Ana Telles e Ludger Brümmer na Casa da Música

À semelhança de outras importantes colaborações feitas ao longo dos seus treze anos de actividade, o Festival DME torna a marcar presença na divulgação e enriquecimento do panorama da música electroacústica nacional. Com direcção artística de Jaime Reis, este festival itinerante iniciado na Polónia em 2003 promove várias edições ao longo do ano, contando já com trinta e uma edições que decorreram em Seia, local onde se desenvolve a maior parte das actividades, e cinquenta edições entre todas as que decorreram desde o primeiro festival, incluindo o Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, entre outros) ou a Ásia (Coreia, China, Japão e Filipinas).

Será no dia 30 de Outubro, pelas 18h00, na Sala 2 da Casa da Música no Porto que o Festival Dias de Música Electroacústica se apresentará em parceria com o ZKM (Zentrum für Kunst und Medientechnologie Karlsruhe) num concerto dedicado a Ludger Brümmer, director musical deste importante centro artístico e tecnológico centro-europeu. Para este concerto, Ludger Brümmer apresenta-se com um programa musical e tecnológico inteiramente de sua autoria e concepção: Klangdom é o nome atribuído a este sistema de espacialização semi-esférico inovador que permite uma percepção única do som no espaço, criando um ambiente imersivo entre os vários componentes deste espectáculo, onde música, arte digital e vídeo são integrados e integrantes numa dinâmica que se pretende singular e irrepetível, recorrendo à geração em tempo real dos vários intervenientes.

É de salientar igualmente a participação da pianista portuguesa Ana Telles, cujo trabalho dedicado à interpretação, divulgação e ensino da música erudita contemporânea em Portugal é amplamente conhecido e respeitado internacionalmente. Será mais uma de várias importantes colaborações entre o agrupamento residente deste festival (Ensemble DME – Collegium Musicum Electroacústico) e os parceiros artísticos internacionais que tanto têm revigorado e reinventado os horizontes musicais do nosso país. Neste concerto, Ana Telles estreará uma nova versão de uma peça para piano, vídeo e electrónica de Ludger Brümmer.

 


 

LUDGER BRÜMMER, nascido e criado em Werne, Alemanha, é Mestre em Psicologia e Sociologia pela Universidade de Dortmund. Estudou Composição com Nicolaus A. Huber e Dirk Reith na Folkwang Hochschule Essen. Colaborou com a coreógrafa Susanne Linke e o Teatro Nederlands Dans para “Ruhrort”, com o seu trabalho “Riti Contour”, para orquestra. Conta com apresentações internacionais no GRM, Paris, no ICMC em San Jose, Tóquio, Banff, Thessaloniki. É Bolseiro no CCRMA — Universidade de Stanford, professor assistente na Folkwang Hochschule, TU Berlin, Escola de Design Karlsruhe, bolseiro de investigação na Universidade de Kingston e professor de composição no Sonic Arts Research Centre Belfast. Desde 2003 é director do Instituto de Música e Acústica no ZKM | Karlsruhe e professor convidado na Escola de Design. É membro da Academia das Artes de Berlim.

ANA TELLES estudou com Yvonne Loriod-Messiaen, Sara Buechner e Nina Svetlanova. Obteve os graus de Bachelor of Arts (Manhattan School of Music) e de Master of Musical Arts (New York University) em Piano Performance. Doutorou-se com a classificação máxima em História da Música e Musicologia na Universidade de Paris IV — Sorbonne em co-tutela com a Universidade de Évora, com a tese “Luís de Freitas Branco (1890-1955): parcours biographique et esthétique à travers l’œuvre pour piano”, orientada por Danièle Pistone e Rui Vieira Nery. Mantém intensa actividade de concertista. É Professora Auxiliar da Universidade de Évora.

 

Terleira e Resende no Oxford Lied Festival

Realiza-se por estes dias o Oxford Lied Festival, no Reino Unido, dedicado à arte da canção e cuja programação inclui diversos recitais e masterclasses.

O duo de tenor e piano formado por João Terleira e Joana Resende participa nesta edição do festival como um dos grupos seleccionados para integrar o curso de trabalho com Wolfgang Holzmair (barítono), Julius Drake (piano), Robert Holl (baixo), Matti Hirvonen (piano) e Richard Stokes. Estes cursos de curta duração respondem ao projecto do Oxford Lied Festival em contribuir para o aperfeiçoamento de capacidades técnicas e estilísticas de próximas gerações de intérpretes. As sessões desenvolvem-se em torno do estudo e análise de aspectos musicais e poéticos de Lieder sob a orientação de um tutor, este ano o barítono Wolfgang Holzmair, com convidados. A intensa semana de curso culminará num concerto público a 29 de Outubro, último dia do festival. Para mais informações sobre as masterclasses, consulte a página do festival em https://www.oxfordlieder.co.uk/.

João Terleira e Joana Resende têm vindo a trabalhar em conjunto nos últimos anos. Resende estudou na Escola de Música de Artes do Espectáculo do Porto, na classe de Jaime Mota, tendo terminado a licenciatura em piano em 2004. Posteriormente, estudou piano, acompanhamento de Lied e música de câmara na Hoschule für Musik und Theater Félix Mendelssohn-Bartholdy, em Lípsia, e realizou diversas masterclasses. Tem Mestrado em Performance e em Ensino da Música, pela Universidade de Aveiro. Terleira tem o mestrado em Interpretação Artística também da Escola de Música de Artes do Espectáculo do Porto, sob a orientação de Rui Taveira. Estudou canto na International Opera Academy em Ghent, Bélgica, sob direcção artística de Guy Joosten, tendo participado em masterclasses com Renée Jacobs, Natalie Dessay, Albert Zedda e Win Hendrickx, entre outros. Integra o ENOA – European Network of Opera Academies.

M! School for Musicians! organiza ‘masterclass’ de flauta

A M! School for Musicians! organiza a primeira edição de Flute Mania!, uma masterclass de  flauta com Nuno Inácio, Monika Streitová e Rui Borges Maia. A formação terá lugar no LXFactory e Museu Nacional do Teatro a 5 e 6 de Novembro de 2016, e é dirigida a alunos de ensino superior, de escolas profissionais de música e conservatórios.

A participação no Flute Mania! é garantida mediante inscrição, podendo o candidato concorrer também à modalidade M! Soloist Program — vertente que visa a seleccionar seis flautistas que poderão usufruir de aulas individuais com o os supracitados flautistas orientadores.

Cada participante terá a oportunidade de apresentar uma peça individual ou em ensemble  no dia 6 de Novembro, segundo dia da masterclass, no concerto de encerramento às 16h00, no Museu Nacional do Teatro.

Inscrições terminam a 25 de Outubro às 23h59.

Mais informações aqui.

Entre Madeiras estreia obra de Alfredo Teixeira

Ao longo deste ano temos assistido a algumas iniciativas de homenagem a Joaquim Simões da Hora (1941-1996), figura cimeira do órgão histórico e da produção discográfica em Portugal no século XX, em grande parte pelo facto de que se registaram 75 anos do seu nascimento e 20 anos passaram desde a sua morte.

A memória de Simões da Hora tem sido evocada ao longo dos últimos anos através de diversas iniciativas, entre as quais se destacam a edição do CD de homenagem Joaquim Simões da Hora: In Memoriam (Portugaler, 2002), a edição do livro Joaquim Simões da Hora: Intérprete, Pedagogo e Divulgador (Edições Colibri, 2015) e também uma edição em CD que irá sair em breve Joaquim Simões da Hora In Concert (Portugaler, 2016). Além destas edições destacam-se vários concertos, palestras, e outras evocações de natureza diversa. Surge agora mais uma homenagem, que demonstra bem como a memória e o património imaterial histórico pode e deve ser orgânico, na medida em que não se confine a uma lógica pré-estabelecida (neste caso, o universo do órgão histórico), mas antes que sirva de impulso à criação e recriação artística, seja ela histórica ou contemporânea. É o que acontece com a nova obra de Alfredo Teixeira, compositor que foi também, na sua formação, aluno de Simões da Hora na classe de órgão do Conservatório Nacional.

No próximo dia 18 de Outubro, no âmbito da celebração do 10.º aniversário do Concerto Aberto (Antena 2), o Entre Madeiras Trio estreia Diferencias II after “O Virgo Splendens” de Alfredo Teixeira (1965-), obra dedicada a Joaquim Simões da Hora. Este concerto será transmitido em directo na Rádio Antena 2, pelas 19 horas, e apresenta alguma da melhor música contemporânea para trio de flauta, saxofone e oboé, destacando-se as obras encomendadas pelo próprio agrupamento, como é o caso da composição de Alfredo Teixeira de que aqui fazemos nota.

“A obra Diferencias II foi escrita para o Entre Madeiras Trio, homenageando Joaquim Simões da Hora, professor de órgão do compositor, no 75.º aniversário do seu nascimento, 20 anos depois da sua morte. O trabalho composicional explorou os materiais melódicos de um canto recolhido no Llibre Vermell de Monserrat, sinalizando a memória do seu encontro, na companhia de Simões da Hora, com os segredos de diversos reportórios históricos. De salientar que Diferencias II acontece, precisamente, 20 anos depois de Diferencias I, obra muito marcada pelo itinerário de descoberta que o compositor percorreu com Jorge Peixinho. É, nas palavras do compositor, uma obra entre-mundos.”

Além da obra de Alfredo Teixeira, o programa deste concerto contempla as obras Divertimento em trio de Sérgio Azevedo, Cantilène de João Andrade Nunes, Elegy II Expanded de Christopher Bochmann, Desumanização de Fábio Cachão e ainda a estreia de Triplo Expresso Mattutino de Francisco Cortés-Alvaréz.

O Entre Madeiras Trio surgiu em 2009, sendo formado por Maria Tallete Cardoso (flauta), Filipe Pereira Branco (oboé) e João Andrade Nunes (saxofone). Gravou o seu primeiro CD em 2015, numa edição MPMP, com obras exclusivamente escritas para o agrupamento.

Vortex Temporum: é possível dançar a ‘performance’ musical?

A pergunta pode soar esdrúxula, mas torna-se perfeitamente plausível depois de se assistir ao espetáculo Vortex Temporum, concebido e dirigido por Anne Teresa de Keersmaeker com os grupos Rosas e Ictus. Realizado nos dias 29 e 30 de setembro na Culturgest, em Lisboa, o espetáculo de dança é baseado na obra homônima do grande compositor francês prematuramente falecido Gérard Grisey.

Vortex Temporum (1996) é uma obra de maturidade de Grisey, resultado de suas profundas pesquisas sobre a música espectral, estética da qual frequentemente é considerado um dos precursores.

Embora muito ignorada e por vezes até inibida, a gestualidade é parte fundamental na performance musical. Desde o ágil toque nas chaves de um clarinete até os gestos mais exagerados de um maestro conduzindo uma obra grandiosa, toda a performance musical gera – e é gerada por – movimento. É a partir da observação dos movimentos dos instrumentistas que Anne Teresa de Keersmaeker cria a dança sobre a música de Grisey. De acordo com a coreógrafa, ela e o grupo Rosas dedicaram bastante tempo à observação dos músicos do grupo Ictus a tocar, em busca da dança que emerge da música[1]. Este minucioso trabalho de observação pode ser constatado na transformação de ações como a arcada do violoncelista e o toque percutido do pianista, em reações corporais a partir das quais os bailarinos desenvolvem suas potencialidades ao extremo do físico: música que se torna gesto.

Este, certamente, não é um procedimento novo, e na área musical foi uma técnica amplamente desenvolvida por compositores como Mauricio Kagel, Georges Aperghis e Gilberto Mendes, que muitas vezes extraíam da gestualidade dos instrumentistas o material para suas composições. De acordo com Gilberto Mendes, importante compositor brasileiro e um dos principais nomes na área da música-teatro (ou teatro-musical, como preferem alguns estudiosos), sua obra desta natureza “é algo que decorre da exploração do que há de performance visual, teatral, na própria execução da música”, e que pode chegar “a extremos de cortar a própria música”[2].

É particularmente interessante observar como o processo adotado por De Keersmaeker é semelhante a este pensamento composicional de Mendes. A primeira parte da obra é apenas tocada pelos músicos do Ictus, sendo na sequência substituídos pelos dançarinos, cada qual representando um instrumentista. A partir de então, eles passam a dançar. Não apenas dançar a música, mas antes dançar o instrumentista, dançar o instrumento. Dança visceral que se transforma em música e, por fim, transforma-se em sua própria saturação.

Mas da própria música também surgem inspirações para a dança. A sensação vertiginosa magistralmente construída por Grisey é realizada visualmente através de movimentos espirais que transformam o palco em um grande furacão, do qual nenhum elemento está imune, nem mesmo o piano em toda sua densidade. Acontece que, com a ajuda do maestro, o instrumento é conduzido em longas espirais a atravessar todo o palco, tornando-se o principal bailarino, até mesmo com a iluminação a acompanhar. Diante de nossos olhos, um piano a dançar em amplos movimentos de rotação e translação, com a ainda brilhante atuação do pianista sendo conduzido pelo instrumento…

Vortex Temporum é um espetáculo que desafia nossa ainda compartimentada visão sobre arte. Coloca-nos em posição desconfortável perante aquilo que julgamos saber. Tira-nos o chão e, com isso, permite-nos voar. Em vórtices… No tempo…


 

 

Ficha técnica

Coreografia: Anne Teresa De Keersmaeker; Criado com e dançado por: Boštjan Antončič, Carlos Garbin, Maria Goudot, Cynthia Loemij, Julien Monty, Michaël Pomero, Mark Lorimer; Música: Vortex Temporum, Gérard Grisey (1996); Direção musical: Georges-Elie Octors; Músicos Ictus: Jean-Luc Plouvier (piano), Michael Schmid (flauta), Dirk Descheemaeker (clarinete), Igor Semenoff (violino), Jeroen Robbrecht (viola), Geert De Bièvre (violoncelo); Desenho de luz: Anne Teresa De Keersmaeker, Luc Schaltin; Aconselhamento artístico para a luz: Michael François; Figurinos: Anne-Catherine Kunz (com assistência de Valérie De Waele); Dramaturgia musical: Bojana Cvejić; Assistente artística: Femke Gyselinck; Coordenação artística e planeamento: Anne Van Aerschot; Diretor técnico: Joris Erven; Som: Alexandre Fostier; Guarda-roupa: Valérie De Waele; Costureiras: Maria Eva Rodriguez, Tatjana Vilkitskaia; Técnicos: Michael Smets, Clive Mitchell; Produção: Rosas; Coprodução: De Munt / La Monnaie (Bruxelas), Ruhrtriennale, Les Théâtres de la Ville de Luxembourg, Théâtre de la Ville (Paris), Sadler’s Wells (Londres), Opéra de Lille, ImpulsTanz (Viena), Holland Festival (Amesterdão), Concertgebouw Brugge (Bruges); Estreia mundial: 3 de outubro de 2013, Ruhrtriennale; Agradecimentos especiais: Thierry Bae, Jean-Paul Van Bendegem.

 


 

[1] Anna Teresa de Keersmaeker, entrevista por Bojana Cvejić, Monnaie Munt Magazine, Maio 7, 2013.

[2] A Odisseia Musical de Gilberto Mendes, dirigido por Carlos de Moura Ribeiro Mendes (2006; Brasil: Berço Esplêndido Produções, 2006), DVD.

Gilda Oswaldo Cruz celebrou Álvaro de Campos

No passado Sábado, 8 de Outubro, a pianista Gilda Oswaldo Cruz deu um recital de piano na Igreja de Misericórdia em Tavira.  O concerto integra a iniciativa “Música nas Igrejas” da  responsabilidade da Academia de Música de Tavira, que se vem realizando já há vários anos e que mantém um público fiel, constituído maioritariamente por estrangeiros residentes no sotavento algarvio. Este foi o concerto escolhido para integrar o evento cultural “Festa dos Anos de Álvaro de Campos”, que decorre ao longo dos meses de Outubro e Novembro, com direcção de Tela Leão, e apoio do programa 365 Algarve. O heterónimo pessoano nascido em Tavira, “engenheiro e poeta sensacionista” como gostava de acrescentar à sua assinatura, não poderia ter sido melhor celebrado. Com o programa escolhido, que principiou em Haydn (Sonata em mi bemol maior), passou por Webern (Variações Op. 27), Berg (Sonana Op. 1) e terminou em Debussy (Children’s Corner e L’isle joyeuse), a pianista visou “sublinhar o vínculo entre o modernismo e a estética romântica por vezes ignorada na interpretação das obras dos grandes inovadores da música no início do século XX”.

Gilda Oswaldo Cruz nasceu no Rio de Janeiro tendo iniciado os seus estudos de piano aos nove anos de idade com Vilma Graça. Realizou estudos superiores de piano na universidade federal da sua cidade natal, vindo a concluí-los na Escola Superior de Viena, onde obteve o diploma de virtuosidade com a máxima graduação. Pianista premiada, tem-se apresentado nos mais variados palcos de cidades europeias, sul-americanas e africanas. Gravou dois CDs dedicados à obra pianística de Claudio Santoro e produziu para a Antena 2 duas séries trimestrais de programas em torno dos compositores Arnold Schoenberg e Heitor Villa-Lobos.

Este concerto deixou, seguramente, uma marca indelével no público por duas razões principais:

  • Em primeiro lugar é raro o público tavirense ter acesso a obras de compositores do século XX. Viam-se os olhares perplexos do público exposto às sonoridades de Webern e Berg. As notas de programa, escritas pela própria pianista, ajudaram o público que a elas recorreu insistentemente: “Decorrente da evolução do sistema tonal na música de Wagner, o expressionismo atonal a partir de Schoenberg jamais negou a sua origem romântica, apesar do seu aparato formal rigoroso.  Assim, a primeira obra de Alban Berg, a Sonata Op. 1, é uma peça que retoma aspectos do virtuosismo pianístico de Liszt e contém reminiscências de harmonias wagnerianas. Já as Variações Op. 27 de Anton Webern, segundo testemunho de seu primeiro intérprete e dedicatário, Edouard Steuermann, devem ser interpretadas com uma sobrecarga emotiva e expressar um lirismo apaixonadamente contido, bem distante portanto da secura pedante com que por vezes podem soar”.
  • Em segundo lugar é muito raro ouvir interpretar Debussy com tanta mestria! Mesmo hoje em dia são poucos os capazes de entender a estética deste precursor do modernismo musical e de o fazer soar justamente. Debussy realizou um depuramento musical através de uma redução de meios que conciliou com o maior refinamento! A exploração das ressonâncias do piano obriga a um domínio do pedal nunca visto até então. A insistência nos piano e pianissimo requer uma execução virtuosa. Também aqui as notas de programa auxiliaram o público: “A música de Debussy traz para a música ocidental escalas exóticas, como a de tons inteiros, e antigas harmonias modais, além de incorporar a noção de espaço. A suíte Childrens Corner, dedicada à filha do compositor, é constituída de miniaturas de grande sugestão poética,  imbuídas de ternura, contendo porém na última peça uma burla em torno do tema inicial do prelúdio de Tristão e Isolda, na forma de uma curta gargalhada de cunho sarcástico. Tudo para ser tomado com um grão de sal, evidentemente, já que Debussy era admirador profundo e estudioso da música do mestre de Bayreuth. A peça L’isle joyeuse traz ao ouvinte a sugestão musical da ideia de volta à ilha feliz da pátria de origem”.

Resta-me acrescentar que Debussy ousou ser um grand enfant, compôs Children’s Corner com humor… mas sem descurar o mistério que uma boneca encerra, a profundidade que as coisas ínfimas contêm quando a atenção se demora nelas. Quanto a L’isle joyeuse, ar, leveza e graça são centrais nesta peça. Na esteira de Correspondances de Baudelaire, esta é uma obra sinestésica; com a execução adequada evoca o ar fresco, a brisa marinha, o sol, criando uma atmosfera de felicidade e graça.

Gilda Oswaldo Cruz conseguiu-o plenamente!

Escritaria 2015: homenagem a Mário Cláudio

Foi recentemente editado um volume biográfico de homenagem ao escritor Mário Cláudio, pelas Edições Cão Menor. Este livro apresenta-se como o legado escrito da oitava edição (de 2015) do evento Escritaria, que ocorre anualmente em Penafiel. Nele estão compilados alguns depoimentos das variadas personalidades que participaram no festival, em âmbitos tão distintos como as apresentações de livros do autor, conferências ou a concepção de arte. São também reunidas algumas fotografias de momentos vividos nos vários dias do festival, em torno da referência à vida e obra do escritor portuense.

Entre os textos presentes neste projecto, destaca-se a participação do compositor Cândido Lima, amigo pessoal de Mário Cláudio, com o texto “Lethes — rio da minha memória”. A colaboração entre ambos acontece regularmente e já tinha sido evidenciada no número 10 da Glosas, quando o escritor acedeu à publicação de um texto inédito inspirado pela obra musical do compositor — e, por sua vez, o compositor viria a compor uma nova obra a partir do texto de Mário Cláudio.

Nas anteriores edições de Escritaria, que ocorre desde 2008 em diversos espaços culturais da cidade nortenha, foram homenageados Urbano Tavares Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, António Lobo Antunes, Mia Couto, Mário de Carvalho e Lídia Jorge. A edição deste ano consagrou a escritora Alice Vieira.

 

Sobre a ‘Carmen’ no São Carlos: há coisas que não consigo entender

Há coisas que não consigo entender e esta produção da Carmen que agora estreia é uma delas. O São Carlos apostou numa produção vinda da English National Opera, ao que parece do Sr. Calixto Bieito, encenador. As produções deste senhor são esquisitas e pedem às vezes coisas esquisitas aos participantes; até aqui tudo bem, tem que haver para todos os gostos, embora eu não veja a razão para ter que ver mulheres em fato de banho, e sexo em carros — dizem — numa produção da Carmen.

O que já não entendo tão bem é a péssima utilização dos nossos recursos vocais no referido teatro. Em primeiro lugar, o tenor Paulo Ferreira já cantou esta produção em Bilbao — é no mínimo de estranhar que não tenha sido convidado para o fazer no seu país. Numa produção estranha para a qual são precisos vários ensaios não seria útil e até inteligente utilizar um jovem cantor português que está a fazer uma magnífica carreira internacional e que já conhece a encenação?

Uma coisa destas seria impossível em Inglaterra onde as direcções e os governantes se batem pelos seus artistas (era por isso que Janet Baker dizia em entrevistas que estreava os seus papéis operáticos sobretudo no seu país, pois se sentia assim mais confortável do que no estrangeiro), mas em Viena, Paris ou aqui ao lado, em Madrid, isto também não sucederia. Que falta de noção se apoderou de nós?

De Micaelas conto pelo menos três ou quatro portuguesas que fariam maravilhosamente o seu papel: em primeiro lugar Dora Rodrigues mas também Sónia Alcobaça, Susana Gaspar ou Ana Maria Pinto. A senhora Brandon deve ser uma enorme diva, que eu desconheço, para ser convidada em vez de quatro excelentes cantoras portuguesas.

Enfim, até nem arranjámos um Zuniga e lá teve que vir (de Inglaterra, presumo eu) o senhor Keel Watson — elementar, “my dear Watson”. Concluo portanto que este país tem uma trampa de cantores (facto que desconhecia) e que estamos prestes a tornarmo-nos numa colónia inglesa.

O governo não abre os olhos a isto? Shame on them!

Lançado o 2.º CD da integral para saxofone de Jorge Salgueiro

João Pedro Silva interpreta a obra integral de Jorge Salgueiro para saxofone em três discos. O 2.º volume foi apresentado no passado dia 24 de Setembro num concerto no Teatro Ibérico e já está disponível, sendo dedicado à obra para saxofone e electrónica do compositor.

A gravação conta com a participação do quarteto de saxofones ARTEMSAX, criado há catorze anos e em que o próprio João Pedro Silva é membro fundador, juntamente com João Cordeiro, Rui Costa e Hélder Madureira. Integra também os saxofonistas Gabriela Figueiredo, João Bandadas, Liliana Albino e Pedro Barbosa, assim como o acordeonista Pedro Santos.

Pedro Santos foi também um dos músicos convidados para o 1.º volume desta trilogia discográfica, juntamente com Pedro Vieira de Almeida (piano) e o Ensemble de Saxofones da Metropolitana, do qual João Pedro Silva é director artístico.

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