A Escola de Música do Conservatório Nacional tem há décadas vindo a integrar, numa disciplina particular, o ensino do canto e da dramaturgia. O Atelier de Ópera desta instituição permite aos alunos do departamento de Canto uma aproximação ao repertório operático, ao palco teatral e à comunicação frontal com um público. Estas valências são naturalmente adaptadas às circunstâncias pedagógicas deste contexto de ensino, pois as tipologias vocais, a experiência em concerto e o conhecimento geral sobre este género musical variam em cada ano lectivo.

O Atelier de Ópera 2015/2016 apresenta-se nos dias 3 e 4 de Junho no Salão Nobre do Conservatório Nacional com um espectáculo criado a partir de óperas de Kurt Weill (1900-1950), compositor alemão que desde a década de 20 do século passado escreveu inúmeras obras dedicadas à crítica social e de costumes. A partir de uma estética sonora muitas vezes associada à cultura popular mas que na prática descende de uma escrita erudita para orquestra através de sinfonias, suítes e concertos, bem como de ciclos de canções para voz e piano (entre outros conjuntos) há, apesar dessa aparência híbrida, um domínio muito certeiro das ferramentas de escrita que pautam o tempo e o espaço em que o compositor se inseria. De entre a vasta obra de Weill, foram seleccionadas dezassete cenas chave das obras Ascensão e queda da cidade de Mahagonny (1930), Ópera dos três vinténs (1928) e Street Scene (1946). Esta última será cantada no texto original inglês de Langston Hughes, a partir da obra homónima de Elmer Rice (vencedora de um Pulitzer). Já Mahagonny e Os três vinténs pertencem ao génio literário e dramatúrgico de Bertolt Brecht (1898-1956), a quem é também prestada uma homenagem ao seu sentido crítico, e foram traduzidas do alemão para português por João Lourenço e Vera Sampayo de Lemos.

A potencial dificuldade de compreensão destas obras, no contexto académico em que se inserem estas récitas, está ultrapassada. Assim surge a construção de uma nova obra de diferentes géneses, mas coerente na sua narrativa e dramaturgia: Se não podemos continuar… ficamos aqui!. Com direcção cénica de Ruben Santos, direcção musical de José Brandão e direcção vocal de Ana Paula Russo, o efectivo vocal de dez alunos do Atelier de Ópera apresentar-se-á com os parcos mas eficazes meios de produção que o Conservatório Nacional pode oferecer, dadas as dificílimas condições de gestão em que a tutela da Educação tem vindo a deixar esta instituição com mais de 180 anos. Esta produção ajudará também a reflectir sobre o momento em que vivemos e, apesar das dificuldades óbvias, ajudará a ultrapassar com esperança algum quotidiano menos feliz. A não perder.

Sobre o autor

João Pedro Afonso

Foi aluno da Academia de Música de Santa Cecília desde os três anos de idade, tendo completado o Curso Científico-Humanístico de Ciências Socio-económicas e o 8.º grau de Órgão e de Formação Musical em simultâneo (2009). Frequenta o Mestrado em Musicologia Histórica na Faculdade Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, instituição onde se licenciou em Ciências Musicais (2014). Aluno da classe de Canto de Ana Paula Russo no Conservatório Nacional, frequenta igualmente a classe de Música Antiga com o Ensemble Pictórico, quinteto 'a capella' que foi finalista da 29.ª Edição do Prémio Jovens Músicos da RTP | Antena 2 (2015). É tenor no Coro Gulbenkian desde Novembro de 2010, foi membro fundador do grupo coral Lisboa a Cappella e é organista na Igreja de São Tomás de Aquino em Lisboa.

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