No passado dia 5 de Outubro, a Sé Catedral de Évora recebeu o primeiro dos dois concertos principais da vigésima primeira edição das Jornadas Internacionais Escola de Música da Sé de Évora, evento que junta coralistas em torno do património musical polifónico da chamada “Escola” da Catedral eborense. Já repetente neste evento, apresentou-se o grupo vocal Contrapunctus, dirigido pelo musicólogo Owen Rees, também ele presença assídua como conferencista e maestro do workshop coral.

Contrapunctus apresentou um programa bastante extenso em matéria de obras. Nada menos do que sete obras de três compositores, incluindo duas missas completas. O grupo, que se tem afirmado recentemente no panorama coral inglês, surgiu numa formação de dois cantores por parte vocal, destacando-se entre estes a presença de um antigo membro do Hilliard Ensemble, Steven Harrold.

Duarte Lobo apareceu representado com duas obras provenientes do Liber Missarum de 1621: a antífona Asperges me e a missa policoral para oito vozes Cantate Domino. As obras de Fr. Manuel Cardoso, provenientes do Missarum Liber de 1625, incluíram o motete Sitivit anima mea, a Missa pro Defunctis a 6 e o responsório Libera me. A antífona, que abriu o concerto, foi interpretada com grande fluidez, assim como uma sonoridade de alto nível, intercalada com entoações de cantochão pelos dois tenores de grande qualidade. A missa policoral de Duarte Lobo é uma obra de contraponto bastante intrincado, apesar de se destinar a dois coros. Muito frequentemente, juntam-se vozes de ambos os coros para formar um coro de quatro a cinco vozes, com as secções imitativas a ocorrerem com maior frequência do que é usual em obras policorais. Nestas secções, o grupo apresentou uma coesão muito boa e bastante rigor rítmico. Estranhámos a escolha de um tempo um pouco rápido para esta obra, por vezes obscurecendo o texto, apesar da excelente dicção dos cantores, num latim peninsular. No Gloria, o texto das secções laudatórias do início (Laudamus te, benedicimus te, etc.) não pareceu muito claro. Já no segundo Christe (Kyrie), não o havia sido. Nestas secções, as trocas antifonais entre ambos os coros são muito curtas (um a dois compassos) e ocorrem numa sucessão muito rápida. Nesta forma de escrita policoral, o texto sofre quase sempre de falta de clareza, em que a escolha de um tempo rápido não favorece a compreensão, agravada com as condições acústicas da Catedral de Évora.

As duas obras de Fr. Manuel Cardoso constituem sempre um imponente desafio aos grupos que as vêm interpretar na Catedral de Évora. Primeiramente, são obras que têm sido feitas pelos grupos em quase todas as edições das Jornadas (como também no workshop) sendo a sua sonoridade já familiar aos ouvidos de quem assiste aos concertos. Segundo, estas obras têm sido incluídas em inúmeros discos, sendo a sua divulgação pelo público bastante vasta e constituindo um grande desafio a sua interpretação ao vivo. Tendo estes factores em conta, foi assinalável a prestação de Contrapunctus tanto no motete como na missa de Cardoso. Ambas para uma textura a seis vozes, foi notória a fluidez e capacidade de contraste dinâmico com que os cantores apresentaram Sitivit anima mea, obra de imponente construção contrapontística e que exige um grande domínio de afinação e rigor rítmico. A missa é ela própria um contraste em termos de concepção composicional, entre secções de grande movimento em termos da imitação e contraponto, como é caso do Graduale e Offertorium, e de grande estagnação e homofonia, como é o caso do Sanctus e do Agnus Dei. Aqui, notou-se uma aproximação interpretativa à histórica gravação da obra pelos Tallis Scholars, porém com maior contraste dinâmico, nomeadamente nas secções do Offertorium.

Um pormenor que despertou alguma curiosidade neste grupo de obras foram as entoações do cantochão na antífona Asperges me e nas missas Cantate Domino e Pro Defunctis. Se, no caso da primeira obra, as três entoações foram “medidas” (isto é, com ritmo mensural contrariamente ao tipo de frase gregoriana actual), o mesmo não aconteceu nas missas. Não será, de todo, incorrecto utilizar-se um cantochão mensural para estas obras. Como tem sido largamente estudado, já no século XVI a música mensurável (polifonia) influenciava a forma como o cantochão era interpretado, pelo que não causa qualquer escândalo que as entoações sejam realizadas desta forma. No entanto, o que surpreendeu foi a dualidade de critério no respeitante às entoações do Gloria e do Credo, no caso da missa de Lobo, e da missa de Cardoso, o mesmo se verificando no responsório Libera me. Aqui, parece-nos ter sido mais coerente a escolha de uma das interpretações.

Ao mesmo tempo que Lobo e Cardoso exerciam cargos musicais nas mais importantes instituições religiosas de Lisboa (a Catedral e o Convento do Carmo), morria em Santa Cruz de Coimbra, a 12 de Dezembro de 1618, o frade crúzio D. Pedro de Cristo, em resultado de uma queda que dera no claustro do mosteiro. Um dos compositores mais estudados por Owen Rees, os 400 anos da sua morte foram assinalados neste programa com três motetes. O grupo pareceu um pouco instável na interpretação do primeiro motete, Miserere mei Domine, com os sopranos a mostrarem alguma dificuldade nas notas agudas do motete policoral Ave Maria. Porém, o grupo demonstrou um alto nível interpretativo em Hei mihi Domine, com particular ênfase no contraste dinâmico que o texto proporciona, o que também já havia ocorrido em Miserere mei Domine.

Em resumo, foi um concerto de alto nível interpretativo composto por um programa extenso, compreendendo obras que não é habitual ouvir-se na Catedral de Évora. Uma vez mais, a Associação Eborae Musica mantém um workshop em jeito de mini-festival de polifonia com grandes interpretações e grupos de renome internacional.

CONTRAPUNCTUS

dir. Owen Rees

sopranos | Elizabeth Adams, Amy Carson, Amy Haworth, Emma Walshe

altos | Rory McCleery, Matthew Venner

tenores | Steven Harrold, Ashley Turnell

baixos | Nick Ashby, Benjamin McKee


EXEMPLO DO CONCERTO

 

Sobre o autor

Natural dos Açores, é doutorando em Musicologia na Universidade de Évora, Mestre em Ciências Musicais pela FCSH-NOVA e Licenciado em Musicologia pela Universidade de Évora. É colaborador no Pólo de Évora do CESEM e no MPMP (edições mpmp e revista glosas) e consultor do atelier de conservação e restauro Acroarte. Entre 2011 e 2012 realizou o catálogo do fundo musical do Arquivo Capitular da Sé de Angra e, entre 2014 e 2015, foi bolseiro no projecto “Orfeus”, integrando actualmente o projecto "Música Sacra em Évora no Século XVIII". Em 2012 fundou o Ensemble da Sé de Angra, em 2013 o Ensemble Eborensis com quem gravou um CD. O seu trabalho centra-se na polifonia vocal portuguesa dos séculos XVI e XVII (Sé de Évora) e a música no arquipélago dos Açores desde o povoamento até ao final do século XIX.

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