O Museu do Oriente inaugura no próximo dia 24 de Novembro a exposição A Ópera Chinesa, que ocupará todo o piso 2 do Museu. Com a curadoria de Sylvie Pimpaneau e Sofia Campos Lopes, A Ópera Chinesa oferece uma visão abrangente deste singular género das artes de palco em toda a sua diversidade e exuberância. Em exposição poderá ser visto um conjunto de cerca de 280 peças da colecção Kwok On, tais como trajes, perucas, toucados, modelos de maquilhagem, marionetas, gravuras, pinturas e instrumentos musicais, bem como fotografias e vídeos.

Considerado um dos tesouros culturais da China, a ópera tradicional surgiu em finais do século XI, agregando elementos de formas artísticas bastante mais antigas. É uma síntese de várias artes, que engloba o canto, a música, fala, mímica, dança, técnicas de maquilhagem, acrobacia e artes marciais com manipulação de adereços como armas, barbas e leques. Tradicionalmente representada sem cenários, e com um vasto repertório, a principal característica da ópera chinesa é encontrar-se no ponto oposto do realismo. A voz nunca é natural e os movimentos, muito estilizados e simbólicos, expressam os sentimentos das personagens de acordo com um rigoroso imperativo estético.
De acordo com a página oficial do Museu, os visitantes poderão usufruir da experiência do espectáculo, na entrada da exposição, onde se encontra  a reconstituição de um cenário de ópera, um vídeo de uma actuação, instrumentos musicais das óperas de Pequim e Cantão e a recriação do camarim da aclamada estrela operática Mei Lan-Fang (1894-1961). A exposição também apresenta vestes, máscaras e outros acessórios usados em danças  rituais que antecediam a ópera e visavam garantir a protecção dos deuses para com os actores e o público.

Partindo desta introdução, a exposição desenvolve-se em dois núcleos temáticos principais: Personagens e Repertório. Trajes, maquilhagem e acessórios como perucas, toucados e sapatos são essenciais para identificar os tipos de personagens presentes na ópera. O vasto repertório da ópera chinesa inclui comédias de costumes, histórias de amor, peças históricas e mitos fundadores da China. No núcleo dedicado ao Repertório exploram-se quatro das suas mais célebres histórias: A História dos Três Reinos, A Viagem ao Ocidente, A Lenda da Serpente Branca e O Pavilhão da Ala Oeste. Através delas será possível perceber os vários papéis da ópera na cultura e sociedade chinesas: a crítica de costumes, a exultação das virtudes guerreiras e morais, o temor aos deuses ou a transmissão da sabedoria dos antepassados, entre outras. Aqui se destacam ainda o nuoxi e o dixi, teatros religiosos de exorcismo, realizados em ocasiões solenes.

Enquadrando esta arte na história recente, a exposição conta ainda com uma secção dedicada à ópera durante a Revolução Cultural e a tentativa de instrumentalização de que foi objecto pelo regime. O teatro torna-se um teatro social que tem por missão um papel educativo. Foram toleradas apenas oito óperas revolucionárias, criadas sob a égide de Jiang Qing, a mulher de Mao. Com a morte de Mao, em 1976, os antigos temas da ópera tradicional reapareceriam pouco a pouco, sob a influência de Deng Xiaoping, grande admirador do teatro clássico​. ​

 

Nesta exposição colaborou também a musicóloga Luzia Rocha, que organizou os núcleos dedicados à Revolução Cultural, às orquestras de ópera de Pequim e Cantão, ao gramofone e à escuta da ópera chinesa nos primórdios da música gravada e aos discos de vinil de ópera chinesa do século XX. É também da sua autoria o texto do catálogo da exposição sobre os instrumentos musicais de ópera.

Inauguração

Existem várias actividades associadas à inauguração da exposição. Destacamos, de entre estes, os espectáculos apresentados pela Companhia de Ópera de  Sichuan, nos dias 24 e 26 de Novembro (entrada paga), várias oficinas e visitas com entrada gratuita (limitadas ao número de vagas) e uma conferência no dia 26 de Novembro, às 16h00, com o título Ópera Chinesa: Divas, Demónios e Discos (a conferência tem entrada livre, limitada à capacidade da sala). Contará com comunicações de Sylvie Pimpaneau (Nuoxi, the Theatre of Exorcism), Dong Fei (The Role of Male Dan in Chinese Opera) e Luzia Rocha (Talking Machines and Phonograms).

Sobre o autor

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Estudou cravo, órgão e música antiga em Lisboa, exercendo intensa actividade, quer a solo, quer com agrupamentos de música antiga e orquestras. Licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou Filologia Clássica e em cujo Centro de Estudos Clássicos é investigador. Prepara actualmente a primeira tradução portuguesa das Cartas de Plínio. Integra a Direcção da revista 'Glosas'.