Entre os dias 15 e 19 de Março, pôde-se assistir, no Theatro São Pedro, em São Paulo, à estreia da ópera “O Espelho” – adaptação do conto homônimo de Machado de Assis, com libreto de Jorge Coli e música de Jorge Antunes. Ambos tomaram para si uma difícil tarefa, dado o tom de diálogo interno e a reflexão sobre a psicologia humana e as relações sociais, que fazem do texto, à partida, material mais propício a uma adaptação teatral.

João Jacobina, o narrador-personagem, expõe ao espectador a sua teoria: o homem tem duas almas – “uma que olha de dentro para fora” (visão que temos de nós próprios) e “outra que olha de fora para dentro” (aquilo sobre o qual construímos e apoiamos a imagem que os outros têm de nós). Coli actualiza os irónicos exemplos machadianos dessa alma exterior, substituindo o voltarete, a polca, um par de botas, pelo “carro do ano” [poderia até ter arriscado o “like no Facebook”]. A partir desse argumento, Jacobina conta um episódio dos seus 25 anos, quando, recém nomeado alferes da Guarda Nacional, passava uns dias na fazenda da sua tia, onde era exaltado e tratado com todos os mimos. Conhecemos então a escrava Eufrásia, com quem Jacobina logo se envolve. A personagem não existe no conto, mas esse acréscimo do libretista revelou-se a peça fundamental para dar um carácter mais operístico à narrativa. A cena de sexo, ousada em relação à maioria das recentes montagens do género, foi o ponto alto do espectáculo, nada vulgar e tampouco artificial, com uma música que, muito apropriadamente, não tentou tomar para si o primeiro plano. Na sequência, quebrando a expectativa de um diálogo entre os personagens, apenas um vocalize, numa possível referência ao canto das sereias, encanto e perdição dos homens em tantas mitologias. Os escravos fogem para um quilombo, a tia vai visitar um filho e, de repente, Jacobina vê-se só. Nessa situação permanece por algumas semanas, durante as quais encontra num espelho e na farda de Alferes a sua tábua de salvação. Confere interesse a este monólogo final o misto de drama e ridículo.

O tenor Daniel Umbelino e a soprano Marly Montoni convenceram e comoveram, tanto cénica quanto vocalmente. Desataca-se também a dança de Marly no lundu incluído na cena de apresentação de “Frasa”. É de se notar a perfeita adequação de ambos ao physique du rôle. A mezzo-soprano Andreia Souza também estava óptima como Tia Marcolina. Ficou evidente, entretanto, a sua semelhança de idade com os colegas, mesmo considerando que a personagem não liga ao que os seus quarenta anos representavam no século XIX e não esconde o seu interesse pelo sobrinho.

Jorge Antunes fundiu de maneira bastante natural várias linguagens, do tonal ao atonal, dando também ao lundu colhido por Manuel de Araújo Porto Alegre uma criativa roupagem. Apesar de (felizmente) não se poder esperar desse compositor nada tradicional, causa certo incómodo, na alternância de fala e canto, que por vezes chega a ser frase-a-frase, a ausência de uma sincronia clara com a intenção e o significado da situação.

O Espelho faz parte de uma projectada trilogia de Coli, que se iniciou com o grande sucesso “O menino e a liberdade” (2013), com música de Ronaldo Miranda. À igualdade entre os homens, tratada a partir de Machado de Assis, não teria como faltar uma bela pitada de pessimismo. Perguntado sobre a próxima ópera, que terá como tema a fraternidade, o consagrado académico e crítico e surpreendente libretista nada quis adiantar. Ficamos, pois, à espera…

Sobre o autor

Guilhermina Lopes

Guilhermina Lopes é bacharel, mestre e doutoranda em música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Brasil. O seu projecto de pesquisa tem como tema a obra musical de temática brasileira de Fernando Lopes-Graça. É actualmente investigadora colaboradora do CESEM-UNL, membro do Grupo de Investigação Música, Teoria Crítica e Comunicação e participante do projecto temático “O Musicar Local” (FAPESP – UNICAMP/USP). Participou de diversos eventos académicos nacionais e internacionais, tendo apresentado comunicações em Portugal, Brasil, Chile e Espanha. Dedica-se também ao estudo do canto lírico e integra o Coro Contemporâneo de Campinas, grupo ligado à sua universidade de origem.

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