Scarlatti pôs-se a tocar, primeiro deixando os dedos correr sobre as teclas, como se soltasse as notas das suas prisões, depois organizando os sons em pequenos segmentos, como se escolhesse entre o certo e o errado, entre a forma repetida e a forma perturbada, entre a frase e o seu corte, enfim articulando em discurso novo o que parecera antes fragmentário e contraditório.

José Saramago, Memorial do Convento

Foi por estas palavras que Saramago descreveu a forma como Scarlatti compunha. Curiosamente, o próprio Saramago, quando escrevia, pensava o discurso narrativo como um discurso musical: “Todas as características da minha técnica narrativa actual provêm de um princípio básico segundo o qual todo o ‘dito’ se destina a ser ‘ouvido’. Quero com isto significar que é como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas.” (Cadernos de Lanzarote, Diário II, Lisboa, Caminho, 1995, p. 49) Dito de outra forma, antes de escrever, Saramago escutava a “música das palavras”.

Porém, a relação de Saramago com a música não está apenas neste discurso fonético, está também no conteúdo temático dos seus romances. A 9 de Junho, dois desses romances estarão em foco no Festival de Mafra, numa palestra-concerto, às 21h00, subordinada ao tema Saramago e a Música. A palestra, conduzida por Tânia Valente e Jorge Rodrigues, terá as intervenções musicais de Alexey Shakitko (piano) e do Mikroduo, com o soprano Ana Tomás, formação que irá interpretar canções do compositor André Santos escritas a partir dos Poemas possíveis de Saramago.

O escritor em “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes (2010)

Segue-se depois, a partir das 21h30, um concerto, com o violoncelista Pavel Gomziakov e os pianistas Adriano Jordão e Gabriela Canavilhas, com o mote O violoncelo, a minha debilidade. Serão interpretadas obras de Chopin, Schubert, Liszt e Beethoven. Este evento, que terá lugar na Biblioteca no Palácio Nacional de Mafra, encerra a programação do III Festival de Música de Mafra – Filipe de Sousa, que tem o apoio da Câmara Municipal de Mafra e da Fundação Jorge Álvares. A entrada é livre.


Sobre o Festival, consulte esta ligação.

Sobre o autor

Tânia Valente

Doutorada em Música e Musicologia (ramo de Interpretação) pela Universidade de Évora, é actualmente investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Iniciou os seus estudos musicais no Instituto Gregoriano de Lisboa. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas: Estudos Ingleses e Alemães (FLUL) e em Canto (ESML). Posteriormente obteve o grau de LGSM (Licenciate by the Guildhall School of Music and Drama) através do Trinity College. Como cantora de ópera, foi “Fanny” em 'O Tanoeiro' de Thomas Cooper (Teatro da Trindade), “2.ª Dama” na 'Flauta Mágica' de Mozart e “Sebastiana”, numa versão portuguesa da sua autoria da ópera 'Bastien und Bastienne' de Mozart. Para além de se apresentar regularmente em recitais, é membro do Coro Gulbenkian.

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