Breve esboço biográfico

Carlos Augusto Holtermann Franco nasceu em Lisboa, em 1927. Tendo iniciado a sua carreira profissional na Banda da GNR em 1946, ingressou na Banda Armada em 1952 e, posteriormente, na Orquestra da Emissora Nacional, entre 1956 e 1959. No ano seguinte, é convidado para a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida por Frederico de Freitas.

Após iniciar os estudos musicais muito cedo, com seu pai, frequentou o Conservatório Nacional, na classe de Luis Boulton. Depois de um período de estudo enquanto autodidacta, frequentou os cursos da Académie Internationale de Musique de Nice, com Jean-Pierre Rampal.

Laureado com o prémio de Flauta do Concurso Guilhermina Suggia, em 1967, dedica-se à carreira solística e ingressa, em 1968, na Orquestra Gulbenkian. Este breve resumo do percurso profissional de Carlos Franco aponta para a intensa actividade que desenvolveu enquanto solista e músico de orquestra. No entanto, outras facetas da sua actividade musical merecem especial relevo: da música  câmara e da docência.

Casado com a harpista e compositora Clotilde Rosa em 1980, integra com ela em 1970 o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, do qual foi co-fundador juntamente com Jorge Peixinho, Luísa Vasconcelos, António Oliveira e Silva e José Lopes e Silva, tendo alternado com Jorge Peixinho na direcção desse prestigiado agrupamento e assegurado a sua direcção após o falecimento do compositor.

Tanto a nível camerístico como enquanto solista, Carlos Franco foi um músico ecléctico, percorrendo o repertório da flauta, do Barroco ao Classicismo e à Contemporaneidade, e de autores como Bach, Mozart, Britten, Lopes-Graça (de quem foi dedicatário), Filipe Pires, Frederico de Freitas, Emmanuel Nunes e Clotilde Rosa.

A presença relevante de autores portugueses neste repertório indicia um traço da sua personalidade, na busca da valorização da Cultura Portuguesa, traço que também se estende à actividade docente. Tendo leccionado na Academia de Amadores de Música e no Conservatório Nacional, escolas onde tive o prazer de ser seu aluno, foi director desta última instituição, presidindo à Comissão Instaladora, época em que tive também a honra de ser seu colega.

Alexandre Branco Weffort


Testemunhos

Carlos Franco, meu colega de mais de quarenta anos, foi uma figura musical de um valor excepcional e inesquecível. Flautista extraordinário que, quer como concertista com orquestras, quer em recitais a solo ou com música de câmara, deu a conhecer várias obras que estreou em Portugal.

Gravou como solista o Concerto para Flauta de Frederico de Freitas com a Orquestra de Budapeste e, mais tarde, em Nice, gravou o Concerto para Flauta e Orquestra de Alexandre Delgado. Tocou ainda como solista na Orquestra Gulbenkian, da qual fez parte, assim como nas Orquestras Sinfónica do Porto e Sinfónica de Lisboa, ambas da Radiodifusão Portuguesa. Fez inúmeros recitais como solista e integrou muitos concertos de Música de Câmara, quer Antiga, quer Contemporânea, conforme se pode ver na lista dos inúmeros concertos onde Carlos Franco participou, de acordo com o trabalho de recolha de grande mérito levado a cargo pelo seu sobrinho João Carlos Franco Oliveira.

Foi ainda co-fundador do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa com Jorge Peixinho, eu própria, António Oliveira e Silva e António Reis Gomes, aos quais se seguiram outros nomes de grande valor.

Estreou várias obras de Música Contemporânea, decifrando por vezes com Jorge Peixinho os grafismos usados por vários compositores naquele tempo. Quando J. Peixinho tinha de tocar piano nalgum concerto, porque o programa assim o exigia, era o Carlos Franco que o substituía na direcção. Era, sem dúvida, para ele, um colega que muito admirava e considerava. Acontecia o mesmo com os colegas com quem trabalhava; grande mérito no trabalho de um conhecimento inexcedível, com uma dignidade exemplar que os colegas sempre lhe reconheceram.

No início da minha carreira como compositora, aprendi muito de instrumentação com Carlos Franco, ou seja, quando eu procurava, através de leituras, informações sobre as características dos instrumentos que pretendia utilizar, ele transmitia-me todos os seus conhecimentos, que eram muitos.

Sempre me incentivou a prosseguir o meu trabalho, dando-me todo o seu apoio; dedicou-me uma admiração inimaginável e um sentimento profundo de amizade que tanto me ajudou a progredir.

Criou a edição CARFON para editar as minhas obras, trabalho que deixou completo até ao seu desaparecimento. Deixou-me todo o trabalho de edição das minhas partituras, com os materiais completos nas obras de orquestra, assim como em todas as obras que ele conheceu… Agora sou eu que tenho de o fazer, além do meu trabalho de compositora! Quanta falta me faz em todo o sentido! Tínhamos a Música, que nos unia com a cumplicidade que lhe é peculiar, e um “grande bem querer” inesquecível.

Com os alunos, Carlos Franco tinha uma relação muito aberta, de grande profissionalismo e amizade. Por seu lado, eles retribuíam-lhe a amizade, admiração e consideração!

Carlos Franco não foi só um grande artista, foi também um ser humano de uma integridade indiscutível.

Clotilde Rosa

Carlos Franco foi meu professor de flauta transversal desde o início da minha aprendizagem do instrumento (ou perto disso, para não excluir um par de aulas anteriores), primeiro na Academia de Amadores de Música e seguidamente no Conservatório Nacional, até ao final do respectivo curso. Foram dez anos imensamente enriquecedores quer do ponto de vista artístico, quer do ponto de vista humano. Carlos Franco era calmo e metódico, ensinando pela palavra e pelo exemplo; um sorriso aflorava permanentemente nos seus lábios, porque sabia ouvir, e tinha sempre debaixo da língua uma resposta inteligente e encorajadora. Os seus conselhos eram não só sensatos, como potenciavam com refinado gosto o resultado musical. De acordo com uma visão cultivada e ampla da arte dos sons, era avesso a dogmatismos técnicos ou estéticos.

Novos desafios não o assustavam: o maior repto que havia imposto a si mesmo no início da carreira – refazer a embocadura e técnica de emissão à luz do aprendido com Jean-Pierre Rampal – tinha sido vencido praticamente sozinho. Encorajou os alunos a tirar partido de perspectivas diversas, encorajando-os a frequentar master-classes oferecidas por professores visitantes. Estava pronto a evoluir, tanto com os colegas como com os discípulos: o meu interesse pela flauta barroca, por exemplo, não o deixou indiferente, dispondo-se mesmo, a certo ponto, a desenvolver novas competências nesse campo, como antes tinha desenvolvido técnicas próprias da música contemporânea. Aos melhores alunos, gostava de abrir portas para a profissionalização: generosidade esta que declinei, mas que tinha outras formas de se manifestar, através de uma grande capacidade de acolhimento (foi assim que pude conhecer por dentro o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa).

Forjou-se assim entre nós, ao longo do tempo, uma grande e inquebrantável amizade. Quando o imagino, ainda hoje, vejo uma imagem de sabedoria: uma pessoa afável e discreta, na qual a densidade da experiência e a convicção artística se abrem em aceitação da pluralidade e se oferecem como alicerces para a inspiração dos mais jovens.

Manuel Pedro Ferreira

Deixa-me particularmente feliz poder homenagear quem considero um dos maiores flautistas portugueses de uma geração. Um marco como Flautista, Professor e ser humano! Guardo as melhores recordações do Prof. Carlos Franco, quer pela admiração por tanto que se aprendia em cada aula, quer pela tranquilidade e pela confiança que havia para trabalhar dentro da sala de aula, confiança que eu transportava dentro de mim em cada concurso que fazia… e guardo também as histórias que me contava, as “peripécias” dos seus concertos e de como se podia “disfarçar” algum momento inesperado. Mais tarde viria a utilizar uma dessas estratégias num concerto onde parte do meu “improviso” teve mesmo de ser improvisado, quando a partitura desapareceu da estante justamente no momento em que eu precisava dela!

Foram preciosos conselhos! Como ser humano, tenho uma profunda admiração pela sua honestidade, amizade para com os seus alunos e competência. É, sem dúvida, alguém que ficará sempre como uma referência para mim; e sem dúvida também fará sempre parte da história de várias gerações de flautistas, com alguns dos seus alunos espalhados pela Europa.

Foi um enorme privilégio ter podido trabalhar com o Prof. Carlos Franco!

Rita Malão

Texto publicado originalmente na Glosas 14, Maio de 2016 (pp. 80-81): disponível aqui.


Clique na ligação abaixo para consultar a lista de concertos em que o flautista Carlos Franco participou, preparada por Franco de Oliveira.

CARLOS FRANCO – Lista de Obras

Sobre o autor

Revista Glosas

A glosas é uma revista dedicada à dinamização e divulgação dos patrimónios musicais de todas as épocas dos países de língua portuguesa, com especial ênfase na música de tradição erudita ocidental.

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