Vianna da Motta, homem completo de espírito clássico

Ao ler alguns dos textos existentes sobre a personalidade de José Vianna da Motta – artigos de Jayme Batalha Reis e de Fernando Lopes-Graça, a monografia de João de Freitas Branco, os contributos ao In Memoriam, entre outros – tropecei repetidas vezes nas palavras “clássico” e “homem completo”. Não crendo, nestes casos, na possibilidade de os respectivos autores terem copiadas as passagens um do outro, fiquei com a convicção de que não deve tratar-se de pura coincidência. Queria saber em que sentido os dois conceitos foram usados pelos vários autores.

João de Freitas Branco, no capítulo “O Homem” da sua monografia Viana da Mota, caracteriza o artista como modesto, honesto e humano, exacto, pontual e meticuloso, homem de poucas palavras, que parecia tímido e reservado e que não podia nem gritar nem zangar-se. Pergunta (p. 44): “Não era ele clássico, por natureza e por opção?” Perto do fim do capítulo, mencionando uma mudança da sua maneira de estar durante as férias, Freitas Branco faz uma alusão aos tempos da permanência de Vianna da Motta na Alemanha, perguntando-se (p. 45): “Um Viana da Mota muito outro, muito diferente daquele com quem temos aqui tratado? Alguns depoimentos deixam-no supor […]” Adiante voltaremos a esse ponto.

O conceito do “clássico” aparece, como um leitmotiv, nas mais variadas fontes de caracterizações do Mestre. Vejamos primeiro como outros autores, anteriores a Freitas Branco, o empregam e quais são as conexões e conclusões a tirar daquelas afirmações, para melhor conhecimento do grande artista.

Já em 1896, Antonio Arroyo descreve a sua interpretação pianística com as seguintes palavras: “Classico na fórma, de uma linha purissima e extranhamente sobria para nós, elle é o admiravel interprete de Bach, Beethoven e Liszt que todos festejam”. Na última parte do seu artigo, qualificando a vida artística de Vianna da Motta como sendo “digno de ser tomado como guia por todos quantos teem um ideal de vida qualquer”, evoca ainda o significado “exemplar” para o conceito do “clássico”.

Oito anos mais tarde, Jayme Batalha Reis afirma, com maior eloquência, a opinião de Arroyo relativamente à interpretação pianística: “As qualidades que desde logo impressionam na execução de Vianna da Motta, e depois se lhe notam permanentes, são a clareza, a nitidez, o acabado; o sentimento da proporção, da ponderação no colorido e na expressão; uma sequência sentimental sempre contida, um impulso de paixão sempre dominado.” Todas essas características poderiam servir de definição do “clássico”, no sentido de uma atitude perfeita e equilibrada.

Num artigo originalmente publicado no semanário O Diabo, em Setembro de 1935, Fernando Lopes-Graça fica na mesma linha: “Ora, é esta, justamente, a vitória de Vianna da Motta: o equilíbrio. Ele não é um artista impetuoso, exaltado, sentimental, refinado, romântico; antes sóbrio, ponderado, inteligente, calmo, clássico, no bom sentido da palavra.”

Em 1952 foi editado um livro de homenagem com o título Vianna da Motta: In Memoriam, no qual se encontra, entre muito outros, também um contributo pelo genro do Mestre, o famoso psiquiatra Henrique João de Barahona Fernandes. Demonstra no seu texto como se poderia tirar informações sobre a personalidade do eminente artista, através das coisas que o rodeavam na sua sala de estudo, sentindo ainda um “alevantado sentimento de harmonia e unidade”, e nas representações da sua pessoa em obras de arte. Destaca o baixo-relevo com o seu perfil, de João da Silva: “A impressão dominante era a da seriedade, no sentido mais elevado do conceito. Nada de menos autêntico ou artificial: uma imagem clássica em toda a acepção, por ventura sem beleza física notória, mas com a harmonia e a calma da sua grandeza interior.”

No mesmo livro In Memoriam, o filósofo, sociólogo e político António Sérgio, amigo de Vianna da Motta, salienta um artigo dele publicado em 1917 na revista A Aguia, sob o título O ensino musical em Portugal, que caracteriza como “uma obra clássica”. Continua: “nesse clássico fruto de um clássico espírito, aquilo que sobretudo nos interessa é ver como para além do artista e do músico – e muito clàssicamente – ele visava o ideal a que chamou «o homem completo».”

Chegámos ao conceito do homem completo – conceito, aliás, que Vianna da Motta deve ter tirado de uma obra de Alphonse de Lamartine ou do vocabulário do seu amigo Batalha Reis. Numa carta dele a Vianna da Motta, de 2 de Agosto de 1904, queixando-se de que este não tinha respondido minuciosamente a uma carta anterior sobre a sua filosofia, escreve: “Julguei comprehender que Você toma a serio estas coisas e deseja, – como homem completo que é, – ter uma idea tambem completa do seu Espirito e do Universo, – uma Filosofia.” E num artigo sobre Vianna da Motta publicado no Diário de Notícias, em 8 de Junho de 1908, lê-se: “É sem duvida «pianistas» o que elle se propõe formar; mas as necessidades do seu espirito, e os processos que, por isso, muito naturalmente emprega, tendem a crear completos homens artistas, na mais larga acepção d’estas duas palavras.”

(…)


Excerto de texto publicado na Glosas 17. A revista pode ser adquirida na Loja MPMP.

Concurso internacional de interpretação EMSCAN

A EMSCAN – Electroacoustic Music and Sound Courses Alumni Network, com o apoio da associação CulturXis e do espaço Lisboa Incomum, promove no final deste ano a primeira edição de uma competição internacional dedicada à interpretação de música contemporânea. A primeira edição é dedicada à música do compositor Jaime Reis – magister dos alumni da rede promotora e fundador do Lisboa Incomum.

A competição visa promover quer a criação contemporânea como o desenvolvimento artístico de intérpretes emergentes, de qualquer nacionalidade. Divide-se em duas categorias: Profissional – onde os pianistas se apresentarão a concurso com a obra Lysozyme Synthesis – e Juvenil – destinada a jovens pianistas até aos 12 anos, que se mostrarão num excerto para piano e electrónica do V Interlúdio do teatro musical para público jovem Bartolomeu, o voador. Entre as duas categorias, serão distribuídos pelo júri – anunciado publicamente apenas no dia da competição – três prémios: dois contemplando a primeira categoria, nos valores de 500 e 200€ (acrescidos da oferta de livros, CDs e partituras), e um (composto por estas ofertas) atribuído a quem melhor se distinguir entre os Juvenis.

São recebidas inscrições até 9 de Novembro de 2018. Aos candidatos pede-se o pagamento de uma taxa de inscrição obrigatória de 20 € (para a categoria Profissional) ou 10 € (para a categoria Juvenil). Os candidatos seleccionados nas pré-eliminatórias serão anunciados até ao dia 12 de Novembro. Os finalistas participarão no concurso no espaço Lisboa Incomum, a decorrer dia 2 de Dezembro de 2018, em mostras abertas ao público em geral.

[alert type=blue]Domingo, 2 de Dezembro de 2018

Lisboa Incomum

R. Gen. Leman 20A, 1600-102 Lisboa

 

Juvenil entre as 10h00 e as 13h00

Profissional entre as 15h00 e as 19h00[/alert]

 

A EMSCAN – Electroacoustic Music and Sound Courses Alumni Network foi fundada em 2010 como plataforma de contacto, reunião e intercâmbio entre os intervenientes e alunos na Escola de Verão FCSH-UNL, Conservatórios, estabelecimentos de ensino superior e outras instituições cujas actividades tenham decorrido sob a orientação de Jaime Reis. O compositor e professor é também o fundador do espaço Lisboa Incomum, dedicado à música contemporânea e experimental, funcionando como plataforma transdisciplinar para a investigação, a promoção de eventos e a educação e difusão, acolhendo regularmente o Festival DME – Dias de Música Electroacústica, e servindo como importante ponto de passagem nos circuitos de circulação internacional.

A Associação CulturXis, parceira do concurso, surgiu da dinâmica do associativismo jovem presente na Região Centro e é hoje uma promotora dedicada às várias práticas artísticas, com especial enfoque nas vertentes de desenvolvimento local e divulgação de jovens artistas.


O regulamento completo e o formulário de inscrição podem ser consultados no site da EMSCAN.

Colóquio em homenagem a Vianna da Motta

O CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, contribui para a celebração da dupla efeméride de José Vianna da Motta com um colóquio, a decorrer na Biblioteca Nacional de Portugal durante os próximos dias 26 e 27 de Outubro.

Intitulado Virtuosidade e Nação, o colóquio promoverá a reflexão crítica e debate em torno da produção do compositor e da recepção da sua obra, particularmente através das lentes nomeadas no título do encontro. Dez musicólogos responderam ao repto da Comissão Científica, composta por Christine Wassermann Beirão, Teresa Cascudo, David Cranmer e Luísa Cymbron. Proferindo na qualidade de conferencista principal, o musicólogo italiano Mauro Fosco Bertola (proveniente da Universität des Saarlandes) encerrará a jornada.


Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

Christine W. Beirão “… determinado a ser o Grieg de Portugal” – o sonho de Viana da Mota”

João Costa Ferreira “Viana da Mota: o virtuoso intelectual”

Francesco Esposito “Nascer ‘só com o génio em terra em que o génio, nem é riqueza, nem dá honra’: a defesa do músico nacional e as ameaças vindas do estrangeiro na Lisboa do século XIX”

Rui Magno Pinto “A produção sinfónica de juventude de José Viana da Mota”

Luísa Cymbron “Cenas nas Montanhas: Viana da Mota nos Açores em 1895”

Ana Maria Liberal “Viana da Mota e o Brasil: as digressões com Bernardo Moreira de Sá entre 1896 e 1907”

Luís Santos “José Viana da Mota e a Orquestra Sinfónica de Lisboa (1918–1920)”

Maria José Artiaga “Viana da Mota e o ensino da música em Portugal”

Sábado, 27 de Outubro de 2018

Daniel Sanches “Viana da Mota pianista e pedagogo: elementos artísticos e pedagógicos na revisão dos exercícios de virtuosidade de C. V. Alkan”

Nuno Vieira Almeida “Viana da Mota e a tradição do Lied”

Mauro Fosco Bertola [Universität des Saarlandes, Alemanha] “Nationalism, Virtuosity and their Sublime (Musical) Objects”


Mais informações acerca do decorrer do colóquio podem ser consultadas no site da Biblioteca Nacional de Portugal.

Gwendolyn Masin: Flame

Este disco de Gwendolyn Masin e Simon BucherFlame (ed. Orchid Classics) — exibe claramente um cunho pessoal da violinista, como já vai sendo habitual nas suas aparições. Masin dedica grande parte da sua carreira ao ensino e questiona-se recorrentemente acerca dos aspectos físicos e psicológicos do que é a prática de um instrumento e de fazer música. As suas interpretações são, por esse motivo, um produto dessa procura constante, e nesta gravação a violinista partilha com o ouvinte um pouco dessa demanda pessoal.

Nos textos que acompanham o CD, Masin menciona que este álbum partiu da sua reflexão pessoal acerca de ideias como o destino, a escolha e a intersecção entre ambas. Para a violinista, a relação do ser humano com destino é semelhante à relação com a música: esta faz parte do ser humano, mas transcende-o. Refere ainda que a música é uma estrutura simultaneamente abstracta e absoluta, e é nesta medida que a vê como uma chama (Flame), que é, assim, o nome do álbum.

Flame reúne música composta entre finais do séc. XIX e a primeira metade do séc. XX; conta com obras muito coerentes si, que tanto remetem para a calma da meditação como para a inquietude de quem se questiona. O alinhamento estrutura-se de forma muito equilibrada: inicia-se com a Sonata em Sol menor de Debussy, introduzindo-nos na perfeição a um ambiente de contemplação que irá ser transversal ao longo do álbum. Seguem-se duas pequenas peças arranjadas para violino e piano: Chant de Roxane, de Szymanowki, e Après un Rêve, de Fauré; encontra o seu eixo na faixa 6, com Tema e Variações para Violino e Piano de Messiaen, e segue com mais duas pequenas peças arranjadas: Berceuse (de O Pássaro de fogo), de Stravinsky, e Beau soir, de Debussy. Termina com a Sonata para Violino n.° 2 de Ravel, que nos traz um ambiente mais leve e jocoso, de influências jazzísticas, que, ainda assim, surge totalmente coerente. Os materiais que acompanham o CD contêm ainda comentários — sobretudo históricos — sobre cada uma das obras, que contextualizam, em parte, a audição.

Na interpretação de Masin (nesta gravação) encontram-se alguns pontos sensíveis a nível técnico, como uma certa tendência para tocar pouco alla corda, o que, por ser um pouco excessivo, deixa por vezes a dúvida se fará parte da interpretação. Isso irá reflectir-se também na falta de sustentação em notas longas nalguns finais de frase, que, ao terminarem com o vibrato para baixo, nos dão por vezes a sensação de que a afinação estará baixa. Ainda assim, a sua notável musicalidade transmitiu-me honestidade e maturidade interpretativa. Simon Bucher oferece um óptimo contributo e apoio, cooperando para a boa dinâmica de conjunto que ambos me parecem ter.

Em suma, trata-se de um álbum que me parece ter sido gravado com foco numa grande vontade não só de fazer música, mas de transmitir sensações, provocando uma inquietação filosófica. Ao longo da minha audição, esses valores elevaram-se perante imperfeições que, eventualmente, tenham surgido. O ambiente sonoro apelou-me à contemplação, numa escolha de repertório muito coerente, alinhado de forma equilibrada e sem recorrer a escolhas que seriam mais óbvias para transmitir esse tipo de sensações. Flame é uma tentativa, a meu ver, bem sucedida e sem pretensiosismos, de dois músicos reunidos para transmitir uma ideia artística numa interpretação simples mas rica em musicalidade. 

O Officum Defunctorum de Morago na Sé Catedral de Évora

A 3 de Março de 1596 era conferido o grau de Bacharel em Artes na Universidade de Évora a Estêvão Lopes Morago, oriundo do “Vallecas, no reino de Toledo”. Morago permaneceu ainda alguns anos em Évora, mudando-se em data indeterminada para Viseu, onde já se encontrava em 1599. Aqui, não só progrediu na carreira musical, mas também na eclesiástica, ascendendo a cónego da Catedral em 1608. Por volta de 1628, retirou-se para o convento franciscano existente em Orgens, onde se julga terá terminado os seus dias. O percurso biográfico deste compositor é ainda hoje bastante desconhecido e, diga-se, algo enigmático, assim como a capacidade com que escreveu algumas dezenas de obras, hoje preservadas em dois livros de coro pertencentes à Catedral de Viseu. Ainda hoje musicólogos e intérpretes questionam como este mestre-de-capela, de certa forma isolado em Viseu, conseguiu produzir um grupo de obras que figuram entre a melhor música produzida em Portugal nas primeiras décadas do século XVII. E o programa apresentado no passado dia 6 de Outubro comprovou-o.

O segundo concerto da vigésima primeira edição das Jornadas Internacionais Escola de Música da Sé de Évora trouxe à Catedral de Évora o grupo vocal Gradualia, que apresentou um programa monográfico com obras de Estêvão Lopes Morago. O grupo Gradualia, liderado por Simón Andueza, tem-se afirmado nos últimos anos no panorama coral polifónico espanhol com actuações centradas em programas de alto nível, sobretudo focando obras do final do século XVI e início do XVII, nomeadamente Tomás Luis de Victoria, Francisco Guerrero e Alonso Lobo. De notar que este grupo realizou em 2016 um programa monográfico assinalando os 450 anos do nascimento de Fr. Manuel Cardoso.

O programa musical que Gradualia apresentou em Évora concentrou-se num grupo de obras destinadas ao ofício e missa de defuntos composto por Estêvão Lopes Morago e que, em grande parte, se encontra ainda inédito modernamente. As obras foram divididas em dois grandes grupos conforme a situação litúrgica. Assim, para ofício, o invitatório Regem cui omnia vivunt, as lições Parce mihi, Domine e Quare de vulva eduxisti me e os responsórios Credo quod redemptor e Peccatem me quotidie. O grupo de obras para a missa inclui as rubricas que compõem o próprio e o ordinário da Missa Pro Defunctis (Introitus, Kyrie, Graduale, Offertorium, Sanctus, Agnus Dei e Communio), às quais se juntam o motete Versa est in luctum e os responsórios Memento mei, Deus e Libera me.

No que diz respeito às obras para o ofício, é importante salientar o esforço do grupo em dar ritmo ao texto, naquelas que são (como é o caso das lições) obras predominantemente homofónicas. Em algumas ocasiões a acentuação de determinadas sílabas ou palavras acabou por desequilibrar o texto musical, nomeadamente alguns momentos cadenciais onde praticamente não se conseguiu ouvir a sonoridade final. O grupo revelou-se bastante coeso na missa, criando um contraste entre as rubricas onde a ligação entre as frases estabeleceu uma linha contínua dos melismas do cantochão, como é o caso do Introitus. Pelo contrário, em rubricas com mais texto e mais silábicas voltou a notar-se expressividade em ritmar o texto, mas mais equilibrado do que as rubricas do ofício. Em termos de contraste dinâmico, há que assinalar a transposição de uma sonoridade quase mística que encontramos em interpretações de obras polifónicas espanholas como o ofício de defuntos de Tomás Luis de Victoria ou Cristóbal de Morales para a obra de Morago. O âmbito dinâmico expandiu-se desde um etéreo “dona eis Domine et lux perpetua luceat eis” do Introitus ao turbilhão expressivo de “libera eas de ore leonis ne absorbeat eas tartarus”. Em certa forma, estes momentos comprovam que a música polifónica é bastante expressiva, permitindo-se a interpretações mais arrojadas em termos de dinâmica, lembrando, por exemplo, algumas interpretações que o Grupo Vocal Olisipo trouxe a Évora em edições anteriores das Jornadas.

Um pormenor a saudar foi a inclusão de cantochão nas obras polifónicas. Na maioria dos casos, houve essa necessidade uma vez que estas estavam escritas em alternância de versos com o cantochão, como é o caso dos responsórios Peccatem me quotidie ou Libera me. Muito frequentemente é apenas apresentado o texto posto em polifonia, esquecendo-se que certas obras possuem secções em cantochão, geralmente ignoradas quando ali não surgem intercaladas. No caso do Offertorium, foi cantado o verso Hostias et preces, regressando ao repetendum Quam olim. É de saudar o esforço de colocar no programa obras com secções em cantochão (que em outros casos se limitam às entoações no ordinário da missa ou um ou outro Magnificat), o que transmitiu um interessante efeito entre monodia e polifonia, remetendo para a coexistência destes dois tipos de repertório à época em que Morago escreveu as obras.

O concerto fechou com um grupo de três obras de temática mariana que não constavam do programa – Surge propera, Tota pulchra es e Salve Regina – do compositor espanhol, contemporâneo de Morago, Miguel Navarro. São, de facto, três obras extraordinárias que revelam grande ciência do contraponto por parte deste mestre. É mais um exemplo do número impressionante de compositores que ainda hoje vivem na sombra de Morales, Guerrero ou Victoria, mas cuja música não fica atrás destes mestres mais conhecidos do público.

Gradualia | foto: Mercedes Lario

Este foi um concerto muito revelador, não só da qualidade musical do grupo Gradualia, mas também de um grupo de obras de Estêvão Lopes Morago na sua maioria ainda desconhecidas do público em geral e que, esperemos, possam vir a ser ouvidas em concertos futuros.


EXEMPLO DO CONCERTO

 

[alert type=white ]GRADUALIA

Soprano | Delia Agúndez

Alto | Ana Cristina Marco

Tenor | Diego Blázquez

Baixo | Simón Andueza (dir.)[/alert]

Lobo, Cardoso e Pedro de Cristo na Sé Catedral de Évora

No passado dia 5 de Outubro, a Sé Catedral de Évora recebeu o primeiro dos dois concertos principais da vigésima primeira edição das Jornadas Internacionais Escola de Música da Sé de Évora, evento que junta coralistas em torno do património musical polifónico da chamada “Escola” da Catedral eborense. Já repetente neste evento, apresentou-se o grupo vocal Contrapunctus, dirigido pelo musicólogo Owen Rees, também ele presença assídua como conferencista e maestro do workshop coral.

Contrapunctus apresentou um programa bastante extenso em matéria de obras. Nada menos do que sete obras de três compositores, incluindo duas missas completas. O grupo, que se tem afirmado recentemente no panorama coral inglês, surgiu numa formação de dois cantores por parte vocal, destacando-se entre estes a presença de um antigo membro do Hilliard Ensemble, Steven Harrold.

Duarte Lobo apareceu representado com duas obras provenientes do Liber Missarum de 1621: a antífona Asperges me e a missa policoral para oito vozes Cantate Domino. As obras de Fr. Manuel Cardoso, provenientes do Missarum Liber de 1625, incluíram o motete Sitivit anima mea, a Missa pro Defunctis a 6 e o responsório Libera me. A antífona, que abriu o concerto, foi interpretada com grande fluidez, assim como uma sonoridade de alto nível, intercalada com entoações de cantochão pelos dois tenores de grande qualidade. A missa policoral de Duarte Lobo é uma obra de contraponto bastante intrincado, apesar de se destinar a dois coros. Muito frequentemente, juntam-se vozes de ambos os coros para formar um coro de quatro a cinco vozes, com as secções imitativas a ocorrerem com maior frequência do que é usual em obras policorais. Nestas secções, o grupo apresentou uma coesão muito boa e bastante rigor rítmico. Estranhámos a escolha de um tempo um pouco rápido para esta obra, por vezes obscurecendo o texto, apesar da excelente dicção dos cantores, num latim peninsular. No Gloria, o texto das secções laudatórias do início (Laudamus te, benedicimus te, etc.) não pareceu muito claro. Já no segundo Christe (Kyrie), não o havia sido. Nestas secções, as trocas antifonais entre ambos os coros são muito curtas (um a dois compassos) e ocorrem numa sucessão muito rápida. Nesta forma de escrita policoral, o texto sofre quase sempre de falta de clareza, em que a escolha de um tempo rápido não favorece a compreensão, agravada com as condições acústicas da Catedral de Évora.

As duas obras de Fr. Manuel Cardoso constituem sempre um imponente desafio aos grupos que as vêm interpretar na Catedral de Évora. Primeiramente, são obras que têm sido feitas pelos grupos em quase todas as edições das Jornadas (como também no workshop) sendo a sua sonoridade já familiar aos ouvidos de quem assiste aos concertos. Segundo, estas obras têm sido incluídas em inúmeros discos, sendo a sua divulgação pelo público bastante vasta e constituindo um grande desafio a sua interpretação ao vivo. Tendo estes factores em conta, foi assinalável a prestação de Contrapunctus tanto no motete como na missa de Cardoso. Ambas para uma textura a seis vozes, foi notória a fluidez e capacidade de contraste dinâmico com que os cantores apresentaram Sitivit anima mea, obra de imponente construção contrapontística e que exige um grande domínio de afinação e rigor rítmico. A missa é ela própria um contraste em termos de concepção composicional, entre secções de grande movimento em termos da imitação e contraponto, como é caso do Graduale e Offertorium, e de grande estagnação e homofonia, como é o caso do Sanctus e do Agnus Dei. Aqui, notou-se uma aproximação interpretativa à histórica gravação da obra pelos Tallis Scholars, porém com maior contraste dinâmico, nomeadamente nas secções do Offertorium.

Um pormenor que despertou alguma curiosidade neste grupo de obras foram as entoações do cantochão na antífona Asperges me e nas missas Cantate Domino e Pro Defunctis. Se, no caso da primeira obra, as três entoações foram “medidas” (isto é, com ritmo mensural contrariamente ao tipo de frase gregoriana actual), o mesmo não aconteceu nas missas. Não será, de todo, incorrecto utilizar-se um cantochão mensural para estas obras. Como tem sido largamente estudado, já no século XVI a música mensurável (polifonia) influenciava a forma como o cantochão era interpretado, pelo que não causa qualquer escândalo que as entoações sejam realizadas desta forma. No entanto, o que surpreendeu foi a dualidade de critério no respeitante às entoações do Gloria e do Credo, no caso da missa de Lobo, e da missa de Cardoso, o mesmo se verificando no responsório Libera me. Aqui, parece-nos ter sido mais coerente a escolha de uma das interpretações.

Ao mesmo tempo que Lobo e Cardoso exerciam cargos musicais nas mais importantes instituições religiosas de Lisboa (a Catedral e o Convento do Carmo), morria em Santa Cruz de Coimbra, a 12 de Dezembro de 1618, o frade crúzio D. Pedro de Cristo, em resultado de uma queda que dera no claustro do mosteiro. Um dos compositores mais estudados por Owen Rees, os 400 anos da sua morte foram assinalados neste programa com três motetes. O grupo pareceu um pouco instável na interpretação do primeiro motete, Miserere mei Domine, com os sopranos a mostrarem alguma dificuldade nas notas agudas do motete policoral Ave Maria. Porém, o grupo demonstrou um alto nível interpretativo em Hei mihi Domine, com particular ênfase no contraste dinâmico que o texto proporciona, o que também já havia ocorrido em Miserere mei Domine.

Em resumo, foi um concerto de alto nível interpretativo composto por um programa extenso, compreendendo obras que não é habitual ouvir-se na Catedral de Évora. Uma vez mais, a Associação Eborae Musica mantém um workshop em jeito de mini-festival de polifonia com grandes interpretações e grupos de renome internacional.

[alert type=white ]CONTRAPUNCTUS

dir. Owen Rees

sopranos | Elizabeth Adams, Amy Carson, Amy Haworth, Emma Walshe

altos | Rory McCleery, Matthew Venner

tenores | Steven Harrold, Ashley Turnell

baixos | Nick Ashby, Benjamin McKee[/alert]


EXEMPLO DO CONCERTO

https://www.youtube.com/watch?v=D_ULJgiTztg

 

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