Nuno da Rocha na Casa da Música

 

O compositor Nuno da Rocha será o Jovem Compositor Residente da Casa da Música, no Porto, em 2015-2016, seguindo-se assim a Ana Seara. 

A nomeação foi revelada no passado dia 29 de Novembro, na apresentação da temporada que marca, simultaneamente, a primeira década de funcionamento da Casa da Música e o 15.º aniversário do Remix Ensemble.

 

 

Nuno da Rocha estudou Composição com Vasco Mendonça, Carlos Marecos, Luís Tinoco, Carlos Caires e António Pinho Vargas.

No verão de 2009 participou na ‘19th internationale sommerakademie09’, na Áustria, tendo trabalhado com o compositor Nigel Osborne, com o maestro Michael Wendeberg e com o reconhecido grupo de música contemporânea ‘klangforum wien’.

Em Fevereiro de 2010 esteve presente no ‘16th Young Composers Meeting’, em Apeldoorn (Holanda), com a Orquestra ‘de ereprijs’. Este encontro foi dirigido pelos compositores Louis Andriessen, Richard Ayres, Martijn Padding, Jan van de Putte, Micheal Smetanin e Helena Tulve.

Em Fevereiro de 2011 escreveu música para a exposição “A kills B – acção imagética, Ifigénia e Isaac” apresentada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Recebeu a encomenda para o Prémio Jovens Músicos 2012 (Antena 2/RTP) da peça obrigatória para a categoria de Canto (nível superior) – Quatro Últimas Canções, quatro personagens a partir do romance de Vasco Graça Moura.

Ganhou o 3.º Prémio do Concurso de Composição da SPA/RTP em Setembro de 2012, com a peça O que será do rio without John Cage? para orquestra barroca, peça estreada pelos ‘Divino Sospiro'(dir. Massimo Mazzeo) no Festival Jovens Músicos 2012.

Foi seleccionado para o “TENSO Young Composers Workshop 2014”, em Maio 2014, na Bélgica. Neste workshop trabalhou com o coro ‘Danish Radio VokalEnsemblet’, com o maestro e compositor James Wood e com o compositor Leo Samama. Foi depois seleccionado para uma segunda fase divida por duas etapas: Riga (Letónia), em Outubro de 2014; Copenhaga (Dinamarca), em Novembro de 2014. Um dos três finalistas receberá uma encomenda para um dos mais importantes coros a nível mundial, o ‘Latvian Radio Choir’.

 


 

Sobre Nuno da Rocha foram publicados artigos nas glosas 7 e 11 ( Clique aqui para ler aceder à versão impressa da revista ).

 


Fotografia de Pedro Sadio.

Cândido Lima, um esteio de textos e contextos multiculturais

Artigo escrito em co-autoria por
Helena Maria da Silva Santana
e Maria do Rosário da Silva Santana


 

RESUMO

Neste texto pretendemos mostrar de que forma as realidades históricas, sociais, étnicas e artísticas dos universos português (minhoto) e africano (guineense) concorrem para a construção de um universo imagético e sonoro único na obra musical do compositor português Cândido Lima.

Uma leitura atenta do seu catálogo mostra-nos uma marcada influência africana que se revela não só na forma como denomina muitas das suas obras, Nô, African Ryt(hm)os, Ritos de África, Missa Mandinga, Canções de Ur, Ncàãncôa, Nanghê, por ex., como, mais tarde, aquando da sua fruição, que esses mesmos títulos, imbuídos de conteúdos imagéticos reveladores de muitas das estruturas e técnicas que desenvolve ao longo do seu discurso artístico, são um reflexo das suas vivências não só de África como da realidade em que se insere, alterando-se a si e ao outro na forma de se ver e de ver o mundo.

A forma como desenvolve algumas das suas estruturas a nível rítmico e temporal, a forma como elabora e estratifica os seus conteúdos linguísticos e imagéticos, a forma como concebe, transforma e diversifica os seus coloridos sonoros, a violência de alguns dos seus gestos musicais e de alguma da gestualidade interpretativa de que necessita para veicular a sua arte revelam um compositor que expressa não só um ser português, mas, e sobretudo, um ser português no mundo.

Através do estudo da sua obra pretendemos mostrar que o compositor não é um ser que se determina rigorosamente diverso a cada obra, mas sim um ser dividido entre a tentativa de exprimir um Todo sabendo, a priori, que esse Todo não se pode nunca abarcar e que se exterioriza diferente a cada espaço-tempo.


Cândido Lima, multiculturalidade, composição musical, imagética sonora, ritmo, tempo, timbre


 

Introdução

 

A fuga inexorável do tempo, expressa na imensidão da paisagem africana, declarada na fumaça da savana onde homem e animal se esvaem, manifesta-se na obra de arte musical através, por vezes, de um tratamento fugaz de dois parâmetros fundamentais na concepção e criação de uma obra musical: o ritmo e o tempo. A percepção destes dois parâmetros, alterada pela vivência e pela presença de ritmos e tempos singulares e exclusivos à vida e ao homem, interfere com a comum e inimitável percepção dos espaços e dos tempos, dos lugares e dos ritmos, da vida e do cosmos, dos seres e da obra de arte. Ritmo e tempo, transformados continuamente por um outro sentir e viver, um sentir e viver que se encontram pautados por uma outra noção da arte e da vida, manifestam-se na obra de arte musical pela criação de sons e espaços, estratos e texturas, sentires e significados de densidades e cores diversas que se encontram num existir e num viver de outros tempos e lugares. Preso no tempo e no espaço de uma existência efémera e enferma, onde o sonho interfere com a realidade e a noção de tempo com a inevitável percepção do real, o compositor, alterando inexoravelmente a sua percepção do tempo, da vida e do cosmos, usa este parâmetro de forma particular. A permanência de Cândido Lima em África permitiu-lhe uma outra percepção, uma percepção que traduz inevitavelmente em obras de inegável valor e riqueza tanto técnica, como estilística e estética.

 

Esta permanência no continente africano permitiu-lhe a vivência de uma outra realidade musical – a realidade musical guineense –, tanto na sua vertente criativa como interpretativa. A proliferação de manifestações sonoras, tanto em simultâneo como de forma individual, a riqueza rítmica, harmónica e melódica que denotam, deslumbra o compositor, que, inundado por uma realidade nova, rica, diversa e salutar, se vê imbuído de um espírito novo face ao acto criativo, seja ele de natureza compositiva ou interpretativa. O transe nelas presente, o encantatório do som, da cor, da dança, do grupo, a riqueza timbrica, colorística, gestual e gutural de algumas vivências sonoras com que a realidade sonora e musical africana o premeia, nomeadamente a que vivencia em Bolama na Guiné-Bissau, tornar-se-ão realidades que nunca mais esquecerá e que se manifestarão, seja de forma clara, seja subliminarmente, em muitas das suas obras.  O próprio compositor assume esta e outras influências. Como ele próprio afirma:

 

“As minhas fontes em composição confundem-se no contacto da infância, na aldeia, com músicas populares, de romaria, religiosas e com sons da natureza: do silêncio, do mar, do campo e da montanha. A aprendizagem de adolescência no contacto vivo com prática religiosa de cunho afro-asiático (o tempo e o espírito) ou de cunho estóico (filosofia cristã e pré-cristã), com a cultura clássica greco-latina (ritmo e verbo), com o canto gregoriano (o modalismo e o contínuo), com a polifonia (contraponto), com a prática coral e organística (do Barroco ao séc. XX) e a absorção natural e inconsciente destas vivências com épocas e práticas musicais diversas, na convivência juvenil tardia com os meios académicos dos Conservatórios e seus programas românticos, tudo informou a minha música (se é minha…) desde a idade de 15 anos até hoje.”

(Lima 2002: 79)

 

A multiplicidade é uma constante da sua obra, encontrando-se na sua vida, no seu pensar e existir de diversas maneiras:

 

“Estudos posteriores clássicos, liceais e universitários de filosofia, de literaturas e outros domínios interdisciplinares fundiram-se com técnicas e músicas antigas, europeias e intercontinentais, confundindo-se nos meus projectos e opções estéticas com novas técnicas puras da linguagem, com novas experimentações instrumentais e com técnicas provenientes das novas tecnologias: da electroacústica ao computador e aos audiovisuais. Modos antigos europeus e asiáticos, modos modernos e outras estruturas escondem-se na fluidez do tempo musical das diversas obras.”

(Lima 2002: 79)

 

As realidades e vivências que assume ao longo da vida podem não ser unicamente musicais. A maneira como a sociedade se organiza, o viver se processa, as hierarquias se instalam, os costumes se demarcam está presente, e quando afirmamos que está presente é certamente de forma subliminar, pois a manifestação da arte revela e desvela o homem e o artista criador de forma nem sempre directa, mas sempre poiética.

 

Cândido Lima, um esteio de textos e contextos multiculturais

 

Assim, a energia de algumas das manifestações sonoras que desvela a nível orquestral, instrumental e vocal anunciam não só estas influências, como algumas premissas construtivas e formalistas de uma realidade cultural, artística e musical afro-guineense e, paralelamente, portuguesa. Como podemos verificar, nesse sentido:

 

“[…] o Outro e a ideia de Máscara na forma das exóticas, primordiais culturas extraeuropeias…[se expressa em obras como] Nô, Ritmos de África, Ritos de África, Missa Mandinga, 4 Canções de Timor, Canções de Ur, Ncàãncôa, Nanghê…[1] essa máscara que esconde o verdadeiro [artista. Será então que a obra serve para afrontar as forças criativas e impositivas de uma katharsis criativa mais ou menos velada e manifesta, ou será que serve para o compositor se esconder do outro, da vida e do existir que o imerge e transmuda de forma violenta e gutural? E Cândido Lima será, então, real?] Não será antes o homem vários homens, heteronomicamente, pessoanamente divididos entre a tentativa de exprimir o Todo e o saber de antemão que esse Todo não o poderemos nunca abarcar?”

(Azevedo 2002: 14)

 

Mas o Todo não se abarca, o homem é simples máscara de um saber fugaz, ausente, peculiar nas suas aparições e, desaparições, caminhos de uma singularidade exótica e exorcizante. Toda a obra pretende revelar o mundo mas não é mais que efémera e enferma manifestação de um existir cerrado e centrado nas limitações e condições da natureza humana. Não será a isso talvez alheia uma necessidade de transpor ideias, processos, materiais, ver e rever, transformar e deformar o que foi dito e se encontra redito um tempo e um espaço mais além. Um tempo e um espaço que denotam um novo olhar sobre si e a realidade. Neste sentido damos como exemplo as obras Ncàãncôa e Sang-ge-Sang.[2] Nos dois casos a manifestação do sonoro encontra-se transformada por uma nova realidade interpretativa que desfigura o objecto primeiro e o transmuta ao olhar/ouvir/fruir do próximo. A máscara que esconde mas também mostra denota uma vontade de se dar, mas simultaneamente de se esconder, talvez fruto de uma consciência de si que não se quer mostrar, nem dar, nem viver. Ritos de África, Missa Mandinga, as duas de 1966, as duas para coro, piano e percussão, denotam um saber e sabor africanos que se mostram nas harmonias, nos ritmos, nas texturas, nos coloridos, nas vozes e na forma muitas vezes mordazmente problemática e de carácter profundamente livre como encara o processo criativo caracterizado pelas ideias de unidade e identidade. Para ele, a obra tem de possuir uma conexão matizada, ou, por outras palavras, uma unidade sonora conseguida através da diversidade e, ao mesmo tempo, da identidade. A obra tem de ser coerente em termos de identidade e esta identidade tem de ser transparente. De acordo com o autor, é absolutamente imperativo que o ouvinte consiga formular uma noção de identidade ao apreciar uma peça sua.[3]

 

Mas não só a realidade afro-guineense se manifesta na sua obra. A influência da sua terra natal e de um existir minhoto, as vivências culturais de um existir camponês e simultaneamente marítimo, os estudos no seminário, as leituras e os estudos de filosofia espelham-se nesta multiplicidade que teima em sobressair. A sonoridade da terra e das suas gentes, o som da língua, da linguagem, do ritual e do rito predominam. Assim, o autor constrói um outro som, resultado, quiçá, da interacção entre vivência e experiência:

 

“Mas existem muitas outras vivências e fascínios: o seu lugar de infância, o Minho (evocado num belo texto intitulado Memórias quase Íntimas) e os anos passados na Guiné durante a Guerra Colonial. Em territórios mais longínquos da realidade portuguesa, temos o fascínio pelo universo místico de Scriabine e das suas visionárias obras finais; Vers la Flamme, Prometeu,[4] ou em direcção às chamas finais do Mistério Universal, hélas!, deixado incompleto como todos os universos humanos que almejaram falar de igual para igual com os deuses.”

(Azevedo 2002: 13)

 

Mas o homem não é um ser individual; a comunicação é necessária, sendo que a vida instiga a uma vivência em grupo. A sociabilidade, a razão de ser e existir da arte exigem uma presença constante e contínua do outro para que o seu fazer e vivenciar seja alcançado e adquira um sentido próprio, e devido, à obra e à arte. Sem o outro, sem a vontade de existir e de se manifestar no e pelo outro, o objecto de arte, o artista, o criador não atingem certamente alguns dos objectivos intrínsecos ao acto de criar. Mesmo que para alguns a criação seja um acto solitário, um acto de vida e de vómito próprios a quem a pratica, e para o qual esta se manifesta sempre necessária, a arte faz-se para o outro e para o grupo. As condicionantes e imperativos próprios do fazer artístico exigem o outro sem o qual nada é, sem o qual nada tem sentido ou sentir. A noção de grupo, na sua dissemelhança, leva à coexistência de elementos diversos; a diversidade revelando-se factor de enriquecimento. As quatro raízes do princípio da razão definidas por Schopenhauer são, por ordem, o princípio da razão suficiente do devir (relação de causalidade), do conhecer (capacidade de inferir conceito), do ser (associação dos objectos no tempo e no espaço) e da vontade (referente à vontade ou afecções individuais do observador), que são importantes na definição e construção do pensamento humano, conduzindo o ser que cria a inferir conceitos e a definir a obra de arte no espaço e no tempo.[5] O processo de criação, precedido ou não por momentos de inspiração, traduz-se em imagens e em sons, na cor e no calor dos corpos e das formas de um continente onde a dança e o encantamento, o frenético e o encantatório se misturam na busca do transcendente e da perfeição.

 

No continente africano, a presença constante de uma vivência em grupo e para o grupo, o contacto regular com instrumentos tradicionais particulares na sua forma e conteúdo, no seu timbre e duração prevista e peculiar aos acontecimentos e objectos sonoros, permitem, autorizam a criação de obras de carácter exclusivo e, ao mesmo tempo, universal. A noção de grupo, de roda, o posicionamento dos indivíduos face ao compositor que escuta, imbuindo-se de sons e sabores, de texturas e de formas, trazem ao homem a necessidade de se exprimir de maneira a que a vivência particular da essência da vida deste continente e a sua própria vida se traduzam em obras de inaudita expressividade. Os sons, as texturas, as denominações que escolhe contêm em si mesmos o gérmen de vários saberes e agitações; o gérmen de uma recordação ou a expressão de uma dor, de um sentir. As texturas, os padrões, as escutas; os medos, os tempos, as fontes; os timbres, os diques ou as pontes criam naturezas colorísticas e sonoras que fogem à norma de escuta e fruição do homem ocidental. Diferentes na essência e no carácter, são criadas segundo o sentir particular de um homem ausente numa paisagem adulterada pela passagem indelével do tempo, manietada pela presença tormentosa do espaço, tempo e espaço desfigurados na sua percepção pelo calor que invade a alma e tolda o espírito criador. Neste sentir,

 

“Integrar estilos, linguagens, semânticas, fonemas, culturas num todo que continue a fazer coerência sem “saltos” estilísticos que coloquem problemas de linguagem é o seu objectivo. Coloca-se neste particular o compositor minhoto numa descendência mais xenakiana ou bouleziana que stockhauseniana, e objectos como a Sinfonia ou o Recital for Cathy de Berio são-lhe aparentemente estranhos. Existem excepções, como sempre, que só confirmam a regra. Algumas dessas excepções são a música inspirada pelos quadros e técnicas do pintor espanhol Tapiès, na versão que possuo intitulada Tape Music Yes (no original Música dos Objectos e do Acaso – Resíduos, 1990), ou as abrangentes Músicas da Terra[6] para fita magnética, uma colagem de 14′ de músicas étnicas de variadíssimas proveniências, composta para as séries televisivas Fronteiras da Música e No Ventre da Música, séries que o compositor criou e apresentou entre 1982 e 1983. Obras como a 4ª Sinfonia de Ives, a Sinfonia de Berio ou os Hymnen de Stockhausen[7] são parentes próximos de Músicas da Terra, de Polifonias de Notre-Mer ou dos Polígonos em Som e Azul.[8]”

(Azevedo 2002: 29)

 

Os padrões, as cores, os lugares; os olhares, os sentires e os quereres relevam a tradução e tradição imensas da vivência africana que se manifesta nos recortes dos padrões dos tecidos, dos materiais agrestes, das texturas toscas e próximas da terra, do fio forte e condutor da ideia, da vespertina descoberta do ser forte e criador, do ser que descobre na natureza que o rodeia, os elementos que o compõem e que lhe permitem sobreviver num meio adverso e exclusivo, num meio que aniquila e regenera, onde a vida se torna benesse de um deus invisível e apaziguador. E o homem veste-se, reveste-se e mutila-se, aniquila-se e transcende-se, num louvor múltiplo onde perdura a sua impotência, o desejo de pertença, a calorosa mistificação face às forças da natureza que não percebe, mas que louva, tentando, assim, o apaziguamento dos deuses, a obtenção de benesses, a cura e a purificação.

 

E o Belo instala-se, procura-se na matéria, nas vestes, nas pinturas dos corpos e dos materiais, nos padrões de inigualável riqueza simbólica, linguística e formal. E histórias contam-se, revelam-se no olhar, nos tecidos e nos quadros que se afiguram na pertinência do presenciar. E o homem inspira-se, e a obra nasce, qual tapeçaria que se tece, fio a fio, traço a traço, junção de cores e de formas, de traços e de gestos, que conduzem ao aconchego da obra feita e à delicia do olhar. É o gérmen da obra que, engendrada na infindável complexidade da mente humana, se afigura ao ouvinte nas escutas e nas leituras, na observação atenta dos lugares, objecto de inspiração onde homem e artista se encontram, se fundem, originando um só. Todavia:

 

“Onde pára […] a Liberdade? A liberdade do intérprete, da partitura, da beleza do som posto a vibrar numa sala construída sabe-se lá como e por quem? Infelizmente as orelhas humanas são apenas duas e estão voltadas para fora, direita e esquerda. De Stockhausen e de Wagner aprende Cândido Lima a lição pioneira da inovação e não compromisso constantes de todos os aspectos ligados de alguma maneira ao fenómeno musical-artístico.”

(Azevedo 2002: 20)

 

Mas será a liberdade uma bênção ou uma maldição? Uma benesse ou expiação? Sabemos que a verdadeira liberdade é fruto da regra emergindo na aceitação. Assim:

 

“A integração de estilos, técnicas, linguagens, diferentes arquétipos semióticos que coexistem num todo, nessas obras particulares que mudam de paradigma, tudo isso exige para Cândido Lima algum processo de união, um ‘cimento’ que agregue de forma a que não sobressaiam os aspectos exteriores dos objectos usados e somente os aspectos mais profundos, insondáveis (arquetípicos) da matéria em jogo.

Vozes à Luz[9] pode fornecer um óptimo exemplo daquilo que Cândido Lima se propõe atingir. […] Como o agitar da água num lago produz uma imagem difusa, assim os trémulos nos acordes produziam essa mesma imagem sonora difusa, onírica, que é característica de toda a música de Cândido Lima. Déjà-vu…? O animar da matéria inerte através do trémulo, que na versão definitiva (a que está gravada) percorre praticamente toda a obra, é, pois, o que caracteriza o ‘envelope’ tímbrico e textural de Vozes à Luz

(Azevedo 2002: 31-32)

 

Idênticas características são observáveis ainda em muitas outras obras do autor. E no viver, a noção de tempo altera-se pela interferência do psicológico e do social. Tempo real, tempo metronómico, tempo psicológico, tempo onírico são noções amplamente trabalhadas e presentes na música do século XX e alteradas, sentidas de forma particular, por paisagens africanas. O corte e a continuidade, a sobreposição e a sequenciação, a colagem e a interpolação denotam os cortes de uma paisagem envolta num nevoeiro que advém do calor imenso que tolda o espírito e a mente. Texturas de patchwork onde a diversidade impera, onde o equilíbrio se mostra na diferença constante de cores e padrões, aparecem em música, numa construção e formalização particular dos universos de som, no uso dos instrumentos de forma diversa da tradicional e através de posicionamentos diferentes da utilização normal da orquestra face a um público.

 

Os sons e os ritmos que advêm da utilização da percussão em roda e de instrumentos como os djambés e os mburis sobressaem ainda neste universo de som. E o frenesim do ritmo instala-se, o frenético da dança manifesta-se, o rito nasce. O corpo, elemento de audácia, de movimento e de ritmo, pleno de actividade, revela-se numa cadência constante e convulsa, em danças plenas de vitalidade, de energia e de transe, onde a mente se apaga e o homem se anuncia instrumento de forças ocultas, plenas de alma e efectivação. Os timbres, conduzindo ao transe, facultam o acesso a patamares inacessíveis ao homem comum, que, liberto das amarras da consciência, se torna veículo de transmissão de entidades superiores, não consciente da realidade que o envolve. Esta exaltação, apresentada ao homem ocidental através da sobreposição de linhas rítmicas de reconhecida dificuldade de execução, e de difícil tradução em notação tradicional, leva o compositor a questionar-se sobre a pertinência da sua tradução e notação.

 

Consequentemente, o compositor acaba por desistir face à dificuldade de tradução, adaptação e notação do gesto liberto de um povo que sente o que toca, não se limitando face a notações e a convenções. O seu processo criativo manifesta uma realidade sonora e uma gestualidade que encontram no gesto um elemento

 

“negado como atributo mais ou menos gratuito tal como aparece em muitas obras de Cage ou Kagel. [Encontra] o gesto, sim, mas integrado, necessariamente, no contínuo do discurso musical, tal como [outros elementos que concorrem para a criação de obras ímpares, nomeadamente] as luzes ou a cenografia. Em vez portanto dessa aspiração a uma rede gigantesca que no oceano imenso do conhecimento arraste tudo sem discriminação à sua passagem, é a personalidade de Cândido Lima a de uma aranha – o Músico – que tece uma teia grande, é certo, mas uma teia e não uma rede. Esta ideia do conhecimento como vibração (tal a aranha na sua teia) é a pedra de toque da concepção de uma rede neuronal sensível aos estímulos mais ínfimos do exterior e do interior. Neste caso, é uma teia onde a aranha se vira também para o seu interior e se questiona sobre o seu lugar no centro do emaranhado de fios.”

(Azevedo 2002: 19-20)

 

Não é essa a realidade de quem cria, não é essa também a realidade de qualquer ser humano que se questione sobre o existir, sobre o mundo, sobre o cosmos? Não é essa a realidade de qualquer ser pensante que se encontra no mundo para uma permanente e consequente marcha evolutiva para a perfeição? Mas a perfeição custa, e a criação também, surgindo altamente penosa, sofrida. Nessa evolução contínua, o homem renasce sem cessar, transmitindo-se intencionalmente ao outro, seja no saber, no ser ou no criar.

 

Simultaneamente, ritmo e tempo, timbre e espaço coabitam sem interferências, contribuindo para resultados únicos onde a presença ocidental não tem outro papel senão o de questionar e o de aniquilar a liberdade de escutas e de sentimentos. Mas o gesto e a gestualidade do rito, da dança, do som, da criação imperam – o gesto que mais tarde se revela integrado num contínuo sonoro que se pretende desnude o elemento água, a mesma água que vislumbra no oceano da infância, o mesmo de África, o mesmo do sonho da infindável fuga aos horrores da guerra, aos horrores da vida. E a água surge, “esse continuum dos grandes oceanos criadores de vida, que mais seduz o compositor português [e que se manifesta em obras como]: Oceanos, Polifonias de Notre Mer, A-Mèr-Es, Pauis, Mare-A-Mare, Il Tempo dell’Acqua, Poisson-Miroir, Lendas de Neptuno, Galets, Amarissima, Autómatos da Areia, Aquiris… a água… a memória… Momentos – Memórias I, II e III, Vozes à Luz (à memória), Cori Memori, Memorabilis[10]” (Azevedo 2002: 14), a água que se mostra fonte de vida, que se torna o meio de onde emerge, e emerge enquanto criador, a água que dilui e se transfigura, tornando-se origem de obra.

 

O tempo, esse elemento único na sua definição e na sua percepção, elemento que nos conduz por universos desconhecidos, universos para nós indecifráveis num estádio de incomensurável ignorância face à imensidão de conhecimento para nós acessível, ou inacessível, face ao estado evolutivo em que nos encontramos, revela em nós espaços físicos, lugares, define em nós estados percepcionais da consciência que conduzem a estados hipnóticos e hipnotizantes face a lugares únicos como o continente africano. Lugares de contrastes excepcionais, de percepções singulares, de misturas e coabitações impensáveis para o homem ocidental trazem à memória a inocência da infância, da adolescência expectante e criadora, da maioridade plena de significado, onde a expectativa é o encontro de diversidades e desassossegos, a reunião de contrários…

 

Nesta fase de incomensurável expectativa face ao outro e ao desconhecido, face ao novo mundo que se desenrola diante do criador, submisso ao destino cruel de um tempo que não retoma, que não esquece, que não se apaga das memórias, é o compositor obrigado, de forma consciente ou inconsciente, a dar forma ao indizível, a dar forma ao pensamento latente e latejante, ao vómito agonizante, à katharsis expectante, resultando, por vezes, aterrador. Exaurido pelo material, pelas estruturas, pela condução do pensamento, mas feliz pelos resultados que obtém, o compositor apresenta texturas onde o corte e a continuidade, o equilíbrio e a forma são comparáveis à riqueza das texturas africanas, os timbres uma resposta aos sons e às experiências em terras de Bolama.

 

Pese embora a feliz coincidência dos temas que nos propomos debater, toda esta panóplia de materiais tem também raízes na infância do compositor, em terras de um Minho próximo e distante, do folclore minhoto, das experiências de infância em tarefas da lavoura, na passagem pelo Seminário Bracarense e dos estudos de filosofia, cujos conteúdos, mas principalmente o rigor de pensamento e o espírito altruísta de entrega ao outro, produziram nele estados de inegável satisfação. Mas não será o conjunto da obra de arte de um autor recriações de uma mesma matéria, um outro dizer da obra primeira, uma outra determinação de um mesmo estado, enfado voluptuoso do homem, da carne? Para Cândido Lima, a terra, nunca esquecida, surge dilecta na obra que nasce, na obra que sai dolorosa e saudosa do corpo e da alma, a obra que transpira dos poros e contornos de corpos e almas sofridos, em esperas e levas constantes. Neste contexto, o compositor assevera que

 

“De algumas recordações sonoras de infância [lembra] pequenos tubos de ervas, de arbustos, de cana, harmónicas de boca rudimentares que foram as primeiras experiências para obter sons. Os timbres do saxofone, do acordeão, do banjo, do violino ‘à Heifetz’, das vozes e corais de vozes masculinas (cantos de marinheiros), da França ou da América dos anos 1930, o piano, das Jazz-band dos anos 1930/40, em discos de 78 rotações, numa grafonola à manivela, de família de emigrante francês dos anos 1940, colocada um dia de surpresa em cima da mesa de cozinha de aldeia, são das mais emocionantes memórias de adolescência. Até aí eram apenas vozes. Vozes dos campos e dos montes, de romarias, outras tantas vivências de juventude do mundo rural. Também o velho órgão de tubos da aldeia, há anos em ruínas, músicas da liturgia clássica e minhota. Ecos de canto gregoriano, de repertório litúrgico e renascentista da juventude académica, os ‘ecos’ de Orlando di Lasso, reminiscências das clausuras colegiais urbanas vieram alargar estas vivências inesquecíveis, fundamentos últimos das músicas deste livro, irrelevantes perante o que a imaginação, a técnica e o génio dos maiores de todas as culturas nos legaram! Não sei se me maravilharam mais aquelas vivências de infância, adolescências e de juventude, se as vivências futuras das grandes salas de concertos ou dos sofisticados e hipnóticos estúdios de tecnologias nas mãos do compositor!”.

(Lima 2003: s.p.)

 

Memórias que se transportam na vida, memórias que nos mantêm vivos lá onde o olhar se perde em áridas paisagens, significados atrozes de vidas que não queremos. Cortes, recortes, socalcos, paisagens, um Minho prenhe de cores, odores, sabores, ardores, significados e significantes contidos na mente e no imaginário do autor, um Minho onde o árduo trabalho da terra se traduz no suor de rostos frios lavrados pela terra e pelo chão que mãos hábeis, mãos ávidas e sedentas de luz transformam em campos vibrantes de cor, sabor e vida e, na obra do autor, em elementos de som e cor flamejantes.

 

Valem os sons e os poemas. Os sons da música e os sons das palavras, os sons que nos embalam o pensamento e nos conduzem a obras onde o calor das palavras se sobrepõe ao calor e sabor dos sons. Onde sabor e saber se confrontam, onde a lógica não encontra expressão a não ser na emoção de um olhar, no sentir inexprimível do coração, na saudade que de portuguesa não se explica quando longe se está. A gramática musical surge bendita na tradução das ideias e dos ideais presentes em qualquer poema e na obra de arte. Surge assim como

 

“[…] uma gramática adequada na sua morfologia, fonética, sintaxe, semântica [na tradução que o compositor faz do texto, do poema, do dilema]. As sílabas, as palavras, os versos encadeiam-se num continuum rítmico, a poesia fluida confronta-se com a descontinuidade dos sentidos das palavras que se encadeiam como objectos musicais. Foi deste flutuar constante do poema ao longo de um tempo interior, provavelmente alimentado por atmosferas exteriores propícias a exprimi-lo, que um dia, saiu, ao longo do mês de Agosto, toda a música [de Pauis]. O próprio canto das aves e pássaros nocturnos (célula rítmica e um motivo melódico claramente a descoberto!) são evocados sem que a ‘Série’ (uma série!) seja posta em causa. Não é música impressionista, nem programática, nem descritiva, muito menos expressionista. Talvez simbolista…”.

(Lima 2003: 36)

 

Longe de um olhar atento e presciente de compositor, jorram rios de som, palavras imensas de inauditos e múltiplos significados. E do nada se inspiram, criando seres unos e originais. É o misticismo do homem, o misticismo do lugar, os ambientes vibrantes dos lugares que se percorrem e que induzem em nós sentimentos que de outros lugares não brotariam.

 

“Somos todos feitos de inocência, de espontaneidade, de ignorância, de ingenuidade, de curiosidade e de ânsia na procura de espaços, inquietos e curiosos na busca da surpresa e do desconhecido. O músico, o compositor, o poeta, o escultor também o são.”

(Lima 2003: 33)

 

São pois os sons, o ambiente, os sabores que inspiram. São eles que conduzem no limite à libertação do espirito e à criação da obra de arte. É o ritmo dos lugares, da vida, das palavras que condiciona por vezes o surgimento da obra. O autor revela-se nela e em Pauis,[11] obra em que o poema se anuncia longo tempo impeditivo do surgir do texto musical.

 

Pauis exigiu meses a fio de interiorização do poema na ilha (Bolama), no cais, nas tabancas, no barco (canal do rio Geba), no continente (Bissau). A música esteve latente no espírito meses a fio. A poesia dificultava a libertação por ser, ela própria, música. Mas havia outra música que pairava paralela na alma do poema, sem, contudo, se adivinharem os seus suportes físicos de escrita.”

(Lima 2003: 36)

 

A coexistência dos dois dá lugar a uma obra de inegável beleza e coerência. Mas o som da palavra, o sentir do verbo, a expressão de uma sensibilidade mascaram-se na definição e denominação da obra.

 

“Acrósticos e anagramas surgem dos próprios títulos, ou como antes do Verbo do Som, temos o Som do Verbo ensaiando já uma Gesamt-Welt gramática: A-Mèr-Es esconde Mãe, Mar, Amargo, Ser, Não-Mar e Não-Mãe, Sol-Oeils[12], para vozes solistas ou coro, usa no texto mais de 30 das cerca de 80 traduções da palavra Sol que Cândido Lima conseguiu encontrar, mas os olhos que olham o Sol (Nanghê…)[13] estão também lá, no título Mare-A-Mare, que na sua simetria afirma e nega simultaneamente Mar, Não-Mar, Amar e Não-Amar, porque o homem não é uma verdade, mas muitas verdades, enquanto Sang-ge-Sang[14] aglutina Sangue e Canto. Não importa se as línguas usadas em justaposição/sobreposição são diferentes, ou se as lemos de trás para diante”

(Azevedo 2002: 14),

 

pois o que importa é a obra, o sentir, o definir uma realidade que se quer transmitida, aplacada, vivida.

 


 

Conclusão

 

Denotamos, assim, a reflexão pausada e longa sobre os lugares, a reflexão sobre o meio onde se desenrolam acontecimentos que se traduzem na obra de arte através da mão do autor, que revela linguagens únicas, criações raras, um esteiro de textos e contextos vários. E a liberdade, presente na criação de um autor tão prolífico como Cândido Lima, permite que as diversas realidades históricas, sociais, étnicas e artísticas dos universos português e africano concorram para a realização de um universo imagético e sonoro de características únicas, e revelador de um ser que sofre as suas mais directas influências. A forma como desenvolve algumas das suas estruturas a nível rítmico e temporal, a forma como elabora e estratifica os seus conteúdos linguísticos e imagéticos, a forma como concebe, transforma e diversifica os seus coloridos sonoros e a violência de alguns dos gestos musicais e de alguma da gestualidade interpretativa de que necessita para realizar os seus intentos, ou seja, o sucesso na veiculação das realidades que constrói e leva a percepcionar pelo público, revelam um ser único, um ser imbuído do saber e fazer de um mundo em contínua transformação, onde as cores, os sabores, os sentires e os contrastes presentes no viver de somente alguns anos passados, se encontram agora diluídos por uma automatização e globalização aniquilantes da diversidade e da multiplicidade que teima em transmitir, e permitir fruir, através das suas obras. Esta diversidade apresenta-se não só ao nível da forma, como dos conteúdos. De incansável criatividade, Cândido Lima transmuda-se constantemente na obra de arte, sendo que, e através do acto de criar, surge sempre igual, contudo sempre diverso. Se olharmos ao conjunto da sua obra, a diversidade e multiplicidade de formas e cores apresenta-se também nas diversas formas que utiliza para disseminar o seu pensar. Não só de construção musical vive o homem. O seu lado de compositor coabita com o seu lado de comunicante e de pedagogo, servindo-se igualmente destas actividades para veicular as suas formas de pensar e sentir, viver e conviver, fruir e desvelar.

 

É neste e em muitos outros contextos, onde o ver e o olhar se cruzam, que as obras, por vezes, nascem envoltas em mistérios e enigmas que não são mais do que sentires diversos, pulsares de um corpo que se movimenta em olhares sobre crepúsculos imensos onde terra e mar se cruzam, onde terra e mar se fundem em linhas de horizontes que não existem. E a interrogação surge, a inquietação aparece e a obra nasce, pois que mais não pode esperar. Ficam para depois as explicações, as justificações técnicas e gramaticais, as opções estéticas que musicólogos exigem, que de inspiração se servem para justificar a transpiração exausta que a obra lhes subtrai ao corpo e mente. Assim,

 

“As palavras ditas à volta destas obras, mesmo neste contexto, são o menos importante, porque nenhuma chave pode revelar o último sopro de uma obra de arte, por mais modesta que seja. Estas palavras podem orientar, mas nunca substituirão a própria essência da criação musical, a natureza da sensibilidade, da emotividade, da ‘situação’ e da ‘circunstância’ do emissor e do receptor, do compositor e do ouvinte. Nenhuma ferramenta de análise o conseguirá!”

(Lima 2003: 23).

 

Hélas!

 


 

[1] (1986-88), Ritmos de África (1967), Ritos de África (1966), Missa Mandinga (1966), 4 Canções de Timor (1995), Canções de Ur (1987), Ncàãncôa (1ª versão 1995; 2ª versão 2002), Nanghê (1990)

[2] No caso de Ncàãncôa, verificamos a existência de uma primeira versão de 1995 para clarinete e espacialização electroacústica, cuja primeira audição teve lugar em Lisboa no ano seguinte, e uma segunda versão de 2002 para clarinetes (de 2 a 3) em delay de tempo variável e cuja primeira audição se deu no Porto no mesmo ano. De Sang-ge-Sang existem igualmente duas versões. A primeira, para fagote, data de 1976; a segunda, para fagote a 3 partes, data de 1979.

[3] apudAzevedo 1999.

[4] Vers la Flamme (1914), Prometeu (1910).

[5] cfr. Schopenhauer 1981.

[6] Músicas da Terra (1982).

[7] 4ª Sinfonia (1910-16) de Charles Ives ou os Hymnen (1966-67) de Karlheinz Stockhausen.

[8] Polifonias de Notre-Mer (Minho I, 1997), Polígonos em Som e Azul (1988-89).

[9] Vozes à Luz (- à memória 1996).

[10] Oceanos (1978-80), A-Mèr-Es (1978-79), Pauis (1967; 1971), Mare-A-Mare (1978-80), Il Tempo dell’Acqua (1991), Poisson-Miroir (1994), Lendas de Neptuno (1987), Galets (1982-83), Autómatos da Areia (1978-83-85), Aquiris (1993), Momentos – Memórias I, II e III (1964-75-85; 1994), Cori Memori (1985), Memorabilis (1998).

[11] Começa a haver meia-noite para voz e piano e Pauis/impressões do crepúsculo para voz, violino e piano, tiveram a sua primeira audição em 26 de Agosto de 1968, no Auditório da Escola Superior de Belas Artes do Porto, com Fernando Serafim (canto), Jack Glatzer (violino) e Cândido Lima (piano), num concerto organizado pela Juventude Musical do Porto. O autor tinha regressado de África (Guiné), do serviço militar, em Fevereiro desse ano.

[12] Sol-Oeils (1978-79).

[13] Nanghê (1990).

[14] Sang-ge-Sang (1976).


 

Bibliografia

Azevedo, Sérgio (1999), A Invenção dos Sons, Lisboa, Caminho.
Azevedo, Sérgio (2002), “Cândido Lima: vers une Gesamtkunstwerk? Ensaio quasi una fantasia”, Cândido Lima, Porto, Atelier de Composição, pp. 13-45.
Lima, Cândido (2002), “Livre. Sem Limites (Quase…)”, Cândido Lima, Porto, Atelier de Composição, pp. 79-80.
Lima, Cândido (2003), Origens e Segredos da Música Portuguesa Contemporânea. Música em Som e Imagem. Porto, Instituto Politécnico do Porto.
Schopenhauer, Arthur (1981), De La Cuadruple Raiz del Princípio de Razon Suficiente, Madrid, Editorial Gredos.

Uma pianista portuguesa na Etiópia

A pianista Vera Estevez apresenta-se em Dezembro em dois recitais inéditos em Addis Abeba onde irá interpretar obras dos portugueses Armando José Fernandes e António Fragoso, entre outros compositores.

Vera Estevez estreia-se na Etiópia com um recital a 3 de Dezembro, inserido na 5.ª Edição do Festival de Música Clássica de Adis Abeba. Este festival tem decorrido desde Outubro na capital etíope e resulta da colaboração entre a Yared School of Music e a Alliance Ethio-France, o Goethe-Institute, o Instituto de Cultura Italiana e as Embaixadas da Alemanha, Áustria, Egipto, Espanha, França, Israel, Itália e Portugal. No recital organizado pela Embaixada de Portugal, Estevez irá interpretar um programa variado e cheio de cor. Para além de Cinco Prelúdios op. 1, de Armando José Fernandes e de Nocturno em Ré bemol Maior, de António Fragoso, o público terá a oportunidade de escutar Pour le piano, de Claude Debussy, Valses nobles et sentimentales, de Maurice Ravel e Danzas Argentinas, de Alberto Ginastera.

 

Um aspecto de Adis Abeba

O segundo recital, a 8 de Dezembro, será um dos acontecimentos a marcar as comemorações dos 500 anos de relações diplomáticas entre Portugal e Etiópia, que se assinalam no próximo ano. No Teatro Nacional de Addis Abeba, celebrando a longa história de relações entre os dois países, Estevez tocará de novo Cinco Prelúdios op. 1 e Danzas Argentinas e interpretará também uma peça do pianista e compositor Girma Yifrashewa, Prelude n.º 1: The sheperd with the flute. Neste concerto, Yifrashewa irá interpretar igualmente obras da sua autoria.

Actualmente a viver na Holanda, onde este ano concluiu o Mestrado em interpretação de piano no Conservatório de Maastricht (Zuyd University), sob orientação de Katia Veekmans, Vera Estevez (n. 1986) iniciou os estudos de piano aos dez anos, em aulas particulares, com Lídia Lantos. Ingressou posteriormente no Conservatório Nacional, em Lisboa, na classe de Joaquim Baptista Fernandes, e fez as licenciaturas em Ciências Musicais na FCSH-UNL e em piano na ESMAE, no Porto, com Constantin Sandu. Participa regularmente em masterclasses com pedagogos de renome como Vitaly Margulis, Stanislav Pochekin, Fernando Puchol, François Antonioli, Luiz de Moura Castro, Akiko Ebi, Valentina Berman, Julijus Andrejevas and Devy, entre outros. Tem tocado, a solo e em grupo, em Portugal, Espanha e Holanda, estreando-se agora fora do espaço europeu. Vera Estevez apresenta-se na Etiópia a convite da Embaixada de Portugal.

Girma Yifrashewa (n. 1967) entrou em contacto com a música pela aprendizagem de Kirar, instrumento de cordas dedilhadas tradicional. Aos dezasseis anos ingressou a Yared School of Music onde iniciou os estudos de piano, que prosseguiu no Conservatório de Música de Sofia, Bulgária. Leccionou entre 1995 e 2001 na Yared School of Music e tem-se apresentado como intérprete com regularidade tanto em palcos na Etiópia como no Egipto, Djibouti, Ruanda, Burundi, Moçambique, África do Sul, Bulgária, Reino Unido, Alemanha, Áustrália e Estados Unidos, entre outros. Lançou em 2014, pela editora Unseen Worlds, o álbum Love and Peace.

 

SITEwww.veraestevez.com

O projeto modernista de Guerra-Peixe

Dentre os compositores brasileiros que produziram para a sala de concertos ao longo do século XX, César Guerra-Peixe figura na historiografia musical como um dos mais diretamente vinculados ao nacionalismo e à ideia de uma música baseada no folclore, uma espécie de nacionalista militante que teria largado o dodecafonismo por amor à pátria. É importante lembrar, porém, que questões relativas à técnica composicional também desempenharam um papel significativo na imagem que ele tentou construir para si ao longo de sua trajetória.

Se olharmos para os anos 1950, quando Guerra-Peixe deixava de compor música dodecafônica em favor daquilo que chamava de “música brasileira”, veremos que durante aquele período ele não só se lançou às pesquisas folclóricas que o celebrizaram, no Recife e pelo interior de São Paulo, mas também refletiu e discutiu muito a forma de compor adotada por ele próprio e por seus pares. Guerra-Peixe parecia empenhado em encontrar o “arsenal” mais adequado à criação de uma música de concerto que se pudesse dizer brasileira e moderna, recorrendo a todo um aparato que, de certo modo, garantiria sustentação à sua prática composicional, incluindo técnicas supostamente baseadas em leis naturais, a escolha cuidadosa de práticas e tradições de origens específicas e uma espécie de argumentação vigilante em torno desses elementos.

Aos olhos de Guerra-Peixe, o cenário da música de concerto brasileira da época estava dominado por um bloco mais ou menos homogêneo de compositores já estabelecidos, com Villa-Lobos à frente, e cuja música estaria em vias de academização e “rotinização”. Para ele, dois problemas principais marcavam a produção desses músicos: carência de apuro técnico e desconhecimento do folclore brasileiro, o que impediria que tivessem qualquer relevância, já que, sem técnica, não seriam capazes de escrever música que fizesse frente às grandes figuras da época; sem conhecer o folclore, não tinham como representar a nação com sua música.

Além disso, para Guerra-Peixe, compor música nacional ou compor à maneira europeia não era simples questão de mudar os materiais de base. Como ele próprio escreveu quando de suas primeiras tentativas de criar música nacionalista após abandonar o dodecafonismo, “falta[va-lhe] métier neste sentido”, e de fato tudo indica que ele se voltou para o folclore em busca também de sugestões de procedimentos técnicos, indo além da coleta de melodias e sugestões rítmicas para alçá-lo à condição de elemento formador do compositor:

 

De tempos em tempos minhas preferências […] mudam com as minhas ideias. Para mim, tanto Haydn me pareceu compositor oferecendo mensagem bastante nova, como Schoenberg me soou gasto, arcaico. Já achei a Sagração da Primavera, de Stravinsky, uma obra passadista e hoje a sinto revolucionária no sentido mais amplo. De qualquer modo, porém, o meu guia mais seguro nos últimos tempos tem sido o folclore, especialmente o de fonte ibero-africana, no qual observo um mundo inédito de experiências e adoto as que suponho me servirem melhor na qualidade de compositor. Aliás, vale acrescentar que, a meu ver, aprendi tanto com os tamborileiros dos cultos africanos do Recife, quanto nos conservatórios e nos livros de musicologia. Pelo menos assim o entendo.

 

[…]

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Anjos músicos na pintura mural alentejana

Laboratório de iconografia musical

O caso da Capela de Nossa Senhora de Vila Velha da Fronteira


 

A Capela de Nossa Senhora de Vila Velha da Fronteira localiza-se no Outeiro da Vila Velha, Fronteira, no distrito de Portalegre. Ergue-se, como o nome sugere, no local onde terá nascido a primitiva vila de Fronteira, em princípios do século XIII. Trata-se de um local de peregrinação de fundação gótica, profundamente remodelado no período barroco. Apresenta planta longitudinal de nave única e capela-mor circular, com fachada principal antecedida por galilé. O interior é de uma grande riqueza decorativa. Está integralmente revestido por azulejo polícromo de padrão (nas paredes) e pinturas murais (nas coberturas). A articulação de vários suportes decorativos, como o azulejo, a talha, a alvenaria, o mármore, resultam numa esplêndida fusão conferindo um brilho particular ao espaço interior.

A nave, com cobertura em abóbada de berço, está integralmente decorada por pinturas murais de caixotões figurando cenas da vida da Virgem e santos. A Capela-mor, sobre a qual se debruça o presente trabalho, é de planta circular com cobertura em zimbório de caixotões também decorados por pinturas murais figurando cenas da vida da Virgem, anjos músicos e cantores, putti e os quatro Evangelistas.

As referidas pinturas murais, de inspiração maneirista, encontram-se cronologicamente enquadradas no século XVIII por estudos da especialidade. Não obstante, torna-se difícil a sua datação exacta devido aos sucessivos retoques e novas camadas de tinta aplicadas sobre os originais. É possível, não obstante, que os frescos remontem a épocas mais antigas (séculos XVI ou XVII), uma hipótese que pode ser levantada devido a elementos organológicos mais antigos.

A origem da encomenda não está ainda estudada e carece de pesquisa a fundo, mas é provável que se trate de uma das opções usuais no nosso país no âmbito religioso, nomeadamente as confrarias ou irmandades, comissões de fábricas da igreja ou mecenas particulares. Sobre o caso específico do Alentejo, tido em conta como uma das regiões menos desenvolvidas do país, indica-nos Catarina Vilaça de Sousa:

 

«[…] A pintura mural parece pois, numa primeira leitura superficial, agradar preferencialmente às populações rurais de fracos recursos: a cenografia fácil e ilusionística do espaço que os seus baixos custos de produção possibilitavam era, por certo, um motivo de atracção de clientelas economicamente desfavorecidas tais como as confrarias e, de uma forma geral, as pequenas paróquias […]».

 

A decoração da Capela-mor é nobre e está organizada por níveis hierárquicos que ascendem da dimensão terrena à celeste. Num primeiro nível encontramos pinturas murais dos quatro Evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, identificados por legenda e com os respectivos símbolos, como é exemplo a águia no caso de S. João. A articulação destas pinturas com o azulejo polícromo que reveste as paredes é simplesmente soberba. Sobrepõem-se a este nível de pinturas os episódios principais da vida da Virgem, em cenas bem delimitadas por cercaduras. No nível superior sucedem-se, de forma quase teatral, uma série de anjos, na sua maioria músicos e cantores e, por último, uma camada compositiva com putti.

[…]

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Lembrando Ricardo Ramalho (1926 – 2012)

Discípulo de dois nomes maiores do universo flautístico do séc. XX – os célebres mestres suíços Aurèle Nicolet e André Jaunet – e tendo ocupado, como instrumentista, os lugares cimeiros nas principais orquestras nacionais (Gulbenkian e Emissora Nacional), bem como os de professor no Conservatório Nacional e na Escola Superior de Música de Lisboa, Ricardo Ramalho permanecerá indubitavelmente como uma referência incontornável entre os flautistas portugueses do seu tempo, perdurando entre nós a sua marcante personalidade artística e o legado de uma notável acção pedagógica que se projecta para as gerações seguintes.

 

Na vila alentejana de Reguengos de Monsaraz, berço de notáveis músicos e refúgio rural do compositor Luiz de Freitas Branco, nascia Ricardo Ramalho a 18 de Outubro de 1926.

Iniciando a sua aprendizagem musical aos nove anos, sob a orientação de José da Silva Domingues (a quem sempre creditaria uma grata admiração),apresenta-se publicamente um ano depois, tocando flautim; com apenas dezasseis anos, integra a Orquestra Sinfónica Eborense, trabalhando simultaneamente como músico na região.

Aos dezanove anos, ingressa na Banda da Guarda Nacional Republicana, em Lisboa, após um disputado concurso com uma centena de candidatos, onde Ricardo Ramalho se fez valer executando três instrumentos: flautim, oboé e saxofone soprano. Aí viria a desempenhar as funções de flautista durante vários anos.

Em 1948, aos vinte e um anos, ingressou na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional como 2.º Flauta e Flautim, passando a desempenhar as funções de solista a partir de 1961.

[…]

Um dos momentos marcantes dos primórdios da sua passagem pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional deu-se precisamente sob a direcção de Paul Hindemith, em Dezembro de 1954: após uma execução de Matias, o Pintor, no Teatro de S. Carlos, em que Ricardo Ramalho se destacara no flautim, foi o compositor cumprimentá-lo pessoalmente à estante, valendo-lhe isso, no dia seguinte, a ordem superior para “mandar fazer a casaca”, ou seja, tornar-se efectivo. Hindemith não ficara indiferente à prestação do jovem no flautim e fê-lo sentir à direcção administrativa da orquestra.

[…]

A fase mais difícil de toda a sua carreira ocorreu na década de 1970, na sequência de uma paralisia facial que o obrigou a uma longa paragem, a exigentes tratamentos e a uma resistência anímica que só um temperamento vigoroso e uma personalidade excepcionalmente forte permitiram ultrapassar. Quando muitos pensariam que estaria irremediavelmente perdido e arredado da sua carreira de flautista, Ricardo Ramalho, após uma tenaz persistência terapêutica e um esforço titânico, recupera integralmente, a ponto de poder retomar as suas funções na Orquestra Gulbenkian. Para provar a sua integral recuperação perante o Serviço de Música, a orquestra, o público e, last but not least, perante ele próprio, joga uma ousada cartada: propõe apresentar-se a solo com a Orquestra Gulbenkian, interpretando o Concerto em ré maior de Michael Haydn. Apesar do risco, e perante a determinação e a convicção de Ricardo Ramalho, o desafio é aceite, realizando-se o concerto (que seria, aliás, repetido) no âmbito de uma descentralização ao Algarve em Julho de 1977, sob a direcção de Juan Pablo Izquierdo, representando a vitória da persistência, do talento e da coragem de um homem de excepção, um profissional exemplar que não se resignou perante a adversidade.

[…]

Em 1985, ocorreu um (re)encontro pessoal muito especial para um flautista: estando Ricardo Ramalho num hall da Fundação Calouste Gulbenkian, é interpelado por alguém que se lhe dirige e o vem cumprimentar efusivamente: nem mais nem menos do que Jean-Pierre Rampal, que se apresentava nesse dia no Grande Auditório num recital com o seu pianista de então, John Steele Ritter. Um recital memorável, ao qual se seguiu um igualmente inesquecível jantar numa conhecida marisqueira de Lisboa e onde não faltou, à sobremesa, um apontamento do concerto de Khachaturian pelo próprio Rampal (que o estudava, naquela altura), numa flauta de estudante, que, como recurso, pedira emprestada a um dos jovens comensais presentes. Sem que alguma vez tivesse tido algum aluno português,segundo o próprio afirmou em diferentes ocasiões, Jean-Pierre Rampal testemunhou o seu respeito e simpatia por Ricardo Ramalho (tal como o fizeram tantas outras personalidades maiores da vida musical), como bem o comprovam o referido encontro, essa inesquecível soirée, e até o autógrafo que lhe dedicou no programa de sala desse memorável recital.

[…]

Prof. Ricardo Ramalho no Conservatório Nacional em 1984 (fotografia proveniente do arquivo pessoal de João Pereira Coutinho)

No ensino, com uma dedicação e generosidade sem limites, partilhou com os seus alunos, ao longo de uma vintena de anos, tudo o que tinha para ensinar e para dar. Formou alunos no Conservatório Nacional (e, mais tarde, também na Escola Superior de Música de Lisboa) que integraram o meio musical português como flautistas em orquestras profissionais e grupos musicais de referência e como professores em conservatórios e outras instituições de ensino especializado da música.

Sobretudo, deu a conhecer em Portugal uma verdadeira escola de flauta, moderna e actualizada segundo os melhores padrões europeus.

[…]

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Os anos de ‘El mi Paraiso’

Memórias
Nos 20 anos da morte de Fernando Lopes-Graça

 

[…]

Nesse dia da primeira aula (quando já decidira tornar-me compositor de vez, largando para sempre o amadorismo em matéria de criação como a vinha praticando até aí, e os pincéis com que pensara ainda entrar para a escola de artes António Arroio) esperámos todos – não seríamos muitos, sete ou oito no máximo, entre os quais algumas raparigas – que o Graça aparecesse, ferozmente orientados pela D. Laurinda – um ícone da velha Academia, já falecida – e amontoados no corredor perto da porta da sala, que era pequena e uma das primeiras do longo corredor da escola. Quando o Graça finalmente apareceu, pontual como sempre, a primeira coisa que fez foi pedir à D. Laurinda que lhe fosse buscar um copo de água, pedido que, pela reacção altaneira do sobrolho da senhora, devia ser habitual mas não muito apreciado, uma vez que a D. Laurinda era muito senhora do seu nariz – embora fosse, tal como o Graça, uma excelente pessoa.

Fervendo de excitação, entrámos. Ao fim e ao cabo, éramos apenas um magote de putos, vários dos quais – eu incluído – com pretensões a compositor (alguns apenas faziam a disciplina por conveniência do currículo, mas ainda éramos uma mão-cheia os que sonhávamos com a criação artística), sentados a uma velha mesa com o maior compositor português vivo; podíamos estar nervosos!

[…]

O chá das cinco era certo, e era o próprio Graça quem o preparava com vaidade e requintes de connaisseur, nunca se esquecendo de mencionar a origem das delicadas folhas, que lhe tinham sido oferecidas por amigos e trazidas directamente de Ceilão. A degustação era acompanhada pela explicação de todo o ritual: o bule e as chávenas escaldadas, um pouco de açúcar no bule por cima para as folhas ficarem no fundo, o tempo de permanência do chá na infusão, etc.. No entanto, era raro os bolos permanecerem no frigorífico até à hora do chá e, regra geral, o Graça não comia um nem dois: à hora do jantar já todos, ou quase todos, tinham desaparecido.

[…]

Directa, é verdade, e nunca hipócrita, a sua personalidade firme fê-lo arranjar muitos inimigos, músicos medíocres rancorosos por alguma crítica mais mordaz, pública ou directa. Porém, todos os grandes músicos que contactaram com ele, e que ele também criticou quando não gostava deste ou daquele resultado, mantiveram a sua amizade inabalável, pois só um grande artista percebe que a crítica é necessária quando não é maldosa, e a crítica do Graça era directa e por vezes corrosiva, mas nunca feita por maldade ou rancor. Artistas como Olga Prats, que o conheceram intimamente, aceitaram sempre as suas opiniões e discutiram com ele pontos de vista artísticos divergentes, que o Graça por vezes aceitava, por vezes não. Só os medíocres se melindravam, como é típico.

Aliás uma, senão a maior prova da honestidade de Lopes-Graça era a sua autocrítica, igualmente feroz e sem perdão. Foram muitas as vezes que o ouvi dizer, de peças suas, que isto ou aquilo não prestava, que eram coisas sem importância, que ainda não tinha atingido este ou aquele nível do ofício, nesta ou naquela passagem, críticas às quais se aliavam as suas violentas reacções quando eu admirava “demais” uma sua obra. O máximo que o Graça condescendia em relação à sua própria música era dizer “não está mal, não está mal”, e até este pequeno encómio nem sempre acontecia. Então se o louvor era acompanhado de comparações com os seus ídolos, como eu por vezes me atrevia a fazer, comentando que, por exemplo, a Sinfonia per Orchestra podia bem alinhar com uma obra como o Concerto para Orquestra de Béla Bartók (opinião que ainda hoje mantenho firmemente, tendo já tido oportunidade de a afirmar em público), então é que era ver o Graça piurso! “Não digas disparates, rapaz!” era a exclamação mais simpática (o Graça, mesmo agastado, nunca descia à grosseria; era demasiado educado para isso), acompanhada por um gesto do braço para  o lado, como que a enxotar a desastrada opinião.

[…]

Lopes-Graça, tal como Schoenberg ou Zemlinsky, nunca se negou a ensinar quem o abordasse nesse sentido, e nunca me cobrou um centavo pelas tardes que o fazia perder com a minha música e as minhas questões, antes aceitando-as como uma dádiva de juventude, num espírito de desinteresse total pelas recompensas materais. Era claro que gostava de estar com gente nova. Com o mesmo entusiasmo com que dedicou uma aula inteira na AAM às minhas primeiras balbuciações musicais independentes, dedicou muitas horas e entusiasmo aos meus progressos, chegando até, passados alguns anos apenas, a considerar – suprema humildade – não ser já capaz de me ensinar nada, pois a música que lhe levava tinha já ultrapassado as suas capacidades de avaliação estética e técnica. Disse-me isto pela primeira vez quando lhe mostrei a minha primeira obra para orquestra (Coral I, 1990), composta durante as minhas aulas com Constança Capdeville na ESML, e que fora executada ao vivo pela Nova Filarmonia Portuguesa sob a direcção de Álvaro Cassuto. Ouviu, gostou e, coisa rara, elogiou directamente a peça, dizendo que aquela devia ser a melhor coisa que eu fizera até aí, expressão que, vinda da sua boca, era já muito.

Porém, quando lhe pedi para comentar tecnicamente alguns detalhes com a partitura à frente, fê-lo a contragosto, consciente de que aquela música era demasiado “moderna” para si (não esqueçamos que o Graça nasceu em 1906 e toda a sua estética, mesmo quando esta, nos anos sessenta, evoluiu mais radicalmente, continua uma linguagem pós-Bartókiana, pertencente à mesma geração de um Chostakovitch (n. 1906) e até de um Britten (n. 1913). A segunda obra que lhe mostrei, também para orquestra mas ainda mais complexa e radical, já se negou – simpática mas firmemente – a analisar ou comentar. Olhou para a partitura, folheou-a, mas disse-me outra vez que aquilo “já não era para ele.”

[…]

 

ARTIGO PUBLICADO NA GLOSAS 11 ( Clique aqui para ler o artigo completo na versão impressa ).

GLOSAS 11 | César Guerra-Peixe

 

E ria feliz, apertando os olhos como uma máscara chinesa, o que lhe dava a aparência de cinco anos de idade. Ele se comprazia não só com os amigos, mas com a alegria de juntar pessoas que pudessem, se encontrando, ampliar idéias particulares e conceber projetos, raciocínios mais completos. Era um regente, um arranjador, um compositor, até no campo das amizades.

 

Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros in “Guerra-Peixe, a universalidade do nacional”*

 

De 1974 até 1980, estudei com o Guerra semanalmente. Recomendou-me que chegasse mais tarde,chegue no final que depois a gente sai pra tomar umas e outras. Era o último a ser atendido no Centro de Estudos Musicais, na Avenida Copacabana. Das umas e outras tenho vários guardanapos onde ele escrevia informações para os próximos exercícios. […] Jamais esquecerei aquele micro-lápis, de uns 5 cm., com que corrigia os exercícios. Uma ocasião sugeri um maior, ao que ele logo replicou – Este já conhece os erros, vai no ponto certo.

 

Guilherme Bauer in “Depoimentos”*

 * Citações retiradas de Guerra-Peixe – Um músico brasileiro, ed. Lumiar Editora, Rio de Janeiro, 2007.



O décimo-primeiro número da revista glosas surge depois de um breve interregno (anunciado e explicado no último editorial) que propiciou uma reflexão aprofundada em torno do âmbito e da sustentabilidade do projecto. Decidimos então aumentar o preço de capa – aproximá-lo do custo real de edição e produção –, regressar a uma periodicidade semestral, alargar a equipa de colaboradores e apostar também em conteúdos em-linha, sobretudo os que se referem à actualidade do panorama musical dos países de língua portuguesa.

Nem todas as mudanças são já visíveis: a glosas n.º 11 acabou por ser concebida como número de transição. A nova equipa de colaboradores, que sofreu uma reorganização significativa, a anunciar brevemente, será apenas responsável pelas revistas que se seguirem a esta. Sem querer desvelar precocemente algumas das novidades, direi apenas, para já, que o trabalho de cooperação e diálogo entre os meios musicais dos países de língua portuguesa será reforçado a um nível tão inédito quão promissor, e a qualidade dos conteúdos primará, sempre e cada vez mais, pelo seu interesse e excelência.

Hoje, celebramos o centenário do nascimento de César Guerra-Peixe, brasileiro luso-descendente que conquistou na História da Música universal um lugar de notável relevância. Devo aqui reiterar o nosso agradecimento, pelo inexcedível entusiasmo com que aceitaram o desafio de contribuir para este número, a todos os autores dos textos que lhe dizem respeito, especialmente a Luigarde Oliveira Cavalcanti Barros e Jane Guerra-Peixe (pela energia e amabilidade) e a José Staneck (pela maravilhosa quantidade e qualidade de fotografias que vieram enriquecer as páginas dedicadas ao grande mestre).

Os vinte anos sobre a morte de Lopes-Graça – cuja relação com Guerra-Peixe foi, como veremos, particularmente interessante – são também lembrados com um texto de memórias de Sérgio Azevedo. Para além de diversos pequenos artigos e das rubricas habituais, destacam-se ainda uma grande entrevista a Massimo Mazzeo, pelo décimo aniversário de Divino Sospiro, um artigo em memória do célebre flautista Ricardo Ramalho, o registo de quatro excelentes estreias de jovens compositores na Fundação Calouste Gulbenkian e a segunda e última parte da entrevista a Álvaro Cassuto.

Que o bom-humor e o espírito fraterno de Guerra-Peixe, em epígrafe lembrados, alimente diariamente a nossa vontade de fazer música, de a escutar e de falar sobre ela com a mais vibrátil felicidade.

 

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Novembro de 2014
96 páginas
Dep. legal 310097/10
ISSN 2182-1380

À conversa com Álvaro Cassuto

Duarte Pereira Martins | texto
Ana Salazar | fotografia
Isa Antunes, José Carlos Araújo e Philippe Marques | transcrição

 


 

 

[…]

 

Como foi inicialmente pensada a sua colaboração com a Naxos?

A minha ideia começou com a integral das sinfonias de Joly. Depois havia outras obras, mas entretanto saí da Orquestra Sinfónica Portuguesa quando foi integrada no Teatro Nacional de São Carlos, decisão à qual me opus terminantemente. A OSP tinha sido criada como instituição autónoma e depois foi posta sob a égide de uma fundação que englobava o Teatro e a Orquestra, a Fundação São Carlos. Mas a orquestra era autónoma dentro da fundação. Eu incompatibilizei-me, naturalmente, com o responsável do São Carlos, que era o Paulo Ferreira de Castro, porque ele queria que a orquestra estivesse predominantemente ao serviço dele.

 

Que fosse a orquestra do teatro?

Eu disse-lhe: “A orquestra não é do Teatro Nacional de São Carlos. Está na Fundação São Carlos e enquanto eu estiver aqui faz aquilo que eu decidir, porque eu sou o director artístico e você é o director artístico do Teatro. Eu não me meto no São Carlos e você não se mete na OSP.” Infelizmente, quando houve eleições e apareceu o Rui Vieira Nery como Secretário de Estado, ele conseguiu convencê-lo a que a orquestra estivesse no Teatro Nacional de São Carlos. O lugar de director da orquestra foi eliminado e a orquestra foi posta no São Carlos. Eu opus-me por uma razão muito simples: dentro do São Carlos a orquestra é sempre secundarizada. Ora, a Orquestra Sinfónica Portuguesa tem um papel que transcende em muito o papel de orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. O São Carlos como teatro de ópera, para já, não tem um fosso suficientemente grande e, mais a mais, a OSP, assim como foi criada, por minha iniciativa, tem cento e quinze elementos, de modo a poder dividir-se em duas. Enquanto uma toca no fosso do São Carlos, a outra pode sempre ter uma actividade sinfónica. O meu conceito era que houvesse uma actividade absolutamente regular e constante – que teve, no meu tempo –, independentemente do que acontecesse na ópera. Se houvesse ópera, havia sempre músicos suficientes, se não, podia fazer-se grande repertório sinfónico. Eu sabia, da minha experiência com a RDP, que uma vez integrada no Teatro, por muito bom que fosse o director, a orquestra estaria sempre em segundo plano. Se o director do São Carlos for um bom director, dá prioridade ao São Carlos e, portanto, é um mau director da Orquestra. Se for um mau director do São Carlos, não é uma boa recomendação para ser director da Orquestra. Em qualquer das circunstâncias, é negativa a integração da OSP. Então, eu era uma pessoa a abater e, efectivamente, fui abatido. O resultado está à vista: a orquestra, hoje, não tem presença. Faz concertos de vez em quando, mas aquilo que se espera da primeira orquestra de um país – que o nome indica que ela deve ser –, impacte nacional e internacional, não tem nenhum, absolutamente nenhum. Porquê? Por estar integrada no São Carlos.

 

Face a isso, como vê a situação global do Teatro Nacional de São Carlos hoje?

Não me pronuncio… não meto o nariz em seara alheia, nunca meti. Assim como não queria que interferissem. A OSP foi convidada a fazer uma tournée de dez concertos à Alemanha, com o último concerto no Konzerthaus de Viena, que foi inviabilizada pelo São Carlos. Nessa altura foi-me dito pelo Paulo Ferreira de Castro que iam fazer ópera e o que fizeram foi Il Mondo della Luna de Haydn, que tem uma orquestra de quinze ou vinte elementos. Dava perfeitamente; dos cento e quinze tiravam-se os quinze elementos e fazia-se a ópera. Mas foi inviabilizada. Eu convidei vários agentes internacionais para assistirem a concertos da OSP em Lisboa. Então, a orquestra foi convidada a fazer uma tournée ao Oriente – à Coreia –, com seis concertos com programas diferentes, no festival de Seoul, também inviabilizada pelo São Carlos, que tinha outros planos para a orquestra. No TNSC nunca se planeava com antecedência, enquanto estas coisas internacionais eram planeadas com antecedência. Por exemplo, estamos agora em Agosto de 2013: “Em Novembro de 2014 tenho um convite para ir com a orquestra à Coreia, há algum problema com isso?” – “Há, com certeza, porque eu não sei o que vou fazer nessa altura.” [risos] – “Está bem, faça o que puder, considerando que a orquestra está fora…” – “Não, tenha paciência mas você tem de se sujeitar. É muito mais complicado gerir um teatro de ópera do que uma orquestra.” E eu digo: “Não é disso que estamos a falar. Estamos a falar de uma coisa concreta: Novembro de 2014. Há alguns planos?” – “Não, não tenho.” – “Então, posso aceitar este convite?” – “Não, não pode, porque eu posso vir a ter planos que coincidam…” E assim foi inviabilizada uma tournée ao Oriente… foi inviabilizada uma tournée ao Brasil em que o São Carlos tinha tudo organizado, com os bilhetes de avião pagos pelos brasileiros. Esqueceram-se de os reservar… Esqueceram-se…! E as gravações destinavam-se a ser outra vertente da internacionalização da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Evidentemente, ainda chegámos a ir a um festival em Espanha… mas muitos outros projectos foram inviabilizados por causa da situação que se vivia.

 

[…]

 

Estão previstas outras gravações?

Está previsto um próximo disco com a sinfonia À Pátria, de Vianna da Motta, juntamente com o seu concerto para piano. Depois, tenho um disco previsto com obras de Luiz de Freitas Branco, como Viriato e As Tentações de São Frei Gil. Há ainda outro disco previsto com as Viagens na minha terra e o Canto de amor e de morte de Lopes-Graça, na versão para orquestra.

Quanto a Ruy Coelho, não me cheguei a debruçar sobre o seu repertório, que não conheço muito bem… não tenho acesso às partituras. Eu tenho uma partitura da segunda Symphonia Camoneana, publicada em Berlim. Digo-lhe, com toda a franqueza, que esbarrei com várias coisas, em termos de técnica de composição, que me deixaram perfeitamente atónito. Tinha de me debruçar mais sobre a obra de Ruy Coelho. Certamente, A princeza dos sapatos de ferro é uma obra boa, pelo menos tem sido bastante tocada, mas ainda não cheguei ao resto…

 

Conheceu Frederico de Freitas? A sua obra não é muito divulgada.

Com certeza. Na altura em que ele estava activo, era muito conotado com a música popular. Os intelectuais olhavam de lado…

 

Ele não estava dentro do círculo de que há pouco falávamos?

Não estava. Eu lembro-me de Pedro de Freitas Branco me contar uma vez: “Sabe como é que o meu ilustre colega, o maestro Frederico de Freitas, chegou a dirigir a orquestra de Bordeaux? Mandaram uma carta para a Radiodifusão a dizer que gostariam de convidar o maestro de Freitas! Deram o convite, então, ao Frederico de Freitas e ele aceitou, com certeza. Mas queriam convidar-me a mim…! Falei depois com o meu agente em Paris, que me perguntou porque não tinha ido dirigir…! Ele não sabia que tinham convidado o maestro Frederico de Freitas. Depois, verificou-se o engano!” Pedro de Freitas Branco contou-me isto com um ar muito superior. Quero dizer, Frederico de Freitas não se enquadrava na linha dos intelectuais da música naquele período. Havia um certo distanciamento, tanto pela formação intelectual como pela atitude social, a opinião. Frederico de Freitas era uma jóia de pessoa! Conheci-o perfeitamente, até porque lhe sucedi na orquestra da Radiodifusão, em 1970. O responsável pelo Departamento de Música da Emissora Nacional, Pedro do Prado, convidou-me para ocupar o lugar de subdirector da orquestra. Eu conheci-o muito antes. Era uma pessoa simpaticíssima, muito acessível e muito, muito fina. Mas, pela sua linguagem musical, não se enquadrava naquele ambiente.

 

Há algum momento da sua carreira que o tenha marcado especialmente?

Não. Foram tantas centenas de concertos! Quando cheguei aos mil e não sei quantos concertos desisti de fazer a contabilização. Só com a Nova Filarmonia Portuguesa, em cinco anos de actividade, dirigi setecentos concertos! De modo que há tantas coisas boas, tantas coisas más, que é muito difícil para mim seleccionar alguma. Em relação a obras, a nível internacional, nós não temos falado disso mas a minha actividade foi sempre mais orientada para fora de Portugal do que para dentro, porque as limitações aqui eram mais do que muitas e o mundo é muito grande. Quando eu fui para os Estados Unidos ofereceram-me o lugar de maestro assistente de uma orquestra em Nova Iorque. Depois fui estagiar com a Orquestra de Boston e ganhei o Prémio Koussevitsky, em 1969. Então houve uma catadupa de oportunidades, fui convidado por dezenas de orquestras, as portas abriram-se assim de repente.

Quando foi o 25 de Abril, eu estava a dirigir ópera no São Carlos e a orquestra quis sanear-me. Houve vários músicos da orquestra que diziam que eu tinha sido nomeado pelo governo fascista e, portanto, tinha de me demitir. Eu disse: “Se vamos por aí, vocês todos têm de se demitir, porque vocês também foram nomeados pelo governo fascista.” Não nos entendíamos e eu perguntei à Direcção o que achava se eu “saísse de circulação” durante uns tempos… Telefonei aos meus contactos internacionais e ofereceram-me um lugar na Universidade da Califórnia para chefiar a orquestra.

Convidaram-me depois para ir para Nova Iorque, onde me senti como peixe dentro de água e ensinei durante um ano na Julliard School. Fui convidado para dirigir uma orquestra de jovens recrutados a nível nacional nos Estados Unidos, com oito concertos, no Carnegie Hall, que tem uma acústica de sonho. Isso foi uma grande experiência! Eu lembro-me das críticas, tenho-as guardadas. Uma vez, a propósito do Don Juan de Strauss, um crítico escreveu que a orquestra tocou com tanto entusiasmo, tanta verve e tanta energia que parecia a Orquestra de Chicago em palco (que, com o Solti na altura, era a grande orquestra).

Na altura, deixei-me seduzir pela proposta do Ministro da Cultura, Coimbra Martins, que tinha conseguido criar a estrutura para a qual os músicos da Orquestra da Radiodifusão deveriam ser transferidos, para que pudesse ser reestruturada a Orquestra. Foi um projecto meu. Nessa altura, vagou o lugar de Chefe de Departamento das Orquestras da Radiodifusão e eu candidatei-me. Era um lugar que estava hierarquicamente acima do meu, eu era Maestro Director. Deram-me o lugar. Fiz as contas e cheguei à conclusão de que a RDP recebia 100 mil contos para financiar as duas orquestras (de Lisboa e do Porto); o dinheiro que se estava a gastar com os músicos era cerca de metade. Então fui ter com o Administrador do Departamento e disse-lhe: “Cheguei a uma conclusão muito simples. Os senhores dizem sempre que não há dinheiro, que não há dinheiro para preencher as vagas… Olhe, aqui está o que está a ser gasto para as duas orquestras. Não chega a 50 mil contos e a RDP recebe 100 mil do Orçamento Geral do Estado para financiar estas duas orquestras. Como é que o senhor diz que não há dinheiro?” E ele disse: “O que é que o senhor tem a ver com a maneira como a Radiodifusão gasta o seu dinheiro?” – “Não é o seu dinheiro, é o dinheiro dos contribuintes! É o dinheiro que está adstrito às orquestras, isto é um roubo que os senhores estão a fazer!” Ele disse: “Ponha-se lá fora!” Bom, eu “pus-me lá fora” e fui ter com um ex-colega de curso da Faculdade de Direito, que era na altura Secretário de Estado da Comunicação Social: “Olhe, passa-se isto… Eu vou deixar o lugar de Chefe de Departamento e vou para o meu lugar de Director da Orquestra, porque tenho este lugar nos Estados Unidos que vou ocupar a partir de Setembro. Mas vou dar uma conferência de imprensa para dizer que saio deste lugar porque a Radiodifusão Portuguesa está a roubar dinheiro que é das orquestras.” – “Não podes fazer uma coisa dessas! Isso é um escândalo!” – “Exacto! É um escândalo!” Antes do 25 de Abril, criei um grupo de amigos da Orquestra da Emissora Nacional, do qual faziam parte várias pessoas importantes, inclusivamente o Marcello Caetano, que foi meu professor na Faculdade de Direito e também contribuiu com dinheiro para comprar instrumentos e melhorar a orquestra, porque os instrumentos que eles tinham eram do tempo da Maria Cachucha…

 

[…]

 

ENTREVISTA PUBLICADA NAS GLOSAS 10 e 11 ( Clique aqui para aceder aos artigos completos nas versões impressas ).

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