Entre os dias 20 e 24 de março, realizou-se na cidade de Campinas a 5.ª edição do Festival de Música Contemporânea Brasileira. O evento centrou-se na homenagem a dois compositores e contou com a presença e participação destes durante as atividades. O Festival deste ano foi dedicado a Marisa Rezende e Egberto Gismonti. Em 2017, os homenageados foram Hermeto Paschoal e Edson Zampronha; em 2016, Ronaldo Miranda e Paulo Costa Lima; em 2015, Gilberto Mendes e Edino Krieger; e, em 2014, Ricardo Tacuchian e Edmundo Villani-Côrtes.

A carioca Marisa Rezende (1944) destaca-se como professora e pesquisadora, tendo lecionado composição e matérias teóricas nas universidades federais de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Nesta última, fundou o Grupo Música Nova, responsável por muitas estreias de repertório nacional. Sua obra abrange diversas formações vocais e instrumentais, além de instalações multimídia. Teve sua produção apresentada em renomadas mostras, como as Bienais de Música Contemporânea Brasileira, Festival Música Nova, Sonidos de las Americas (Nova York) e Brasilianischer Musik (Karlsruhe, Alemanha).

Pianista de formação conservatorial, Egberto Gismonti (1947), também nascido no Rio de Janeiro, desenvolveu seus estudos em diversos outros instrumentos de maneira autodidata. Teve também aulas de composição com Nadia Boulanger e Jean Baraqué em Paris. Participou em duas edições do Festival Internacional da Canção em fins dos anos 1960. Os anos oitenta foram o período mais prolífico de sua produção, com a gravação de um grande número de discos. Desafiando fronteiras estéticas, sua obra é marcada pela pesquisa da música popular e folclórica brasileira aliada a outras influências, como o Jazz, a música erudita e a música indiana. É Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

O FMCB, idealizado e dirigido por Thais Nicolau, tem como pilares a pesquisa e a performance. A parte acadêmica, sediada na Unicamp, compreende palestras, comunicações orais, mesas redondas e recitais. Também acontecem apresentações gratuitas em teatros da cidade. Desde a primeira edição, o evento inicia-se com uma mostra musical no Centro Boldrini, o maior hospital oncológico infantil da América Latina. Desta vez, realizaram-se ali também atividades de musicoterapia, conduzidas por Júnior Cadima, especialista em Psicopedagogia e Neurologia aplicadas à educação.

No dia 21 de março, o espaço cultural CPFL recebeu o Quarteto Radamés Gnattali, que apresentou obras dos dois compositores e teve a participação de Egberto ao violão. O dia seguinte foi inteiramente dedicado a este autor, com a apresentação de comunicações, mesa-redonda e recitais, dentre os quais destacou-se o do Duo Gisbranco, formado pelas pianistas Cláudia Castelo Branco e Bianca Gismonti (filha do compositor), que apresentaram interessantes arranjos de obras de Villa-Lobos, demonstrando pleno domínio técnico, criatividade, naturalidade gestual e perfeita interação. Seguiu-se o concerto noturno, no Teatro Municipal José de Castro Mendes, conduzido pelo próprio Egberto e com a participação de músicos convidados. Marisa foi a homenageada do dia 23, que contou com programação acadêmica de semelhante estrutura, encerrada no Teatro Castro Mendes com um concerto do Quinteto Pierrot e convidados, comentado pela compositora.

A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, sob a regência de Victor Hugo Toro, foi a responsável pelo concerto de encerramento, também no Teatro Castro Mendes. A obra do escritor João Guimarães Rosa foi o tema central desta noite, em que se puderam ouvir as obras Sertão veredas I e Strawa no Sertão, de Gismonti, e Vereda e Fragmentos, de Rezende. Nesta ocasião também ocorreu a entrega dos prêmios de melhor comunicação oral, para A sonoridade de Egberto Gismonti no início de sua trajetória (1969-1977), de Maria Beatriz Cyrino Moreira, e de melhor apresentação artística, para Egberto Gismonti para violão solo, de Daniel Murray. No site e redes sociais do FMCB encontram-se extensamente documentadas a edição presente e as anteriores. Os interessados podem ter acesso a mais de 90 vídeos, dentre os quais dois documentários.

Sobre o autor

Guilhermina Lopes

Guilhermina Lopes é doutora em música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Brasil, com tese sobre a obra musical de temática brasileira de Fernando Lopes-Graça. Realizou um estágio de pesquisa PDSE-CAPES entre 2015 e 2016 sob a coorientação de Mário Vieira de Carvalho. É actualmente investigadora colaboradora do CESEM-UNL, membro do Grupo de Investigação Música, Teoria Crítica e Comunicação, participante do projecto temático “O Musicar Local” (FAPESP – UNICAMP/USP) e segunda-secretária da Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET), gestão 2017-2019. Participou de diversos eventos académicos nacionais e internacionais, tendo apresentado comunicações em Portugal, Brasil, Chile e Espanha. Dedica-se também ao estudo do canto lírico e integra o Coro Contemporâneo de Campinas, grupo ligado à sua universidade de origem.

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