António José Ferreira
criador da Meloteca e do Musorbis

Glosas sobre a música em Portugal

  1. Pela música portuguesa

A palavra “glosas” evoca poesia, lirismo, história, o que justifica o modo como vou partilhar ideias. Após o honroso convite do Edward Luiz Ayres d’Abreu para escrever para a revista Glosas, reflectindo sobre dez anos de música, ou sobre a história da música em Portugal nesse período, a primeira ideia que tive foi a de escrever sobre algo que me é familiar, sobre algo que está em mim: uma paixão, irracional mas tornada consciente, sobre a música, a cultura e o país. Mais do que paixão passageira, amor duradoiro que supera distâncias e indiferenças, obra que perdura ou que reaparece, tesouro que se guarda quando se partilha.

Escrever sobre a Glosas e sobre o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa é falar de ligações umbilicais à música, algo que vem das entranhas e dá sentido à vida e aos obstáculos. Acompanho a revista desde o seu nascimento, e sigo o crescimento e afirmação nacional do projecto, 20 números de revista impressa, mais de 120 partituras, 50 CDs, 60 compositores editados. E os compositores que foram capa de revista (Alfredo Keil, Domenico Scarlatti, Frederico de Freitas, Gaspar Fernandes, Joly Braga Santos, Ruy Coelho, António Fragoso, Marcos Portugal, Constança Capdeville, Clotilde Rosa, António Pinho Vargas, António Victorino d’Almeida e Cândido Lima…), também estão presentes, de formas diversas, no meu projecto Meloteca.

No início do século XXI, muitas das actuais estrelas na música erudita eram crianças. É bom verificar como, em muitos casos, as promessas se cumpriram, procurando os músicos dar resposta às lacunas do país. Muitos não encontram espaço para o seu talento em Portugal, pelo que, nesta década, aumentou o número dos que residem, tocam e cantam no estrangeiro. Mas aumentou também o número de pianistas, maestros, cantores… que, residindo no país, são convidados para cursos magistrais, membros de júri em concursos e concertos no estrangeiro. Não se trata apenas de termos hoje mais informação; trata-se de um aumento efectivo que tem a ver com a qualidade dos conservatórios, academias, escolas profissionais e superiores de música. A participação de portugueses em concursos internacionais aumentou também. Concursos não garantem um futuro na música mas, na medida em que o músico se coloca a si mesmo um elevado nível de exigência, já beneficiaram quem participou.

  1. Década de mudanças

A primeira década do MPMP e da Glosas é uma década de grandes mudanças, destacando-se o papel das redes sociais, em especial o Facebook. A Meloteca foi lançada a 2 de Setembro de 2003 e o Facebook apareceu a 4 de Fevereiro de 2004. Em poucos anos, os sítios e as plataformas tiveram de se adaptar. Ignorar as redes sociais poderia ser o fim ou a estagnação de um projecto. A conexão com os músicos nas redes, ao longo da década, foi intencional na Meloteca, uma espécie de trabalho de paciência a juntar contactos de músicos, pedindo amizades selectivas e confirmando pedidos nas áreas da música, educação e cultura. Hoje, a informação na área da música chega, por vezes, a dar-se primeiro nas redes sociais do que nos meios de comunicação social, mesmo nas suas versões digitais. Em 2018, o sítio da Meloteca transfigurou-se com recurso a uma agência digital especializada. Expande-se agora de uma forma limpa, coerente e profissional. Sendo muito vasto, o sítio tornara-se pouco intuitivo. A BlendUp sugeriu que se dividisse em dois. Assim, grande parte dos conteúdos da antiga Meloteca estão ainda à espera de serem inseridos numa nova plataforma, o Musorbis.

  1. Destaques

Um dos destaques desta década é o aparecimento de excelentes músicos em várias regiões. Não só de Lisboa, Porto, Aveiro e Coimbra mas também de concelhos situados nos “territórios de baixa densidade” em que as bandas filarmónicas têm um importante papel social, cultural e educativo. Com a formação adquirida por muitos professores das escolas de regiões mais periféricas, o nível pedagógico elevou-se também, não sendo assim de estranhar que alunos seus sejam premiados em concursos nacionais e internacionais.

Destaco também o papel da música como factor de desenvolvimento social. O projeto Geração, baseado no El Sistema, idealizado por José António Abreu na Venezuela, começou em 2000-2001 em Portugal. De um bairro do concelho da Amadora foi crescendo e, na década seguinte, alargou-se a outros concelhos como Amarante, Mirandela, Murça e Coimbra. No Porto, “Música para todos”, parceria entre a Câmara Municipal do Porto, o Curso de Música Silva Monteiro e o Agrupamento de Escolas do Cerco do Porto, procura o desenvolvimento e o sucesso escolar através da música. Já o projecto “Orquestra de Câmara Portuguesa Solidária” dá a pessoas com deficiência a oportunidade de aprender música e de se expressar através dela. Em 2015, ficou concluído o apoio ao projecto-piloto de intervenção junto de 50 pessoas com deficiência. O projecto, promovido pela Orquestra de Câmara Portuguesa, em parceria com a Cercioeiras, foi seleccionado para receber um novo apoio financeiro para um período de três anos na 2.ª edição do concurso PARTIS, da Fundação Calouste Gulbenkian.

  1. Memória e comemoração

Entre as figuras da música que partiram durante a década destaco dez: Sequeira Costa, Emmanuel Nunes, Clotilde Rosa, Fernando Laires, Vasco Barbosa, Vitorino Matono, José Lopes e Silva, Álvaro Malta, Elvira de Freitas e Magdalena Van Zeller. No Ano Beethoven e Ano Internacional do Som, ocorrem-me aniversários redondos, entre outros: 10 anos da Glosas; 20 anos do Teatro Helena Sá e Costa, do Remix Ensemble e da carreira de Ana Laíns; 30 anos da morte de Alain Oulman, 40 anos das Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian, do Departamento de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa, da Canto Firme e da morte de Frederico de Freitas; 50 anos do Grupo de Música de Câmara de Lisboa, de Bernardo Sassetti, e fim dos festivais de música da Gulbenkian; 60 anos de Miguel Azguime e da morte de Luís Costa; 70 anos de Fernando Lapa e de Paulo Brandão, da morte de Tomás Borba, Guilhermina Suggia e António Tomás de Lima, e da criação do Hot Clube de Portugal; 80 anos de Jorge Peixinho, António Victorino d’Almeida e da Sociedade Coral de Lisboa; 90 anos de Clotilde Rosa e da morte de João Arroyo; 100 anos do Teatro Thalia e da morte de Miguel Ângelo Lambertini.

  1. Objectivos comuns

Confirmei que a Meloteca e o MPMP têm interesses e práticas em comum:

  • o remar contra a maré do esquecimento a que a sociedade portuguesa tem votado grandes compositores, professores, investigadores. O conhecimento da música em Portugal pode ser divulgado de uma forma cada vez mais competente e com honrosas colaborações de figuras destacadas da música e da musicologia;
  • o valor que reconhecemos à língua portuguesa como veículo expressivo. A Língua tem no projeto Meloteca um lugar fundamental patente na utilização de poesia, literatura, provérbios, adivinhas, lengalengas, trava-línguas em recursos musicais para a infância;
  • o entendimento da música como dimensão fundamental do ser humano. Este aspecto está subjacente às numerosas propostas de educação e musicoterapia do Sítio da Música;

Destaco, para terminar, aspectos inspiradores do projecto MPMP:

  • o facto de ter começado com jovens que terminavam o Conservatório;
  • o estímulo à criação musical através do Prémio Musa, segunda edição em 2020;
  • a apresentação de música portuguesa no estrangeiro, nomeadamente no Brasil;
  • a cooperação com outros agrupamentos, como o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa;
  • a estreia moderna de obras de nomes (mais ou menos) esquecidos da música portuguesa (Marcos Portugal, João José Baldi, Joaquim Casimiro Júnior, Francisco Norberto dos Santos Pinto, Francisco de Freitas Gazul e Augusto Machado) através do Ensemble MPMP;
  • a sã convivência da história com a actualidade, na interpretação e edição de obras do passado e do presente.

Em Portugal, revistas de música erudita e editoras de livros e CDs não têm vida fácil. Ao projecto MPMP desejo vida longa e, à sua equipa, que continue a divulgar o património musical e a promover, com a mesma paixão, novos caminhos.

 

Felix Duarte
violinista

Muitos parabéns a toda a equipa da Malta Popular Muito Porreira, que se entregou e que realizou um fantástico trabalho musical, nomeadamente na vertente do repertório português, que até então esteve muito escondido e pouco explorado. Graças ao MPMP muita boa música foi resgatada das prateleiras e pôde finalmente ser interpretada e ser dada a conhecer ao nosso público. Com muito prazer e orgulho pude participar em alguns dos seus projectos, conhecendo e trabalhando obras que eram por mim desconhecidas, com as quais pude enriquecer a minha bagagem e experiência musical. Por último, quero destacar que sempre tive a sorte de partilhar esta boa música com colegas e amigos com quem convivi durante a minha formação artística, que, para além de excelentes músicos, são também pessoas incríveis.

Muitas felicidades a todos os membros… e que o MPMP se prolongue por mais dez anos na companhia desta família tão especial!

 

Gerson Batista
compositor

O MPMP e a revista Glosas vieram prestar um contributo importantíssimo para o panorama da arte e da música contemporânea do nosso país, tendo funcionado como veículos de informação e de comunicação entre os músicos e o público. Não só sinto que o MPMP e a Glosas não cortam nenhuma raiz com o passado (muito pelo contrário), como sinto ainda os efeitos positivos de um aumento de oportunidades e de actividades para a nova música em Portugal. No meu caso, algumas das minhas partituras não existiriam ou não estariam publicadas sem o esforço do MPMP. Só posso esperar que continuem o bom trabalho e que inspirem muitos mais a juntar-se à causa.

 

Helen Gallo
pianista e professora

Contribuí para a Glosas nas edições 7 a 10, publicadas entre 2013 e 2014, período no qual também comecei a acompanhar as iniciativas do MPMP. Foi um momento bastante especial e particular em minha trajetória, pois naqueles exatos anos atuava como professora de História da Música Brasileira em um curso de Graduação em Música na cidade de São Paulo. A possibilidade de escrever sobre a produção musical brasileira do presente e do passado na Glosas foi uma honra, tanto pelo cuidado com o projeto gráfico e o esmero no editorial, quanto pela qualidade e relevância dos assuntos e temas abordados na revista.

A missão da Glosas e do MPMP de preservar e resgatar a produção musical dos países lusófonos, em especial de Portugal e do Brasil, é fundamental para a compreensão da cultura desses países. Como brasileira, entendo que ainda há muito o que se descobrir na história musical de minha terra natal, e não só isto: ainda há muito o que se refletir sobre o que é, de fato, ser brasileiro, e esta análise pode ser realizada a contento a partir da música aqui produzida. Observo que, nesta última década, houve um movimento bastante profícuo de resgate da produção musical brasileira dos últimos dois séculos, com ênfase também nas composições contemporâneas, seja por meio de registros fonográficos, seja por intermédio de pesquisas musicológicas, publicações, movimentos coletivos e iniciativas individuais, os quais têm desvelado à comunidade musical a vultuosidade de nossa produção. Desta feita, só posso comemorar a vigésima edição da Glosas, que brilhantemente tem contribuído neste sentido. Parabenizo a iniciativa do MPMP e desejo-lhes muito mais décadas de sucesso nesta militância em prol da memória musical lusófona!

 

Isabel Rei Samartim
guitarrista e professora

Nem sempre é fácil comprar livros e informação em português a partir da Galiza. Como professora galega, a morar em Compostela, a aventura da aquisição de cultura portuguesa é uma fonte inesgotável de anedotas. Por isso, a Glosas tem sido para mim uma janela aberta à música portuguesa de enorme valor, pois nem sempre é fácil, mesmo na era da internet, termos conhecimento da nossa história comum atlântica.

De ótima edição, a Glosas chegou-me sempre no momento certo e cheia de maravilhas que não teria conhecido por outros meios. Para mim são fundamentais os trabalhos históricos sobre músicos portugueses, desde Dom Dinis até Carlos Franco, passando por Frederico de Freitas e Fernando Lopes-Graça. A Glosas oferece com a passagem do tempo uma constelação de compositores que na Galiza precisamos de conhecer mais, como Frei Manuel Cardoso, Gaspar Fernandes, Carlos Seixas, Marcos Portugal, Vianna da Motta, António Fragoso, Francisco Eduardo da Costa, César Guerra-Peixe, Ricardo Ramalho, Fernando Corrêa de Oliveira, Gabriel Morais de Sousa, Alfredo Keil, Joly Braga Santos, António Victorino d’Almeida, Cândido Lima…

Assim como João Domingos Bomtempo travou relações, em Paris, com o editor e guitarrista de possível procedência galega Salvador Castro de Gistau, as relações galegas e portuguesas, outrora normais, deveriam encher e complementar a nossa cultura comum. Sem elas, a vida é incompleta.

Gostei especialmente dos números dedicados às mulheres músicas, como o tributado à Clotilde Rosa, que veio acompanhado de um antigo número da revista Arte Musical com trabalhos sobre a cantora Angelica Catalani e os concertos em Vila Franca de Xira, que também me levaram às pesquisas sobre Agostinho Rebel Fernandes, guitarrista que depois publicaria dois métodos de guitarra em Lisboa. Os nomes e trabalhos de Constança Capdeville, Elisa Lamas, Valdilice de Carvalho, Carla Caramujo, Maria João Serrão, Madalena Moreira de Sá e Costa, Guilhermina Suggia, Maria Ana Josefa, Nella Maissa, Sofia Lourenço, são do maior interesse e precisamos ainda de mais informação sobre estas e outras mulheres cuja dedicação à arte musical foi, tem sido, e é, centro das suas vidas.

Adorei também as entrevistas ao João Paulo Santos sobre a criação de música portuguesa e a realizada à orquestra Divino Sospiro, especializada na música do século XVIII. As informações sobre música brasileira: a umbanda, Régis Duprat, Gilberto Mendes, as irmandades em Minas Gerais, José Siqueira, as viagens ao Brasil. As recensões dos ensaios do Louis Saguer sobre a defesa da música portuguesa, o estudo da correspondência entre Lopes-Graça e Eugénio de Andrade, o artigo sobre a relação entre Lopes-Graça e Guerra-Peixe, sobre Saramago e a música…

São um farol orientativo as secções de discografia. E aliciantes as descobertas na Biblioteca Nacional, as pérolas da música antiga em Portugal e o laboratório de iconografia musical. Para mim foram também importantes, e deviam aumentar, as informações sobre guitarra ou viola, como o artigo de Manuel Morais sobre Emilio Pujol na sua etapa lisbonense e as notas sobre a tiorba de Matheus Buchenberg.

O que realizou ainda a Glosas nestes anos foi entrar em contato com autores e autoras galegas e abrir espaço para as suas colaborações. Eu própria tive a honra de apresentar o disco gravado com a música para viola da Madeira e adorei ler o artigo do meu colega José Luís do Pico Orjais sobre o seu estudo da música de autores portugueses em Pontevedra. Explorar as relações galego-portuguesas na música, fora do conhecido âmbito medieval, é do maior interesse.

Por palavras do António Pinho Vargas, publicadas no número da Glosas dedicado à sua obra, “não tenho nenhum interesse em discutir nenhuma questão estilística, técnica ou mesmo estética”. Com efeito, não é essa a questão, mas o conhecimento e divulgação da música portuguesa, empresa para a qual, felizmente, nasceu o MPMP. Longa vida à Glosas!

 

Otto Solano
assinante MPMP
                                          

Há trinta e oito anos, Humberto d’Ávila escrevia na sua crónica periódica “Ponto contra Ponto”, no jornal Diário de Notícias (22/07/1982), que os portugueses, na generalidade, não conheciam a sua música nem os seus compositores, e que, salvo raríssimas excepções, ela não fazia parte da programação dos concertos públicos.

A partir desta data, e nas décadas que se seguiram, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e de intérpretes nacionais e estrangeiros, foram editadas, de início em LP e depois em CD, algumas das obras mais significativas dos nossos compositores, e na rádio Antena 2, além da transmissão ocasional desses registos sonoros, musicólogos reconhecidos apresentavam programas didácticos de grande interesse sobre esta matéria.

Para que, porém, a divulgação da nossa música seja mais abrangente, é necessária a sua apresentação em concertos públicos, comentados, periódicos e apelativamente anunciados em tempo útil.

O MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, foi fundado há precisamente dez anos e, conforme a sua apresentação na revista Glosas n.º 1, os objectivos propostos foram o de realizar actividades que divulgassem a nossa música não só direccionadas ao público melómano mas que também despertassem o interesse de um público em geral.

Durante estes dez anos, e mercê do empenho e do trabalho pessoal e colectivo dos seus fundadores e colaboradores, aqueles objectivos foram sobejamente alcançados.

Nunca no nosso País foi editada tão vasta discografia de compositores esquecidos do passado, obras completas e obras de compositores contemporâneos, nem editadas tantas partituras como as que o MPMP promoveu durante este período de tempo.

A revista Glosas, além dos contributos de muitos colaboradores com trabalhos de grande interesse didáctico, entrevistas a musicólogos e compositores do nosso tempo, apresentou sempre como tema principal de cada número uma biografia bem documentada de um compositor nacional. Julgamos que o Ensemble MPMP e a sua actividade concertante, desde a sua formação, foi o acontecimento mais representativo e de maior importância que este Movimento introduziu no nosso panorama musical, salientando o caso inédito de se dedicarem quase exclusivamente à execução de obras de compositores portugueses.

O Ensemble MPMP tem-se apresentado periodicamente por todo o país, oferecendo concertos comentados; instrumentistas convidados interpretam obras do passado e inéditas do presente, também comentadas; e nas épocas festivas são já tradição a execução, nos locais apropriados, de composições com elas relacionadas.

Fazendo uma revisão mais pormenorizada das suas actividades, consultando as edições da revista Glosas, relendo os programas dos seus concertos e outros eventos e visitando a sua página na internet, podemos dizer, sem pecar por exagero, que o MPMP divulgou mais música portuguesa nestes seus dez anos de existência do que aquela divulgada em tempos passados, valorizando assim sobremaneira a nossa cultura em geral, e musical em particular.

É de realçar também o papel relevante que as actividades do MPMP representam para a cultura ibérica, da qual, no âmbito das suas diversidades, Portugal é componente soberanamente integrante.

O MPMP conquistou lugar privilegiado no espaço da nossa cultura musical, pelo que a sustentabilidade da sua continuidade é um imperativo nacional e patriótico.

 

João Dionísio
técnico de som

Conheci o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa em meados de 2013, através do editor de partituras e compositor Luís Salgueiro. Desde cedo, percebi a importância deste projecto e de como ele, ao longo do tempo, teria tudo para ganhar uma grande dimensão. O seu impacto e a sua importância tornaram-se fundamentais para os que nele estão envolvidos, para mim e para a música em Portugal. É um projecto fundamental para a preservação daquilo que é nosso enquanto povo português. Por este motivo, decidi embarcar neste movimento enquanto profissional da área do som.

Desde 2017, trabalho regularmente com o MPMP, e observo a sua evolução e o empenho de todos à sua volta. Todos têm mérito e brio no que fazem, e por isso cada projecto é notoriamente melhor do que o outro.

Gostaria de agradecer a oportunidade e a confiança que depositaram em mim, para podermos realizar, por exemplo, o CD do compositor Nuno da Rocha: até à altura foi um dos projectos mais ambiciosos e difíceis que realizei, tanto pela música em si como pela formação de orquestra.

Por último, desejo um abraço a todos envolvidos e votos que os próximos dez anos sejam ainda mais prolíferos. Muito obrigado!

 

Octávio dos Santos
escritor e jornalista

Eu “voto” no MPMP!

Durante muitos anos, o meu amor pela música – por qualquer tipo de música, fosse ela antiga ou moderna, simples ou complexa, desde que tivesse qualidade, que agradasse aos meus ouvidos e à minha mente – expressou-se por apenas a ouvir continuada e dedicadamente. Depois, esse amor passou a comportar igualmente escrever, ocasionalmente, sobre ela. Até que, já não satisfeito com apenas esses dois modos, procurei também compô-la, criá-la, fazê-la, transpô-la dos sonhos para a realidade, de papéis para suportes tecnológicos. No que não tive sucesso…

…E tal notou-se logo no início da década de 80, quando tentei aprender a tocar guitarra; tive algumas lições, pratiquei algumas vezes, mas cedo ficou evidente que eu não tinha suficiente capacidade – nem persistência – para me tornar proficiente naquele instrumento; posteriormente, ocorreu-me que o resultado talvez tivesse sido diferente se tivesse experimentado a bateria… Mais tarde, curiosamente, o meu irmão (mais novo sete anos) tornou-se um teclista muito competente, tendo durante algum (bastante) tempo seguido uma carreira de músico semi-profissional integrado num trio (com um guitarrista e uma vocalista) que tocava frequentemente em bares e em casamentos (encontrei-os em pelo menos um matrimónio em que fui um dos convidados); ainda experimentei numa ocasião escrever canções com ele, utilizando poemas e melodias (estas compostas e “executadas” somente no meu cérebro) da minha autoria, mas nada de concreto e de duradouro resultou dessa tentativa.

A minha abordagem em relação à música, e em especial à música portuguesa, e mais em especial ainda à música portuguesa dita “clássica”, mudou quando escrevi o meu (primeiro) romance Espíritos das Luzes, que concluí em 2005 mas que só consegui publicar em 2009. Tratando-se de uma obra no género fantástico, talvez ficção científica, quiçá história alternativa, que assenta porém em ocorrências e em figuras históricas do século XVIII nacional, aproveitei este meu projecto para, enfim, descobrir os trabalhos de (alguns) compositores portugueses setecentistas, que assim me proporcionaram uma autêntica e adequada “banda sonora”. Foi uma série de revelações. O que ouvi maravilhou-me, deslumbrou-me, e destaco: os Te Deum de António Teixeira e de João de Sousa Carvalho – e ainda As Variedades de Proteu (com libreto de António José da Silva!) do primeiro e Testoride Argonauta do segundo; as sonatas de Pedro António Avondano, Francisco Xavier Baptista e de Carlos Seixas – e o seu Concerto, redescoberto e finalmente conhecido o seu autor, uma das mais belas melodias que jamais ouvi e que seria, sem qualquer tipo de dúvida, a ilustração auditiva perfeita de um eventual trailer de um filme que se fizesse do meu livro; as obras sacras – missas, responsórios, Stabat Mater – de João Rodrigues Esteves e de José Joaquim dos Santos; e, principalmente, acima de todos, Francisco António de Almeida, cuja oratória La Giuditta teve um tal impacto em mim que decidi fazer do seu autor uma personagem do meu romance, incluí-lo no elenco daquele, desempenhando um papel (aparentemente) diminuto mas, na verdade, decisivo no desenlace.

De Espíritos das Luzes resultaram várias ideias para iniciativas, para projectos, e o mais importante teve e tem a ver com música: a reconstrução virtual, utilizando as ferramentas da computação gráfica, do Teatro Real do Paço da Ribeira, ou Ópera do Tejo, por uma equipa que eu formei; os pressupostos e os passos fundamentais (os iniciais e os outros) desse processo foram por mim descritos no artigo “Estrela cadente: recordando e recriando a Ópera do Tejo”, publicado no n.º 8 da Glosas, em Maio de 2013. O extraordinário edifício, que realmente só existiu durante cerca de seis meses, pois foi inaugurado em Abril de 1755 e destruído pelo terramoto de Novembro seguinte, é um dos cenários em que se desenrola a acção daquele meu romance, mais concretamente no quarto capítulo, intitulado “Etéreas flores”; aliás, o meu livro quase poderia ser considerado, de certa forma, como uma ópera em oito actos (oito capítulos). Porém, é uma Ópera do Tejo imaginária situada numa Lisboa imaginária e num Portugal imaginário. Na reconstrução digital, no entanto, procurou-se determinar o mais aproximadamente possível, com todas as poucas informações que restaram até aos nossos dias e que foi (tem sido) possível reunir e validar, as correctas características arquitectónicas, técnicas e estéticas da monumental “casa da música”. Isso foi feito logo na primeira apresentação do projecto e do (primeiro) protótipo que a equipa produziu – num congresso que decorreu em Novembro de 2005 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa  (FLUL) – e continuou em eventos posteriores realizados no nosso país e no estrangeiro. Todavia, considerei que seria interessante e mesmo relevante reconstituir não só a Ópera do Tejo mas também a música que se tocou lá dentro; três óperas (espectáculos) terão sido encenadas, e a primeira foi Alexandre na Índia, com música (nova) de David Perez sobre um libreto (“velho”) de Pietro Metastasio. Foi muito importante ter como complemento musical um excerto daquele trabalho (a abertura) na nossa intervenção na FLUL, na forma de uma gravação cedida pela Antena 2 de um concerto ocorrido em Lisboa a 1 de Novembro de 2005, conduzido pelo maestro Jorge Matta…

…Maestro que, posteriormente, eu contactei para propor que envidássemos esforços para se proceder à gravação integral de Alexandre na Índia e à difusão comercial dessa gravação. Dessa iniciativa fiz uma breve descrição no meu anterior artigo na Glosas, incluindo a recusa por parte de várias entidades e empresas (tais como a Generali e a Pirelli, que então não nomeei) em prestarem os apoios necessários. Porém, não foi apenas a música de David Perez que tentei transpôr para discos. Fiz o mesmo, e mais uma vez com a colaboração do maestro Jorge Matta, com obras, em especial a cantata Gloria, Fama e Virtú, de António Teixeira, sobre quem escrevi um artigo, publicado no n.º 57 da revista Tempo Livre, em Março de 2010, intitulado “O músico de ‘Deus’ e do ‘Diabo'”; novamente, entidades públicas e empresas privadas (como os CTT e a Tabaqueira) não quiseram colaborar. Pelo que decidi “deixar” a música de Setecentos e passar para a de Oitocentos, e, mais concretamente, para um artista que, pensava eu, poderia suscitar maior atenção, e, logo, maiores patrocínios: Alfredo Keil. Assim, contactei a Câmara Municipal de Sintra, a Mineraqua (empresa proprietária das águas Castello, para as quais Keil compôs uma valsa), o Museu da Música (que tem no seu vasto espólio instrumentos e partituras que foram daquele compositor), a Numérica (companhia discográfica que detinha a concessão da colecção PortugalSom), a RTP / Antena 2 (que tem registos de espectáculos com músicas de Keil), o Teatro Nacional de São Carlos… Praticamente todas me disseram ter interesse pelo projecto de gravar mais obras do autor d’A Portuguesa mas não outro elemento fundamental: dinheiro. Este, no entanto, não faltava à Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, que dispunha de um orçamento de dez milhões de euros. Não poderia e deveria o regime instaurado a 5 de Outubro de 1910 homenagear o homem do qual se apropriara da sua marcha para desta fazer o novo hino nacional? Em 2010 falei sobre o assunto com duas pessoas ligadas à CNCCR… sem resultados. Todavia, uma outra havia com especial obrigação na divulgação dos trabalhos de Keil: nem mais nem menos do que a então Ministra da Cultura Gabriela Canavilhas que, enquanto pianista, participou na gravação, com a soprano Ana Ferraz, do único disco então existente, editado em 1999, com peças daquele artista, intitulado Três Canções Portuguesas / Seis Melodias / Peças para Piano. Uma década depois, continuam por editar e divulgar junto do público em geral – tanto português como estrangeiro – as obras maiores de Alfredo Keil, que incluem quatro óperas: Susana, Irene, D. Branca e Serrana; a marcha A Portuguesa na sua versão integral; as cantatas Pátria, As Orientais e O Poema da Primavera; os poemas sinfónicos Uma caçada na Corte e A Índia; o Hino do Infante D. Henrique e a Marcha de Gualdim Pais; a valsa Salúquia, a bela moura; música de cena composta para a tragédia histórica A Morta, de Henrique Lopes de Mendonça; os esboços da ópera Simão, o Ruivo.

Contudo, a frustração que senti pelos sucessivos fracassos das minhas tentativas – ingénuas, sem dúvida – viria a ser dissipada na totalidade pela oportuna formação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. É necessário muito mais do que boas intenções por parte de amadores como eu: exige-se um trabalho colectivo e criativo constante de recuperação, execução e difusão, realizado preferencialmente por equipas de profissionais com capacidades, competências, conhecimentos, e que em simultâneo sintam a paixão indispensável que os motive em permanência para a (re)descoberta de uma componente fundamental da cultura nacional. Num contexto em que o Estado continua a desiludir e o sector empresarial se revela, infelizmente, frequentemente indiferente, é óptimo que organizações emanadas da sociedade civil façam o trabalho indispensável, nesta área como em outras.

É por isso que, com entusiasmo, eu “voto” no MPMP!

 

Ricardo Santos
fagotista

De todos os projectos de música em Portugal nos últimos anos, o MPMP é sem dúvida um exemplo de multidisciplinaridade e de perseverança num país que, por vezes, trata mal a sua produção nacional e o seu património artístico. O MPMP é fruto da visão de um grupo de pessoas que tenta recuperar património do passado e lançar sementes para o futuro. Parabéns ao MPMP por mais um aniversário. São dez anos de muita luta e trabalho pela valorização do universo musical e cultural português. De minha parte só tenho a agradecer pelos extraordinários desafios pelos quais temos passados juntos. Têm sido verdadeiras oportunidades de exploração artística.

 

Rui Ramos Pinto Coelho
gestor

Tenho uma enorme admiração pela equipa de jovens que criou e geriu o MPMP nestes primeiros dez anos. Admiro a extraordinária capacidade de realização das inúmeras iniciativas, de grande qualidade, em prol da divulgação da música erudita portuguesa: bases de dados, concertos, palestras, edição de livros, CDs e da revista Glosas. Meu Deus, até uma ópera eles conseguiram produzir!

Não tenho dúvidas em afirmar que o MPMP foi a instituição que mais resultados teve na defesa e promoção do património musical português.

Enquanto neto de um dos muitos artistas (o maestro e compositor Ruy Coelho, autor do bailado A princesa dos sapatos de ferro e de muitas obras emblemáticas) que o MPMP não deixou silenciar, tive a honra de colaborar com esta plataforma e de ficar para sempre reconhecido pela sua acção. Viva o MPMP!!!

 


Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

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[Publicações de amigos, colaboradores, associados, no contexto do aniversário do 10.º aniversário do MPMP]