Um ano depois de ter trazido a Portugal alguns dos mais importantes intérpretes da actualidade da música do final da Idade Média, do Renascimento e dos alvores do Barroco, o ciclo Reencontros – Memórias Musicais de um Palácio regressa ao ambiente privilegiado do Palácio Nacional de Sintra entre os dias 3 e 25 de Junho. Resultante da parceria entre a empresa Parques de Sintra, entidade responsável pela gestão do Palácio, e o Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal, o ciclo conta com a direcção artística de Diana Vinagre e desenvolver-se-á ao longo de diversos concertos e conferências que decorrerão todas as sextas-feiras e Sábados do mês, na Sala dos Cisnes, na Sala do Brasões e na Sala Manuelina do Palácio de Sintra, espaços que se contam entre os mais simbólicos e representativos da identidade portuguesa.

Não é, todavia, no interior do Palácio Real quatrocentista que terão início estes segundos Reencontros, mas, se as condições meteorológicas o permitirem, no terreiro exterior, hoje consagrado à memória da Rainha D. Amélia, com um “Baile Renascentista” de entrada livre, pela Compagnie Outre Mesure, na sexta-feira, dia 3, às 21h30 (o espectáculo será apresentado no interior do Palácio em caso de condições meteorológicas desfavoráveis). No dia seguinte, Sábado, o mesmo agrupamento apresenta, na Sala dos Cisnes, o espectáculo A Europa Exuberante, centrado na cultura do Ducado da Borgonha no século XV, com a reconstituição das danças ao cuidado de Ana Yepes e Nadia Boissard. Precede este programa uma conferência proferida pelo Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira, subordinada ao tema “Borgonha: emergência política e conexões culturais (sécs. IX-XV)”, na Sala Manuelina, às 20h00.

Na semana seguinte, a 11 de Junho, o agrupamento Oltremontano, sob a direcção de Wim Becu, dará a ouvir, também na Sala dos Cisnes, um programa constituído por obras italianas da transição entre os séculos XVI e XVII, cujo título, Balliamo che l’onde, remete para uma festiva obra de temática clássica incluída no Libro Settimo de Madrigali de Monteverdi, sobre o amor arcádico de Tírsis e Clóris, personagens modeladas nos exemplos literários de Teócrito e Vergílio. Além do Ballo di Tirsi e Clori do mestre cremonense, que conclui o concerto, ouviremos obras de Alessandro Striggio, Giorgio Mainerio, Antonio Valente, Orazio Vecchi e Michael Praetorius. Em relação directa com este programa, às 20h00, será possível assistir a uma conferência apresentada pelo Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira sobre “Música para bailar e música para cantar”, na Sala Manuelina.

Regressando ao final da Idade Média com o estilo dos autores de Avignon que hoje conhecemos sob a designação de Ars subtilior, teremos, a 18 de Junho, um espectáculo apresentado pelo agrupamento mais célebre que, nos nossos dias, tem sido responsável pela redescoberta deste repertório de transição extremamente elaborado e complexo. Dirigido por Pedro Memelsdorff, Mala Punica (o nome em latim para “romã”) ocupa desde há décadas um lugar inquestionável no plano internacional para os amantes da música dos séculos XIV e XV. Reflectindo justamente a natureza dúplice da música litúrgica dos autores influenciados pela Ars subtilior, o programa do concerto que trazem à Sala dos Cisnes, com obras de Matteo da Perugia e Antonio Zacara da Teramo, intitula-se Missa Cantilena: Travestimenti litúrgicos no final da Idade Média em Itália (1380-1410). A última conferência do Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira neste ciclo, proferida novamente na Sala Manuelina e versando sobre “A era da filigrana sonora”, precederá o concerto, oportunidade raríssima em Portugal para ouvir ao vivo este repertório.

No último fim-de-semana de Junho, concluindo o ciclo, haverá dois concertos, sendo o primeiro um recital a solo da harpista Sara Águeda Martín, a 24 de Junho, na Sala dos Brasões, com repertório barroco de fontes organísticas ibéricas dos séculos XVI a XVIII, singular oportunidade para ouvirmos, em harpa de duas ordens, uma das perspectivas de interpretação mais frequentes e importantes do âmbito de uma literatura que, nos nossos dias, comummente associamos, de forma anacrónica, apenas aos instrumentos de tecla, e especificamente ao órgão, mas que era concebida indistintamente para instrumentos de corda dedilhada e de tecla, em particular até ao desenvolvimento do teclado dividido na Península Ibérica e à autonomização progressiva da técnica organística, em meados do séc. XVII.

No dia seguinte, na Sala dos Cisnes, o agrupamento Seconda Pratica apresenta um programa construído em torno da figura de Gil Vicente, Ridendo, recorrendo sobretudo à música preservada nas colecções maneiristas que conhecemos como os cancioneiros de Elvas, de Palacio, de la Colombina, Paris, Medinacelli, Uppsala e Montecassino. Um dos maiores estudiosos portugueses do teatro vicentino dos nossos dias, o Prof. Doutor José Camões, proferirá, na Sala Manuelina, uma conferência sobre “O papel da música no teatro de Gil Vicente”, precedendo este concerto.

A par da programação nocturna, o ciclo Reencontros integra ainda quatro concertos comentados, às 15h00 de cada Sábado, de entrada livre para os visitantes do Palácio, que terão lugar na inigualável Capela Palatina. Versando igualmente sobre o repertório do final da Idade Média, do Renascimento e do Barroco inicial, estes espectáculos serão apresentados, em sequência, pelo Ensemble de Alaúdes de Évora, Piccolin Ensemble, Ensemble Pictórico e Ensemble Ensemble Sopranuscontrabassus.

Sobre o autor

José Carlos Araújo

Estudou cravo, órgão e música antiga em Lisboa, exercendo intensa actividade, quer a solo, quer com agrupamentos de música antiga e orquestras. Licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou Filologia Clássica e em cujo Centro de Estudos Clássicos é investigador. Prepara actualmente a primeira tradução portuguesa das Cartas de Plínio. Integra a Direcção da revista 'Glosas'.

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