Entra-se na sala. Em loop, um vídeo com a montagem metódica de todo o material electrónico. A tela onde é projectado mostra este lado escondido do métier — e esconde por ora o piano. Este emergirá em breve exuberante: a tampa, despegada e suspensa acima da harpa a uns 45 graus, irá reflectir na sua superfície lustrosa todo o trabalho dentro das entranhas do piano.

Aguardamos por Simão Costa, que apresentará ao vivo o seu trabalho discográfico π_ANO PRE·CAU·TION PER·CU·SSION ON SHORT CIRCUIT (2014). Simão é um artista sonoro multifacetado, cujo trabalho engendra formas de percepção corporalizada dos fenómenos acústicos, mediadas pela tecnologia e informadas quer pela ciência quer pelas restantes disciplinas das artes. Ao invés de rádios, esculturas ou sensores, esta oferta propõe antes um regresso ao instrumento que o terá visto nascer para a música. O resultado deste trabalho, centrado exclusivamente no piano de forma tão despudorada e íntima, imprime a sensação de que espiamos secretamente Simão no seu estúdio, através de uma qualquer janela privilegiada para os seus instintos, raciocínios e caprichos. Tanto é sugerido logo pelo método de captação: o álbum foi inteiramente registado através de microfones binaurais. A escuta apropriada, com fones, coloca o ouvinte na posição do executante, e prende-o com os artefactos da acção humana: ruídos, raspares, respirações, movimentos.

Todo o álbum é percorrido por uma paleta rica (mas coerente) de timbres francamente belos. Sinusóides despojadas ou animadas por batimentos e transdutores que arrancam ressonâncias das cordas do piano com mais e mais força, para de transparentes passarem a crispadas. São provocados feedbacks, loops são deixados a distorcer e objectos colocados nas cordas enrouquecem o piano. Há espaço para o frenético e para o meditabundo, para o regular e para o recortado, para o percussivo e para o delicado, para o exuberante e para o parco. Há incaptáveis que sempre escaparão a este parágrafo de descrição, por muito que me alongue.

PER meable, a quarta faixa, prova em cada audição repetida ser uma das mais bem conseguidas. A actividade move-se lenta e subtilmente do trabalho nas entranhas para o teclado, permitindo pela primeira vez uma distinta justaposição dos vários timbres que Simão encanta do instrumento. Embora a superfície seja inamovivelmente serena, esta é a música mais complexa de todo o trabalho. Preparações descendentes das de John Cage transformam a região média do piano num gamelão, cujos timbres inarmónicos — envolventes por si só — têm a virtude de tornar ainda mais doces os sons cândidos aos quais se opõem. Essas cordas — as que podem vibrar livres — enchem-se de significado face ao emudecer forçado das outras transformadas em gongos, e os sons destemperados transportam para o sublime aquele que de outra forma seria um contexto harmónico apenas familiar. É uma música de camadas, de subtilezas, de tensões: de uma grande vida interna.

Todavia, a restante música não consegue — frustrantemente — atingir o mesmo nível. Embora as demais faixas partilhem destas virtudes, a sua realização acaba por desapontar aqui e ali. Os inícios são prenhes, graças à sensação de construção que é impressa pela percepção clara de acção humana e de gesto. Já os finais, pelo contrário, sentem-se como cortes, ou até — imperdoavelmente — desistências. Veja-se a pressa em acabar SHORT, cujo notável trabalho tímbrico tem momentos da melhor dialética entre a electrónica e o piano. Nem mesmo a uma faixa tão circunscrita nela própria como per CAUTION é permitido respirar: a uma ruptura que deixe adivinhar algo ou a uma qualquer mudança determinante no objecto tende a suceder-se o abandono.

Falta perspectiva. Falta paciência para conseguir minar os materiais preciosíssimos que o improviso descobre. Falta, essencialmente, composição. O facto de a música ser uma de improviso não dispensa forma, mesmo que simples ou reduzida ao indispensável. Para Morton Feldman — que Costa cita como influência —, foi mais importante abandonar a notação gráfica do que descobri-la, e as extensas peças dos seus últimos dez anos são exercícios progressivamente mais impressionantes de controlo sobre a forma e a escala — preocupações que pertencem eminentemente ao domínio da composição. O que de mais fundamental há na estética de Feldman resiste a qualquer tentativa de aproximação ou apropriação que não guarde consigo semelhante respeito pelos materiais que se sujeita a manipular. Na prática de Alvin Lucier, também nomeado como referência, as peças são, frequentemente, a cristalização de um processo linear posto em movimento. E muito embora a admissão de indeterminismos seja basilar na sua prática, o essencial é que, mesmo com reiterações variadas, a peça resulte num fenómeno acústico bem definido. Já Steve Reich abandonou a certa altura o processo, mas para se ocupar a planear largas estruturas de longo alcance formal.

Destaca-se CIRCUIT por ir contra a corrente: aqui Simão é mais alongado — mas, ao mesmo tempo, mais económico. Cada insistência obstinada no gesto traz algo de novo, e alimenta o ciclo virtuoso em que um fenómeno acústico é “iluminado” de variadas formas, até a uma reconfiguração de onde emerge renovado. Sabe bem — especialmente em contraste com toda a música anterior — um gesto que cresce, que fura, que se assume e que fenece, ao invés de apenas se aborrecer.

O concerto reproduziu o espírito do trabalho discográfico, cujas estruturas mais salientes — particularmente as que se definem pelo trabalho no teclado — serviram de mote para novos improvisos. A renovação que aconteceu em palco tinha todas as condições para crescer face ao registo: o estímulo visual era sobremaneira interessante e, mesmo para a certa audiência que não precisa de uma ligação indissolúvel entre o gesto físico e o resultado sonoro, acompanhar as acções do executante seria uma mais-valia para o acto de transmissão da mensagem. Porém, subsistiu o mesmo óbice: forma. Em contraste, até a parca cenografia delineou para si um caminho: um par de candeeiros e alguns engenhosos LEDs em pontos estratégicos da harpa do piano conduziram o concerto da escuridão quase total até à luz. Apenas houve palmas na última peça do concerto; não porque de uma sinfonia se tratasse, não porque a audiência estivesse acanhada pelo escuro, mas porque foi a única com um verdadeiro gesto conclusivo. A restante música, embora tenha exibido muito do cômputo de timbres aliciantes que o álbum prometera, limitou-se a flutuar. Alguma pareceu não acabar, outra pareceu não começar. Nessa última peça, Simão empregou uma baqueta — uma flexível baqueta com cabo de plástico e ponta em feltro. Da concentração nesse elemento estranho floresceu muita da música mais interessante da noite: da subordinação da actuação aos actos de exploração das características físicas da baqueta, bem como — fulcralmente — da forma como esta poderia interagir e transformar o campo de jogo.

Foi mesmo ao teclado que Simão se mostrou mais confortável, por poder servir-se da vasta rede de ligações preexistentes. No entanto, também algumas das intervenções pianísticas me deixaram algumas reservas: as referências que lhe suportam a expressão estão tão disponíveis a quem toca como à audiência, e notar que as suas mãos carregavam na memória muscular uma técnica robusta (e cheia de tradição) e não as ver desenvolver, extrapolar e fugir provou ser um obstáculo difícil de ultrapassar durante a minha fruição. Desapareceram, nessa noite e face ao CD, alguns momentos de maior ousadia na organização das alturas e nas escolhas melódicas. O encore do concerto foi um resumo bem sintomático do que tenho falado: Simão, após ter finalmente enfrentado o público para agradecer com impecável simpatia, desligou a placa de som que o ligava umbilicalmente ao computador e à extensão electroacústica. E a música foi completamente diferente. Talvez o facto de ter sido explicitamente tonal tenha ajudado a lubrificar parte da invenção, mas não explica a súbita perspicácia, boa disposição e vida do pianista, nem a vontade de transgredir e superar o contexto, a base em que começou a construir a improvisação.

A construção de uma forma de expressão pessoal será o principal desafio para um artista, um de uma vida. Quanto menos convencionais são os seus meios, tanto mais importante se torna delimitar e trabalhar o material que os suportam: ajuizar as possibilidades, certificar que se dota o seu campo semântico de vida interna e de condições para que interaja consigo próprio. Tantas vezes um obstáculo imediato é a falta de uma camada de abstracção propícia (ou até necessária) à construção de um qualquer tipo de estrutura especial. Neste caso, Simão Costa tem uma tremenda vantagem: Short Circuit é um fenomenal compêndio de possibilidades, um autêntico manual sob a forma de registo discográfico. Recupere-se a reflexão de Antoine Hennion sobre o disco como registo e meio de fixação do jazz, ou a observação de Tristan Murail sobre o papel do timbre como veículo de definição de identidade no rock. No centro de qualquer uma das conclusões está a ideia do suporte fixo como uma camada de abstracção capaz de guardar as mais subtis ou elusivas características do som: um espaço apropriado para reflectir e trabalhar sobre esse material sonoro. Creio que o valor do trabalho é inequívoco quando até mesmo o próprio autor do manual pode voltar a ele e sair enriquecido. Aguardo com genuína expectativa o regresso de Simão a este formato.

 

Simão Costa — π_ANO PRE·CAU·TION PER·CU·SSION ON SHORT CIRCUIT (Shhpuma SHH009, 2014)

 

Concerto — Maria Matos Teatro Municipal, 3 Fevereiro 2016

Sobre o autor

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Luís Salgueiro é licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa. Para além da sua actividade criativa, dedica também a sua energia à preparação de partituras e musicografia, primeiro como 'freelancer' e actualmente como coordenador das actividades editoriais do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa.

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