Ana Ferro
meio-soprano

Apesar da situação particular em que vivemos, não posso deixar de felicitar o MPMP, que comemora neste mês de Maio o seu décimo aniversário. O MPMP tem sido desde o início uma instituição de referência no panorama musical português. Faz um trabalho notável na divulgação da música erudita portuguesa, com rigor, qualidade e um espírito jovem e enérgico, que tem muito que ver com o amor à camisola e com o talento e empenho de quem organiza e produz as suas actividades. Já não consigo lembrar-me de como era o nosso país antes deles. De todas as vezes que surgiu a possibilidade de colaborar com o Ensemble MPMP em concertos, foi com muito gosto que aceitei o desafio. Sinto-me grata por ter integrado o grupo de colaboradores desta equipa. Que possamos o mais brevemente possível celebrar ao vivo, sempre em segurança, este aniversário, e pelo menos mais dez anos, com boa música, seja ela nova ou a redescobrir. Parabéns, MPMP!

 

Beatriz Dilão
produtora

Tive o prazer de poder colaborar com alguns textos, artigos e reflexões minhas desde Abril de 2015 na revista Glosas, tanto na sua versão digital como impressa. Acredito que o trabalho que a revista faz é indispensável no que toca à investigação da música erudita portuguesa, mas também no que toca à comunicação de concertos, discos e iniciativas nesta área, por vezes um pouco descurada noutros canais. Passados apenas dez anos, a Glosas publicou ensaios de investigação essenciais para o leitor musicólogo; por outro lado, conseguiu também criar o mediatismo informativo essencial para qualquer rede de comunicação, o que inclui o leitor leigo, reunindo a divulgação e comunicação de concertos, discos e projectos na sua versão digital. Creio que o ponto essencial é, no entanto, o facto de reunir as vozes de jovens maestros, compositores, intérpretes e musicólogos, que reflectem e divulgam a nossa actualidade nesta área, criando um espaço e uma rede de músicos cada mais forte e unificada, abrindo caminho para as próximas gerações de músicos. A Glosas é uma excelente (e única!) plataforma.

 

Francisco Chaves
compositor

O MPMP é, sem dúvida, um marco em Portugal para a música portuguesa. Ainda estudante na Universidade de Évora, decidi participar num concurso para jovens compositores, realizado em colaboração com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Escrevi a minha primeira peça para orquestra, Sinfonieta em três andamentos, e tive a sorte de ter sido premiado. Foi uma grande honra para mim, e essa oportunidade permitiu-me entrar em contacto com outros músicos e compositores de enorme talento. Posso dizer que começou aí, oficialmente, a minha carreira enquanto compositor. Essa peça foi estreada e tocada várias vezes por várias orquestras, algo bastante incomum numa peça orquestral. Fiquei motivado a escrever mais e a seguir o caminho da composição, em paralelo com a minha actividade como guitarrista. Outras peças seguiram-se, outros projectos aconteceram, mas foi aí que tudo começou, com o MPMP, e, por isso, estarei eternamente grato à organização e deixo-lhe os meus votos de longo e duradouro sucesso.

 

João Carlos Almeida
professor de música

Há dez anos, a revista Glosas deu-me a honra de publicar o meu artigo “Princípios orientadores de uma formação musical”. Agora, passados esses dez anos, irá ser publicado “um número especial, comemorativo do 10.º aniversário da revista e da associação MPMP […] com recolha de depoimentos”. Tendo recebido um estimulante convite para participar neste número, é, pois, com igual entusiasmo e sentido de responsabilidade que escrevo estas palavras.

A revista Glosas, editada pelo MPMP, propõe-se “[celebrar] a música clássica dos países de língua portuguesa”. Sublinho tão nobre objectivo, num país onde ainda acontece muitas vezes o preconceito de ser considerado que o que vem de fora “é que é bom”. Porém, na verdade, sempre tivemos, continuamos a ter e teremos excelentes músicos oriundos dos países de língua portuguesa. Saliento, a título de exemplo, alguns músicos portugueses de renome: Manuel Rodrigues Coelho, Carlos Seixas, Luísa Todi, João Domingos Bomtempo, Guilhermina Suggia, Vianna da Motta, assim como alguns dos seus discípulos, como por exemplo Luiz Costa, Campos Coelho, Helena Sá e Costa, Nella Maissa, Maria da Graça Amado da Cunha, Fernando Corrêa de Oliveira, João de Freitas Branco, Sequeira Costa e Fernando Lopes-Graça, Michel Giacometti, Maria João Pires… Sublinho: são apenas alguns nomes de ilustres músicos portugueses.

A revista Glosas, editada pelo MPMP, propôs-se “[celebrar] a música clássica dos países de língua portuguesa”. E é isso o que, inequivocamente, o MPMP e a revista Glosas têm feito. Se olharmos para o universo do MPMP, apercebemo-nos de um notável trabalho editorial (CDs, revista, livros e partituras), da existência de um excelente ensemble e de uma grande agenda cultural. Quanto à revista, destaco pessoalmente as entrevistas a Teresita Gutierrez Marques, Madalena Sá e Costa, António Pinho Vargas, Ana Paula Russo, Cristiano Holtz, Álvaro Cassuto, Emmanuel Nunes, Nuno Côrte-Real, Cândido Lima, entre muitos outros. Também o seu trabalho de investigação é um marco na investigação em torno da música clássica dos países de língua português, como provam os exemplos mais recentes: “Em torno de duas portas eborenses do séc. XVI e do seu contexto musical” e outros trabalhos da autoria de Luís Henriques, “Em torno do Festival de la Canción Gallega” da autoria de José Luís do Pico Orjais, “Francisco Santos Pinto e a Música Teatral” da autoria de David Cranmer ou “Repertório solístico para fagote de Francisco Santos Pinto” da autoria de Carolino Carreira. Destaco ainda o seu espaço dedicado à opinião crítica e a sua agenda de notícias breves. Admirável! Parabéns ao MPMP e à revista Glosas!

 

João Pereira Coutinho
flautista e membro do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa

Uma injecção de sangue novo e de vitalidade na vida musical portuguesa: eis como se afirmou o MPMP ao longo desta sua primeira década de existência, tendo na revista Glosas um verdadeiro arauto da sua missão.

Fundado por jovens empenhados e empreendedores, a acção do Movimento desde cedo se tornou visível em diferentes iniciativas e projectos de divulgação e promoção do património musical nacional: numerosos concertos, com predominância de música portuguesa e com muitos jovens intérpretes nacionais de qualidade; estreias absolutas de obras de música portuguesa contemporânea ou audição moderna de obras nacionais outrora estreadas mas entretanto esquecidas; edição de partituras (pressuposto da difusão e circulação de qualquer obra musical no âmbito da chamada música erudita) e edição discográfica, quer de compositores contemporâneos (jovens ou consagrados), quer de repertório de referência do nosso património musical do passado.

Também na edição de livros se manifestou o contributo do MPMP, quer em obras biográficas, quer em projectos de cariz mais didáctico. Neste âmbito editorial, foi-me extremamente grata a oportunidade de colaborar, com o meu testemunho pessoal, no Ad-memoriam Antoine Sibertin-Blanc (2016), tributo a uma personalidade notável cuja saudosa memória e legado se impunha preservar e difundir.

O contacto pessoal mais próximo e directo com a Glosas foi-me proporcionado por ocasião da publicação, em 2014 , do artigo “Lembrando Ricardo Ramalho”, de minha autoria, que fora publicado no ano anterior (traduzido para francês) pela revista Traversières, da Associação Francesa de Flauta. A preparação e publicação deste artigo na Glosas foi exemplarmente acompanhada e superiormente coordenada por José Carlos Araújo, vindo este trabalho a lume em perfeita sintonia e com total respeito pelas indicações e opções do autor.

No âmbito do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, que colaborou com a sua gravação de Floreal, de Jorge Peixinho, no projecto Histórias da Música em Portugal (2013), realizámos em conjunto com o Ensemble MPMP um concerto de homenagem a Clotilde Rosa (no dia do seu aniversário), integrado no evento de lançamento do n.º 8 de Glosas, especialmente dedicado à compositora.

Enfim, toda esta profícua actividade ilustra a multiplicidade e variedade de iniciativas e projectos e o impacto da acção do MPMP, com a sua revista, na vida musical portuguesa nesta sua primeira década de vida; que a esta muitas outras se sigam, sempre com o mesmo espírito empreendedor e de missão em prol da música e dos músicos portugueses.

 

João Vasco
pianista

Conheci a maioria dos membros fundadores do MPMP ainda enquanto alunos do Conservatório Nacional. Já nessa altura se destacavam dos colegas pelo empenho, vontade de desbravar repertório pouco explorado e qualidades artísticas e técnicas. Não posso, por isto, dizer que me surpreendeu totalmente a dimensão que este movimento adquiriu no cenário da música erudita em Portugal.

A Glosas teve um papel interessante no meu percurso, nomeadamente no meu primeiro projecto não estritamente clássico, chamado Alémfado (2010), que resultou de uma encomenda feita a compositores contemporâneos e do universo do jazz sobre fados seleccionados do grande repertório deste género (antes do sucesso na UNESCO). Tive o privilégio de ter um artigo sobre este projecto publicado na Glosas, numa altura em que no meio clássico nacional ainda se exercia activamente uma censura de carácter, digamos, hermético a músicos que ousassem fugir do grande repertório.

De resto, sempre me agradou a sempre atenta e dinâmica linha editorial da Glosas que, olhando para o passado e privilegiando o presente, sempre apontou para o futuro.

Bem hajam, cá estaremos para presenciar os vossos sucessos futuros, que serão também, e sempre, nossos.

 

José Bruto da Costa
musicólogo e barítono

Num país em que os mais variados projectos tendem a soçobrar, não por falta de mérito, mas pela ausência de apoios, é com particular regozijo que me associo a esta publicação, tão especial quanto emotiva, por ocasião do duplo aniversário da revista Glosas e do MPMP.

Impõe-se, por isso, uma pergunta que, não sendo retórica, não tem resposta desataviada: qual o motivo que impeliu a tão feliz e constante jornada?

Antes de tudo mais, a moldura contextual alterou-se, sendo, inequivocamente, um dos pilares que susteve a acção do MPMP. Nos últimos dez anos, o quadro mental e formativo da sociedade portuguesa foi parcialmente aliviado do atavismo cultural de que o nosso país padeceu durante décadas, por força das circunstâncias. O público melómano, receptáculo primeiro deste movimento, começou a demonstrar abertura e curiosidade perante o património musical português, já fora do conceito serôdio da portugalidade. Há muito que este núcleo patrimonial deveria ser uma “marca” e o MPMP contribuiu para essa assumpção.

No mesmo quadro cronológico, encontramos os decisores a integrar, tendencialmente, esse património, mostrando-se sensíveis ao tema. É da mais singela justiça saudar Filipe Carvalheiro, e o ciclo Música em São Roque, que desde a sua génese procurou o mesmo quadro de valorização do património musical português, pelo contributo sustentado para a visibilidade do MPMP.

Este comportamento foi, igualmente, adoptado pelos diversos festivais de música que na última década despontaram, ou se consolidaram, enquanto veículo fulcral na descentralização do acesso à música no nosso país.

A dinâmica notável que a academia portuguesa alcançou neste período foi, para além do necessário diálogo interdisciplinar, uma mais-valia que o MPMP soube aproveitar, entabulando parcerias frutuosas com a Escola Superior de Música de Lisboa, Universidade de Aveiro, Universidade de Évora e Universidade Nova de Lisboa / CESEM, pressupondo a conciliação, e complementação, entre posturas opostas.

Também os avanços tecnológicos a que assistimos nos últimos anos permitiram ao MPMP, de forma consistente e continuada, desenvolver ferramentas digitais ao serviço da sua missão. Basta recordar que a facilidade com que hoje se regista um concerto ou se grava um CD está a anos-luz das peripécias (e dos custos) do passado recente.

O plano editorial transversal, bem como um corpus de material pedagógico para o universo infantil, que saúdo com particular entusiasmo, contribuíram para a afirmação do MPMP no universo musical português.

Ainda que, pessoalmente, considere que a muitos dos jovens músicos falte o necessário tonus dramaticus, raramente o nosso país encontrou uma geração tecnicamente tão pró-activa quanto enformada. Por ora, a coexistência de uma diversidade de novos agrupamentos, têm permitido estabelecer sinergias com o MPMP, garantindo a divulgação paulatina do repertório resgatado.

Também a criação contemporânea encontrou espaço no MPMP, revelando-se, assim, ciente de que o conceito de património não é imutável, como repetidamente tem sido afirmado na última década.

Igualmente importante foi o avanço da musicologia em Portugal. Liberta da necessidade primordial de traçar arcos narrativos consistentes, pode debruçar-se, com o devido detalhe, na verdadeira destrinça. Foram-se delineando quadros que, de forma progressiva, afastaram a dicotomia centro versus periferia, na qual o património musical português quase sempre se inseriu.

Talvez há dez anos o MPMP encarasse a sua missão como contra-hegemónica. Não querendo pecar por ingenuidade retórica, julgo que o património musical português é suficientemente rico e diversificado para, de direito próprio, ser pontualmente absorvido pela hegemonia do repertório dito convencional.

Nunca Portugal foi capaz de promover essa absorção, inequivocamente por complexo de inferioridade, à excepção da polifonia vocal da primeira metade do séc. XVII, que cedo encontrou nos agrupamentos mormente ingleses um galante paladino. Mas a heterogeneidade do património musical português vai muito para além das conhecidas idiossincrasias do seu contexto sócio-discursivo.

A revista Glosas veio, neste sentido, reforçar o enquadramento sistemático de autores maiores do repertório que o MPMP divulga, enquanto compilação do que de melhor se tem pensado e escrito sobre a música em Portugal.

Resta invocar o pilar invisível do MPMP nestes dez anos de existência, os seus fundadores e colaboradores. Faço uma pequena ideia das tormentas desta jornada a que se abalançaram, pois certamente não foi uma promenade ao sol. Que a frescura dos verdes anos permaneça como tónica dominante neste alento de fazer e inovar.

Uma última palavra para o Edward, que, gentilmente, me convidou a escrever estas parcas palavras sobre o MPMP, facto que muito agradeço.

Agora que já dominam o métier, mãos à obra, os próximos dez anos estão a começar. Boa viagem!

 

Maria João Neves
investigadora

Venho por este meio deixar aqui o meu testemunho de colaboração com a revista Glosas. Este projecto arrojado e inovador reúne numa mesma revista artigos de fundo científicos, entrevistas, crítica musical, notícias breves… Com conteúdo rigoroso e uma estética cuidada, esta revista é uma pérola no panorama da musicologia lusófona.

Ao longo dos anos tive o prazer de publicar alguns artigos em diferentes rubricas, nomeadamente crítica musical e notícias breves. Contudo, destaco a minha contribuição com os artigos de fundo “A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sassetti”, publicado no n.º 13, e “Bernardo Sassetti: uma estética de penumbra” publicado no n.º 14. Ambos os artigos foram produzidos graças à investigação de pós-doutoramento financiada pela FCT de 2010 a 2016 e acolhida pelo CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa.

São de louvar os autores deste projecto, não apenas pela sua exímia execução mas também pelo cuidado colocado nos lançamentos, divulgação e distribuição da revista. Sendo de elevado esmero, tanto em conteúdo como em forma, a Glosas possui ainda a qualidade de não se restringir ao público académico, atingindo um amplo escopo de melómanos no espaço lusófono. Uma palavra também para todos aqueles que de forma graciosa contribuem para esta excelente publicação, e os votos sinceros de que as circunstâncias se alterem no sentido de se encontrar sustentabilidade financeira para tanto conhecimento, talento e empenho. Bem hajam!

 

Sofia Sousa Rocha
compositora

Escrever para o último número da revista Glosas seria, para mim, sinónimo de perda. Acompanhei desde o início a vida desta revista, tendo lido grande parte das edições. É uma referência indiscutível, particularmente no desenvolvimento do seu tema de capa, divulgando a obra de compositores lusófonos do passado e do presente.

As “despedidas” são também balanços e esta, particularmente, faz-me regressar a 2012, ano em que estreei a minha primeira ópera – e única até agora –  no contexto do “Concurso Mini-Óperas”, uma produção conjunta do Teatro Nacional de São Carlos e da Arquipélago – Associação de Compositores de Portugal. A revista Glosas n.º 5 acompanhou a produção das quatro óperas em estreia, entrevistando os compositores, eu própria, Edward Luiz Ayres d’Abreu, Luís Soldado e Tiago Cabrita, o encenador Luís Miguel Cintra e o director musical João Paulo Santos, e publicando uma crítica de Duarte Pereira Martins. Dá-se agora a coincidência de eu ter voltado ao género operático. Estou a compor uma nova ópera breve que será (seria?) estreada em 2020. Mais uma vez, junto-me a outros compositores – Fátima Fonte, Francisco Fontes e Sara Ross – para levar a cabo a produção das quatro óperas num formato de um festival de um dia.

Termino deixando uma palavra de apreço e reconhecimento pelo trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo MPMP nas suas mais variadas dimensões, destacando as numerosas edições de discos, partituras e livros.

 

Tânia Valente
cantora e investigadora

Já se passaram dez anos. O tempo voa mesmo! Quando ouvi falar pela primeira vez do MPMP, à porta do Teatro Nacional de São Carlos, os seus membros eram então um corajoso grupo de jovens músicos que queriam descobrir partituras de compositores portugueses e dar-lhes “vida”. Com o tempo, o MPMP cresceu, e hoje têm uma temporada regular de concertos. Pelo meio nasceu a Glosas, para a qual escrevi durante um tempo.

A Glosas deu-me a mim, e deu a outros jovens investigadores, a oportunidade de ver os seus artigos publicados numa revista que, em qualidade, nada fica a dever a outras do mesmo género. Para além disso, asseguravam a revisão dos textos, garantindo a sua clareza e correcção linguística. Acredito, por isso, que eu e outros investigadores devemos bastante à Glosas. Já a Glosas digital, onde me pude estrear no papel de “jornalista”, foi para mim um interessante campo de experimentação. Procurar notícias e, ao mesmo tempo, divulgar o trabalho de colegas músicos, era algo que me dava bastante gozo fazer.

Nesta altura de reclusão forçada, durante a qual escrevo esta reflexão, a música é, mais do que nunca, uma luz que nos ilumina na escuridão, como naquele momento do Ensaio sobre a cegueira de José Saramago – livro tão tristemente actual hoje – em que um dos cegos enclausurados põe a tocar um pequeno rádio a pilhas, e os outros cegos, ouvindo uma canção sem importância, aproximam-se devagar do som e, “com os olhos muito abertos na direcção da voz que cantava, alguns choravam”. Trata-se de um momento em que algo banal, que tomávamos por garantido, ganha uma nova e extraordinária dimensão.

Tempos difíceis nos esperam, pois a tendência é para a arte ser sempre vista como algo supérfluo, sobretudo quando a sobrevivência de cada um está em jogo. Porém, quero acreditar que o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa vai conseguir prosseguir a sua missão, com mais ou menos recursos disponíveis, e que, findo este período difícil, os seus concertos vão voltar a encher-se de público.

Pode ser que esta crise mundial se torne lição de vida, que faça com que coisas banais que tomávamos por garantidas, como um evento cultural – que o público nem imagina quanto trabalho dá para preparar, e às vezes com tão pouca recompensa para os artistas envolvidos –, possam, como naquele momento do romance de Saramago, ganhar a dimensão que merecem ter. Quiçá tudo isto possa até mudar a forma como as pessoas percepcionam a beleza de um concerto ao vivo, até porque, como no pequeno rádio do romance de Saramago, “as pilhas não duram sempre”. Há que aproveitar enquanto há pessoas disponíveis para nos agraciar com boa música e, neste caso, mostrar-nos o que de melhor se fez e se faz na música em Portugal, como é missão do MPMP e da Glosas.  Obrigada pelo vosso trabalho.

 


 

Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

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