Acabam de ser anunciados os resultados do Prémio Musa 2022. Criado com o intuito de distinguir a excelência musical da composição contemporânea de tradição erudita ocidental e de, nesse contexto, promover a língua portuguesa como veículo expressivo, a quarta edição foi dedicada ao centenário de José Saramago e contou com o apoio da Fundação homónima.

O júri da edição deste ano, formado pelos compositores Luís Tinoco,  Sara Carvalho e Juan Pablo Carreño, decidiu atribuir o Prémio Musa ao compositor Samuel Gapp, além de atribuir menções honrosas a Bárbara Sanchez Silva e a João Ricardo. 

A obra de Saramago ofereceu inspirações diversas, mas é nítido que os três textos escolhidos servem de base para uma reflexão musical sobre os caminhos individuais e os processos internos em busca de algo externo, de uma sua fuga.

 

Prémio 

Samuel Gapp, Almejar, em sonho

Menções honrosas

Bárbara Sanchez Silva, Desforra

João Ricardo, Este estúp[i]do embargo

 

 

 

O vencedor, Samuel Gapp, trabalhou com excertos d’O conto da ilha desconhecida (1997). Os excertos escolhidos foram em parte usados na sua forma original e inalterada, outras vezes servem como ponto de partida para a desconstrução e reconstrução das frases, adaptando assim o estilo surrealista e onírico que é omnipresente no conto.  A peça Almejar em sonho é uma exploração da introspecção, do sonho, do destino e da procura de si.

 

 

Em Desforra de Barbara Sanchez Silva, distinguida com uma menção honrosa, um rapaz encontra-se uma jovem rapariga mas, antes de se conhecerem, ele é acidentalmente exposto a uma provação: o que nos é relatado é este caminho que talvez seja, na verdade, uma viagem interior. O texto é inteiramente retirado do conto, salvo certas exclamações, interjeições e pequenos apontamentos de modo a conseguir uma narradora (a intérprete, a rapariga do conto) de características tanto diegética como extra-diegética.

 

 

Na peça de João Ricardo, distinguida com outra menção honrosa, as vozes devem declamar o texto ao mesmo tempo que o digitam, numa escrita aproximada, a um qualquer teclado de computador. É por isso feita uma comparação entre o personagem da obra de Saramago e os personagens arquétipos desta obra musical, em que, da mesma forma que o protagonista de Embargo se vê preso no próprio automóvel, os declamadores encontram-se presos nos seus teclados, numa prisão inconsciente, por uma tecnologia tão diária e necessária que, ao mesmo tempo, restringe e limita os seus utilizadores.

Musicalmente, as experiências com o texto reflectem-se em soluções variadas. Samuel Gapp criou a música numa abordagem intuitiva, de modo que o material musical, a forma e a escolha dos excertos do texto emergem naturalmente ao longo do próprio processo de composição, sem concepção prévia; Bárbara Sanchez Silva recorre a uma voz feminina (meio- soprano) e a um quinteto (flauta transversal, clarinete, piano, violeta e violoncelo) explorado na capacidade de criação tímbrica e de textura recorrendo várias vezes ao uso de técnicas instrumentais contemporâneas. João Ricardo fez um uso parcial do texto Embargo, do livro Objecto quase (1978), em que nenhuma das palavras declamadas contém a letra «i»; para além disto, o texto declamado pela voz feminina não contém também a letra «e». Em consequência desta restrição textual, a música cinge-se a apenas onze notas da escala cromática, e o trabalho desenvolve-se em torno desta exclusão.

Donos de perfis muito diferentes, os três premiados têm-se revelado jovens promessas nas suas áreas. Samuel Gapp é um jovem pianista e compositor alemão, residente em Lisboa. Gapp estudou piano jazz na Hochschule für Musik und Tanz em Colónia, Alemanha, e na Escola Superior de Música de Lisboa, onde está actualmente inscrito no mestrado em composição. É principalmente activo no campo da música contemporânea e improvisada. Em 2019 ganhou o Prémio de Composição Bernardo Sassetti, bem como o Prémio Jovens Músicos com o quarteto do saxofonista Tomás Marques. Em 2022 foi-lhe atribuído o Prémio de Composição Francisco de Lacerda pela sua primeira obra orquestral. João Ricardo (1993, Portugal) terminou o mestrado em Artes Musicais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade NOVA), onde é investigador afiliado ao CESEM no Grupo de Investigação em Música Contemporânea e na Linha de Estudos em Ópera. As suas mais recentes óperas foram estreadas pela Inestética Companhia Teatral, Quarteto Contratempus e Operafest. É o Compositor Residente na Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras para o ano de 2022. Bárbara Sanchez Silva (1991, Lisboa) e é licenciada em Estudos Culturais e Visuais pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, com um Mestrado em Curadoria na Central Saint Martins em Londres. Recentemente frequentou o curso de organista da Escola Diocesana de Música Sacra em Lisboa com Sérgio Silva e compôs a música original para a curta-metragem A adiadora (2022) de Gonçalo Malaquias. Actualmente estuda composição com o compositor David Miguel e violino com Rita Mendes.

Destaca-se, no percurso dos três compositores, o trabalho desenvolvido em divulgação, investigação e forte relação com as demais artes, forte indício dos seus interesses em cruzar as fronteiras também com as obras literárias. Samuel Gapp é co-fundador da editora Habitable Records, uma plataforma internacional que visa fomentar o intercâmbio cultural e a investigação musical. João Ricardo colabora regularmente em trabalhos de edição musical e produção de eventos com a AREPO – Associação de Ópera e Artes Contemporâneas. Bárbara Sanchez Silva é um membro fundador de The Gallery House Archive Project, um projecto de pesquisa que reúne um arquivo de mais de cem obras de arte de artistas de todo o mundo

As obras distinguidas serão estreadas pelo Ensemble MPMP, sob a direcção de Jan Wierzba, no dia 26 de Novembro, pelas 21h30, no Convento dos Capuchos. Haverá também lugar à sua gravação e posterior edição discográfica.

Muitos parabéns Samuel, Bárbara e João!

 

 

 

Sobre o autor

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Diplomada pela Universidade de São Paulo, onde se licenciou em História, concluindo o mestrado e o doutoramento em Arqueologia e integrando o LARP, Laboratório de Arqueologia Romana Provincial, enquanto Supervisora de Programas e Pesquisas. Foi docente de História da Arte em diversas instituições universitárias e no MASP, Museu de Arte de São Paulo. Realizou o estágio doutoral no Collège de France, Paris, especializando-se depois em Gestão Cultural no SENAC, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, e concluindo o mestrado em Empreendedorismo e Estudos da Cultura — Património no ISCTE, Lisboa, tendo neste âmbito sido distinguida com um Prémio de Excelência Académica.