Hoje, 31 de Maio, ouviu-se The Rake’s Progress no São Carlos. Faça-se justiça desde já: a equipa do teatro e desta produção estão de parabéns pela magnífica concretização deste nada evidente e nada simples desafio. Esta produção não só convence como surpreende e, se não é perfeita, certo é que o que de mais virtuoso nos oferece compensa largamente tudo quanto de menos conseguido se lhe pode eventualmente apontar.

Joana Carneiro, que se estreia neste teatro como regente de ópera, leu Stravinsky com imaginação e soube enfatizar os contrastes da partitura; se se perdeu algum brio, precisão e refinamento nalgumas das passagens mais enérgicas, foi especialmente consequente em algumas das passagens mais melífluas, de um lirismo tão sombrio quão contagiante, a que a orquestra respondeu com a delicadeza necessária. O coro, aqui e ali ligeiramente desencontrado com a orquestra, apresentou-se em plena forma e acabou por liderar alguns dos momentos mais empolgantes do espectáculo.

Tuomas Katajala deu voz e corpo à figura central da história, Tom Rakewell (Tom “Desliza-bem”), um jovem algo ingénuo que se deixa cativar pela retórica insidiosa de Nick Shadow e que destarte vai “deslizando” cada vez mais para o seu próprio abismo psicológico. Vocalmente foi excelente sem deslumbrar, conseguindo manter ao longo de todo o espectáculo uma precisão, uma clareza e um timbre muito para aplaudir. Como actor, na pele do libertino, notou-se alguma distanciação, não parecendo profundamente embrenhado no personagem, algo que foi melhorando à medida que a ópera ia avançando mas que se revelou evidente sobretudo no início do I Acto. Neste principiar do espectáculo, aliás, a sua movimentação em palco situava-se no limiar do histerismo: corria para a frente, para trás, para a direita, para a esquerda, dava três passos, pulava dois, ia até ao fim da rampa — elemento cénico muito bem achado —, voltava até à boca de cena, de novo lá para o fundo, de novo cá para a frente, e ainda e mais ainda de um lado para o outro e por aí fora… Esta coreografia faria à partida sentido como corporalização de uma personalidade errante, mas por alguma razão a desorientação pareceu mais de Katajala do que de Rakewell…

Anne Truelove, o grande amor de Rakewell, por ele abandonada, foi interpretada por Ambur Braid. No registo médio e grave a sua voz passava sobre a orquestra com alguma dificuldade, e no todo da sua tessitura notou-se alguma imaturidade e a falta ainda de um trabalho que pudesse dar mais corpo, definição e homogeneidade ao bonito timbre da sua voz. Não isto obsta a que tenha defendido o papel com assinalável graciosidade, para o que contribuiu a maneira grácil e delicada com que habitava o palco.

No fundo, tanto Tuomas Katajala como Ambur Braid são cantores com grande potencial, e o que mais pode ter pesado para diminuir o nosso deslumbramento ao vê-los em palco pode bem não ter derivado das suas eventuais fragilidades mas do contraste que faziam com Luís Rodrigues, que vestiu o papel de Nick Shadow com uma voz quente, cheia e enorme, a passar sobre coro e orquestra com uma presença sempre avassaladora, e sendo, como actor, exemplarmente soberbo e sedutor. Sem dúvida o “principal” desta produção.

O nosso maior aplauso também para Maria Luísa de Freitas como Baba, a Turca, tão magnificamente convincente que nos foi impossível sequer equacionar a possibilidade de ser uma sua fragilidade vocal a por vezes incerta errância entre canto tradicional, Sprechgesang e Sprechstimme, e consequente projecção, timbre e afinação aqui e ali menos certeiros. Pelo contrário, foi precisamente esta errância e estranheza vocal, tão descontrolada como segura, que a ajudou a construir de forma irrepreensível o impacte e a comicidade de uma personagem que se pretendia horrorosamente sedutora e esplendorosamente aberrante. Ajudou também o francamente genial figurino desenhado por Pepe Corzo (em geral muito bem, aliás, em todos os figurinos desta produção), que soube captar e sublinhar as qualidades insólitas de Baba trazendo-lhe algo de circense, algo de burlesco, algo até do universo da banda desenhada. (Algo da Kika de Almodóvar, como ouvi alguém dizer no intervalo.)

Os restantes cantores foram proficientes: João Oliveira como guardião do hospício, Nuno Dias como pai de Anne Truelove e Carlos Guilherme como leiloeiro. Destaque para Cátia Moreso, uma Mother Goose impecável, de voz robusta e voluptuosa, em plena forma, de excelente afinação e notável projecção.

Quanto à encenação, cenografia e desenho de luz, oxalá Rui Horta regresse mais vezes ao São Carlos. Foi interessante, inteligente, original. Difícil esquecer o lindíssimo aspecto da segunda cena do III Acto: o carrinho (que é caixão, que foi mesa de escritório, que será barca de um curioso inferno), a grande pá retinta de vermelho (com que nós, pecadores, vamos remexendo e cavando a própria vida), as paredes laterais tão sóbrias quanto desequilibradas, o padrão de luzes na parede de fundo ao início enigmático e crescentemente inquisitivo, cegante…

Notável a forma como conseguiu durante o espectáculo fazer passar uma permanente sensação de vertigem, não só graças à multímoda rampa como graças a recursos subtis na concepção do espaço e da movimentação em palco. Uma vertigem aqui e ali hipnótica, como quando a dado momento voltam a descer dois troncos nus e volta a surgir a projecção vídeo com um misterioso caminho entre árvores frondosas: os troncos ficando suspensos a balançar ligeiramente, o ecrã movimentando-se quase imperceptivelmente e a folhagem filmada agitando-se ao sabor de uma brisa que imaginamos doce e ligeira. E, nisto, o desamparo de Anne Truelove.

Se estranhámos o facto de este recurso ao vídeo, no I Acto, não ter continuidade no resto do espectáculo — sendo este um recurso tão forte e demarcado, esperávamos o seu regresso algures —, apreciámos a coesão e o imaginário com que concebeu a presença destas árvores do longo da ópera. Aplaudimos a substituição do manicómico pelo submundo (um piscar de olhos à mitologia clássica), dos loucos por criaturas fantásticas, dos troncos das árvores pelas suas raízes, de Mr. Truelove por um barqueiro que conduz a sua filha até junto do condenado para a despedida final… Rui Horta não nos levou a um hospital psiquiátrico, levou-nos até ao degenerado subconsciente do próprio Tom que então se achava um Adónis (sem Perséfone) ansiando por uma Vénus que o não podia já salvar.

E aplaudimos dezenas de tantas outras subtilezas de extraordinária eficácia e beleza cénica, como a troca de cadeiras no bordel, incessante procura e insatisfação de uma libido contrariada pela memória de alguém amado, ou como a movimentação coreografada dos elementos auxiliares que vinham adaptar o espaço a cada alteração cénica (menos convincente a derradeira saída de palco de Nick Shadow), ou como a irónica coreografia do coro no leilão (e a forma como “desligou” e como “reacendeu” o “boneco” de Baba, já agora), ou como quando fez com que o público se sentisse actor da ópera (do circo, no caso?), levando as gentes da cidade (Town People) ao camarote real e instigando todo o teatro a cantar, em ridículo êxtase, “Baba the Turk, Baba the Turk, before you retire show thyself once, oh grant us our desire!”…

 

 

O epílogo, “quase de fábula e um pouco redundante” para o encenador Rui Horta, não poderia ser, a nosso ver, mais brilhante e mais crucial. Desfecho insólito na sua aparência e no contraste que cria com a ínfera desolação que o antecede, este epílogo é um remate dramatúrgica e musicalmente brilhante na ironia e autocrítica que contém. The Rake’s Progress fecha-se com a mesma fanfarra com que se inicia, enformando-se num círculo em que o raio é Stravinsky, de saber perscrutante, rodando a partir de um centro inconfundível — a sua assinatura harmónica, rítmica, tímbrica — e tendo por diâmetro longos séculos de história de música dramática ocidental.

Mas não deixará este final de parecer modesto quando comparado com alguns pontos-chave da obra, destacando-se, nesta encenação, a última intervenção de Baba, momento cimeiro dos seus ademanes horrendamente espectaculares, da sua verve de diva aberrante, da sua presença virtuosamente atraente e repulsiva: The next time you see Baba you shall pay! Sublinhe-se a ousadia (e o golpe de génio) do encenador: fez terminar aqui, momento final da 1.ª Cena do III Acto no libreto original, o II Acto deste espectáculo. Maria Luísa de Freitas, com a sua desenvoltura caricatural e o seu desarmante à-vontade, dirigindo-se ao público com tamanha resolução e intimismo, foi de facto brilhante. A frase caíu no espectador deslumbrado como uma ironia graciosa, e logo se alcandorou como eco crítico e sarcástico de todo um “estado a que chegámos”: um teatro de ópera com uma programação minguada e sempre à beira do incerto, mas em que um corpo artístico maioritariamente nacional consegue a honrosa proeza de fazer arte ao mais alto nível, assim lhe sejam dadas condições para tal.

Que outro corte narrativo que não este poderia ser mais eficaz num contexto como o do São Carlos e o desta temporada, como o da nossa própria contemporaneidade? Infelizmente, nestes tempos de sacrossanta austeridade, uma oferta cultural diversificada, regular e artisticamente elevada e, sobretudo, produções como a que o São Carlos acaba de nos mostrar, parecem ter um destino só: ficar reduzidas à categoria do absolutamente episódico, pontual, excepcional. Quantos meses teremos de esperar até que seja de novo programado algo tão ou mais excelente do que esta “carreira de um libertino”?

Como sói dizer-se não se fazem omoletes sem ovos: esperemos pois que a frase de Baba, a Turca, lembre a quem de direito que também a cultura gera riqueza e que sem investimento a arte definha. O São Carlos, os artistas portugueses, o público português (e, já agora, os turistas que nos visitam…!) merecem um tecido cultural revigorado e revigorante.

 


 

PRÓXIMAS RÉCITAS, A NÃO PERDER
2, 4 e 6 de Junho, às 20h

 


 

THE RAKE’S PROGRESS
de Igor Stravinsky
Ópera em três actos
Libreto de W. H. Auden e Chester  Kallman
Inspirado no conjunto homónimo de oito pinturas de William Hogarth

Direcção musical Joana Carneiro
Encenação, cenografia e desenho de luz Rui Horta
Figurinos Pepe Corzo

Tom Rakewell Tuomas Katajala
Anne Truelove Ambur Braid
Nick Shadow Luís Rodrigues
Baba, a turca Maria Luísa de Freitas
Truelove, pai de Anne Nuno Dias
Sellem, o leiloeiro Carlos Guilherme
Mother Goose Catia Moreso
Guardião do Hospício João Oliveira

Orquestra Sinfónica Portuguesa

Maestrina titular Joana Carneiro
Coro do Teatro Nacional de São Carlos
Maestro titular Giovanni Andreoli

Nova produção do Teatro Nacional de São Carlos

No São Carlos, the next time you see a rake's progress you shall pay!
Solistas
Direcção
Coro
Orquestra
Encenação, cenografia e luz
Figurinos
4.5Pontuação geral

Sobre o autor

Edward Ayres d'Abreu

Concluiu o Curso Complementar de Piano no Conservatório Nacional. É licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou sob orientação de Sérgio Azevedo e de António Pinho Vargas. Durante um ano, em programa Erasmus, frequentou o Conservatório Nacional Superior de Paris (CNSMDP), estudando com Gérard Pesson. É Mestre em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e doutorando em Musicologia Histórica enquanto bolseiro da FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É membro fundador e Presidente da Direcção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, tendo sido Director da revista 'Glosas' nos seus primeiros quinze números.

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