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra”), mostra como se deram discussões acerca destas pinturas, através de cartas trocadas entre Lambertini, Relvas e Malhoa.

Na pintura do teto, o quarteto é posicionado num local de destaque, em cima de uma escadaria, como se se tratasse de um pedestal. Ao lado dessa escadaria encontra-se um vaso de flores pousado num manto vermelho. Os músicos, colocados em círculo (e não em meia-lua tal como seria de esperar) tocam com uma estante no seu centro (na qual também está pousada uma partitura). Esta disposição dá-nos a sensação de que os músicos não estão a tocar para um público, mas sim para o divino, transparecendo a beleza da música através das suas expressões faciais.

 

Pormenor do quarteto.

 

Apesar de nem todos os instrumentos serem visíveis, conseguimos supor que estamos perante a disposição tradicional de um quarteto de cordas (dois violinos, uma violeta e um violoncelo). Por sua vez, estes instrumentos encontram-se bem representados, evidenciando características já estabelecidas nos finais do século XVIII e inícios do XIX. Para além disso, os músicos, cuja indumentária nos remete também para o século XVIII, transportam-nos para a época do compositor vienense. Ao lado do quarteto e nas escadas do pedestal também é possível observar uma caixa de um instrumento (de violino ou violeta) e um livro aberto.

Já num plano superior, Malhoa representou duas musas à direita e outras duas à esquerda, sendo que as segundas se encontram num nível ainda mais elevado do que as anteriores. Nas duas figuras à direita, Malhoa faz uma alegoria à Música (onde a musa segura várias trombetas) e à Pintura (que por sua vez segura vários pincéis). Relativamente a esta última figura, José Malhoa escreve numa carta a José Relvas: “vêja os estudosinhos que tenho feito pª a decoração Lambertini, sobre tudo dois carvões, sendo um, d’uma figurinha representando a Pintura que eu colloquei ao lado da musica, ouvindo o que o quarteto executa”. Destaco, ainda, a figura feminina com asas e com a trombeta em posição de tocar que poderá estar associada à Fama.

 

Estudos para o teto da sala de música da Casa Lambertini. Dois estudos das musas registados no Catálogo da Exposição de obras de José Malhoa, no Rio de Janeiro em 1906, mas cujo paradeiro se desconhece. Estudo de uma violoncelista, hoje na Casa-Museu dos Patudos. Estudo de uma violoncelista e de um violinista, hoje no Museu José Malhoa.

 

O aumento da claridade à medida que nos aproximamos do céu é evidente, tanto que nos é dada a sensação de haver um afastamento de um pano avermelhado e das nuvens. Desta forma, há uma aproximação do quarteto ao divino.

Por fim, poderá ser possível estabelecer uma ligação entre a violoncelista do quadro com a famosa Guilhermina Suggia, uma vez que é sabido haver uma amizade entre José Relvas e a violoncelista portuense, amizade esta registada na fotografia da violoncelista assinada e dedicada ao político (exposta na Casa-Museu dos Patudos).

A obra do teto da sala de música do palacete de Lambertini está hoje exposta no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, tratando-se de uma das várias obras de grandes dimensões que o pintor compôs.

 


Joana Santos assina o “Música entre Artes #10” a convite de Luzia Rocha.

Sobre o autor

Avatar photo

Joana Santos, natural de Barcelos, completou o Curso Secundário de Música no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, obtendo aí o 8.º grau em Piano, com os prémios de mérito académico e artístico. Actualmente, frequenta a Licenciatura em Ciências Musicais na NOVA, percurso no qual se tem interessado pela investigação em música antiga. Tem contribuindo como voluntária e, posteriormente, como estagiária, no Grupo de Estudos de Música Antiga do CESEM.