10 depoimentos X 10 anos (VI)

Amílcar Vasques-Dias
compositor-pianista

Tenho muito gosto em reconhecer e felicitar uma fantástica equipa de gente sonhadora, empreendedora, criativa e competente! A enorme tarefa realizada ao longo destes longos dez anos na divulgação da música clássica e de seus autores está bem patente na qualidade e quantidade de edições de variadíssimas obras em partituras e em CDs! Também a cuidadosa programação e realização de inesquecíveis concertos por distintos intérpretes constituíu uma iniciativa de estimado alcance artístico e pedagógico. Porventura a cereja no topo do empreendimento MPMP será, a meu ver, a edição da revista Glosas que, elegante e profissionalmente, recolheu, registou e divulgou o passado e o presente enquanto alicerce-promessa-casa-cultura em que vivemos, na esperança de um futuro melhor! Parabéns!

 

Eduardo Luís Patriarca
compositor

Quando em penso em glosas, as minhas primeiras lembranças, além das estudantis sobre a poesia camoniana, assentam em Fernando Lopes-Graça e suas Glosas (sobre temas populares portugueses) e nas Glosas I a IV de Jorge Peixinho. Fizeram, durante longo tempo, parte do meu imaginário musical, e permitiram-me, como compositor, associar o conceito algumas vezes.

Nos últimos anos, outras glosas vieram enquadrar este panorama e ganhar a mesma consistência de importância musical, alargando-se ainda à estruturação académica. A revista Glosas, editada pelo MPMP, atingiu um patamar que carecia de estabilização há muitos anos, sendo a única que venceu o tempo e se conseguiu manter e estruturar, ultrapassando as diversas tentativas criadas ao longo dos anos, que gradualmente desapareceram, e foram deixando o espaço de apresentação crítica e informativa em branco, retirando uns dos aspectos fundamentais para a discussão e divulgação científica da música em Portugal.

Na persistência de um trabalho cuidadoso, envolto dum processo editorial criterioso e sustentado em comissões científicas e não meramente editoriais, a Glosas preencheu o vazio ao qual nos íamos habituando, e permitiu que vários artigos, críticas, pensamentos e investigações obtivessem lugar para a sua discussão e transmissão.

No alargamento da sua actividade, e como sua consequência directa, surgem as edições das partituras do MPMP, cuidadas, preciosas no estabelecimento de uma literatura musical bastas vezes esquecida, e capazes de uma divulgação, partilhada com a revista, das obras a que se propõem editar. Entende-se a selecção conjunta de edições discográficas e de partituras, em blocos de tempo específicas, num sistema de temporada editorial, como um saber fazer, bem, dos critérios a que se propuseram.

Tenho o prazer de ter o MPMP como editora, sabendo assim a atenção dada à edição e ao seu funcionamento. Espero que daqui a dez anos possamos voltar a escrever sobre Glosas e manter a mesma relação, gosto e agradecimento pelo trabalho realizado.

 

Eduardo Fragoso Soares
Presidente da Associação António Fragoso

Foi há dez anos que nos conhecemos… Decorria o ano de 2009 e pensei que devia conjugar esforços com o recém-criado MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Com um simples telefonema tive a alegria de combinar encontro com o Edward Luiz Ayres d’Abreu, o Presidente dessa nova associação. Foi uma longa tarde em que falámos dos nossos sonhos, dos nossos concertos, discos, conferências e também de António Fragoso. Logo encontrámos as pontes existentes que uniam as nossas associações. E, com o evoluir dos tempos, os nossos sonhos começaram a concretizar-se, chegando ao ponto em que os mesmos artistas eram comuns nos projectos musicais de ambas as associações. Mas a vontade expressa, quer pelo Edward, quer por mim, de fazermos projetos em comum foi sendo adiada porque cada associação seguiu, naturalmente, o seu caminho. Até que nos encontrámos novamente num almoço, num restaurante junto a Santa Apolónia, onde estava também o Martim Sousa Tavares. E puxando, enquanto comíamos, pelo relato do que se começava a estruturar, as Comemorações do Centenário da Morte de António Fragoso, convidei o Edward para nos orquestrar a Petite Suite. A aceitação foi imediata. Ficaram para os dias seguintes o orçamento e o timing dessa orquestração, que eu desejava estrear no concerto inaugural.

Aquele almoço, numa tasca de Santa Apolónia, tudo mudou nas nossas relações pessoais e profissionais. Na verdade, a partir desse dia aconteceram vários episódios que estreitaram a nossa relação pessoal e profissional. O Edward convidou-me para ir assistir a um concerto do MPMP na Igreja de São Roque e eu aproveitei essa oportunidade para conhecer todos os seus mais importantes colegas na MPMP, como o Duarte Pereira Martins, o Phillipe Marques, o Luís Salgueiro e o Jan Wierzba… todos fazendo uma equipa unida que lutava por engrandecer a Cultura Portuguesa. Soube, tempos depois, que o Martim Sousa Tavares se tinha alinhado com tal equipa. E os pontos comuns continuavam a acontecer. Uns meses depois, em 5 e 6 de Janeiro de 2018, contratámos o Ensemble MPMP para dois concertos: o de dia 5 teve lugar na Igreja Matriz de Cantanhede e o de dia 6 na Antiga Igreja do Convento de São Francisco, ambos sob a direcção de Sousa Tavares. António Fragoso teve como companheiros os seus “amigos” Edvard Grieg (relembremos que foi A morte de Ase de Grieg a última peça pianística que Fragoso tocou antes de se ir deitar, falecendo no dia seguinte!!), Maurice Ravel e Claude Debussy. Eram todos admirados por António Fragoso, que iria para Paris (Schola Cantorum) estudar Composição oito dias depois da sua morte. Foram dois concertos sublimes, tal a magia do trio composto pela orquestra, pelo programa e, claro, pela música de António Fragoso.

As dúvidas que me roíam a alma dissiparam-se e no fim dos concertos tratei de acordar com o Edward e o Jan Wierzba que o Ensemble MPMP, na sua versão sinfónica, faria o Concerto de Encerramento das Comemorações, dirigido pelo enorme maestro Pedro Neves. Seleccionámos vários comentários sobre este memorável concerto e só lamentamos que as solistas não tivessem a coragem de o deixar transmitir na Antena 2, que o gravou integralmente, sendo também sido gravado em vídeo pela TV UC.  Era nossa intenção fazer um vídeo deste fantástico concerto, mas… mas as ideias comuns permitiram que estas duas associações fossem “caminhando” cada vez mais em uníssono: assinámos um protocolo de parceria que vai ter como primeira realização a gravação para a editora NAXOS da integral para orquestra de António Fragoso. Partimos há dez anos só com uma peça orquestral dele, e agora teremos que gravar um CD duplo. Deve-se agradecimento ao Edward Luiz Ayres d’Abreu, ao Rui Paulo Teixeira, ao Sérgio Azevedo, ao Vasco Mendonça e ao Martim Sousa Tavares o terem aceite um repto: orquestrar Fragoso partindo das suas belas peças para piano. Todos o fizeram e muito bem.

 

Daniel Cunha
pianista, professor e investigador

Antes de mais, queria dar os parabéns à revista Glosas pelo seu 10.º aniversário! A associação MPMP, que também partilha este aniversário, é uma das associações musicais mais dinâmicas que surgiram em Portugal nos últimos anos, tendo razões para estar orgulhosa de ter lançado, há dez anos atrás, este ambicioso projecto editorial. A revista Glosas veio colmatar uma lacuna que existia no mundo musical português. Aliás, o seu espectro musical é extensivo à lusofonia, visto que é uma revista que se dedica à música clássica não só de Portugal, mas também à dos países de língua portuguesa.

O perfil editorial da revista Glosas destaca-se pela variedade de oferta para o leitor, visto que inclui artigos de cariz científica, entrevistas mais informais (mas elaboradas com todo o rigor e interesse) a músicos e compositores da actualidade, críticas de discos, etc., procurando oferecer um panorama do que se faz musicalmente em Portugal e nos países da lusofonia. Além disso, a revista tem uma relação privilegiada tanto com o Museu Nacional da Música, como com a área de música da Biblioteca Nacional de Portugal, podendo o leitor ficar ao corrente dos importantes espólios e arquivos que estas duas instituições possuem.

A revista tem por hábito dar destaque especial, em cada número, a um determinado compositor da lusofonia, contemporâneo ou de séculos anteriores. Neste prisma, a revista tem incidido luz sobre a vida de múltiplos compositores, tanto do presente como do passado, e sobre reportório pouco divulgado, prática que tem grande mérito.

A minha experiência pessoal relacionada com a revista Glosas remonta ao ano de 2017. Nesse ano, assinalou-se o centenário da morte do compositor e pianista do romantismo português Alfredo Napoleão (1852-1917). Já há algum tempo que a vida e a obra deste compositor português pouco conhecido era um dos meus principais objectos de investigação. Já tinha recolhido uma série de obras para piano solo, tendo estudado algumas delas, chegando à conclusão de que a sua obra estava esquecida injustamente e que merecia ser mais tocada e divulgada.

Consequentemente, decidi planear, para 2017, uma série de concertos em que incluí várias obras para piano solo de Alfredo Napoleão, aproveitando a ocasião da efeméride para a divulgação deste compositor e das suas obras. Os concertos levaram-me a Manchester (Reino Unido), mas também a vários festivais e salas de concerto em Portugal, como o Festival Internacional de Música Estoril-Lisboa, os Festivais de Outono da Universidade de Aveiro e a Casa da Música, no Porto.

Foi justamente em 2017 que o MPMP e a revista Glosas me convidaram para elaborar um artigo, a sair no número 16 da revista, em Maio, sobre Alfredo Napoleão, incluído na rubrica “Compositores a descobrir”. Obviamente, este convite não surgiu do acaso, pois já existia um grande entusiasmo e interesse dos membros do MPMP, nomeadamente do Duarte Pereira Martins e do Edward Ayres de Abreu, pela figura do compositor Alfredo Napoleão. Aliás, existia um desejo, que partilhávamos, de retirar este compositor do esquecimento. Devo acrescentar que não era a primeira vez que era publicado um artigo na revista sobre Alfredo Napoleão. O historiador Gonçalves Guimarães, que tem sido também incansável na divulgação dos irmãos compositores Napoleão, tinha publicado, no número 13 da revista, em Novembro de 2015, o artigo “Os quatro Napoleão”, escrevendo sobre o pai Alexandre Napoleão e sobre os seus filhos, os três irmãos músicos e pianistas, incluindo Alfredo Napoleão.

A publicação do meu artigo sobre Alfredo Napoleão teve a dupla intenção de, por um lado, acrescentar algo à efeméride do centenário da sua morte, em 2017, e, por outro, ser o reflexo de um estudo mais aprofundado sobre a sua vida e obra. É claro que aceitei o desafio proposto com bom grado. A figura de Alfredo Napoleão que, apesar de português, viveu no Brasil grande parte da sua vida, alcançando por lá um grande sucesso, encaixou muito bem no perfil editorial da revista.

A elaboração do artigo sobre a vida e a obra de Alfredo Napoleão foi crucial para o alargamento do meu conhecimento sobre o compositor e sobre a sua obra. Para além disso, a investigação exigida para a sua preparação foi essencial para a descoberta de novas obras deste compositor, que encontrei escondidas em bibliotecas e em arquivos espalhados pelo mundo. Estas descobertas importantes viriam a cimentar ainda mais o meu desejo de realizar o projecto de gravação de um disco com obras para piano solo de Alfredo Napoleão. Este projecto de gravação viria a realizar-se em 2018, tendo sido editado pela editora alemã Decurio, com o título de Solitude – Piano Works by Alfredo Napoleão. O disco teve o seu lançamento mundial em Novembro desse ano, em Paris, na Maison de Portugal. Posteriormente, os concertos de lançamento do disco em Portugal realizaram-se no Museu Nacional da Música (Lisboa) e no Salão Árabe do Palácio da Bolsa (Porto). Felizmente, o disco e a música de Alfredo Napoleão têm tido uma adesão bastante positiva e entusiasta por parte do público português e estrangeiro.

A Revista Glosas e o MPMP, pela sua abertura e missão de divulgação da música portuguesa, foram essenciais na divulgação do nome de Alfredo Napoleão.

Espero, sinceramente, que daqui a dez anos estejamos a celebrar os vinte anos de actividade da associação MPMP e da revista Glosas, que tanto têm dado à música clássica portuguesa. Espero continuar a colaborar com a associação e com a revista em futuros projectos, o que muito me honraria.

 

Jenny Silvestre
cravista e presidente da Academia Portuguesa de Artes Musicais

As palavras que escrevo em resposta ao honroso convite do MPMP para me associar à celebração dos dez anos da revista Glosas são delineadas no âmbito do contexto absolutamente extraordinário em que vivemos presentemente. Habituámo-nos a visitar ciclicamente momentos históricos de pandemia, como as famosas “peste negra” ou “gripe espanhola”, encarando-as como capítulos longínquos e, no entanto, desta vez, somos os protagonistas de uma página da história totalmente nova, que ultrapassa em muito as fronteiras predominantemente europeias das anteriores e que, no imediato, interrompeu abruptamente uma fase ascendente da produção cultural, abrindo as portas ao desconhecido.

Dez anos da Glosas, uma década inteira que mais parece uma peça escrita em forma de arco…  Há dez anos lutávamos para sair da crise mundial lançada pelo crash de 2008-2009. Durante esta última década fomos obrigados a reinventar-nos, de forma a apresentarmos as práticas musicais como um “activo”, termo este importado da linguagem económica, totalmente desconhecido de muitos de nós e que passou a ser vulgarmente utilizado em conjunto com outros, como “indústria criativa” ou “economia da experiência”. De repente, fomos confrontados com a necessidade de desenvolver elos de ligação com sectores de actividade incomuns para nós, integrando os chamados clusters (um outro termo novo no contexto cultural de então).

Da nossa parte, reagindo a esses novos ventos e desafios, assumimos, em 2014, um posicionamento totalmente novo na época, ao convidar para a sessão de abertura do nosso congresso internacional de musicologia histórica de âmbito ibero-americano, dedicado à música praticada durante a segunda metade do século XVIII, o professor Augusto Mateus, responsável pelo desenvolvimento em Portugal do conceito de “indústria criativa” e de “economia da experiência” aplicada à cultura, trazendo, assim, à colação esta nova perspectiva de matriz económico. Apesar da estupefacção de alguns investigadores mais ortodoxos, assumíamos, desta forma, a abertura das portas para novos caminhos, onde as fronteiras entre áreas de conhecimento anteriormente blindadas, se esbatiam cada vez mais, aumentando definitivamente a abrangência do conceito de “parceria”. “Parceria” assumiu-se, de resto, como o motor de desenvolvimento da cultura da década, um período de grandes transversalidades, elevando-se exponencialmente o patamar da criatividade e originalidade dos seus protagonistas. À medida que os artistas das diferentes áreas culturais se iam familiarizando com um contacto cada vez mais pró-activo com outros domínios, as inibições desapareciam, dando lugar à explosão da criatividade. De repente, parecia que estávamos a replicar de alguma forma o espírito experimentalista do início do século XX, mas, agora, de uma forma globalizada. Fomos assistindo ao desenvolvimento de projectos que conjugam música com agricultura, engenharia, moda, arquitectura, etc., coadjuvados pelas potencialidades que as novas tecnologias têm para oferecer. Daí a vulgarização nas artes do termo “economia da experiência”, directamente importado do léxico associado ao turismo.

A par desta tendência, fomos assistindo ao caminho que jovens, como os que constituem o MPMP e outros, foram fazendo na procura da partilha do nosso património musical que, talvez por efeito do aumento exponencial do turismo em Portugal, um Portugal que nos habituámos entretanto a sentir como um país in, ou “na moda”, é cada vez mais visto como uma fonte de orgulho e não de preconceito. Esta realidade constitui a prova da capacidade de renovação que os nossos musicólogos séniores têm imprimido à investigação musicológica, garantindo a sua continuidade. O fantasma de uma globalização que, no inicio deste milénio, parecia poder absorver a nossa identidade, acabou, assim, por alavancar a assunção das virtudes do que é nosso. Muito há a fazer, como sabemos, mas, pelo menos, já não rotulamos como “provinciano” ou “pobre” a nossa herança musical com o mesmo imediatismo de outros tempos.

Certamente que nem tudo o que subsiste nos inúmeros arquivos e espólios por explorar tem qualidade, como acontece em qualquer outro país, mas vale a pena continuar a trabalhar no sentido de trazer à luz do dia o maior número de fontes e, mais do que tudo, fazê-las executar pelos nossos músicos.

Esta foi também a década em que o trabalho de aproximação dos jovens à execução prática da música começou a dar os seus frutos. Hoje, como nunca, exportamos músicos para algumas das mais prestigiadas orquestras mundiais. Hoje, como nunca, atingimos um inquestionável nível de excelência na prática instrumental, visível, desde logo, nas orquestras de jovens estudantes, cada vez em maior número e de maior qualidade… Ainda me lembro da existência quase exclusiva da Orquestra Sinfónica Juvenil; ainda me lembro da inexistência de uma orquestra de qualidade na própria Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudei. É claro que esta realidade levanta novos problemas: de que forma poderá o mercado de trabalho profissional assimilar tantos músicos de calibre? Este constituirá certamente um problema a resolver na década que agora começa, agravado, obviamente, pela incerteza que a actual pandemia nos impõe.

A pandemia, o estado de emergência, a quarentena…Fechamos o arco da década da revista Glosas como a começámos: com a incerteza de tempos totalmente imprevisíveis, pelo ineditismo e gravidade dos seus contornos. Acreditamos, no entanto, que os obstáculos que agora enfrentamos acicatarão ainda mais a nossa capacidade de nos recriarmos. De todos os que referimos, há um termo que julgamos encerrar em si mesmo as qualidades necessárias para se tornar no pilar dos tempos futuros: “parceria”.

Muito embora as novas tecnologias se assumam como a ferramenta da solução instantânea nestes dias extraordinários, pela inegável possibilidade que facultam de podermos comunicar, na segurança das nossas casas, em tempo real, com qualquer outra pessoa, em qualquer parte do mundo, acreditamos que a arte e, no nosso caso particular, a música, constituirá a porta de saída para a manutenção das relações humanas presenciais, âncora da natureza gregária e afectiva do Homem.

O futuro terá de passar necessariamente pelo equilíbrio entre esta dualidade. O futuro terá de passar também, porque não poderíamos deixar de o referir, por um maior empenhamento das tutelas no desenvolvimento de uma cultura que privilegie, de uma vez por todas, o que é nosso, sem populismos, sem efeitos especiais, aproveitando esta crise como uma grande oportunidade para resolver alguns dos problemas estruturais que assolam o nosso meio há décadas.

Esperamos poder celebrar a segunda década da revista Glosas, a da maioridade, sem a constatação de mais uma forma em arco. Bem-haja.

 

Jocy de Oliveira
compositora

Enquanto, no Brasil, atravessamos uma era de obscurantismo e de desmonte cultural, miramos como exemplo o florescimento artístico, social e político de Portugal, desejando que nosso destino em breve reencontre seu rumo pelo respeito ao meio ambiente, à educação, à cultura e aos direitos humanos. Espero que meu texto seja oportuno em dias que marcam a comemoração do 10.º aniversário da revista Glosas, que mantém uma posição de guardiã da cultura musical em Portugal.

Em 2015, lembro-me bem que meu livro Diálogo com cartas (Prêmio de Literatura Jabuti) foi muito bem recebido pela revista Glosas. Após o gigantesco trabalho daquele livro, compilando e comentando mais de cem cartas escritas para mim pelos mais proeminentes compositores do século XX, como Stravinski, Messiaen, Berio, Cage, Stockhausen, entre outros, atualmente me lanço em um ato de resistência cultural tomando o árduo caminho de conceber e produzir uma ópera cinemática em filme de longa metragem, Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescu, e seu roteiro em forma de livro de arte, Além do Roteiro. Li recentemente uma estatística comprovando que 70% dos cineastas fazem apenas um filme de longa metragem durante a sua vida! Embora tenha feito inúmeros vídeos, estreei este ano meu primeiro filme. Isso me daria o direito de escrever sobre cinema?

Nasci na música, e, como compositora , me incomoda observar que há muita gente no Brasil escrevendo sobre música sem o mínimo conhecimento da matéria. Mas música, nesse país, se tornou um terreno sem dono! E o cinema tem uma forte mídia e corporativismo em seu favor, mas também está sofrendo um abalo sísmico de desmonte, caminhando para censura prévia de gênero e de contexto. Na música, os símbolos musicais são abstratos e indecifráveis para os leigos, e assim é mais difícil censurar. Refiro-me à música erudita e não à popular, que pode ser cantarolada por qualquer um. Mas, mesmo assim, durante o nazismo, a obra de arte (ou música) que não exaltasse o nacionalismo nazista era dizimada! Na União Soviética, linguagens musicais também foram suprimidas e Chostakovich teve que se submeter a escrever música ultra-nacionalista. Somente depois da derrubada do regime soviético foram descobertas suas inúmeras e geniais obras escondidas. Mas havia uma diferença: apesar de tirano, Stalin ia assistir a uma ópera de Chostakovich… e no Brasil nunca se ouviu dizer que um presidente se tenha dado a esse trabalho ou tenha mostrado esse interesse!

Voltando ao cinema, porque não existe no nosso país espaço para o filme de arte, música-vídeo, filme experimental? Afinal, como a música, o cinema pode ser de arte ou de entretenimento. Mas o Brasil teria como meta um público pensante? O Brasil teria como meta a educação? A cultura?

O jornalista e escritor Romeno Matei Vişniec afirma que os “arquitetos do nosso futuro são banqueiros, militares, publicitários e políticos, enquanto escritores, filósofos, poetas, artistas e professores são excluídos da mesa em torno da qual poderosos decidem os rumos da humanidade”. Assim como o atual programa econômico brasileiro que tem como centro o mercado em lugar do ser humano, o cinema também é regido pelo mercado… O cinema-arte poderia suprir esta fatia da contrapartida social que não é regida pelo lucro. Fugindo dos shoppings, seria um forte veículo cultural de enorme alcance para o público de baixa renda. Um tipo de arte didática, sutil maneira de sensibilizar, estimular a percepção, aguçar o senso estético, a imaginação. Mas esse tipo de cinema obviamente precisaria de apoio do poder público (como em países europeus, Canadá e mesmo alguns países em desenvolvimento). No Brasil isso parece utopia!

Meu filme de longa metragem lançado em 2019-2020, Liquid Voices, foi concebido especificamente para o cinema e escolhido (categoria música-vídeo) para a Seleção Oficial de seis festivais europeus, sendo premiado no London International Film Festival, Nice International Film Festival, Madrid International Film Festival, Polish International Film Festival (Varsóvia), New Nazareth, Israel. Aqui no Brasil não poderia ser incluído em festivais de cinema pois não existem categorias apropriadas, apenas ficção ou documentário! Somente em Abril será estreado em cinemas de arte como o Espaço Itaú de Cinema no Rio de Janeiro, em São Paulo e, posteriormente, em outras capitais.

Mas onde ficam o fomento para pesquisa, inovação, reformulação de formatos convencionais, a busca por outros caminhos? Esse desinteresse do poder público brasileiro está acontecendo em todas as áreas da cultura e até mesmo esmagando a pesquisa científica. Que futuro esperamos para as próximas gerações? Destruindo a cultura, que país estamos construindo? Um povo sem arte é um povo sem identidade, amorfo, fadado a não subsistir. E na opacidade desses dias escuros em que mergulhamos, resta o pensamento de Fernando Pessoa: “De eterno e belo há apenas o sonho”…

 

João Pedro Silva
saxofonista

A fraca relação entre teoria e prática no contexto musical, o abandono do elemento interpretativo da ribalta dos estudos musicais, é um facto em grande parte dos estudos musicológicos do passado. O livro do autor Wallace Berry, Musical Structure and Performance (New Haven, 1989), parece ser uma das primeiras tentativas de verdadeiramente incorporar a prática musical no campo de investigação da teoria musical, não obstante grandes nomes do meio musical já o defenderem antes, como o consagrado pianista canadiano Glenn Gould, que marcou a história da música pela sua particular abordagem à interpretação, em particular pelas soluções que normalmente advinham da sua leitura de obras consagradas do repertório para piano; segundo o próprio, “the ideal way to go about making a performance…is to assume that when you begin, you don’t quite know what is about. You only come to know as you proceed”. Felizmente, a história recente da musicologia ocidental, nas mãos de musicólogos como Nicholas Cook, mostra que os caminhos agora trilhados apontam para uma convergência e unificação de conceitos, onde a orgânica musical parece ser a base do centro de estudo, onde nenhum elemento parece ficar de fora e todos são usados como parte integral de um todo.

Constatar que um grupo de jovens portugueses (muito jovens) tinham já esta consciência, esta visão, e que a materializaram num dos projectos recentes mais consistentes e dignificantes da música portuguesa é, no mínimo, notório. O MPMP e todos os seus projectos, nomeadamente a revista Glosas, assume, a meu ver, um ponto de viragem no trabalho musicológico português, não por serem os primeiros (naturalmente) mas pelo conceito orgânico no tratamento da música portuguesa, e pelo despertar de consciências que, inevitavelmente, um projecto deste âmbito, assumido por jovens músicos, trouxe a uma camada jovem que normalmente se situava mais distante destes assuntos.

Foi com enorme prazer e honra que colaborei quatro vezes com o MPMP, duas delas no âmbito da revista Glosas e outras duas em projectos artísticos. Foi na terceira edição da Glosas (2012) que foi publicado um artigo de autoria de Duarte Pereira Martins sobre o meu primeiro disco a solo, TIBI, assente sobre nova música portuguesa para saxofone. Mais tarde, na quinta edição (2014) era publicado um artigo sobre o livro O saxofone pedagógico, o primeiro manual português para a aprendizagem do saxofone, em que partilho a autoria com Lino Guerreiro. Mais recentemente, em 2019, fui convidado pelo MPMP a integrar o ciclo Proximidades, apresentando um programa para saxofone solo, maioritariamente de compositores portugueses como Felipe Pires, Lino Guerreiro, Jorge Salgueiro e a talentosa e jovem compositora Mariana Vieira, que escreveu uma obra (Música para uma fábrica) encomendada pelo MPMP. Esta última obra, juntamente com Figurações IV, de Felipe Pires, foram já gravadas, novamente comigo no saxofone, e serão editadas em breve pelo MPMP. Por fim, a parceria com FISP, Festival Internacional de Saxofone de Palmela, do qual sou director artístico, onde o Ensemble MPMP se apresentou em Julho passado, na Igreja do Castelo de Palmela, para acompanhar alguns dos mais prestigiados nomes do saxofone internacional como Vincent David, Mario Marzi ou os Apollo Saxophone Quartet, onde se estreou a obra do compositor Alexandre Almeida A eternidade de um coração, com Ricardo Pires como saxofone solista.

Finalizo com o meu agradecimento e reconhecimento, na esperança de que este modelo plural e aberto (que podemos inserir numa nova e mais abrangente perspectiva do conceito de performance musical) possa (continuar a) assumir a base do desenvolvimento artístico do MPMP. Citando Nicholas Cook, “Performativity, in short, is the foundation of pluralism”.

 

José Sá Machado
violinista e membro do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa

A propósito do décimo aniversário da revista Glosas e na sequência do convite que o Edward Ayres de Abreu muito amavelmente me endereçou, e que agradeço, venho com todo o gosto deixar o meu depoimento. Dez anos sem parar, a realizar um trabalho da qualidade a que revista nos habituou, no nosso país, é só por si um feito de grande importância. Este facto deixa um marco na nossa história da música recente. Bem sabemos das dificuldades que implica um iniciativa desta especificidade e, por consequência, temos de valorizar a forma notável como têm sido superadas.

Particularmente, o meu reconhecimento e gratidão tem múltiplas incidências: desde logo como músico atento; como filho reconhecido pelo carinho e competência com que dedicaram uma edição à minha mãe, a compositora e harpista Clotilde Rosa; por terem dedicado um número a Constança Capdville, grande amiga e compositora, muito ligada ao GMCL, de quem fui aluno; igualmente por terem dedicado parte de uma revista ao compositor e guitarrista José Lopes e Silva, grande amigo, elemento fundamental do GMCL e figura marcante; por se terem dedicado a outras personalidades que, não estando tão próximas pessoalmente, povoaram o nosso cenário musical e muito enriqueceram a nossa vida colectiva.

Faço votos, para que continuem por muitas e boas décadas a enriquecer, informando e formando, várias gerações, não só de profissionais da música como de toda uma comunidade de melómanos e outros cidadãos atentos ao fenómeno musical. Muito obrigado, Glosas!

 

Lino Guerreiro
compositor

Na quinta edição da revista Glosas, de Janeiro de 2014, foi publicado um artigo sobre O saxofone pedagógico o primeiro manual português direccionado para o ensino e aprendizagem do saxofone, método que elaborei em coautoria com o saxofonista João Pedro Silva, concebido na nossa língua materna e posteriormente traduzido para mais duas línguas, inglês e francês. Esta sua característica, já a apontar para uma perspectiva de diversidade, pluralidade, também se pode encontrar ao longo do método. Essa “consciência da diversidade”, apontada como um dos aspectos-chave do método, é para mim e para João Pedro Silva de extrema importância para a arte musical contemporânea. Olhando para a revista Glosas, colocando-a sob a alçada do projecto MPMP, parece-me evidente que essa “consciência da diversidade” é algo muito presente na filosofia da revista e de todos os projcetos que desenvolve desde a sua criação em 2009. A criação de uma “plataforma dedicada à valorização integrada” do património, desenvolvido por compositores, por musicólogos, por intérpretes, por melómanos, é mais do que prova dessa consciência.

Nos dias que correm, felizmente, assistimos a uma convergência das áreas da composição, da interpretação, da musicologia, graças ao trabalho que se tem desenvolvido nas últimas décadas no sentido de aproximar estes universos. Num determinado momento da história da música ocidental, por razões mais ou menos coerentes, estes universos tenderam a afastar-se, dando praticamente origem a diferentes áreas da arte musical. Actualmente, tais áreas são desenvolvidas em constante transversalidade, situação em que a “consciência da diversidade” é imprescindível. Se pensarmos bem, esta converge para uma ideia de pluralismo e, no fundo, em pleno século XXI, todos nós temos consciência da importância e das vantagens destas características que, a meu ver, estão bem presentes em toda a filosofia do MPMP. Não deixo de salientar que são “actores” deste projecto jovens portugueses que, com enorme determinação, têm vindo ao longo destes últimos anos a contribuir para o meio musical português de forma exemplar. Espero que continuem a desenvolver o vosso trabalho nessa mesma perspectiva. Deixo-vos aqui o meu mais profundo agradecimento.

 

Marina Pacheco
soprano

A revista Glosas é uma publicação de excelência no panorama musical português. O brio, o profissionalismo e o detalhe são o segredo do seu impacto. Foi com muito gosto que integrei o 10.º número da revista, divulgando um dos meus trabalhos discográficos numa entrevista muito bem conduzida e que me permitiu dar-me a conhecer, apresentar o meu projecto e divulgar música nova de quatro compositores portugueses.

Não poderia deixar de referir o brilhante trabalho promovido pelo MPMP, com quem partilhei momentos de palco absolutamente maravilhosos, não me esquecendo, nunca mais, dos ensaios mais hilariantes de sempre. O rigor musical e técnico e o entusiasmo pelo trabalho, aliados à boa disposição e ao saber saborear a música e o palco, fizeram desses momentos episódios marcantes. Sou muito grata por estas colaborações e desejo que a revista Glosas e o MPMP continuem a presentear-nos com a qualidade a que já nos habituaram. Bem-hajam!

 


 

Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

10 depoimentos X 10 anos (V)

Ana Ferro
meio-soprano

Apesar da situação particular em que vivemos, não posso deixar de felicitar o MPMP, que comemora neste mês de Maio o seu décimo aniversário. O MPMP tem sido desde o início uma instituição de referência no panorama musical português. Faz um trabalho notável na divulgação da música erudita portuguesa, com rigor, qualidade e um espírito jovem e enérgico, que tem muito que ver com o amor à camisola e com o talento e empenho de quem organiza e produz as suas actividades. Já não consigo lembrar-me de como era o nosso país antes deles. De todas as vezes que surgiu a possibilidade de colaborar com o Ensemble MPMP em concertos, foi com muito gosto que aceitei o desafio. Sinto-me grata por ter integrado o grupo de colaboradores desta equipa. Que possamos o mais brevemente possível celebrar ao vivo, sempre em segurança, este aniversário, e pelo menos mais dez anos, com boa música, seja ela nova ou a redescobrir. Parabéns, MPMP!

 

Beatriz Dilão
produtora

Tive o prazer de poder colaborar com alguns textos, artigos e reflexões minhas desde Abril de 2015 na revista Glosas, tanto na sua versão digital como impressa. Acredito que o trabalho que a revista faz é indispensável no que toca à investigação da música erudita portuguesa, mas também no que toca à comunicação de concertos, discos e iniciativas nesta área, por vezes um pouco descurada noutros canais. Passados apenas dez anos, a Glosas publicou ensaios de investigação essenciais para o leitor musicólogo; por outro lado, conseguiu também criar o mediatismo informativo essencial para qualquer rede de comunicação, o que inclui o leitor leigo, reunindo a divulgação e comunicação de concertos, discos e projectos na sua versão digital. Creio que o ponto essencial é, no entanto, o facto de reunir as vozes de jovens maestros, compositores, intérpretes e musicólogos, que reflectem e divulgam a nossa actualidade nesta área, criando um espaço e uma rede de músicos cada mais forte e unificada, abrindo caminho para as próximas gerações de músicos. A Glosas é uma excelente (e única!) plataforma.

 

Francisco Chaves
compositor

O MPMP é, sem dúvida, um marco em Portugal para a música portuguesa. Ainda estudante na Universidade de Évora, decidi participar num concurso para jovens compositores, realizado em colaboração com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Escrevi a minha primeira peça para orquestra, Sinfonieta em três andamentos, e tive a sorte de ter sido premiado. Foi uma grande honra para mim, e essa oportunidade permitiu-me entrar em contacto com outros músicos e compositores de enorme talento. Posso dizer que começou aí, oficialmente, a minha carreira enquanto compositor. Essa peça foi estreada e tocada várias vezes por várias orquestras, algo bastante incomum numa peça orquestral. Fiquei motivado a escrever mais e a seguir o caminho da composição, em paralelo com a minha actividade como guitarrista. Outras peças seguiram-se, outros projectos aconteceram, mas foi aí que tudo começou, com o MPMP, e, por isso, estarei eternamente grato à organização e deixo-lhe os meus votos de longo e duradouro sucesso.

 

João Carlos Almeida
professor de música

Há dez anos, a revista Glosas deu-me a honra de publicar o meu artigo “Princípios orientadores de uma formação musical”. Agora, passados esses dez anos, irá ser publicado “um número especial, comemorativo do 10.º aniversário da revista e da associação MPMP […] com recolha de depoimentos”. Tendo recebido um estimulante convite para participar neste número, é, pois, com igual entusiasmo e sentido de responsabilidade que escrevo estas palavras.

A revista Glosas, editada pelo MPMP, propõe-se “[celebrar] a música clássica dos países de língua portuguesa”. Sublinho tão nobre objectivo, num país onde ainda acontece muitas vezes o preconceito de ser considerado que o que vem de fora “é que é bom”. Porém, na verdade, sempre tivemos, continuamos a ter e teremos excelentes músicos oriundos dos países de língua portuguesa. Saliento, a título de exemplo, alguns músicos portugueses de renome: Manuel Rodrigues Coelho, Carlos Seixas, Luísa Todi, João Domingos Bomtempo, Guilhermina Suggia, Vianna da Motta, assim como alguns dos seus discípulos, como por exemplo Luiz Costa, Campos Coelho, Helena Sá e Costa, Nella Maissa, Maria da Graça Amado da Cunha, Fernando Corrêa de Oliveira, João de Freitas Branco, Sequeira Costa e Fernando Lopes-Graça, Michel Giacometti, Maria João Pires… Sublinho: são apenas alguns nomes de ilustres músicos portugueses.

A revista Glosas, editada pelo MPMP, propôs-se “[celebrar] a música clássica dos países de língua portuguesa”. E é isso o que, inequivocamente, o MPMP e a revista Glosas têm feito. Se olharmos para o universo do MPMP, apercebemo-nos de um notável trabalho editorial (CDs, revista, livros e partituras), da existência de um excelente ensemble e de uma grande agenda cultural. Quanto à revista, destaco pessoalmente as entrevistas a Teresita Gutierrez Marques, Madalena Sá e Costa, António Pinho Vargas, Ana Paula Russo, Cristiano Holtz, Álvaro Cassuto, Emmanuel Nunes, Nuno Côrte-Real, Cândido Lima, entre muitos outros. Também o seu trabalho de investigação é um marco na investigação em torno da música clássica dos países de língua português, como provam os exemplos mais recentes: “Em torno de duas portas eborenses do séc. XVI e do seu contexto musical” e outros trabalhos da autoria de Luís Henriques, “Em torno do Festival de la Canción Gallega” da autoria de José Luís do Pico Orjais, “Francisco Santos Pinto e a Música Teatral” da autoria de David Cranmer ou “Repertório solístico para fagote de Francisco Santos Pinto” da autoria de Carolino Carreira. Destaco ainda o seu espaço dedicado à opinião crítica e a sua agenda de notícias breves. Admirável! Parabéns ao MPMP e à revista Glosas!

 

João Pereira Coutinho
flautista e membro do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa

Uma injecção de sangue novo e de vitalidade na vida musical portuguesa: eis como se afirmou o MPMP ao longo desta sua primeira década de existência, tendo na revista Glosas um verdadeiro arauto da sua missão.

Fundado por jovens empenhados e empreendedores, a acção do Movimento desde cedo se tornou visível em diferentes iniciativas e projectos de divulgação e promoção do património musical nacional: numerosos concertos, com predominância de música portuguesa e com muitos jovens intérpretes nacionais de qualidade; estreias absolutas de obras de música portuguesa contemporânea ou audição moderna de obras nacionais outrora estreadas mas entretanto esquecidas; edição de partituras (pressuposto da difusão e circulação de qualquer obra musical no âmbito da chamada música erudita) e edição discográfica, quer de compositores contemporâneos (jovens ou consagrados), quer de repertório de referência do nosso património musical do passado.

Também na edição de livros se manifestou o contributo do MPMP, quer em obras biográficas, quer em projectos de cariz mais didáctico. Neste âmbito editorial, foi-me extremamente grata a oportunidade de colaborar, com o meu testemunho pessoal, no Ad-memoriam Antoine Sibertin-Blanc (2016), tributo a uma personalidade notável cuja saudosa memória e legado se impunha preservar e difundir.

O contacto pessoal mais próximo e directo com a Glosas foi-me proporcionado por ocasião da publicação, em 2014 , do artigo “Lembrando Ricardo Ramalho”, de minha autoria, que fora publicado no ano anterior (traduzido para francês) pela revista Traversières, da Associação Francesa de Flauta. A preparação e publicação deste artigo na Glosas foi exemplarmente acompanhada e superiormente coordenada por José Carlos Araújo, vindo este trabalho a lume em perfeita sintonia e com total respeito pelas indicações e opções do autor.

No âmbito do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, que colaborou com a sua gravação de Floreal, de Jorge Peixinho, no projecto Histórias da Música em Portugal (2013), realizámos em conjunto com o Ensemble MPMP um concerto de homenagem a Clotilde Rosa (no dia do seu aniversário), integrado no evento de lançamento do n.º 8 de Glosas, especialmente dedicado à compositora.

Enfim, toda esta profícua actividade ilustra a multiplicidade e variedade de iniciativas e projectos e o impacto da acção do MPMP, com a sua revista, na vida musical portuguesa nesta sua primeira década de vida; que a esta muitas outras se sigam, sempre com o mesmo espírito empreendedor e de missão em prol da música e dos músicos portugueses.

 

João Vasco
pianista

Conheci a maioria dos membros fundadores do MPMP ainda enquanto alunos do Conservatório Nacional. Já nessa altura se destacavam dos colegas pelo empenho, vontade de desbravar repertório pouco explorado e qualidades artísticas e técnicas. Não posso, por isto, dizer que me surpreendeu totalmente a dimensão que este movimento adquiriu no cenário da música erudita em Portugal.

A Glosas teve um papel interessante no meu percurso, nomeadamente no meu primeiro projecto não estritamente clássico, chamado Alémfado (2010), que resultou de uma encomenda feita a compositores contemporâneos e do universo do jazz sobre fados seleccionados do grande repertório deste género (antes do sucesso na UNESCO). Tive o privilégio de ter um artigo sobre este projecto publicado na Glosas, numa altura em que no meio clássico nacional ainda se exercia activamente uma censura de carácter, digamos, hermético a músicos que ousassem fugir do grande repertório.

De resto, sempre me agradou a sempre atenta e dinâmica linha editorial da Glosas que, olhando para o passado e privilegiando o presente, sempre apontou para o futuro.

Bem hajam, cá estaremos para presenciar os vossos sucessos futuros, que serão também, e sempre, nossos.

 

José Bruto da Costa
musicólogo e barítono

Num país em que os mais variados projectos tendem a soçobrar, não por falta de mérito, mas pela ausência de apoios, é com particular regozijo que me associo a esta publicação, tão especial quanto emotiva, por ocasião do duplo aniversário da revista Glosas e do MPMP.

Impõe-se, por isso, uma pergunta que, não sendo retórica, não tem resposta desataviada: qual o motivo que impeliu a tão feliz e constante jornada?

Antes de tudo mais, a moldura contextual alterou-se, sendo, inequivocamente, um dos pilares que susteve a acção do MPMP. Nos últimos dez anos, o quadro mental e formativo da sociedade portuguesa foi parcialmente aliviado do atavismo cultural de que o nosso país padeceu durante décadas, por força das circunstâncias. O público melómano, receptáculo primeiro deste movimento, começou a demonstrar abertura e curiosidade perante o património musical português, já fora do conceito serôdio da portugalidade. Há muito que este núcleo patrimonial deveria ser uma “marca” e o MPMP contribuiu para essa assumpção.

No mesmo quadro cronológico, encontramos os decisores a integrar, tendencialmente, esse património, mostrando-se sensíveis ao tema. É da mais singela justiça saudar Filipe Carvalheiro, e o ciclo Música em São Roque, que desde a sua génese procurou o mesmo quadro de valorização do património musical português, pelo contributo sustentado para a visibilidade do MPMP.

Este comportamento foi, igualmente, adoptado pelos diversos festivais de música que na última década despontaram, ou se consolidaram, enquanto veículo fulcral na descentralização do acesso à música no nosso país.

A dinâmica notável que a academia portuguesa alcançou neste período foi, para além do necessário diálogo interdisciplinar, uma mais-valia que o MPMP soube aproveitar, entabulando parcerias frutuosas com a Escola Superior de Música de Lisboa, Universidade de Aveiro, Universidade de Évora e Universidade Nova de Lisboa / CESEM, pressupondo a conciliação, e complementação, entre posturas opostas.

Também os avanços tecnológicos a que assistimos nos últimos anos permitiram ao MPMP, de forma consistente e continuada, desenvolver ferramentas digitais ao serviço da sua missão. Basta recordar que a facilidade com que hoje se regista um concerto ou se grava um CD está a anos-luz das peripécias (e dos custos) do passado recente.

O plano editorial transversal, bem como um corpus de material pedagógico para o universo infantil, que saúdo com particular entusiasmo, contribuíram para a afirmação do MPMP no universo musical português.

Ainda que, pessoalmente, considere que a muitos dos jovens músicos falte o necessário tonus dramaticus, raramente o nosso país encontrou uma geração tecnicamente tão pró-activa quanto enformada. Por ora, a coexistência de uma diversidade de novos agrupamentos, têm permitido estabelecer sinergias com o MPMP, garantindo a divulgação paulatina do repertório resgatado.

Também a criação contemporânea encontrou espaço no MPMP, revelando-se, assim, ciente de que o conceito de património não é imutável, como repetidamente tem sido afirmado na última década.

Igualmente importante foi o avanço da musicologia em Portugal. Liberta da necessidade primordial de traçar arcos narrativos consistentes, pode debruçar-se, com o devido detalhe, na verdadeira destrinça. Foram-se delineando quadros que, de forma progressiva, afastaram a dicotomia centro versus periferia, na qual o património musical português quase sempre se inseriu.

Talvez há dez anos o MPMP encarasse a sua missão como contra-hegemónica. Não querendo pecar por ingenuidade retórica, julgo que o património musical português é suficientemente rico e diversificado para, de direito próprio, ser pontualmente absorvido pela hegemonia do repertório dito convencional.

Nunca Portugal foi capaz de promover essa absorção, inequivocamente por complexo de inferioridade, à excepção da polifonia vocal da primeira metade do séc. XVII, que cedo encontrou nos agrupamentos mormente ingleses um galante paladino. Mas a heterogeneidade do património musical português vai muito para além das conhecidas idiossincrasias do seu contexto sócio-discursivo.

A revista Glosas veio, neste sentido, reforçar o enquadramento sistemático de autores maiores do repertório que o MPMP divulga, enquanto compilação do que de melhor se tem pensado e escrito sobre a música em Portugal.

Resta invocar o pilar invisível do MPMP nestes dez anos de existência, os seus fundadores e colaboradores. Faço uma pequena ideia das tormentas desta jornada a que se abalançaram, pois certamente não foi uma promenade ao sol. Que a frescura dos verdes anos permaneça como tónica dominante neste alento de fazer e inovar.

Uma última palavra para o Edward, que, gentilmente, me convidou a escrever estas parcas palavras sobre o MPMP, facto que muito agradeço.

Agora que já dominam o métier, mãos à obra, os próximos dez anos estão a começar. Boa viagem!

 

Maria João Neves
investigadora

Venho por este meio deixar aqui o meu testemunho de colaboração com a revista Glosas. Este projecto arrojado e inovador reúne numa mesma revista artigos de fundo científicos, entrevistas, crítica musical, notícias breves… Com conteúdo rigoroso e uma estética cuidada, esta revista é uma pérola no panorama da musicologia lusófona.

Ao longo dos anos tive o prazer de publicar alguns artigos em diferentes rubricas, nomeadamente crítica musical e notícias breves. Contudo, destaco a minha contribuição com os artigos de fundo “A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sassetti”, publicado no n.º 13, e “Bernardo Sassetti: uma estética de penumbra” publicado no n.º 14. Ambos os artigos foram produzidos graças à investigação de pós-doutoramento financiada pela FCT de 2010 a 2016 e acolhida pelo CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa.

São de louvar os autores deste projecto, não apenas pela sua exímia execução mas também pelo cuidado colocado nos lançamentos, divulgação e distribuição da revista. Sendo de elevado esmero, tanto em conteúdo como em forma, a Glosas possui ainda a qualidade de não se restringir ao público académico, atingindo um amplo escopo de melómanos no espaço lusófono. Uma palavra também para todos aqueles que de forma graciosa contribuem para esta excelente publicação, e os votos sinceros de que as circunstâncias se alterem no sentido de se encontrar sustentabilidade financeira para tanto conhecimento, talento e empenho. Bem hajam!

 

Sofia Sousa Rocha
compositora

Escrever para o último número da revista Glosas seria, para mim, sinónimo de perda. Acompanhei desde o início a vida desta revista, tendo lido grande parte das edições. É uma referência indiscutível, particularmente no desenvolvimento do seu tema de capa, divulgando a obra de compositores lusófonos do passado e do presente.

As “despedidas” são também balanços e esta, particularmente, faz-me regressar a 2012, ano em que estreei a minha primeira ópera – e única até agora –  no contexto do “Concurso Mini-Óperas”, uma produção conjunta do Teatro Nacional de São Carlos e da Arquipélago – Associação de Compositores de Portugal. A revista Glosas n.º 5 acompanhou a produção das quatro óperas em estreia, entrevistando os compositores, eu própria, Edward Luiz Ayres d’Abreu, Luís Soldado e Tiago Cabrita, o encenador Luís Miguel Cintra e o director musical João Paulo Santos, e publicando uma crítica de Duarte Pereira Martins. Dá-se agora a coincidência de eu ter voltado ao género operático. Estou a compor uma nova ópera breve que será (seria?) estreada em 2020. Mais uma vez, junto-me a outros compositores – Fátima Fonte, Francisco Fontes e Sara Ross – para levar a cabo a produção das quatro óperas num formato de um festival de um dia.

Termino deixando uma palavra de apreço e reconhecimento pelo trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo MPMP nas suas mais variadas dimensões, destacando as numerosas edições de discos, partituras e livros.

 

Tânia Valente
cantora e investigadora

Já se passaram dez anos. O tempo voa mesmo! Quando ouvi falar pela primeira vez do MPMP, à porta do Teatro Nacional de São Carlos, os seus membros eram então um corajoso grupo de jovens músicos que queriam descobrir partituras de compositores portugueses e dar-lhes “vida”. Com o tempo, o MPMP cresceu, e hoje têm uma temporada regular de concertos. Pelo meio nasceu a Glosas, para a qual escrevi durante um tempo.

A Glosas deu-me a mim, e deu a outros jovens investigadores, a oportunidade de ver os seus artigos publicados numa revista que, em qualidade, nada fica a dever a outras do mesmo género. Para além disso, asseguravam a revisão dos textos, garantindo a sua clareza e correcção linguística. Acredito, por isso, que eu e outros investigadores devemos bastante à Glosas. Já a Glosas digital, onde me pude estrear no papel de “jornalista”, foi para mim um interessante campo de experimentação. Procurar notícias e, ao mesmo tempo, divulgar o trabalho de colegas músicos, era algo que me dava bastante gozo fazer.

Nesta altura de reclusão forçada, durante a qual escrevo esta reflexão, a música é, mais do que nunca, uma luz que nos ilumina na escuridão, como naquele momento do Ensaio sobre a cegueira de José Saramago – livro tão tristemente actual hoje – em que um dos cegos enclausurados põe a tocar um pequeno rádio a pilhas, e os outros cegos, ouvindo uma canção sem importância, aproximam-se devagar do som e, “com os olhos muito abertos na direcção da voz que cantava, alguns choravam”. Trata-se de um momento em que algo banal, que tomávamos por garantido, ganha uma nova e extraordinária dimensão.

Tempos difíceis nos esperam, pois a tendência é para a arte ser sempre vista como algo supérfluo, sobretudo quando a sobrevivência de cada um está em jogo. Porém, quero acreditar que o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa vai conseguir prosseguir a sua missão, com mais ou menos recursos disponíveis, e que, findo este período difícil, os seus concertos vão voltar a encher-se de público.

Pode ser que esta crise mundial se torne lição de vida, que faça com que coisas banais que tomávamos por garantidas, como um evento cultural – que o público nem imagina quanto trabalho dá para preparar, e às vezes com tão pouca recompensa para os artistas envolvidos –, possam, como naquele momento do romance de Saramago, ganhar a dimensão que merecem ter. Quiçá tudo isto possa até mudar a forma como as pessoas percepcionam a beleza de um concerto ao vivo, até porque, como no pequeno rádio do romance de Saramago, “as pilhas não duram sempre”. Há que aproveitar enquanto há pessoas disponíveis para nos agraciar com boa música e, neste caso, mostrar-nos o que de melhor se fez e se faz na música em Portugal, como é missão do MPMP e da Glosas.  Obrigada pelo vosso trabalho.

 


 

Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

O que significa para mim e para nós a revista Glosas?

Tantas emoções percorrem o meu ser!  Ao iniciar este pequeno artigo, motivado por um convite que, com grande e doce gentileza, me foi dirigido, não consigo deixar de partilhar algumas dessas emoções, atendendo à capacidade que têm de nos facilitarem dizer a importância que a revista Glosas assumiu nas nossas existências e no nosso entendimento sobre a nobre arte a que, de forma multiforme e elevada, se tem dedicado.

Tantas emoções percorrem o meu ser: a de felicidade, em primeiro lugar. A felicidade, como sabemos, reveste-se de diversas nuances, mas sublinho apenas uma delas: a de nos inundar de uma forte luz, anulando as trevas que encobriam a prática da música no nosso país. Obviamente, os obstáculos ao seu exercício e divulgação continuam, assim como outros complexos problemas sobre os quais a Glosas se debruça com afinco. São nela tratados temas e problemas que, infelizmente, não se esgotam facilmente, nem que sobre eles se escrevessem mil artigos, a não ser que o contexto cultural nacional se alterasse profundamente.

Em segundo lugar, a sensação de alívio por ter como certo que muitas novidades, relativas ao trabalho de composição e de execução musical, são divulgadas e reflectidas através dos artigos e das entrevistas que esta revista nos vai propondo, fazendo-nos companhia e dando-nos ânimo para nos entregarmos à sua prática com a paixão que ela requer.

A de paz vem em terceiro lugar, embora se manifeste mais raramente. É através deste sentimento que, olhando para trás, se vê um percurso que cumpre um projecto e se observa também que a sua vitalidade se mantém. Digo raramente porque a inquietude nos assalta frequentemente face aos problemas que permanecem nas nossas actividades.

Por fim, outras emoções se misturam ou se alternam na apreciação do trabalho ao longo de anos realizado. E, assim, confidencio-vos que, quando penso em algumas das pessoas que connosco estiveram e em outras que ainda estão, por elas sinto orgulho e admiração a ponto de me fazerem correr lágrimas cara abaixo, ou de me fazerem sentir uma enorme saudade. Seja como for, estes sentires, isolados ou misturados, renovam no meu coração a gratidão e o respeito (apesar de nunca ter sido quebrado e sempre merecido) pelo génio que lhes reconheço, assim como a benigna recordação daqueles que nos são tão queridos é tão importante para os nossos próprios percursos (de vida, de trabalho e de aprendizagens).

O que dizer sobre a importância e a pertinência do surgimento e do trabalho da Glosas, esta revista que tanto estimamos e que tanta emoção nos causa?

Após muito ponderar sobre a resposta a dar a esta questão, lembrei-me de que uma forma de o fazer seria partilhar, aqui, algumas considerações feitas ao tempo da fundação da revista, por mim e por amigos, em diálogos informais uns com os outros, por exemplo no Facebook. Debatiam-se, há dez anos, certas temáticas que vieram, depois, a ter seguimento nas publicações da revista.

Fui, então, procurar, no meu baú de memórias, os registos dessas opiniões outrora emitidas. Será útil, talvez, informar que, nessa altura, os assuntos mais abordados eram: a música “erudita” portuguesa, a música contemporânea, o acto de criar, a nossa identidade artística.

Por um lado, os comentários que então teci e dirigi a esses companheiros, que muito prezo, mostram um pouco daquilo que pensava há cerca de dez anos, quando nos dispúnhamos a francas e desafogadas conversas. Ideias que eram motivadas quando uns ou outros lançavam aqueles assuntos para sobre eles nos debruçarmos e nos pronunciarmos. Por outro lado, as reflexões expressas pelos meus interlocutores, ou as minhas, evidenciam a complexidade e a pertinência dos problemas que, com revolta ou paixão, discutíamos, permitindo-nos obter uma pequena síntese do que pensávamos sobre, pelo menos, duas das questões que, nesse tempo, estavam em causa: a invisibilidade da música portuguesa e as condições, ou falta delas, na sua criação e na sua divulgação. Tive de me restringir a estas temáticas por ser desmesurado, neste âmbito, abordar outras.

Transporto para aqui estes registos, também com o propósito de evidenciar como a Glosas apostou no combate contra nevoeiros (ou mesmo trevas) que pairavam na nossa atmosfera, onde mal respirávamos, dando continuidade e aprofundando o nosso descontentamento de então. Enfim, quero confiar que esta forma de abordagem permite transmitir mais facilmente o quão precioso nos é termos visto nascer e manter-se as iniciativas levadas a cabo pela nossa revista.

Inicio esta reposição de conversa, ou melhor, de uma montagem dela, com o lamento com que reagi a uma declaração de João Fernandes (Público, 28 de Março de 2011) que se referia a Ângelo de Sousa, que tinha acabado de nos deixar. Escreveu: “Deixa uma obra pioneira, não só no contexto português, mas também a nível internacional, que um dia será reconhecida em todo o mundo”.

Disse eu: estou completamente de acordo, ele lega-nos uma forma de viver e ver o que somos no mundo, mas, por vezes, vemos a arte com olhos cegos, de quem é de “dentro” e não acredita no talento dos nossos, e que, por conseguinte, despreza o que aqui se faz. Logo, este preconceito impede de ouvir as nossas linguagens e os nossos próprios sotaques. Se a língua, assim como todas as forma de dizer e espelhar o pensamento, é algo diariamente presente, por que razão a deixamos “invisível?” Com esta atitude impedimos a afirmação da nossa identidade ou, por outras palavras, não deixamos que se dê esse facto prodigioso vaticinado por Fernando Pessoa: “a minha Pátria é a minha língua.

O não reconhecimento de obras e de talentos, assim como a pouca visibilidade da arte portuguesa em geral, e da música em particular, era um problema que tentávamos elucidar talvez na esperançosa expectativa de contribuir para a sua resolução. António Pinho Vargas deu um contributo importantíssimo para este propósito. Em Março de 2011 escreveu:

“Uma das conclusões da minha tese aponta para a importância das instituições culturais portuguesas e dos seus diversos agentes do campo musical programadores, músicos, compositores, críticos, musicólogos, professores, etc. na reprodução da subalternidade da própria música portuguesa. Pondo em relação a situação interna da música portuguesa, a sua subalternidade face ao predomínio interno da música canónica histórica, e ao predomínio da música proveniente do subcampo contemporâneo, sobressai e adquire legibilidade a importância do factor constituído pelas práticas e pelos discursos da generalidade dos agentes activos no campo musical em Portugal. Essa legibilidade é alcançada encarando o fundamental da acção das instituições culturais portuguesas como reprodutoras dos cânones musicais europeus, através da prática sistemática de realização de temporadas sucessivas reguladas pela ideologia canónica que considera essencial apresentar o que chamam “temporadas internacionais” e através dos discursos culturais que, alicerçados em narrativas históricas que legitimam essa acção, reproduzem e disseminam internamente os valores dos cânones clássico e contemporâneo. A questão é de proporção e de consequências. Não se trata de regressar a um tipo de esplêndido isolamento típico da ideologia do regime salazarista. É indispensável a manutenção em Portugal de temporadas musicais com uma presença importante da produção europeia. Mas é justamente o facto de os cânones estarem em crise, sob suspeita, sob contestação nos próprios países centrais, que nos fornece a possibilidade de interpretar a ausência. A produção activa da inexistência em Portugal decorre da presença do Outro musical europeu, culto, avançado, desenvolvido são estas as designações históricas da nossa relação com a Europa desde os séculos XVIII e XIX que, por sua vez, traduz como outro lado da moeda a subalternidade da música portuguesa, a persistente exclusão das hipóteses de programação, por parte das instituições culturais, das obras que elas próprias encomendam e estreiam, em contraste com a reiterada repetição das obras canónicas históricas ano após ano. Até 2000 foram muito raros os exemplos de repetição de obras, particularmente daquelas que envolvem custos mais elevados, embora na verdade menos elevados do que muitas reposições de obras canónicas”.

Reportando-me a esta realidade, escrevi:

Repetindo o que tenho dito, sempre me pareceu que os programadores dos países que são da dita periferia, ao darem primazia ou total audiência às obras dos países do centro (com a sua respectiva hegemonia cultural), tinham como objectivo entreter-nos e dar cor à vida social. Os responsáveis por este estado de coisas não só propagavam a mentalidade que confere a esses países do centro a qualidade que supostamente nos falta, como, inclusive, serviam-se dessa programação para afirmarem a sua erudição, mostrando conhecer e enaltecendo as tais “cores”. (…) Por outro lado, se nos virmos através dos músicos estrangeiros, poderemos constatar que, nos seus países, a música portuguesa também não tem grande visibilidade. Sei que não se deve partir de um ou outro episódio concreto para tal ilustrar, pois poderão constituir algo nada habitual, ou seja, constituírem apenas algumas excepções. Contudo, o que a propósito vou contar parece-me um exemplo paradigmático da invisibilidade da música portuguesa também para além das nossas fronteiras. Por isso, atrevo-me a contar uma pequena história.  

Um professor de Harmonia e Contraponto de uma instituição universitária típica de um país da América do Norte, que ostentava uma erudição fora do comum, na ideia de todos, revelou-me querer ler Os Lusíadas (coisa que, por si só, podia ser tida como ousada), mas o que mais impacto teve em mim foi querer, este Professor, ler esta obra na língua original em que foi escrita, tal como se faz ao abordar qualquer obra antiga (na altura, verifiquei que, apesar de não conhecer a língua, este professor tinha vários dicionários…!). Como este Senhor mostrou interesse pela cultura portuguesa, e por ser da área da Música, perguntei-lhe se conhecia a obra de um compositor que eu muito prezava e cujas obras, achava eu, ostentavam uma sonoridade bastante “internacional” (perdão, mas não me ocorre outro termo de momento). Creio que podem adivinhar a resposta… Aliás, o senhor, não conhecia nem Joly Braga Santos nem nenhum outro compositor luso. Como já estava habituada a este fenómeno, desde tenra idade, desliguei-me do assunto, dizendo-lhe: olhe, tenho aqui a obra de Camões que me pediu. Claro que ele conhecia a Amália. 

Sobre a invisibilidade da música portuguesa, parece-me também muito pertinente um comentário de José António Pimenta de França (Março de 2011) a propósito do livro de António Pinho Vargas Música e Poder: para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu:

“O livro em si é uma poderosa reflexão sobre os mecanismos de poder em todas as suas escalas que determinam o que se conhece e ouve aqui e em todo o mundo. Penso que é uma abordagem inovadora, senão mesmo precursora (tanto quando conheço é mesmo precursor). O fenómeno da invisibilidade de muita música que se faz em todo o mundo é transversal, tanto se passa na música de tradição erudita como nas das outras tradições. Ainda há poucos dias as minhas deambulações pela internet me levaram a um sítio bastante interessante sobre a canção popular europeia. Uma coisa bem pensada, feita por um casal de holandeses, dedicado à tradição da canção popular europeia dos últimos 50 anos, onde são enumerados os principais 15 ou 50 nomes da canção de cada país, com biografias, fotos e pequenas discografias. E quem aparece de Portugal? Ninguém. Estão todos os países da Europa, até os de recente criação. Mas Portugal não está. Escrevi-lhes perguntando o porquê da omissão. Responderam-me de imediato, muito simpaticamente, a dizer que Portugal era para eles um buraco negro. Só conheciam a Amália, Madredeus, a Cristina Branco (que é uma vedeta na Holanda, começou lá a carreira e até fez um disco dedicado à poesia do grande poeta holandês Slauerhoff) e a Dulce Pontes. Tinham procurado informação na internet e não encontraram nada. “Por isso adiámos Portugal até conseguirmos informação suficiente. É que não conseguimos nada mesmo”, disseram-me, acrescentando que não queriam abrir uma secção portuguesa com fadistas, porque para eles o fado é folk e o sítio deles é pop e não folk… Estou a trabalhar com estes holandeses para procurar colmatar esta brecha mas, para já, não encontrei uma única obra sobre a canção popular portuguesa. Há muita coisa sobre o fado e também sobre a canção de intervenção. Mas sobre a canção popular comercial não há nada, pelo menos não encontrei nada. Acho realmente incrível… Não cuidamos das nossas coisas. De nada. É assim que se vê Portugal do centro da Europa. Ou seja, não se vê. Eles bem podem olhar e procurar. Não se vê nada, além da selecção de futebol e das praias do Algarve.”

Triste com tudo isto, comentei:

“Há muito que somos “apagados”, e alinhamos (muitas vezes), mesmo sem querer, no nosso auto-apagamento. Para acarinhar e (ou) cuidar do nosso património artístico, também não devia ser necessário ter de convencer alguém a apoiá-lo. É triste, por exemplo, não ter de se explicar a necessidade de possuirmos dois submarinos (avariados ou não) mas ter de explicar a necessidade de falar, escrever, pintar, compor e, pior, ter de explicar o que somos (ou o que fomos).”

Mais uma vez, dou a palavra a António Pinho Vargas, que, às tantas, nos desafiou para o debate sobre outro aspecto do problema:

“Quem são os responsáveis? Nós! Há um problema sério nesse aspecto. As melhores lojas, depois que faliu a Valentim de Carvalho em Lisboa, são a Paleta dos Sons em Espinho e a Casa dos Músicos no Porto. A Maestro, em Lisboa, não tem quase nada ou nada (neste caso não devo contar com Bach nem com Beethoven, que é o que lá há e pouco). O Centro de Informação de Música Portuguesa da Miso Music Portugal tem um site no qual se pode fazer download grátis das peças que têm. A Notação XXI tem um site onde igualmente se pode encomendar partituras. Muito bem. Lojas abertas só aquelas duas, que eu saiba, e algumas outras onde só há Beethoven e Mozart, etc.; mas há editores que todos os anos se candidatam aos subsídios do Estado. A Fermata, durante anos (antes de falir) e a Musicoteca obtiveram subsídios para editar numerosas partituras. A própria Direcção-geral das Artes abriu uma nova colecção que editou há uns três ou quatros anos. Onde estão estas partituras? Em lado nenhum. O Estado dá o subsídio, os editores editam, vendem cinco exemplares para as duas livrarias que existem e o resto fica a monte, em casa, até ao fim do mundo. Mas no ano seguinte os editores de partituras e de discos voltam a candidatar-se aos subsídios com o discurso do apoio aos criadores portugueses, voltam a receber os ditos subsídios e as partituras são feitas e editadas, mas não se encontram, ninguém as descobre na internet. (…) Porquê? Porque nas Escolas de Música, em geral, o que se ensina é a música clássica (do cânone musical) que preenche as temporadas das instituições culturais, e cada aluno sonha vir a ser um grande artista do mundo que toque na Gulbenkian ou na Casa da Música. Mais depressa chega lá um francês ou um alemão que ainda não nasceu, porque esse é o seu terreno. Nós prosseguimos cultivando a imaginação-do-centro. Perceberam a minha tese? A coisa é um boomerang que começa nas escolas, passa pelo subsídio para objectos (partituras e discos) que ninguém dos sucessivos governos consegue resolver ou sequer formular.  Nos últimos quinze anos!” 

Respondi:

“O estado, pois sim! Não devia ser necessário um “criador”, nem quem o quer apoiar, editores, programadores, instituições, etc., terem de “mendigar” esse apoio que é para algo que a sociedade devia orgulhar-se de possuir e de sentir. E interrogo-me se há interesse cultural para que as obras continuem a “existir” e, por conseguinte, não desapareçam por completo e de vez…”

No esforço de querer identificar algumas soluções práticas para a divulgação da nossa arte, pensei no papel do programador, escrevendo:

“Sobre o que se pode fazer a curto prazo, reitero o que tenho dito: se um programador fizer de facto o que lhe compete, com tudo o que isso implica, tal como se tem falado, pode causar a diferença necessária e até, possivelmente, a curto prazo, a meu ver. E tenho motivos para acreditar nisto: uns residem na própria História de Música, outros em práticas observadas. No caso da História da Música, temos um exemplo muito claro: J. S. Bach e a Reforma Protestante. Bach foi um defensor da Reforma, dos mais importantes e dos mais fiéis a este movimento religioso. Queriam os reformadores que as pessoas entrassem nos templos, não nos da tradição católica, mas sim nos seus. Como sabemos, nesta altura, a religião era de uma importância extrema (os mass media da época) na vida das pessoas e, para atrair os fiéis à nova facção cristã, nada melhor do que criar-lhes uma sensação de ‘contacto directo com Deus’ (personal and direct connection), o que tentavam conseguir através do canto. Assim, em vez do Padre, os praticantes cantavam, surgindo, no interior dos seus rituais, os corais. Imaginem, imaginem o que era para alguém, naquela altura, ir ao seu templo cantar algo com a dimensão e a espiritualidade que caracterizavam os corais de J. S. Bach. Com a particularidade de estes cantos, apesar de soar como soam, serem de simples execução para cada voz individual e, portanto, servindo, na perfeição, os propósitos de retirar “povo” à igreja católica e de transformar assim, e rapidamente, a vivência religiosa de uma sociedade. A meu ver, este tipo de coisa não é assim tão estranha, tendo em conta o fascínio que a melodia tem sobre o humano. E esta mudança não precisou de internet nem da televisão. Deveu-se, em certo grau, à música e ao seu autor que, neste caso, era contemporâneo e conterrâneo.

No que respeita a práticas concretas, lembro-me, por exemplo, de um dos concertos inserido nas comemorações dos cem anos do Porto de Lisboa, de onde resultou um saco cheio de bilhetes escritos por gente, muita gente, que, nesse dia, de manhã cedo, atravessava o rio, num cacilheiro,  para ir trabalhar, e foi surpreendida por dois músicos que faziam vibrar os seus instrumentos ali mesmo, no barco. Entre os vários bilhetes que louvavam a iniciativa e elogiavam os músicos que tocaram para o “povo” especificamente havia um que dizia o seguinte: “Soube-me tão bem, pensava que ia para o inferno do meu emprego, mas acho que estou no céu.”  Lembro-me perfeitamente do que ouvi nesse dia: um duo a tocar duas peças cujo repertório era Webern e Mozart. Webern!!! E porquê este repertório? Os músicos eram finalistas da Escola Superior de Música e, devido ao pouquíssimo tempo que dispunham para ensaiarem outras peças, tal como os outros conjuntos que tocaram outros repertórios noutros cacilheiros, tocaram o que melhor, na altura, sabiam executar. Eu não fazia parte como executante (aliás, não fazia parte deste, nem de nenhum dos outros grupos que faziam as travessias ao longo do dia e em simultâneo), logo posso afirmar, com toda a objectividade, que foi bem executado. Webern, sobretudo, não é música “popular”  como queria o senhor que os contratou (um adjunto do então Sr. Administrador do Porto de Lisboa), e que só se apercebeu que o repertório que foi tocado não era o que tinha encomendado quando os concertos já tinham acabado. Mesmo assim, levou consigo um saco cheiinho de bilhetes, escritos por esse “povo”,  agradecendo e felicitando a iniciativa e a mestria dos músicos. Portanto, aquele senhor tinha subestimado o dito “Povo” e, parece-me, a capacidade que tem um bom repertório de impressionar qualquer público, quando tocado por bons músicos. Este episódio passou-se há cerca de vinte anos, e, por certo, terá havido muitos mais assim, por aí.”

O que significa para mim e para nós a revista GlosasPenso estar dito. Mas, em síntese, a resposta pode ser dada através das seguintes afirmações, por mim feitas ainda no âmbito da tal “conversa” que agora termina:

“Sempre senti que fosse um trabalho deveras importante aquele que torna visível o que invisível tem sido, invisibilidade que algumas forças teimam em manter.”

“Fico feliz com todos os passos dados no sentido de desvendar e desmontar os preconceitos e as ideias feitas que ainda predominam, infelizmente.”

Resta aplaudir o imenso e excelente trabalho realizado pela revista, e muito agradecer o empenho e o rigor, de dez anos, a todos os seus colaboradores. E, por fim, desejar à Glosas um futuro de continuidade no seu êxito.

 


Nota: os meus comentários tiveram de ser revistos e corrigidos porque as minhas considerações tinham um tom coloquial, que não se coadunava com o que é exigido neste tipo de texto. Aproveito para agradecer a quem me deu um precioso e necessário apoio em rever aquilo que escrevera nos ditos ‘’diálogos’’ que trouxe, uma estimada e querida amiga, cuja a paciência parece não ter limites.  Muito obrigada, Maria Cândida Ferreira. Não posso deixar de agradecer, também, ao Edward Ayres de Abreu,  pela estima e pelo desafio que é tentar de algum modo transmitir nem que seja um pouco aquilo que representa para mim a existência desta revista.


 

Texto escrito no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

10 depoimentos X 10 anos (IV)

António José Ferreira
criador da Meloteca e do Musorbis

Glosas sobre a música em Portugal

  1. Pela música portuguesa

A palavra “glosas” evoca poesia, lirismo, história, o que justifica o modo como vou partilhar ideias. Após o honroso convite do Edward Luiz Ayres d’Abreu para escrever para a revista Glosas, reflectindo sobre dez anos de música, ou sobre a história da música em Portugal nesse período, a primeira ideia que tive foi a de escrever sobre algo que me é familiar, sobre algo que está em mim: uma paixão, irracional mas tornada consciente, sobre a música, a cultura e o país. Mais do que paixão passageira, amor duradoiro que supera distâncias e indiferenças, obra que perdura ou que reaparece, tesouro que se guarda quando se partilha.

Escrever sobre a Glosas e sobre o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa é falar de ligações umbilicais à música, algo que vem das entranhas e dá sentido à vida e aos obstáculos. Acompanho a revista desde o seu nascimento, e sigo o crescimento e afirmação nacional do projecto, 20 números de revista impressa, mais de 120 partituras, 50 CDs, 60 compositores editados. E os compositores que foram capa de revista (Alfredo Keil, Domenico Scarlatti, Frederico de Freitas, Gaspar Fernandes, Joly Braga Santos, Ruy Coelho, António Fragoso, Marcos Portugal, Constança Capdeville, Clotilde Rosa, António Pinho Vargas, António Victorino d’Almeida e Cândido Lima…), também estão presentes, de formas diversas, no meu projecto Meloteca.

No início do século XXI, muitas das actuais estrelas na música erudita eram crianças. É bom verificar como, em muitos casos, as promessas se cumpriram, procurando os músicos dar resposta às lacunas do país. Muitos não encontram espaço para o seu talento em Portugal, pelo que, nesta década, aumentou o número dos que residem, tocam e cantam no estrangeiro. Mas aumentou também o número de pianistas, maestros, cantores… que, residindo no país, são convidados para cursos magistrais, membros de júri em concursos e concertos no estrangeiro. Não se trata apenas de termos hoje mais informação; trata-se de um aumento efectivo que tem a ver com a qualidade dos conservatórios, academias, escolas profissionais e superiores de música. A participação de portugueses em concursos internacionais aumentou também. Concursos não garantem um futuro na música mas, na medida em que o músico se coloca a si mesmo um elevado nível de exigência, já beneficiaram quem participou.

  1. Década de mudanças

A primeira década do MPMP e da Glosas é uma década de grandes mudanças, destacando-se o papel das redes sociais, em especial o Facebook. A Meloteca foi lançada a 2 de Setembro de 2003 e o Facebook apareceu a 4 de Fevereiro de 2004. Em poucos anos, os sítios e as plataformas tiveram de se adaptar. Ignorar as redes sociais poderia ser o fim ou a estagnação de um projecto. A conexão com os músicos nas redes, ao longo da década, foi intencional na Meloteca, uma espécie de trabalho de paciência a juntar contactos de músicos, pedindo amizades selectivas e confirmando pedidos nas áreas da música, educação e cultura. Hoje, a informação na área da música chega, por vezes, a dar-se primeiro nas redes sociais do que nos meios de comunicação social, mesmo nas suas versões digitais. Em 2018, o sítio da Meloteca transfigurou-se com recurso a uma agência digital especializada. Expande-se agora de uma forma limpa, coerente e profissional. Sendo muito vasto, o sítio tornara-se pouco intuitivo. A BlendUp sugeriu que se dividisse em dois. Assim, grande parte dos conteúdos da antiga Meloteca estão ainda à espera de serem inseridos numa nova plataforma, o Musorbis.

  1. Destaques

Um dos destaques desta década é o aparecimento de excelentes músicos em várias regiões. Não só de Lisboa, Porto, Aveiro e Coimbra mas também de concelhos situados nos “territórios de baixa densidade” em que as bandas filarmónicas têm um importante papel social, cultural e educativo. Com a formação adquirida por muitos professores das escolas de regiões mais periféricas, o nível pedagógico elevou-se também, não sendo assim de estranhar que alunos seus sejam premiados em concursos nacionais e internacionais.

Destaco também o papel da música como factor de desenvolvimento social. O projeto Geração, baseado no El Sistema, idealizado por José António Abreu na Venezuela, começou em 2000-2001 em Portugal. De um bairro do concelho da Amadora foi crescendo e, na década seguinte, alargou-se a outros concelhos como Amarante, Mirandela, Murça e Coimbra. No Porto, “Música para todos”, parceria entre a Câmara Municipal do Porto, o Curso de Música Silva Monteiro e o Agrupamento de Escolas do Cerco do Porto, procura o desenvolvimento e o sucesso escolar através da música. Já o projecto “Orquestra de Câmara Portuguesa Solidária” dá a pessoas com deficiência a oportunidade de aprender música e de se expressar através dela. Em 2015, ficou concluído o apoio ao projecto-piloto de intervenção junto de 50 pessoas com deficiência. O projecto, promovido pela Orquestra de Câmara Portuguesa, em parceria com a Cercioeiras, foi seleccionado para receber um novo apoio financeiro para um período de três anos na 2.ª edição do concurso PARTIS, da Fundação Calouste Gulbenkian.

  1. Memória e comemoração

Entre as figuras da música que partiram durante a década destaco dez: Sequeira Costa, Emmanuel Nunes, Clotilde Rosa, Fernando Laires, Vasco Barbosa, Vitorino Matono, José Lopes e Silva, Álvaro Malta, Elvira de Freitas e Magdalena Van Zeller. No Ano Beethoven e Ano Internacional do Som, ocorrem-me aniversários redondos, entre outros: 10 anos da Glosas; 20 anos do Teatro Helena Sá e Costa, do Remix Ensemble e da carreira de Ana Laíns; 30 anos da morte de Alain Oulman, 40 anos das Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian, do Departamento de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa, da Canto Firme e da morte de Frederico de Freitas; 50 anos do Grupo de Música de Câmara de Lisboa, de Bernardo Sassetti, e fim dos festivais de música da Gulbenkian; 60 anos de Miguel Azguime e da morte de Luís Costa; 70 anos de Fernando Lapa e de Paulo Brandão, da morte de Tomás Borba, Guilhermina Suggia e António Tomás de Lima, e da criação do Hot Clube de Portugal; 80 anos de Jorge Peixinho, António Victorino d’Almeida e da Sociedade Coral de Lisboa; 90 anos de Clotilde Rosa e da morte de João Arroyo; 100 anos do Teatro Thalia e da morte de Miguel Ângelo Lambertini.

  1. Objectivos comuns

Confirmei que a Meloteca e o MPMP têm interesses e práticas em comum:

  • o remar contra a maré do esquecimento a que a sociedade portuguesa tem votado grandes compositores, professores, investigadores. O conhecimento da música em Portugal pode ser divulgado de uma forma cada vez mais competente e com honrosas colaborações de figuras destacadas da música e da musicologia;
  • o valor que reconhecemos à língua portuguesa como veículo expressivo. A Língua tem no projeto Meloteca um lugar fundamental patente na utilização de poesia, literatura, provérbios, adivinhas, lengalengas, trava-línguas em recursos musicais para a infância;
  • o entendimento da música como dimensão fundamental do ser humano. Este aspecto está subjacente às numerosas propostas de educação e musicoterapia do Sítio da Música;

Destaco, para terminar, aspectos inspiradores do projecto MPMP:

  • o facto de ter começado com jovens que terminavam o Conservatório;
  • o estímulo à criação musical através do Prémio Musa, segunda edição em 2020;
  • a apresentação de música portuguesa no estrangeiro, nomeadamente no Brasil;
  • a cooperação com outros agrupamentos, como o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa;
  • a estreia moderna de obras de nomes (mais ou menos) esquecidos da música portuguesa (Marcos Portugal, João José Baldi, Joaquim Casimiro Júnior, Francisco Norberto dos Santos Pinto, Francisco de Freitas Gazul e Augusto Machado) através do Ensemble MPMP;
  • a sã convivência da história com a actualidade, na interpretação e edição de obras do passado e do presente.

Em Portugal, revistas de música erudita e editoras de livros e CDs não têm vida fácil. Ao projecto MPMP desejo vida longa e, à sua equipa, que continue a divulgar o património musical e a promover, com a mesma paixão, novos caminhos.

 

Felix Duarte
violinista

Muitos parabéns a toda a equipa da Malta Popular Muito Porreira, que se entregou e que realizou um fantástico trabalho musical, nomeadamente na vertente do repertório português, que até então esteve muito escondido e pouco explorado. Graças ao MPMP muita boa música foi resgatada das prateleiras e pôde finalmente ser interpretada e ser dada a conhecer ao nosso público. Com muito prazer e orgulho pude participar em alguns dos seus projectos, conhecendo e trabalhando obras que eram por mim desconhecidas, com as quais pude enriquecer a minha bagagem e experiência musical. Por último, quero destacar que sempre tive a sorte de partilhar esta boa música com colegas e amigos com quem convivi durante a minha formação artística, que, para além de excelentes músicos, são também pessoas incríveis.

Muitas felicidades a todos os membros… e que o MPMP se prolongue por mais dez anos na companhia desta família tão especial!

 

Gerson Batista
compositor

O MPMP e a revista Glosas vieram prestar um contributo importantíssimo para o panorama da arte e da música contemporânea do nosso país, tendo funcionado como veículos de informação e de comunicação entre os músicos e o público. Não só sinto que o MPMP e a Glosas não cortam nenhuma raiz com o passado (muito pelo contrário), como sinto ainda os efeitos positivos de um aumento de oportunidades e de actividades para a nova música em Portugal. No meu caso, algumas das minhas partituras não existiriam ou não estariam publicadas sem o esforço do MPMP. Só posso esperar que continuem o bom trabalho e que inspirem muitos mais a juntar-se à causa.

 

Helen Gallo
pianista e professora

Contribuí para a Glosas nas edições 7 a 10, publicadas entre 2013 e 2014, período no qual também comecei a acompanhar as iniciativas do MPMP. Foi um momento bastante especial e particular em minha trajetória, pois naqueles exatos anos atuava como professora de História da Música Brasileira em um curso de Graduação em Música na cidade de São Paulo. A possibilidade de escrever sobre a produção musical brasileira do presente e do passado na Glosas foi uma honra, tanto pelo cuidado com o projeto gráfico e o esmero no editorial, quanto pela qualidade e relevância dos assuntos e temas abordados na revista.

A missão da Glosas e do MPMP de preservar e resgatar a produção musical dos países lusófonos, em especial de Portugal e do Brasil, é fundamental para a compreensão da cultura desses países. Como brasileira, entendo que ainda há muito o que se descobrir na história musical de minha terra natal, e não só isto: ainda há muito o que se refletir sobre o que é, de fato, ser brasileiro, e esta análise pode ser realizada a contento a partir da música aqui produzida. Observo que, nesta última década, houve um movimento bastante profícuo de resgate da produção musical brasileira dos últimos dois séculos, com ênfase também nas composições contemporâneas, seja por meio de registros fonográficos, seja por intermédio de pesquisas musicológicas, publicações, movimentos coletivos e iniciativas individuais, os quais têm desvelado à comunidade musical a vultuosidade de nossa produção. Desta feita, só posso comemorar a vigésima edição da Glosas, que brilhantemente tem contribuído neste sentido. Parabenizo a iniciativa do MPMP e desejo-lhes muito mais décadas de sucesso nesta militância em prol da memória musical lusófona!

 

Isabel Rei Samartim
guitarrista e professora

Nem sempre é fácil comprar livros e informação em português a partir da Galiza. Como professora galega, a morar em Compostela, a aventura da aquisição de cultura portuguesa é uma fonte inesgotável de anedotas. Por isso, a Glosas tem sido para mim uma janela aberta à música portuguesa de enorme valor, pois nem sempre é fácil, mesmo na era da internet, termos conhecimento da nossa história comum atlântica.

De ótima edição, a Glosas chegou-me sempre no momento certo e cheia de maravilhas que não teria conhecido por outros meios. Para mim são fundamentais os trabalhos históricos sobre músicos portugueses, desde Dom Dinis até Carlos Franco, passando por Frederico de Freitas e Fernando Lopes-Graça. A Glosas oferece com a passagem do tempo uma constelação de compositores que na Galiza precisamos de conhecer mais, como Frei Manuel Cardoso, Gaspar Fernandes, Carlos Seixas, Marcos Portugal, Vianna da Motta, António Fragoso, Francisco Eduardo da Costa, César Guerra-Peixe, Ricardo Ramalho, Fernando Corrêa de Oliveira, Gabriel Morais de Sousa, Alfredo Keil, Joly Braga Santos, António Victorino d’Almeida, Cândido Lima…

Assim como João Domingos Bomtempo travou relações, em Paris, com o editor e guitarrista de possível procedência galega Salvador Castro de Gistau, as relações galegas e portuguesas, outrora normais, deveriam encher e complementar a nossa cultura comum. Sem elas, a vida é incompleta.

Gostei especialmente dos números dedicados às mulheres músicas, como o tributado à Clotilde Rosa, que veio acompanhado de um antigo número da revista Arte Musical com trabalhos sobre a cantora Angelica Catalani e os concertos em Vila Franca de Xira, que também me levaram às pesquisas sobre Agostinho Rebel Fernandes, guitarrista que depois publicaria dois métodos de guitarra em Lisboa. Os nomes e trabalhos de Constança Capdeville, Elisa Lamas, Valdilice de Carvalho, Carla Caramujo, Maria João Serrão, Madalena Moreira de Sá e Costa, Guilhermina Suggia, Maria Ana Josefa, Nella Maissa, Sofia Lourenço, são do maior interesse e precisamos ainda de mais informação sobre estas e outras mulheres cuja dedicação à arte musical foi, tem sido, e é, centro das suas vidas.

Adorei também as entrevistas ao João Paulo Santos sobre a criação de música portuguesa e a realizada à orquestra Divino Sospiro, especializada na música do século XVIII. As informações sobre música brasileira: a umbanda, Régis Duprat, Gilberto Mendes, as irmandades em Minas Gerais, José Siqueira, as viagens ao Brasil. As recensões dos ensaios do Louis Saguer sobre a defesa da música portuguesa, o estudo da correspondência entre Lopes-Graça e Eugénio de Andrade, o artigo sobre a relação entre Lopes-Graça e Guerra-Peixe, sobre Saramago e a música…

São um farol orientativo as secções de discografia. E aliciantes as descobertas na Biblioteca Nacional, as pérolas da música antiga em Portugal e o laboratório de iconografia musical. Para mim foram também importantes, e deviam aumentar, as informações sobre guitarra ou viola, como o artigo de Manuel Morais sobre Emilio Pujol na sua etapa lisbonense e as notas sobre a tiorba de Matheus Buchenberg.

O que realizou ainda a Glosas nestes anos foi entrar em contato com autores e autoras galegas e abrir espaço para as suas colaborações. Eu própria tive a honra de apresentar o disco gravado com a música para viola da Madeira e adorei ler o artigo do meu colega José Luís do Pico Orjais sobre o seu estudo da música de autores portugueses em Pontevedra. Explorar as relações galego-portuguesas na música, fora do conhecido âmbito medieval, é do maior interesse.

Por palavras do António Pinho Vargas, publicadas no número da Glosas dedicado à sua obra, “não tenho nenhum interesse em discutir nenhuma questão estilística, técnica ou mesmo estética”. Com efeito, não é essa a questão, mas o conhecimento e divulgação da música portuguesa, empresa para a qual, felizmente, nasceu o MPMP. Longa vida à Glosas!

 

Otto Solano
assinante MPMP
                                          

Há trinta e oito anos, Humberto d’Ávila escrevia na sua crónica periódica “Ponto contra Ponto”, no jornal Diário de Notícias (22/07/1982), que os portugueses, na generalidade, não conheciam a sua música nem os seus compositores, e que, salvo raríssimas excepções, ela não fazia parte da programação dos concertos públicos.

A partir desta data, e nas décadas que se seguiram, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e de intérpretes nacionais e estrangeiros, foram editadas, de início em LP e depois em CD, algumas das obras mais significativas dos nossos compositores, e na rádio Antena 2, além da transmissão ocasional desses registos sonoros, musicólogos reconhecidos apresentavam programas didácticos de grande interesse sobre esta matéria.

Para que, porém, a divulgação da nossa música seja mais abrangente, é necessária a sua apresentação em concertos públicos, comentados, periódicos e apelativamente anunciados em tempo útil.

O MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, foi fundado há precisamente dez anos e, conforme a sua apresentação na revista Glosas n.º 1, os objectivos propostos foram o de realizar actividades que divulgassem a nossa música não só direccionadas ao público melómano mas que também despertassem o interesse de um público em geral.

Durante estes dez anos, e mercê do empenho e do trabalho pessoal e colectivo dos seus fundadores e colaboradores, aqueles objectivos foram sobejamente alcançados.

Nunca no nosso País foi editada tão vasta discografia de compositores esquecidos do passado, obras completas e obras de compositores contemporâneos, nem editadas tantas partituras como as que o MPMP promoveu durante este período de tempo.

A revista Glosas, além dos contributos de muitos colaboradores com trabalhos de grande interesse didáctico, entrevistas a musicólogos e compositores do nosso tempo, apresentou sempre como tema principal de cada número uma biografia bem documentada de um compositor nacional. Julgamos que o Ensemble MPMP e a sua actividade concertante, desde a sua formação, foi o acontecimento mais representativo e de maior importância que este Movimento introduziu no nosso panorama musical, salientando o caso inédito de se dedicarem quase exclusivamente à execução de obras de compositores portugueses.

O Ensemble MPMP tem-se apresentado periodicamente por todo o país, oferecendo concertos comentados; instrumentistas convidados interpretam obras do passado e inéditas do presente, também comentadas; e nas épocas festivas são já tradição a execução, nos locais apropriados, de composições com elas relacionadas.

Fazendo uma revisão mais pormenorizada das suas actividades, consultando as edições da revista Glosas, relendo os programas dos seus concertos e outros eventos e visitando a sua página na internet, podemos dizer, sem pecar por exagero, que o MPMP divulgou mais música portuguesa nestes seus dez anos de existência do que aquela divulgada em tempos passados, valorizando assim sobremaneira a nossa cultura em geral, e musical em particular.

É de realçar também o papel relevante que as actividades do MPMP representam para a cultura ibérica, da qual, no âmbito das suas diversidades, Portugal é componente soberanamente integrante.

O MPMP conquistou lugar privilegiado no espaço da nossa cultura musical, pelo que a sustentabilidade da sua continuidade é um imperativo nacional e patriótico.

 

João Dionísio
técnico de som

Conheci o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa em meados de 2013, através do editor de partituras e compositor Luís Salgueiro. Desde cedo, percebi a importância deste projecto e de como ele, ao longo do tempo, teria tudo para ganhar uma grande dimensão. O seu impacto e a sua importância tornaram-se fundamentais para os que nele estão envolvidos, para mim e para a música em Portugal. É um projecto fundamental para a preservação daquilo que é nosso enquanto povo português. Por este motivo, decidi embarcar neste movimento enquanto profissional da área do som.

Desde 2017, trabalho regularmente com o MPMP, e observo a sua evolução e o empenho de todos à sua volta. Todos têm mérito e brio no que fazem, e por isso cada projecto é notoriamente melhor do que o outro.

Gostaria de agradecer a oportunidade e a confiança que depositaram em mim, para podermos realizar, por exemplo, o CD do compositor Nuno da Rocha: até à altura foi um dos projectos mais ambiciosos e difíceis que realizei, tanto pela música em si como pela formação de orquestra.

Por último, desejo um abraço a todos envolvidos e votos que os próximos dez anos sejam ainda mais prolíferos. Muito obrigado!

 

Octávio dos Santos
escritor e jornalista

Eu “voto” no MPMP!

Durante muitos anos, o meu amor pela música – por qualquer tipo de música, fosse ela antiga ou moderna, simples ou complexa, desde que tivesse qualidade, que agradasse aos meus ouvidos e à minha mente – expressou-se por apenas a ouvir continuada e dedicadamente. Depois, esse amor passou a comportar igualmente escrever, ocasionalmente, sobre ela. Até que, já não satisfeito com apenas esses dois modos, procurei também compô-la, criá-la, fazê-la, transpô-la dos sonhos para a realidade, de papéis para suportes tecnológicos. No que não tive sucesso…

…E tal notou-se logo no início da década de 80, quando tentei aprender a tocar guitarra; tive algumas lições, pratiquei algumas vezes, mas cedo ficou evidente que eu não tinha suficiente capacidade – nem persistência – para me tornar proficiente naquele instrumento; posteriormente, ocorreu-me que o resultado talvez tivesse sido diferente se tivesse experimentado a bateria… Mais tarde, curiosamente, o meu irmão (mais novo sete anos) tornou-se um teclista muito competente, tendo durante algum (bastante) tempo seguido uma carreira de músico semi-profissional integrado num trio (com um guitarrista e uma vocalista) que tocava frequentemente em bares e em casamentos (encontrei-os em pelo menos um matrimónio em que fui um dos convidados); ainda experimentei numa ocasião escrever canções com ele, utilizando poemas e melodias (estas compostas e “executadas” somente no meu cérebro) da minha autoria, mas nada de concreto e de duradouro resultou dessa tentativa.

A minha abordagem em relação à música, e em especial à música portuguesa, e mais em especial ainda à música portuguesa dita “clássica”, mudou quando escrevi o meu (primeiro) romance Espíritos das Luzes, que concluí em 2005 mas que só consegui publicar em 2009. Tratando-se de uma obra no género fantástico, talvez ficção científica, quiçá história alternativa, que assenta porém em ocorrências e em figuras históricas do século XVIII nacional, aproveitei este meu projecto para, enfim, descobrir os trabalhos de (alguns) compositores portugueses setecentistas, que assim me proporcionaram uma autêntica e adequada “banda sonora”. Foi uma série de revelações. O que ouvi maravilhou-me, deslumbrou-me, e destaco: os Te Deum de António Teixeira e de João de Sousa Carvalho – e ainda As Variedades de Proteu (com libreto de António José da Silva!) do primeiro e Testoride Argonauta do segundo; as sonatas de Pedro António Avondano, Francisco Xavier Baptista e de Carlos Seixas – e o seu Concerto, redescoberto e finalmente conhecido o seu autor, uma das mais belas melodias que jamais ouvi e que seria, sem qualquer tipo de dúvida, a ilustração auditiva perfeita de um eventual trailer de um filme que se fizesse do meu livro; as obras sacras – missas, responsórios, Stabat Mater – de João Rodrigues Esteves e de José Joaquim dos Santos; e, principalmente, acima de todos, Francisco António de Almeida, cuja oratória La Giuditta teve um tal impacto em mim que decidi fazer do seu autor uma personagem do meu romance, incluí-lo no elenco daquele, desempenhando um papel (aparentemente) diminuto mas, na verdade, decisivo no desenlace.

De Espíritos das Luzes resultaram várias ideias para iniciativas, para projectos, e o mais importante teve e tem a ver com música: a reconstrução virtual, utilizando as ferramentas da computação gráfica, do Teatro Real do Paço da Ribeira, ou Ópera do Tejo, por uma equipa que eu formei; os pressupostos e os passos fundamentais (os iniciais e os outros) desse processo foram por mim descritos no artigo “Estrela cadente: recordando e recriando a Ópera do Tejo”, publicado no n.º 8 da Glosas, em Maio de 2013. O extraordinário edifício, que realmente só existiu durante cerca de seis meses, pois foi inaugurado em Abril de 1755 e destruído pelo terramoto de Novembro seguinte, é um dos cenários em que se desenrola a acção daquele meu romance, mais concretamente no quarto capítulo, intitulado “Etéreas flores”; aliás, o meu livro quase poderia ser considerado, de certa forma, como uma ópera em oito actos (oito capítulos). Porém, é uma Ópera do Tejo imaginária situada numa Lisboa imaginária e num Portugal imaginário. Na reconstrução digital, no entanto, procurou-se determinar o mais aproximadamente possível, com todas as poucas informações que restaram até aos nossos dias e que foi (tem sido) possível reunir e validar, as correctas características arquitectónicas, técnicas e estéticas da monumental “casa da música”. Isso foi feito logo na primeira apresentação do projecto e do (primeiro) protótipo que a equipa produziu – num congresso que decorreu em Novembro de 2005 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa  (FLUL) – e continuou em eventos posteriores realizados no nosso país e no estrangeiro. Todavia, considerei que seria interessante e mesmo relevante reconstituir não só a Ópera do Tejo mas também a música que se tocou lá dentro; três óperas (espectáculos) terão sido encenadas, e a primeira foi Alexandre na Índia, com música (nova) de David Perez sobre um libreto (“velho”) de Pietro Metastasio. Foi muito importante ter como complemento musical um excerto daquele trabalho (a abertura) na nossa intervenção na FLUL, na forma de uma gravação cedida pela Antena 2 de um concerto ocorrido em Lisboa a 1 de Novembro de 2005, conduzido pelo maestro Jorge Matta…

…Maestro que, posteriormente, eu contactei para propor que envidássemos esforços para se proceder à gravação integral de Alexandre na Índia e à difusão comercial dessa gravação. Dessa iniciativa fiz uma breve descrição no meu anterior artigo na Glosas, incluindo a recusa por parte de várias entidades e empresas (tais como a Generali e a Pirelli, que então não nomeei) em prestarem os apoios necessários. Porém, não foi apenas a música de David Perez que tentei transpôr para discos. Fiz o mesmo, e mais uma vez com a colaboração do maestro Jorge Matta, com obras, em especial a cantata Gloria, Fama e Virtú, de António Teixeira, sobre quem escrevi um artigo, publicado no n.º 57 da revista Tempo Livre, em Março de 2010, intitulado “O músico de ‘Deus’ e do ‘Diabo'”; novamente, entidades públicas e empresas privadas (como os CTT e a Tabaqueira) não quiseram colaborar. Pelo que decidi “deixar” a música de Setecentos e passar para a de Oitocentos, e, mais concretamente, para um artista que, pensava eu, poderia suscitar maior atenção, e, logo, maiores patrocínios: Alfredo Keil. Assim, contactei a Câmara Municipal de Sintra, a Mineraqua (empresa proprietária das águas Castello, para as quais Keil compôs uma valsa), o Museu da Música (que tem no seu vasto espólio instrumentos e partituras que foram daquele compositor), a Numérica (companhia discográfica que detinha a concessão da colecção PortugalSom), a RTP / Antena 2 (que tem registos de espectáculos com músicas de Keil), o Teatro Nacional de São Carlos… Praticamente todas me disseram ter interesse pelo projecto de gravar mais obras do autor d’A Portuguesa mas não outro elemento fundamental: dinheiro. Este, no entanto, não faltava à Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, que dispunha de um orçamento de dez milhões de euros. Não poderia e deveria o regime instaurado a 5 de Outubro de 1910 homenagear o homem do qual se apropriara da sua marcha para desta fazer o novo hino nacional? Em 2010 falei sobre o assunto com duas pessoas ligadas à CNCCR… sem resultados. Todavia, uma outra havia com especial obrigação na divulgação dos trabalhos de Keil: nem mais nem menos do que a então Ministra da Cultura Gabriela Canavilhas que, enquanto pianista, participou na gravação, com a soprano Ana Ferraz, do único disco então existente, editado em 1999, com peças daquele artista, intitulado Três Canções Portuguesas / Seis Melodias / Peças para Piano. Uma década depois, continuam por editar e divulgar junto do público em geral – tanto português como estrangeiro – as obras maiores de Alfredo Keil, que incluem quatro óperas: Susana, Irene, D. Branca e Serrana; a marcha A Portuguesa na sua versão integral; as cantatas Pátria, As Orientais e O Poema da Primavera; os poemas sinfónicos Uma caçada na Corte e A Índia; o Hino do Infante D. Henrique e a Marcha de Gualdim Pais; a valsa Salúquia, a bela moura; música de cena composta para a tragédia histórica A Morta, de Henrique Lopes de Mendonça; os esboços da ópera Simão, o Ruivo.

Contudo, a frustração que senti pelos sucessivos fracassos das minhas tentativas – ingénuas, sem dúvida – viria a ser dissipada na totalidade pela oportuna formação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. É necessário muito mais do que boas intenções por parte de amadores como eu: exige-se um trabalho colectivo e criativo constante de recuperação, execução e difusão, realizado preferencialmente por equipas de profissionais com capacidades, competências, conhecimentos, e que em simultâneo sintam a paixão indispensável que os motive em permanência para a (re)descoberta de uma componente fundamental da cultura nacional. Num contexto em que o Estado continua a desiludir e o sector empresarial se revela, infelizmente, frequentemente indiferente, é óptimo que organizações emanadas da sociedade civil façam o trabalho indispensável, nesta área como em outras.

É por isso que, com entusiasmo, eu “voto” no MPMP!

 

Ricardo Santos
fagotista

De todos os projectos de música em Portugal nos últimos anos, o MPMP é sem dúvida um exemplo de multidisciplinaridade e de perseverança num país que, por vezes, trata mal a sua produção nacional e o seu património artístico. O MPMP é fruto da visão de um grupo de pessoas que tenta recuperar património do passado e lançar sementes para o futuro. Parabéns ao MPMP por mais um aniversário. São dez anos de muita luta e trabalho pela valorização do universo musical e cultural português. De minha parte só tenho a agradecer pelos extraordinários desafios pelos quais temos passados juntos. Têm sido verdadeiras oportunidades de exploração artística.

 

Rui Ramos Pinto Coelho
gestor

Tenho uma enorme admiração pela equipa de jovens que criou e geriu o MPMP nestes primeiros dez anos. Admiro a extraordinária capacidade de realização das inúmeras iniciativas, de grande qualidade, em prol da divulgação da música erudita portuguesa: bases de dados, concertos, palestras, edição de livros, CDs e da revista Glosas. Meu Deus, até uma ópera eles conseguiram produzir!

Não tenho dúvidas em afirmar que o MPMP foi a instituição que mais resultados teve na defesa e promoção do património musical português.

Enquanto neto de um dos muitos artistas (o maestro e compositor Ruy Coelho, autor do bailado A princesa dos sapatos de ferro e de muitas obras emblemáticas) que o MPMP não deixou silenciar, tive a honra de colaborar com esta plataforma e de ficar para sempre reconhecido pela sua acção. Viva o MPMP!!!

 


Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

A cultura enquanto glosa

Neste brevíssimo ensaio, parto do sumário que descreve oficialmente a revista cujo décimo aniversário celebramos: «A Glosas é uma revista dedicada à dinamização e divulgação dos patrimónios musicais de todas as épocas dos países de língua portuguesa, com especial ênfase na música de tradição erudita ocidental».

Quando percorremos longitudinalmente os rastos deste projecto, descobrimos vários motivos para discutir o que é isso que denominamos de «património». Essa observação responde, com alguma clareza, a uma dúvida esperada. Estamos perante um projecto que se transcreve em estratégias de musealização, contexto em que lógicas como «conservação», «guarda», «restauro» ou «reconstituição» são decisivas? Não parece que este perfil possa resumir esta aventura editorial. Às aproximações a compositores e obras do passado, sucedem-se entrevistas com compositores vivos; evocações de compositores recentemente desaparecidos cruzam-se com testemunhos vivos dos que com eles deram corpo ao acontecimento musical; intérpretes de hoje para música de ontem; músicas e músicos nos trânsitos da lusofonia, em todos os seus estádios históricos; compositores de hoje que escrevem sobre compositores de outrora. Este jogo de escalas conduz-nos à evidência de que este tipo de publicação periódica pode ter um lugar decisivo nos processos de construção cultural, em particular no quadro de uma dinâmica determinante: a transmissão.

Como observou Jan Assmann (2004), a necessidade de tradição é documentável desde muito cedo, nos processos de sociogénese. Os grupos humanos desenvolveram toda a espécie de recursos mnemotécnicos e sistemas de registo para facilitar o acesso posterior a algo de descoberto, produzido e adquirido. A perspectiva é, aqui, antropológica, desalinhada das formas ideológicas que reduzem a tradição a modalidades de conservação da autoridade e de limitação da inovação. Talvez seja interessante prestar atenção aos étimos latinos do termo «tradição» (Valliere 2005).  Tradere refere-se a algo que se dá, se vende ou se deixa para alguém, um artefacto ou um bem espiritual, numa operação de mudança de proprietário – daí a necessidade de um contrato, de um acordo matrimonial, de um testamento, ou de uma ação de venda ou oferta. Transmittere põe em destaque o lugar do herdeiro – individual ou coletivo –, no quadro de uma acção de transmissão concreta.

Descobrem-se, assim, três elementos fulcrais na experiência da tradição ou transmissão cultural. É necessário um suporte ou veículo – conhecimento, costume, ritual, convenção social, norma jurídica, fórmula, receita, etc. –, que atravesse o tempo e os espaços numa trajectória entre o passado e o presente. Mas essa dimensão «material», «exterior», depende de dois actos humanos. O acto de transmitir e o acto de receber. Transmissão, recepção, veículo ou suporte tecem esta modalidade de acção, pela qual os grupos humanos incorporam fragmentos da dotação cultural dos que os precederam, mobilizando-os para a construção da realidade.

A tradição organiza diacronicamente linhas de significação que são mobilizadas para a superação do abismo que seria a necessidade permanente de tudo recomeçar. As noções de tabula rasa e de cultura são, assim, incomensuráveis. Mas também é certo que a ideia de que a tradição possa subsistir como a transmissão de um corpo imóvel não se comprova na vida das culturas. A tradição vive da necessidade de um processo de recolocação e reeleição, para que um dado testemunho recebido faça, hic et nunc, a sua «prova de vida». Os «fundamentalismos» ou os «tradicionalismos» consistem, precisamente, na pretensão de afirmar o carácter a-histórico do que é legado e recebido.

Essa recolocação e essa reeleição implicam as competências interpretativas humanas. O «conflito das interpretações» e o «conflito das transmissões» são fenómenos contíguos. A tradição não exclui o conflito, porque o seu interior é polifónico. Em cada momento, nesse tecer da cultura por meio da transmissão e da recepção privilegiam-se determinadas vozes e modulações. A construção da continuidade das tradições é, como observou Gadamer (2011), uma operação marcada pela parcialidade.

Os mais recentes estudos sobre a vida das culturas voltaram a olhar para as tradições, privilegiando o seu médio e longo curso. Esta seria a escala própria de uma cultura. A cultura adquiriu, assim, um sentido distributivo: distribuição no espaço e no tempo. Alguns dos modelos de compreensão da cultura não incorporam este sentido distributivo. Para alguns, a cultura é um estado de espírito comum a todos os indivíduos e agrupamentos que a constituem. Apresentando-se estável no tempo, a sua distribuição no espaço é confinada aos limites da geografia dos grupos sociais. Algumas correntes recentes da antropologia procuraram mostrar a impertinência da ideia de tradição, sublinhando que as culturas são tecidos frágeis, constantemente em recomposição, dependentes de negociações entre poderes e actores diversos. Esta crítica ajudou a desconstrução das concepções de cultura como totalidade coerente. Desta concepção de cultura, enquanto totalidade homogénea, decorria uma concepção linear de transmissão, como um processo de impregnação quase passivo.

No seu inventário das críticas à noção de cultura, Christoph Brumann (1999) recolheu numerosos documentos acerca da heterogeneidade interior às culturas: determinado mito tido por fundamental, apenas conhecido por uma pequena parte das populações; comportamentos divergentes em relação a normas tão estruturantes com as que regulam as aproximações sexuais; interpretações contrastantes de determinado imperativo religioso; ritos identificadores para uns e desconhecidos para outros. Alguns investigadores usaram ferramentas estatísticas para mostrar como as crenças ou os saberes, que descrevem certas culturas, se encontram precariamente distribuídos, inviabilizando o pressuposto do consenso cultural. No quadro da sua antropologia da globalização, Arjun Appadurai (1996) observa que as noções de cultura mais usadas não dão suficiente atenção às mundividências dos grupos marginalizados ou dominados.

Ao percorrer estes dez anos de edição da revista Glosas – mesmo situando-se no âmbito do que, na falta de melhor vocabulário, se designa por «música erudita» ocidental –, torna-se evidente duas tendências, neste trabalho de transmissão cultural: por um lado, a afirmação de uma memória plural, na sua geografia e nas suas linguagens; por outro, uma particular criatividade nas iniciativas de rememoração, contexto em que o que se descobre como o passado é permanentemente recriado pela necessidade de releitura.

Aprendemos essa lição de Maurice Halbwachs (1994). De forma inédita, nas primeiras décadas do século XX, o autor sublinhava que o acto individual de rememoração interage com os «quadros colectivos da memória». Nenhuma lembrança pode existir sem a sociedade. Assim, às dimensões mecânicas da memória, Halbwachs juntava a história e a interacção social. Os quadros sociais da memória são, nesta concepção, estruturas dinâmicas que se ajustam às experiências do presente. Um determinado grupo social «esquece» o que deixa de ter pertinência na sua actualidade. Esses quadros correspondem a um universo de significações pertinentes para a vida presente do grupo e são integrados num trabalho de recriação, em função desse mesmo presente. Neste sentido, o presente não é apenas o receptáculo do passado, é também um lugar para a sua construção.

Hoje, o uso antropológico da categoria «memória» evita as «retóricas holistas» – ou seja, totalizações que visam designar conjuntos supostamente estáveis, duráveis e homogéneos. Nas múltiplas modernidades que conhecemos, marcadas por uma enorme erosão da memória enquanto autoridade, a tradição tornou-se um «lugar» de experimentação e invenção. Esse habitat cultural favorece a experiência da cultura como glosa, na medida em que o que nos precede é sempre recolocado, ressignificado, comentado, recriado.

Neste sentido, esperemos, pois, que a revista Glosas possa dar continuidade à sua própria natureza – glosar.

 


Referências

Appadurai, Arjun. 1996. Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. University of Minnesota Press.
Assmann, Jan. 2004. Religion und kulturelles Gedächtnis: Zehn Studien. München: Verlag C. H. Beck.
Brumann, Christoph. 1999. «Writing for culture. Why a Successful Concept Should Not Be Discarded.» Current Anthopology 40: S5-S6 [S1-S27].
Gadamer, Hans-Georg Gadamer. 2011. Wahrheit und Methode. Berlin: De Gruyter Akademie Forschung [1960].
Halbwachs, Maurice. 1994. Les cadres sociaux de la mémoire. Paris : PUF, 1994.
Valliere, Paul. 2005. «Tradition.»  In: The Encyclopedia of Religion, vol. 13, ed. by Mircea Eliade, revised and updated version by Lindsay Jones. New York: Macmillan Reference USA, 2005, 9267-9281.

 


Texto escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

10 depoimentos X 10 anos (III)

Andreia Pinto Correia
compositora

Breves reflexões desde Nova Iorque

Como compositora, inúmeras vezes sou abordada acerca dos títulos e possíveis fontes de inspiração das minhas obras. Sendo o alicerce de grande número das minhas composições de natureza literária, essa derivação é, na realidade, secundária. De facto, não se trata de música programática que acompanha uma narrativa específica e rigidamente pré-estabelecida, mas sim de um aproveitamento estrutural de uma ideia. Em suma, de uma inspiração secundária que serve como um motor, ou um catalisador para um desenvolvimento estrutural ou tímbrico, e que confere uma coerência e unidade à obra.

É claro que esta abordagem, e de uma forma geral a abordagem de um compositor em relação às suas fontes de inspiração, é bastante subjectiva, dando azo a interpretações distintas, não só em relação à própria intenção de escrita, como também a questões estéticas e até de natureza ética. Mas, neste contexto, falo da subjectividade de uma intenção de “portugalidade” na escrita e na recepção de obras de compositores portugueses em Portugal e no estrangeiro.

Vivemos, de facto, num mundo de globalização, no qual o acesso a gravações e vídeos em apenas fragmentos de segundos nos permite reunir uma enorme variedade e quantidade de informação acerca de música de diferentes épocas, géneros e continentes. No entanto, essa imediatização e multiplicação de informação cria novas barreiras, como o desaparecimento da importância contextual de uma determinada obra musical, performance ou género.

E esse tem sido o papel imprescindível que, ao longo desta década, o MPMP tem vindo a representar. Explorando distintas formas de co-habitação musical, construindo uma memória colectiva, oferecendo contexto e continuidade.

*O presente texto nasceu de uma intervenção proferida
na Fondation Calouste Gulbenkian em Paris, dia 21 de Outubro de 2015. 

 

Eli Camargo Jr.
compositor 

Quando se rarefazem as nossas expectativas positivas sobre o futuro, como no envelhecimento avançado, por exemplo, o nosso ser torna-se resiliente, revivendo subjectivamente o seu anterior poder de acção no mundo. Aliás, nesta palavra transparece a proximidade entre vida e memória, já que “reviver” é lembrar de forma intensa. O mesmo pode ser visto no declínio de sociedades inteiras, tantas vezes acompanhado da exasperada glorificação do seu próprio passado. Independente da amplitude de acção no mundo, este comportamento é transversal a indivíduos e sociedades; face à expectativa de não futuro, recorremos à memória como forma de resiliência.

Há nisto uma reafirmação profundamente subjectiva de individualidade, algo fugidio e complexo, que se poderia descrever como: “ser eu mesmo é lembrar-me daquilo que apenas eu me lembro”, ou talvez fosse mais correcto dizer “lembro, logo existo”, parafraseando cogito ergo sum. É um factor humano próprio da nossa residência neste mundo, onde, física ou subjectivamente, viver significa uma constante urgência de existir, utilizando as memórias para continuar a ser. Sob esta pressão, criámos Arte e Música, que seguem como portadores da nossa subjectividade em resiliência activa, ávida e constantemente recriada, absolutamente necessária para manter vivo o nosso mistério como seres: existir, agir, sentir e lembrar.

Parece-me inimaginável a complexidade do ancestral fluxo de obras de arte e memórias que a humanidade fabrica e mantém, mas na verdade a sua vida deve-se apenas a dois factores básicos: criadores e difusão. A revista Glosas faz parte deste rio, agindo em estímulo aos criadores e na sua difusão, nos seus estudos, fluindo numa zona cultural onde a carestia financeira não significa de forma alguma pobreza artística, mas sim territórios a explorar. Esta revista é um cadinho cultural do nosso tempo, na sua postura de chispas vivas que põe o nosso passado musical em fusão imediata com o presente, e promove os possíveis futuros com a força que só pode ter um ideal. Um ideal daqueles que se vêem apenas de longe em longe.

Compositor e músico brasileiro emigrado para Portugal em 1985, desde então vivi activamente a construção de escolas, o crescimento do ensino, o surgimento de gerações de criativos, e testemunhei Glosas como um valor maior também na vida da música portuguesa e brasileira. Sinto-me imensamente feliz de constatar a sua saúde e perspectivas de futuro. Esbocei este artigo ainda antes da pandemia, que só reforçou a minha ideia desta revista como única e imprescindível, também porque segue afirmando, como Sophia de Mello Breyener Andresen, que a obra do artista vem sempre dizer-nos que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência.

Toda a dramática cadeia de transformações que vivemos neste momento não vai apagar a necessidade cultural que faz desta revista uma resposta preciosa, e parece-me mesmo muito provável que esta necessidade cresça.

À Glosas os meus mais sentidos votos de sucesso e longevidade, e os meus sinceros parabéns. Um grande abraço a todos.

 

Elvira Archer
cantora

Congratulo-me por constatar que o MPMP, com a sua revista Glosas, tem seguido um caminho brilhante, comemorando já o seu décimo aniversário. Quando, há uns anos, soube deste empreendimento, fiquei entusiasmada com este grupo, ainda para mais formado por jovens músicos, que veio preencher uma lacuna no nosso meio musical: a promoção dos músicos portugueses, não só como executantes, mas também da música que compõem e da restituição do seu património tantas vezes ignorado.

Por este motivo, a ele recorri, através de Duarte Pereira Martins, para realizar, em colaboração com João Paulo Santos, a edição da canção inédita Tristeza, da autoria de José Vianna da Motta, com texto de João de Deus, que descobri no Rio de Janeiro. Esta obra para barítono, editada sob a direcção de Luís Salgueiro, e com desenho da capa do conhecido e eminente artista José Brandão, oferece o acompanhamento pouco habitual de solo de harpa e orquestra de arcos.

O pronto acolhimento que obtive a esta proposta e a sua óptima execução obrigam-me a agradecer e a desejar a todos os elementos desta associação a continuação, tão necessária, da sua actividade, com o maior sucesso.

 

Filipe Mesquita de Oliveira
musicólogo

A revista Glosas veio ocupar um espaço essencial no contexto da actividade editorial periódica de música erudita na comunidade de língua portuguesa, pelo que, desde já, felicito toda a equipa que levou a cabo este projecto. No que me diz respeito em particular, a investigação em musicologia histórica, é de sublinhar o facto de a Glosas permitir um acesso a toda a comunidade musical em geral de estudos de cariz académico, os quais, em grande parte dos casos, se encontram circunscritos a publicações científicas da especialidade. Os meus parabéns, portanto, à abertura de horizontes que a Glosas representa, sob todos os quadrantes musicais!

Felicito ainda o esforço editorial do MPMP em prol da recuperação e da divulgação da música erudita no espaço de língua portuguesa e a consequente recriação prática de tesouros musicais desde há muito arredados do conhecimento público!

 

Jakub Szczypa
colaborador do Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa / MIC.PT

A revista Glosas e, de uma forma mais abrangente, a entidade que a edita, o MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, são um importante projecto no panorama português que activamente contribui para a disseminação do trabalho de compositores e compositoras em Portugal, contrariando a tendência dominante que reduz a música portuguesa à sua vertente popular, turística e comercial.

O MPMP e a Glosas convidam-nos a (re)descobrir a composição erudita portuguesa, a sua história e a riqueza das criações contemporâneas, valorizando e dando projecção a uma arte que constitui um elo fundamental na identificação cultural desta parte da Europa.

No 10.º aniversário do MPMP e da revista Glosas desejamos à associação o maior êxito no desenvolvimento deste projecto de excelência, já tão enraizado no universo da música portuguesa.

É na continuação e colaboração entre entidades como as nossas, que se cria a oportunidade para tornar a música de compositores e compositoras em Portugal mais “visível e audível”, dentro do país e além fronteiras.

 

Joana Maia
fagotista

Para mim, o Ensemble MPMP é um projecto fantástico que me fez evoluir, tanto a nível profissional como pessoal. Já tive a oportunidade de trabalhar e de poder fazer música com excelentes músicos, desde maestros, instrumentistas e produção. É sempre com grande entusiasmo e profissionalismo que esta orquestra mostra o que vale e leva a música ao mais alto nível de execução. É um prazer fazer parte deste projecto!

Quero felicitar o MPMP por estes dez anos. Espero que, num futuro próximo, possamos festejar todos juntos.

 

Manuel Durão
compositor

O MPMP e a sua revista Glosas são projectos fundamentais para a cultura portuguesa!

Parabéns pela perseverança! Força para o futuro!

 

Mariana Calado
musicóloga

Os anúncios das temporadas de ópera no Teatro de São Carlos, no Coliseu ou no Teatro de São João, as notas biográficas de elementos das companhias líricas, os programas de concertos sinfónicos e de séries de música de câmara, as anotações sobre as actividades de intérpretes, maestros, orquestras, bandas militares e filarmónicas, associações diversas, estabelecimentos de ensino e sociedades de concertos, a análise das carreiras de compositores, a recepção de obras novas, a crítica musical e as reacções do público, a prática de música amadora, as novidades editoriais, os episódios mais anedóticos, os comentários gerais e debates sobre a actualidade musical e artística… em síntese, a vida musical portuguesa (porém, sobretudo limitada à dos maiores centros urbanos) foi encontrando eco nos jornais e revistas de música publicados no país ao longo do último século e meio. A estes conteúdos mais efémeros, informativos e de opinião, juntavam-se habitualmente artigos de história da música e de organologia, ensaios de teoria musical, sobre harmonia, acústica ou notação, biografias de compositores contemporâneos e do passado, entre outros assuntos que pudessem despertar o interesse do redactor, ou que estivessem ao seu alcance. Procuravam, assim, colocar a música portuguesa no quadro europeu e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação musical do leitor.

Entre as primeiras décadas do século XIX e o final da primeira metade do século XX (período ao qual tenho dedicado algum estudo neste campo), publicaram-se em Portugal cerca de três dezenas de periódicos consagrados à arte musical. Estes podiam assemelhar-se nos conteúdos, tipo de assuntos que tratavam e na estrutura, mas cada um constitui um documento único que permite ao investigador perceber melhor as vivências musicais coevas e conhecer as figuras que as protagonizaram. Porém, diversas circunstâncias marcaram o percurso dessas publicações. Dificuldade em manter leitores e assegurar o pagamento das assinaturas, ou de captar o apoio financeiro da publicidade, custos gerais de impressão e as variações do preço do papel (ou a falta dele), problemas na distribuição e divulgação, desintegração da direcção ou dispersão dos colaboradores foram alguns dos problemas que, em muitos casos, ditaram o encerramento prematuro, por vezes sem aviso, do projecto editorial. Excepção feita a alguns casos particulares como Amphion, A Arte Musical (tanto a que foi lançada por Lambertini em 1889, como a dirigida por Luís de Freitas Branco, de 1930), Echo Musical e Gazeta Musical, que, em comparação, se estenderam por vários anos e números, mantendo durante grande parte desse tempo a regularidade da periodicidade anunciada.

Vem isto a propósito da comemoração dos dez anos de Glosas, não como um aviso sobre alguma espécie de inevitabilidade dos destinos da imprensa periódica musical, mas porque Glosas já faz parte desta longa e diversificada história, partilhando com tantos outros periódicos, uns conhecidos ainda, outros entretanto caídos no esquecimento, ambições e perspectivas. Esta breve divagação só poderia terminar com os votos para que outros tantos anos, ou mais, se sigam, e para que os propósitos de descoberta, reflexão e discussão lançados no primeiro número continuem a ser praticados.

 

Rui Antunes
compositor e violinista

 

Ao Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa,
por ocasião do seu 10.º aniversário:

Muitos são os de inacção,
Ou os que se limitam, quais
Velhos do Restelo, à crítica da movimentação.

(Património de inércia herdou
A descendência da resiliência.)
Tantos mais são, no entanto, os que com paciência
Rumam à dignificação do que dos nossos ficou.

Mantendo o balanço entre o que ficou por conseguir,
Único, e o que hoje fica
São bastião para o que há de vir.

Por sua insigne luta, celebremos agora
Os feitos destes navegadores do presente
Rumando aos ideais desta frente,
Toldados pelos de outrora.

 

 

Salomé Monteiro

coralista

Foi num projecto belíssimo com o MPMP que cantei as palavras de José Tolentino Mendoça: “O teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços”. Talvez agora esse “silêncio” altere ainda mais do que os espaços. É aterrador perceber que todas as rotinas dadas como certas são grandes conquistas, muitas vezes inconscientes, de que vamos usufruindo na vida.

Muitos projectos do MPMP fazem parte, hoje, de memórias felizes, das quais tive o privilégio de usufruir. Talvez agora, mais do que nunca, sinta a falta de cantar. Quando digo cantar, incluo todas as boas sensações de fazê-lo com as pessoas de que gostamos e que admiramos. E também fazê-lo com o resultado que desejamos, e fazê-lo com toda a serenidade e brio que a música merece!

Neste mês de Maio festeja-se o aniversário do MPMP. É com enorme alegria que vejo um pouco deste projecto a crescer e a transformar-se numa referência musical em Portugal. É um enorme gosto fazer parte de uma equipa que trabalha com o objectivo de promover Portugal e os portugueses. Se ser português é compreender a palavra saudade, com muita saudade revejo os ensaios e concertos que, sem saber, foram os últimos por um período indeterminado.

Sem medo, aguardo as futuras oportunidades que virão. Sem medo e com orgulho, pois a casa MPMP dar-nos-á no seu regresso música cheia de ânimo, coesão e solidez. Dou o meu sincero agradecimento a quem fez nascer este projecto e a quem promove a cada passo o seu crescimento no panorama nacional.

O silêncio na música talvez faça parte da peça. Tal como eu acredito que este “silêncio” temporário faça parte de um caminho que teria mesmo de ser assim. Despeço-me com outras palavras que cantei, palavras de Bruno Munari: “Uma árvore é uma semente que cresce devagar e em silêncio.”

 


Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

Breve reflexão, inflexão e variação sobre música, arte e educação

Convidada a dar o meu testemunho sobre o projecto da revista Glosas e (ou) o que o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (MPMP) representa para mim, deparei com o desafio de reflectir sobre dois projectos maiores no que concerne à divulgação e promoção das actividades musicais e artísticas em Portugal nos séculos XX e, queremos nós, XXI. Debruçando-me amiúde sobre a música portuguesa, nomeadamente a música portuguesa contemporânea, e tendo necessidade de aceder a uma documentação base que, muitas vezes, se encontra dispersa, o projecto MPMP veio, de alguma forma, facilitar esse processo, pela forma como divulga e informa os seus utilizadores sobre alguns dos projectos e actividades que se vão realizando. Quando a minha investigação engloba não só a música como a arte e a educação, vejo-me muitas vezes confrontada com a inexistência de materiais e partituras impressas, registos áudio e vídeo das obras e propostas de projectos artísticos, de forma a poder reflectir sobre elas. Muitas vezes gentilmente cedidas pelos autores, quando a eles solicitadas, sou da opinião de que os materiais deveriam estar em acesso simplificado para que a sua utilização, o seu estudo e análise, se fizessem de forma mais rápida e eficaz.

Sabemos que o processo de edição em Portugal sempre careceu de incentivos e apoios. A publicação e distribuição de materiais referentes a novas obras, mormente aquelas representativas de uma actividade criativa em Portugal no século XX, carece de efectiva representação. Em outro, a via de disseminação de informação sobre este corpus de obras sempre foi escassa. Lembramos aqui as grandes instituições do nosso país no que concerne à prática de uma actividade artística, mormente a Fundação Calouste Gulbenkian com os seus Encontros de Música Contemporânea, um local de realização e fruição da nova música, mas… e os novos espaços de arte? E os novos géneros? E as novas propostas? Se houvesse uma atitude mais combativa no que concerne à edição e publicação de obra, o facto possibilitaria a sua utilização por parte dos estudiosos na matéria, mas também a intérpretes e melómanos, de forma a que o vasto património que possuímos, um património que se revela maior a todos os níveis da produção artística, se constituísse uma fonte de vida e conhecimento. Não deveríamos esperar pelo reconhecimento externo desse mesmo património para que somente aí seja relevado, institucionalizado, apoiado, e, por fim, reconhecido, estudado, divulgado e investigado.

Se já deparamos com algumas plataformas de divulgação de conhecimento, lembramos aqui o Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa (MIC), sob a coordenação de Miguel Azguime, plataformas que nos permitem um seu acesso e uma sua utilização, considero que este deveria ser alargado, não só em número, mas também no tipo de documentos nelas constantes. O esforço continua, neste caso, a ser tenaz. Contudo, e conscientes das reservas postas, questionamos se não se deveria constituir um arquivo digital nacional onde encontraríamos as partituras e os registos áudio e vídeo das obras, mas ainda documentação e informação existente, facto que promoveria a sua consulta, análise, divulgação e promoção, não estando os criadores e investigadores reféns do outorgar dos referidos materiais e espólios. Em outro, deparamo-nos com a não edição das obras, ou mesmo com a escassez de materiais disponíveis. Sabemos que em Portugal se promove uma realização única de obra, a sua estreia, sem, ousamos dizer, a indispensável edição da obra. De uma forma geral, as instituições, mas também os autores, clamam por realizações artísticas e por obra nova de forma a cativar um público, mas, quantas vezes, se mostram reféns de constrangimentos económicos, bem como de uma vontade esparsa, de uma inércia que somente mata e jamais vivifica. A nós de trabalharmos pela valorização de um património que é nosso, um património de inegável valor e relevância, mas que, como sempre, se encontra carente de realização.

É do conhecimento geral que o MPMP foi criado na urgência de dar voz a uma produção artística, promovendo a divulgação dessa produção e, consequentemente, de um património que de material e imaterial se mostra, se faz e diz. Este projecto, e à semelhança de outros dessa natureza, dá visibilidade à efectiva produção artística que se faz no nosso país e, que, fruto de condicionantes várias, se encontra esquecida nos arquivos das instituições e, quando não, dos próprios artistas. Quantos de nós já nos deparámos com um “procure aí”, um aí que se faz de uma pilha de documentos dispersos que exigem esforço e persistência constantes, um “procure aí” que se faz de um amontoado de informação que, de caótica, afasta a melhor das intenções. Acresce referir que a música portuguesa, tendo um número significativo de obras que são um importante legado para as gerações futuras, necessita urgentemente de ser classificado, promovido, divulgado e inserido em novos domínios do conhecimento, não só prático como teórico, bem como ao nível da ciência e das artes, mormente aqueles que englobam a formação e a educação dos nossos públicos. Neste sentido, propomos-mos uma constante reflexão sobre a música, a arte e a educação, bem como a forma de esta se colocar ao serviço de todos os agentes educativos.

Do conhecimento e reconhecimento dos referidos arquivos e espólios, de uma actividade investigativa que se queria divulgada, mas também de uma necessidade criativa que se fez maior, surgiu então um movimento, o MPMP, um movimento que aferiu da riqueza desses materiais, sejam eles as obras, os seus registos, as cartas, os escritos, etc., elementos que constituem o manancial de componentes de trabalho para criadores e investigadores. Sabemos que, de perdidos e esquecidos nos arquivos, se encontravam mortos. Desse achado, aperceberam-se então que “não se tratava apenas de descobrir tesouros antigos. Havia um trabalho fantástico a ser produzido por compositores da nossa actualidade”. Assim sendo, estavam criadas as condições para se pensar numa forma de os tornar acessíveis, por forma a serem estudados, divulgados e utilizados em novas formas de criação artística. Neste sentido, e numa reutilização, recriação, e, quando não, reformulação, enformaram-se novos espaços de arte que se revestem de um particular interesse para a formação e educação dos nossos públicos, mormente os mais jovens. Revisitados à luz dos novos meios de produção artística, alguns deles constituem-se em novos espaços de arte, dos quais os projectos multi e interdisciplinares, mas também o teatro musical e o teatro infantil, fazem parte.

Se a elaboração de um projecto multidisciplinar ou de um teatro musical supõe na sua origem a comunicação de uma ideia, onde conteúdos e linguagens, intenções e proposições, são abordados sempre com uma preocupação ética e estética, dada a sua natureza e extensão, por outro, a sua elaboração induz-nos o pensar que este pode ser usado como meio e ferramenta educativa. Neste sentido queremos aqui relevar o caso das propostas “A arca do tesouro” (2010), um pequeno conto musical da autoria de Alice Vieira e João Fazendo e música de Eurico Carrapatoso (editorial Caminho), mas também de “A menina do mar” de Sophia de Mello Breyner Andresen, com música de Fernando Lopes-Graça (numa primeira versão, 1961), de Bernardo Sassetti (numa segunda versão, 2019, edição da Valentim de Carvalho sob licença da Porto Editora), ou com guião e música de Edward Luiz Ayres d’Abreu (numa terceira versão, 2019, não editada). Se estas propostas e tipologias de obra são bastante apelativas para um público mais jovem, percebemos que, em realidade, são importantes para todos os públicos. Enformados enquanto objectos de arte, segundo princípios técnicos e estéticos distintos, promovem um conhecimento, uma formação e enformação, mas também a imaginação, a criação e a reflexão sobre um dizer, um fazer e uma arte.

Se ainda se verifica uma certa ambiguidade na definição de teatro musical, uma ambiguidade difícil de dissipar, já que as décadas de 60 e 70 do século XX foram um momento muito particular na história da música e da arte em geral, em outro devemos distinguir duas formas de abordar o seu conteúdo em música: o conteúdo história e o conteúdo referência. Com efeito, o conteúdo como resultado de uma história aproxima-nos subitamente da ópera, sendo que as histórias simbólicas e interpretáveis por mímicas ou bailados, as histórias contadas no domínio do abstrato da obra radiofónica, permitiram pôr uma espécie de filtro entre a história em si e o espectador. O conteúdo, quer se trate de uma ideia política, social ou existencial, direccionado a um público jovem ou adulto, será, acima de tudo, um denominador comum da representação e não um motor de uma acção ou de uma história; o conteúdo-referência. Na concepção da obra, está presente uma tomada de consciência pelo nascimento de uma compreensão actual, activa e social, solicitada junto do público que é obrigado a tomar posição devido à confrontação imposta com a sua realidade, seja ele uma criança, um jovem ou um adulto. Será que não o verificamos também nas obras mencionadas?

Em outro, o texto e a partitura, enquanto fontes de informação, sendo construídos a partir de histórias pré-enformadas, infantis ou outras, surgem como constituinte fundamental, sendo o elemento base para proceder a uma reflexão sobre conteúdos/mensagem e conteúdos/forma. Simultaneamente, o desenvolvimento da tecnologia e de novos meios tecnológicos de suporte à criação permite, através do uso de música ao vivo, mas também de outros elementos cénicos e musicais, pré-gravados ou não, desenvolver um outro tipo de acção em palco. O uso de um discurso de imagens, tornando-se recorrente, e factor indissociável ao desenvolvimento do “novo” teatro, encontra-se igualmente na produção de alguns autores portugueses que não lhe são, por isso, indiferentes. Veja-se as propostas aqui referenciadas no que concerne às duas versões de 2019 de “A menina do mar” de Sophia de Mello Breyner Andresen.

No processo educativo, estes elementos e factos são relevantes, elegendo-se elementos de progresso para o ser humano, tornando o produto educativo mais apelativo. Contribuindo de forma relevante para a produção do seu próprio conhecimento sobre as coisas, o espectador, o educador ou o estudante enforma o seu próprio saber de forma autónoma e responsável percebendo o porquê e o para quê desse mesmo saber. Assim, não só estas acções podem constituir-se em objectos de transmissão e vivência de conteúdos, como em objectos de arte que projectam ideias e ideais vários, despertando a todos de forma harmoniosa e efectiva. Por outro lado, a percepção e compreensão de uma narrativa, bem como os processos de composição experimentados, levam todos a interrogarem-se sobre aspectos importantes do fazer artístico e da obra de arte. Conceitos como forma e equilíbrio, interpolação e modelação, repetição e variação, paráfrase, citação, alusão ou paródia, mas também respeito, interacção, compreensão e inclusão, podem ser por todos repensados levando a indagação a uma transformação social e ética de inegável valor. Construir um conjunto de conteúdos que estão para além da simples informação notada, revelando o invisível da acção performativa, surgirá, no dizer de cada um e de todos nós, orientados pela mestria dos autores, agentes determinadores dos seus conteúdos primeiros, mas também na definição que conseguimos impor através desses mesmos signos e propostas do autor, aos objectos enformados, uma possibilidade de nos transformarmos através dos objectos arte. Para isso necessitamos do acesso às fontes, reafirmando a necessidade não só de um seu conhecimento, como de uma sua disponibilidade.

Se todo o processo de composição implica a interrogação constante, o questionamento, seja na escrita, seja na visualização ou na audição, seja ao nível dos conteúdos imagéticos delineados e propostos na interpretação, os processos de corte e continuidade, a sobreposição, sejam cenas contrastantes, linguagens várias ou modelos diversos, conduzem a resultados que alargam os horizontes de todos, desenvolvendo mecanismos de pesquisa e autenticidade, tanto na escrita, como na comunicação. De cabal importância para a aquisição de conhecimento, pois não se trata somente de encontrar, mas, acima de tudo, de recorrer a uma memória adquirida, uma memória que se mostra nas vivências de cada um, bem como no contexto geográfico em que se insere, o trabalho que implique a criação de um espeptáculo desta natureza, neste caso de teatro musical infantil, confronta-se com a elaboração do texto, da cena, dos momentos musicais e da encenação e teatralização do proposto. Levanta por isso questões sobre a maneira como se irão reflectir as noções de equilíbrio, forma, conteúdo, mas ainda sobre a natureza desse conteúdo e a forma como este é veiculado na sua essência ao espectador, neste caso um público jovem. Todas estas tentativas de construção e desconstrução visual, cénica, teatral e musical são o impulso necessário à procura de uma verdade, ao questionamento interior e à evolução de um pensamento. Todo o trabalho de pesquisa histórica e musical envolvidos neste processo surgem de cabal importância no processo, pelo envolvimento que aportam e, no final, pela efectivação de uma proposta espeptáculo, uma proposta que será sempre uma sua possibilidade, sempre um seu resultado.

A necessidade de promoção, divulgação e informação dos públicos leva à necessidade de construção de ferramentas necessárias ao processo. Nesse sentido, constitui-se a revista Glosas um meio de dar a conhecer não só essa informação, como todo um trabalho de investigação sobre a música e a arte portuguesa contemporânea (e não só). Cruzando artigos sobre compositores com artigos de opinião e outros de relevo para o seu formato e função, a revista Glosas apresenta-se com um formato aliciante, de leitura cativante, apresentando-nos a música e a arte de forma aliciante e com grande rigor. O trabalho desenvolvido por investigadores, musicólogos, analistas, intérpretes e compositores tem assim a oportunidade de ser divulgado e, consequentemente, estudado por todos aqueles que se interessam pela nossa música, permitindo o vivenciar, através da criação e divulgação de um património nosso, de momentos únicos de realização e fruição. Neste fazer, um património se mostra e diz, não se encontrando por isso esquecido nos arquivos, acervos, espólios e bibliotecas deste país, mas vivo, gerando novos espaços de som e arte. Muito obrigada.

 


Texto escrito no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

Uma reflexão acerca da música e(m) [a] língua portuguesa

Sobre música, por que razão dizer algo? Se música é linguagem, fala por si. Se não, por qual motivo, então, alguém iria insistir em dar-lhe o apoio adjacente da linguagem? Por outro lado, a poesia, ela mesma, parece insinuar que poderia fazer-se toda de sons e sensações. Sem a palavra, enfim, da poesia restaria música? Ou o quê?

Talvez essa linha-do-meio, que não é nem música nem poesia, explique muito sobre o porquê de insistirmos tanto em falar sobre essa capacidade que têm os sons de arranjarem-se em movimentos coalescentes de bruta física (acústica), força (sensação) e memória (sentimento). Aquilo que não-há de música na poesia, e aquilo que não-há de palavra na música; esse entre que, no fim das contas, reflete o drama conteúdo-expressão de que nos falam Deleuze e Guattari. Corpos e enunciados em um jogo de territorialização, desterritorialização e reterritorialização: eis um entendimento desses mil ou mais platôs que chamamos Mundo, onde a música, a poesia e a linguagem se inserem como vetores marcantes.

É certo que a linguagem dá um território à música. Mas esta também já o faz, por si. Não é este o caso, por exemplo, dos procedimentos estocásticos de Xenakis que, em seus padrões de definição aleatórios, constrói monumentos musico-arquitetônicos? Ou, então, das digressões musicais do Barroco, isentas ainda de uma aplicação mais formalizada do tonalismo que ia afinal mais ou menos ali definir-se, e seus — já que estamos em território Deleuzo-Guattariano — blocos de sensação? Por outro lado, o que há de música, na poesia, faz desta fugir coisas, desterritorializa. Mas a própria linguagem também já o faz. Basta ver exemplos corriqueiros de como, rapidamente, o tempo todo, enunciados ou mesmo palavras isoladas são dobradas sobre seu próprio significado, sem mesmo precisar de partir para a seara poética (o inusitado universo dos memes da internet faz piada disso a todo instante, com o apoio, nesse caso, da imagem).

Esse jogo de des-re-territorialização entre música e palavra, abordado imensamente por tantos autores (mesmo que em outros termos), é o que constitui essa linha-do-meio. Um não-há da linguagem com a música e um não-há da música com a linguagem. Estamos tratando, então, da música e seus incompossíveis. Segundo Walter Smetak, “falar sobre música é uma besteira, mas executá-la é uma loucura!”. Ou seja, não estaria melhor amparado aquele que faz música, evitando falar sobre ela. Afinal, o que seria essa besteirinha a mais, se alguém comete aquela loucura? Música e palavra como incompossíveis, desta maneira, ao comunicarem-se em seus negativos (besteira, loucura) e positivos (falar, executar). Um não-há de um no outro que faz as engrenagens dessa máquina girarem, funcionarem.

Incompossíveis são, enfim, também a prática e a teoria da música. E continuamos, aqui, na mesma zona, pois a teoria é também um esforço de fala sobre a música, com a música. Paulo Costa Lima traz isso no bojo de seu conceito de “composicionalidade”. Aquilo que tem a capacidade de ser composicional envolve sempre uma indissociabilidade entre a prática compositiva e seus “outros” — a teoria sendo feita de uma série de contingências simbólicas inseparáveis do fazer criativo (e, aqui, entende-se que isso se estenderia a todas as práticas criativas, não somente à composição musical, tal qual tradicionalmente esta se configura).

Mas a música também é um método de fala, uma vez que tem base de entendimento e compreensão do cosmos, da educação e do estado social. Ela é, portanto, ainda um meio para a linguagem, um corpo ao longo do qual os corpos da linguagem, da filosofia e das ciências (de outras eras ou desta) são capazes de falar. Nesse sentido, temos uma vez mais que a linguagem não só fala sobre a música, mas também pode falar com a música, comunicando-se com suas lógicas internas. E, aqui, estamos mais uma vez no domínio daquilo que está entre, a linha-do-meio ao longo da música-linguagem que, ao mesmo tempo, abunda e falta à poesia.

As relações possíveis — e as impossíveis — entre música e linguagem passam ainda pela relação daquela com as próprias línguas. Quanto já se debateu, no passado, sobre qual seria a língua mais apropriada para a ópera? Ou a canção? Quantas óperas existem mesmo no idioma galego? Como soaria uma cantata nheengatu? Ou melhor, como soaria Wesley Safadão em língua alemã? E essa relação não pára aí, no fundamento da canção. Podemos estender essas perguntas ao campo da teoria, desse ‘seu-outro’ do fazer-música. Existe uma língua mais apropriada que outra para se fazer teoria? Para se falar sobre música? Que língua seria capaz de tornar mais fluida essa comunicação da filosofia com as lógicas internas da música? Como fica a teoria de Boécio traduzida para quechua? Adorno para o português?

As línguas apresentam suas lógicas próprias, suas máquinas musicais de funcionamento interno e coesão de pensamento. Espinosa, em sua conhecida correspondência com o pastor e comerciante holandês Willen van Blijenbergh, dizia que “gostaria muito de poder escrever na língua em que fui educado, pois poderia expressar melhor meus pensamentos.” E, vejam só, muito provavelmente esse idioma era o português…

Uma possibilidade de haver uma ópera escrita em quechua é algo importante pois há, nisso, uma chance de movimentar, em música, certos aspectos de uma lógica e de um pensamento musical quechua. Uma teoria da música escrita em nheengatu seria de igual interesse. Escrever e publicar em língua nativa — o que é diferente ainda de traduzir uma obra de uma língua para outra — não é uma questão, apenas, de estabelecer um público-alvo, de determinar um universo possível de leitores. É pôr em movimento, junto com o fazer-música e com o esforço de teoria que ali vai sendo escrito, os modos de funcionamento do próprio pensamento, atualizado naquela língua e através de suas engrenagens, lógicas e nuanças. Isso se demonstra desde o mais óbvio aspecto, como por exemplo o campo de assuntos escolhidos e das pautas, até outros mais velados, como a sutil escolha de termos descritivos, a tradução imperfeita de excertos referenciados de outras línguas, ou ainda o próprio ritmo interno de frases, orações, suspensões…

Dessa forma, escrever e publicar sobre música em uma língua como a língua portuguesa é um ato não somente de inclusão dos cidadãos dos vários países lusófonos não falantes de línguas mais globalmente faladas — e precisamos lembrar, aqui, que a maioria dessa população se encontra em zonas de grande desigualdade social e, portanto, instabilidade de padrão educacional —, mas também de resistência.

Frente à grande e crescente pressão de publicação em língua inglesa, um periódico como a Glosas vem para nos atentar dessa necessidade que os esforços reflexivos e discursivos sobre música têm de ter diversidade em nível próximo ao que nos é apresentado pela prática musical em si, pela construção de música variadas, qualidades variadas, critérios variados, por uma crítica e uma teoria tão rica quanto o são os múltiplos fazeres musicais em cada paragem do mundo.

Vida longa à música, à crítica e à teoria musical lusófona! Vida longa à Glosas!

 


Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

10 depoimentos X 10 anos (II)

Ana Atalaia
colaboradora do MPMP entre 2010 e 2013

O MPMP surgiu quando também para mim se abriu a possibilidade de estudar música profissionalmente. Este projecto, e as pessoas extraordinárias que a ele se dedicam, abriram-me horizontes, deram-me a conhecer música e sonoridades portuguesas e ofereceram-me palco e oportunidades de crescimento pessoal e profissional. A minha contribuição para o MPMP e para a revista Glosas foi mínima, comparada com a de tantos outros excelentes músicos e artistas, mas relembrar-me-ei sempre com carinho e saudade dos concertos em que participei ou que ajudei a organizar, e das entrevistas que transcrevi. Ao MPMP, à Glosas e a todos os seus colaboradores desejo o melhor — desejo que possam continuar a representar a música e identidade portuguesas, que recebam os apoios que merecem e necessitam, e que mantenham o lugar no panorama cultural português que com tanto mérito já alcançaram!

 

Ana Damil
violinista

Sabem quando se diz que a música é uma língua universal que junta pessoas? É tão mais do que isso… A música faz com que pessoas se cruzem, trabalhem juntas, criem ligações e construam projectos. Assim é com o MPMP. Amigos que tiveram uma ideia, que se uniram para a verem crescer e que se juntam em cima de um palco para a tornar real. Aí acontece magia, e quem está de fora sente com certeza a diferença. Esta música é uma partilha de amizades. Agradeço-te, Ensemble MPMP, por estes momentos de felicidade incondicional. Muitos parabéns por estes 10 anos!

 

Cláudio Cohen
maestro

Tive a grata oportunidade de ser entrevistado pela Glosas em sua 9.ª edição, em Setembro de 2013; naquela ocasião tracei um rápido perfil do nosso trabalho à frente da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília, capital do Brasil. O país se encontrava em pleno desenvolvimento econômico e cultural, a situação se mostrava alvissareira, mas muita coisa aconteceu após aquela entrevista. Tivemos o fechamento do Teatro Nacional em 2014, para a realização de uma reforma que até hoje não foi concluída. Esse fato nos deixou sem uma casa própria para realização dos concertos. Fomos muito criativos e circulámos por vários pontos da cidade, o que nos trouxe novos públicos. Hoje a sede é no Cine Brasília. Nossa linha de ação é focada na diversidade de repertório; nesse sentido, através das parcerias celebradas com várias das cento e trinta embaixadas de diversos países localizadas em Brasília, pudemos desenvolver repertórios de muitas nacionalidades, proporcionando ao nosso público uma grande oferta de produtos musicais que variam desde os clássicos universais, passando pela música latino americana, do Caribe e da Península Ibérica, como os clássicos do cinema, rock, da nova música contemporânea, ópera, ballet e, enfim, todo o repertório que a orquestra do século XXI deve abordar para alcançar o público atual. Nesse período contratámos vinte e cinco novos músicos, hoje somos noventa membros, e a orquestra cresceu ainda mais em excelência técnica e artística, e no prestígio junto ao grande público. Eu mesmo, neste período, dirigi mais de cinquenta orquestras em vinte diferentes países, e sigo com uma extensa agenda de concertos pelo mundo. Na colaboração Brasil-Portugal tivemos a grata satisfação de ter em Brasília o diplomata português e querido amigo João Pignatelli, adido cultural por vários anos, hoje servindo em Moçambique. Pignatelli foi de extrema eficiência na defesa da cultura portuguesa; com essa parceria, a orquestra recebeu os artistas portugueses Ferreira Lobo, Cesário Costa, Bruno Borralhinho, Cátia Moreso, Abel Pereira, Pedro Burmester, Adriano Jordão, entre outros.

A economia brasileira já vinha em declínio desde 2015, o que reduziu os orçamentos para cultura; o Ministério da Cultura foi extinto e transformado em uma Secretaria com menos poder político e econômico. Em 2019, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro celebrou 40 anos de existência e o centenário do seu fundador o compositor e maestro Claudio Santoro; foram cento e quatro concertos na temporada com uma grande riqueza de conteúdo e de artistas convidados. 2020 estava programado para ser um ano ainda mais alvissareiro, com o Ciclo Beethoven 250 anos, uma série de concertos com artistas nacionais e internacionais, bem como diversos outros eventos, incluindo a celebração dos 60 anos de Brasília.

Mas, de repente, tudo foi interrompido por uma tempestade avassaladora chamada Corona Vírus ou Covid-19. Todos os eventos culturais no país foram cancelados, teatros fechados, orquestras pararam ensaios e concertos, a cultura entrou em colapso, a vida nas cidades parou completamente e as pessoas hoje se encontram confinadas em suas residências para conter o avanço trágico dessa pandemia. Tragédia sanitária instalada, ainda não sabemos o final desta história nem as trágicas consequências econômicas que dela resultarão. Vivemos neste momento uma era de incertezas, mas é certo que 2020 será um ano totalmente perdido. Estamos na esperança de que passada toda essa turbulência a cultura possa voltar a renascer e tomar o espaço que lhe é devido.

Tenho acompanhado as publicações da revista Glosas nesta última década e fico satisfeito por existir esse veículo impresso que busca valorizar a música clássica, especialmente no território lusófono, através de seus textos claros e de conteúdo informativo, sejam eles sobre a cena composicional ou sobre eventos realizados.

A importância de ter publicações desta qualidade no âmbito da música erudita é fundamental para trazer, ao público em geral, a relevância deste segmento cultural para a sociedade.

 

Joana Moreira
pianista

Seis anos se passaram! Relembrar hoje a minha participação na Glosas é trazer à memória momentos de trabalho, pesquisa e compromisso perante a música contemporânea portuguesa para piano. O artigo, que tive o prazer de escrever para o número 11 da revista, surgiu da investigação e análise realizadas na minha tese de mestrado, Gabriel Morais de Sousa: Vida e Obra, que contou com a orientação do Professor Doutor Filipe Pinto-Ribeiro e a coorientação da Professora Doutora Christine Wassermann Beirão. A oportunidade que me foi dada pelo MPMP de tornar visível um pouco deste trabalho, para toda a comunidade de leitores, foi um passo bastante significativo para a divulgação do compositor e da sua obra, contribuindo também, consequentemente, para a disseminação da música portuguesa erudita. Foi igualmente algo muito relevante do ponto de vista pessoal e de realização académica.

Penso que é fulcral e crucial darmos a devida importância à nossa música: estudá-la, analisá-la, tocá-la e divulgá-la. Está nas nossas mãos perpetuarmos a nossa cultura! Devemos, por isso, assumir sempre um papel activo nesta missão, e encará-la com a devida responsabilidade, seriedade e importância. Estou e estarei sempre grata por ter tido a oportunidade de participar em tão digno e importante projecto! Um bem-haja a todos os que tornam este movimento possível, e parabéns!

 

João Costa Ferreira
pianista

Apesar de ter vivido fora de Portugal ao longo da primeira década de existência do MPMP, pude acompanhar o trabalho deste colectivo (chamemos-lhe assim) graças à difusão da informação que os meios tecnológicos de então facilitaram. É possível que, devido a esta circunstância, parte deste depoimento seja fruto de uma percepção idealizada. Escrevo “parte”, pois o meu envolvimento nos projectos do MPMP contribuiu também, mas de forma empírica, para a construção da minha percepção sobre o colectivo. Este depoimento vagueia por isso entre a subjectividade da minha imaginação e a objectividade das minhas experiências.

Quando soube que um grupo de jovens recém-saídos do Conservatório Nacional decidiu unir esforços em prol da valorização do património musical português, pensei nisso como um acto digno, com certeza, mas sobretudo corajoso. Não se aventuravam “por mares nunca de antes navegados”, mas para vingar seria necessário remar contra ventos e marés. A realidade do mercado e os hábitos instalados desafiavam a força de vontade; contudo, as conquistas foram-se sucedendo. Ganharam a confiança da comunidade científica, dos músicos e melómanos. Hoje, lidos e ouvidos por centenas, senão milhares, de pessoas, são uma referência no panorama musical nacional.

Um dos factores deste sucesso poderia ser a situação em que se encontrava (e ainda se encontra) a música portuguesa de índole clássica, com necessidade de se dar a conhecer, de se fazer tocar e de se fazer ouvir. Mas até mesmo o carácter original da descoberta de partituras e de manuscritos ou o da interpretação e gravação de obras musicais inéditas enfrenta essa terrível força sistémica que parece destinada e determinada a assegurar a imutabilidade das coisas, condenando esta música às trevas ad æternum. É com certeza numa multiplicidade de factores que reside este sucesso, como qualquer outro, desde a perseverança à capacidade de trabalho, numa procura constante por dar respostas à altura das exigências do meio.

Importa contudo sublinhar uma das preocupações deste colectivo, que o tem levado a bom porto: a criação de uma identidade. As linhas editoriais da revista Glosas e do catálogo discográfico do MPMP, assim como a programação musical das suas temporadas, fundadas em critérios que não se limitam às imprescindíveis apreciações artísticas mas que têm em consideração o interesse social e cultural das propostas, reflectem uma aposta na vulgarização científica através de uma forma de comunicação acessível, destinada aos vários públicos, sem por isso descurar a qualidade e o rigor académico.

Toda a coragem é inspiradora. Acredito que a acção do MPMP, tanto no campo da interpretação como no campo da edição, terá já inspirado e continuará a inspirar gerações de músicos e musicólogos portugueses, sensibilizando-os para a necessidade urgente de reabilitar o nosso próprio património. Não posso deixar de frisar que o meu interesse pela música portuguesa e a vontade de me debruçar a fundo sobre a obra de um pianista e compositor português — José Vianna da Motta — nasceram, em parte, dessa acção. É por isso com uma palavra de agradecimento e com o desejo de podermos, daqui a dez anos, festejar mais uma década plena de música portuguesa que concluo este breve depoimento.

 

Luiz Alves da Silva
Cantor, maestro, musicólogo

Parabenizo os realizadores da revista Glosas pelo primeiro decênio de trabalhos prestados à musicologia e à historiografia musical da lusofonia. O espectro temático desta publicação é bastante amplo e promove, sem dúvida, o desenvolvimento da pesquisa científica, mas me agrada também o fato de que, ao lado de artigos musicológicos propriamente ditos, também haja lugar para assuntos ligados diretamente à prática musical e às experiências pessoais de personalidades relevantes do mundo musical da lusofonia. Neste contexto, tive o privilégio e o prazer de expor meu trabalho de divulgação do repertório luso-brasileiro através dos concertos e gravações do Ensemble Turicum no número 16, de Maio de 2017, dedicado ao compositor José Maurício Nunes Garcia. Corre o provérbio de que o melhor da festa é o esperar por ela; assim, esperamos felizes pelo próximo jubileu dos vinte anos da revista, aproveitando regularmente suas publicações.

 

Nuno Costa
compositor

As publicações feitas em Portugal dedicadas, na sua essência, à música de tradição escrita são, muitas vezes (e não será exagerado afirmar) de carácter quase-heróico (especialmente quando bem feitas!). Não cabem aqui e agora as razões pelas quais isto acontece mas ainda muito está por fazer para que um dia se possa falar com propriedade acerca da História da Música em Portugal — sendo esse um trabalho de fundo que, não duvido, deverá passar pela sensibilidade de uma classe política que por ora não se vislumbra —; até lá, estamos ancorados nas ilhas que, tal como o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, vão emergindo para consolidar, o mais que possam, a memória de um património vastíssimo, e para projectar um futuro imprevisível mas, obviamente, imparável.

Ao longo destes dez anos de actividade, puderam observar-se os notáveis esforços que o MPMP tem despendido por forma a abrir as mais distintas frentes na disponibilização de partituras, de CDs e demais materiais afectos às diversas épocas da nossa História da Música. Não obstante, a constituição do Ensemble MPMP, bem como toda uma órbita em torno do mesmo, formada por intérpretes variados, tem permitido encomendas de mais música e estreias modernas de obras há muito negligenciadas, e é aqui que se aprofunda, ainda mais e a meu ver, a importância da continuidade do MPMP. Aliados a uma política de internacionalização (da qual nem imagino a necessária audácia!), é crucial que o património musical português continue a construir-se em abertura para o mundo e que consiga a mais sólida ponte com as culturas que, à partida, se identifiquem como mais próximas de nós, como o Brasil, Espanha, Itália (!) e, quem sabe, um dia, alguns dos países de África, numa extensão muito mais alargada de influências e saberes. Nada de novo, portanto, mas que saibamos fazê-lo em forma de partilha consciente e de aprendizagem mútua (sendo isso um oceano de inúmeras possibilidades — mas que seja consciente e mútuo!).

Chegados aqui, não se poderá contar apenas com as ilhas, precisaremos de um grande arquipélago ou mesmo de todo um continente. O MPMP tem feito a sua parte, resta-nos esperar (enfatiza-se) que o poder político, um dia (talvez distante mas que, ao menos, venha a existir), faça a sua e trabalhe aprofundadamente na consolidação da memória histórica musical de Portugal, para que num qualquer futuro possamos prosperar finamente, deixando para trás os séculos de pouca luz neste domínio, não por falta de matéria-prima, apenas por falta da aplicação dos meios necessários ao seu manuseamento.

(Pequena nota para memória futura: se dúvidas existiam acerca de um possível interesse que a cultura, em geral, pudesse ter para a plenitude do ser-humano [dúvida só por si intrigante e reveladora de uma direcção perigosa…] a pandemia que enfrentamos e o Estado de Emergência que por estes dias vivemos vieram ajudar à confirmação do óbvio desconcertante — pelos vistos, a arte, a cultura é algo que nutre em tempos de assombramento. Agora imaginemos o que uma fruição densa poderá fazer por todos em tempos de “normalidade”, de claridade.)

 

 

Pedro Neves
maestro

Conhecer o passado, viver o presente e projectar o futuro foram sempre os três elementos que nunca se encontraram para dar o merecido equilíbrio à música erudita portuguesa. Ao contrário do que se verifica nos países com grande tradição musical, nós sempre desconfiámos de nós mesmos, duvidámos do que construímos e, sobretudo, não tivemos força para projectar um sólido futuro.

Não interessa olhar para o lado e fazer uma cópia desinteressante da realidade; interessa sobretudo usar a nossa inteligência para construir um espólio cultural saudável, estruturado e activo.

Obrigado, MPMP, pela vossa coragem em existir, pela vossa coragem em construir e pela vossa coragem em não desistir de organizar uma plataforma que assenta nestes três pilares fundamentais para a nossa música e para a nossa cultura. A vossa atitude, como entidade promotora, vai influenciar certamente as gerações vindouras e colocar o nosso passado, presente e futuro numa consciência colectiva em que todos cultivam a partilha, a crítica e a criatividade. Com a vossa ajuda vamos conhecer melhor o nosso passado, para que nos orgulhemos dele; vamos ouvir o que se faz no presente para que o possamos viver em pleno; vamos impulsionar a criação de um futuro ,que certamente nos levará a lugares desconhecidos.
Muitos parabéns pelo vosso trabalho!

 

Tiago Rosa
violoncelista

Tentei escrever um pequeno texto que traduzisse aquilo que o MPMP é para mim. Ao tentar, percebi que as palavras seriam órfãs de si mesmas e que a única possibilidade de o demonstrar seria partilhar de novo o palco e a estrada com estas pessoas. Há projectos que nos enchem de orgulho, por em algum momento termos feito parte dele. Obrigado por me terem dado essa possibilidade.

Quero, como amigo e como músico, agradecer-vos com toda a sinceridade pelo vosso envolvimento. A vossa dedicação, trabalho duro e compreensão das dificuldades é digna da minha mais profunda admiração, e só conseguem viver e fazer viver aqueles momentos perante o MPMP e quem vos vai ver porque fazem algo raro e precioso: trabalham todos em conjunto, em igualdade e qualidade, para um fim comum.

Esse sentimento, que cada um vive à sua maneira, perdura em cada um para sempre, já que é garantido que esses momentos são verdadeiramente mágicos e que todos são obreiros desse toque que separa um verdadeiro espetáculo, uma verdadeira família das rotinas dos egos, trabalhos chatos, discussões periféricas, que muitos cultivam mas que no MPMP e nos near and dear não têm lugar.

Em meu nome, agradeço-vos profundamente. Injusta a circunstância deste 10.º aniversario, mas espero que encarem os novos desafios da mesma forma, lutando por fazer acontecer e por dar brilho a esses acontecimentos! É um privilégio contar com o vosso carisma, talento e abnegação! Obrigado, beijos e abraços. É sempre uma honra e uma enorme satisfação. Melhor do que isto, só dois disto. (Acordem o Polido.)

 

Victoria Valdes
violinista

Feliz aniversário a esta grande família! É uma alegria fazer parte deste belo projecto e poder trabalhar com todos vocês. No meio desta “aventura” em que nos encontramos, sinto saudades dos amigos e colegas com os quais tantas vezes partilhei o palco e o amor pela música. Em breve iremos reunir-nos novamente e festejar este dia especial, tal como merecemos. Deixo-vos aqui um pequeno poema de Pessoa:

Música… Que sei eu de mim?
Que sei eu de haver ser ou estar?
Música… sei só que sem fim
Quero saber só de sonhar

Música… Bem no que faz mal
À alma entregar-se a nada
Mas quero ser animal
Da insuficiência enganada.

Música… Se eu pudesse ter,
Não o que penso ou desejo,
Mas o que não pude haver
E que até nem em sonhos vejo,

Se também eu pudesse fruir
Entre as algemas de aqui estar!
Não faz mal. Flui,
Para que eu deixe de pensar!

 


Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

Il y a dix ans, naissait MPMP…

L’âme portugaise est venue me trouver. Elle m’a révélé — j’emprunte à Fernando Pessoa — la nécessaire multiplicité de l’être et la dignité, vertu première des Portugais, empreinte mêlée d’humilité et de noblesse.

Depuis bientôt trente ans, j’ai pu porter un regard venu de l’extérieur sur l’évolution artistique et politique de la musique portugaise, cheminer avec les artistes de ce pays qui accompagnent et enrichissent aujourd’hui ma vie de musicien.  Je souhaite ici rendre hommage au mouvement MPMP, évoquer mon bonheur d’être édité par eux depuis cinq ans et témoigner de la légitimité de leur projet. Je veux dire ici mon admiration pour la mission essentielle qu’ils se sont donnée afin que le patrimoine portugais poursuive son chemin dans les consciences, résonne dans nos sensibilités et accède à une reconnaissance nationale et internationale.

Lorsqu’en 1991, je rencontrai pour la première fois les compositeurs portugais à Lisbonne, une aventure fondatrice commença, je ne pouvais mesurer à l’époque l’implication qui en découlerait pour mes choix artistiques. Juste après la fin de mes études à Paris, c’est grâce aux premiers contacts avec des interprètes portugais, des manuscrits, des professeurs, des compositeurs et des passionnés que l’étendue insoupçonnée du répertoire portugais ouvrit ses portes à ma curiosité. Mes relations d’amitié se sont sans cesse renforcées au fil des années. Parmi les rencontres importantes qui ont stimulé et confirmé le désir d’approfondir ma connaissance de la musique portugaise, il y a eu notamment : Fernando Lopes-Graça en 1991 puis Alexandre Delgado, Sérgio Azevedo, Fernando Lapa, Carlos Marecos et, il y a six ans, Edward Luiz Ayres d’Abreu.

Cependant, si la relation humaine a été fondatrice, j’oublierais un élément très important en n’évoquant pas la collection discographique Portugalsom. L’effort nécessaire et pionnier des années 1980, impulsé par le Ministério da Cultura pour développer une politique d’enregistrements, a permis une prise de conscience et ouvert un univers large et fascinant. Il y avait déjà dans la collection Portugalsom tout un ensemble déjà significatif d’œuvres, telle une fenêtre ouverte sur un répertoire extrêmement riche non seulement pour le pianiste venu de France que j’étais mais aussi pour les futures générations de jeunes musiciens portugais.

Ainsi, s’est rapidement manifestée en moi une grande volonté de rechercher, de comparer, de déchiffrer, de lire, d’écouter qui perdure sans relâche depuis 25 ans. Quelle révélation extraordinaire pour un interprète d’aller puiser dans les bibliothèques, de rencontrer les manuscrits, de découvrir un répertoire de piano de si grande qualité, de réaliser les affinités culturelles si étroites entre nos deux pays ! Il y avait tant à connaître : les œuvres symbolistes de Francisco de Lacerda, les manuscrits de Fernando Lopes-Graça ou d’Armando José Fernandes, la musique de chambre de Luiz de Freitas Branco, l’œuvre pour piano de Luiz Costa, les symphonies de Joly Braga Santos… Tous ces grands artistes constituent un univers culturel fort, intelligent, sensible mais encore très méconnu hors des frontières, un univers qui résonne comme une réponse musicale à la poésie d’un peuple, d’une terre et d’une grande littérature. C’est en réponse à cette révélation profonde, avec la volonté d’interpréter certains compositeurs et de partager ce patrimoine que j’ai créé en France la collection Le Piano Portugais chez Coriolan.

Il y a dix ans, naissait MPMP, je dirais même qu’il fallait que naisse MPMP pour approfondir et moderniser la démarche essentielle initiée au Portugal dans les années 80, celle de la valorisation des compositeurs du patrimoine portugais. Ouvert à tous les langages, MPMP n’a cessé de faire croître sa légitimité depuis dix ans. Aujourd’hui, je suis extrêmement heureux de voir ce mouvement se développer de façon si structurée et intelligente. Le mouvement porte sans relâche des projets, des programmes, des saisons de concerts, des éditions de partitions et des enregistrements souvent remarquables comme ceux de Carlos Seixas, de João Domingos Bomtempo, de Ruy Coelho, d’Alfredo Keil… Le Portugal a besoin de cette vision éditoriale réfléchie, contemporaine et novatrice.

MPMP se bâtit avant toute chose sur l’amour de la musique. L’équipe avance par la volonté, jeune et entreprenante de leurs créateurs. Le projet est une exceptionnelle initiative privée qui prend sa source dans la vision initiatrice des pionniers et dans la poursuite d’un travail éditorial, aujourd’hui enrichi par la création contemporaine. C’est un véritable renouveau dans l’édition au Portugal, impulsé grâce à une génération de musiciens talentueux.

Ensemble, nous nous rencontrons en 2014 autour du projet Severa, o fado de um fado. L’écoute attentive de Edward Luiz Ayres d’Abreu, tout comme celle de Duarte Pereira Martins, s’échange dans la confiance, débouchant l’année suivante sur un CD réussi et créatif. Le projet du double album Lisboa Paris édité en 2017 a, quant à lui, l’ambition de réunir les deux facettes de ma vision commune entre France et Portugal, c’est un disque qui symbolise nos croisements culturels. Nous avons tant à apprendre les uns des autres : les artistes français ont apporté à la modernité portugaise au début du 20e siècle et au 21e siècle, en juste retour des choses nous découvrons la richesse de la musique portugaise et le dynamisme de la création contemporaine. Cette édition Lisboa Paris en double CD a été immédiatement validée par la direction de MPMP qui partage aussi cette idée que la culture et la musique sont un perpétuel échange des sensibilités, de l’histoire et des valeurs communes.

En évoquant ici le projet MPMP et en parallèle l’âme du Portugal, pays de poètes merveilleusement inspirés mais également pays de musiciens talentueux, nourris de cette lumière si particulière, je suis heureux de penser aux futures aventures essentielles que nous mènerons ensemble. Construire une carrière d’interprète, une carrière de compositeur ou d’éditeur avec cette nécessité primordiale de mettre la beauté et la musique au centre des motivations communes, d’oser toujours la création comme acte politique, sont des valeurs qui symbolisent ce qui me rapproche du mouvement MPMP.

Aujourd’hui, je sais que ce sont des compagnons toujours à l’écoute et prêts à envisager un projet musical inédit. En tant que musicien, cela me rend simplement heureux. Je leur souhaite dix merveilleuses prochaines années qui seront, elles aussi, essentielles pour la musique et pour nous tous.

 


Artigo escrito no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

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