Um novo ciclo para o MPMP

No dia 29 de Abril de 2010 era lançado o primeiro número da revista Glosas no Salão Nobre do Conservatório Nacional. Nascia o MPMP, associação sem fins lucrativos, pela mão de um grupo de alunos daquela instituição, com o intuito geral de divulgação da música de compositores portugueses. Lançou-se então um manifesto e deu-se início a uma série de iniciativas de redescoberta de património musical de outra forma esquecido ou manifestamente sub-representado na programação das tradicionais salas de concerto do país.

A plataforma cresceu muito mais do que alguma vez sonhado por qualquer um dos seus membros fundadores. No ano passado, lançada a revista Glosas n.º 20, dedicada ao décimo aniversário do movimento, um balanço geral da actividade concretizada ao longo deste período de aprendizagem propiciou uma reflexão nunca antes feita sobre o presente e o futuro dos projectos desenvolvidos e por desenvolver.

A escala a que o MPMP chegou permite agora limar arestas, afinar procedimentos, consolidar trabalho feito e melhor preparar os desafios que se avizinham. Permite, sobretudo, encerrar um ciclo que viu publicados mais de cinquenta discos, dezenas de partituras e livros, realizados centenas de espectáculos, muitos deles com estreias modernas e absolutas de tesouros nacionais inestimáveis… Será brevemente publicado um livro digital com o histórico de todos os eventos e sucessos, limitados porém pelas condicionantes próprias do associativismo e do contexto musical em que se estabeleceu. Estamos ainda muito longe, acreditamos, de quanto merece a música portuguesa em representatividade local e em internacionalização. Os recursos são poucos, ainda, para a dimensão avassaladora de quanto aguarda revelação.

 

 

Hoje, 29 de Abril de 2021, começa simbolicamente um novo ciclo, e com ele uma nova imagem e uma nova assinatura: MPMP Património Musical Vivo. Sintetizámos a essência deste movimento patrimonial pela música portuguesa na sigla que acompanhou o nosso crescimento e que já faz parte indelével do imaginário dos músicos (e de tantos públicos) que nos acompanharam. E acrescentámos três palavras que resumem a essência da nossa missão: cuidar do património presente e futuro, especialmente do musical, ainda que tantas vezes multidisciplinarmente articulado, e torná-lo cada vez mais dinâmico, consequente, vivo.

Não poderíamos deixar de agradecer à Brand Practice (www.brandpractice.pt) todo o trabalho de rebranding e criação da nova imagem que ora se lança. Estamos gratos também aos demais colaboradores que, neste momento, preparam já o anúncio da próxima temporada e ultimam os detalhes de todas as novidades refrescantes que se avizinham. O pior terá já passado neste difícil período pandémico com que nos debatemos ainda — escutam-se as vozes de uma feliz e renovada Primavera.

Os Podcasts da Pandemia

Os podcasts vieram para ficar? Para além do que a revista Glosas tem apresentado na rádio-café Lusophonica, publicado também neste portal, fizemos uma recolha de outros projectos que, no universo da língua portuguesa, merecem bem uma “vista de olhos” — ou melhor… uma “audição de ouvidos”…

 


 

Clássicos CBN / Helder Trefzger
Rádio CBN Vitória

Titular da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES), o maestro Helder Trefzger desmistifica a música clássica e apresenta algumas das suas principais composições.

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Conversa de Câmara: Música clássica como você nunca ouviu!

O universo da música erudita tem muita coisa a ser explorada. Embarque nesta viagem musical com Eduardo e Aroldo Glomb para conhecer minuciosamente obras barrocas, românticas e clássicas que estão “fora do circuito”.

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Ted Talks Music

Alguns dos maiores músicos e pesquisadores mostram o poder e a ciência da música no palco da TED, eventos TEDx e eventos parceiros por todo o mundo.

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Pergunte ao maestro
Rádio Cultura FM

O maestro João Maurício Galindo responde as dúvidas sobre o universo da música clássica.

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CCB | Podcasts
Centro Cultural de Belém

O Centro Cultural de Belém tem por finalidade a promoção da cultura, desenvolvendo a criação e a difusão em todas as suas modalidades, do teatro à dança, da música clássica ao jazz, da ópera ao cinema.

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Bela Classica
Bela Pulfer

Bate-papo sobre música clássica, com o objectivo de atrair novos públicos, desconstruir mitos e desfazer estigmas que rondam o mundo da música erudita, como regras de comportamento ou como saber escolher um concerto pela primeira vez. Clássica vai ajudar a gostar de ópera, mostrar que Villa-Lobos, Tchaikovski ou Mahler podem fazer parte do dia-a-dia de todos os que gostam de música de forma natural e fluida.

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Abertamente
Orquestra Sem Fronteiras

Conversas sobre música clássica, cultura, arte e sociedade. Um podcast da Orquestra Sem Fronteiras com Diogo Costa e convidados.

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Musica classica y beyond
Heloisa Fischer

Em cerca de 15 minutos, música clássica e um toque de outros géneros por Heloisa Fischer.

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CBN Podcast VivaMúsica

Um panorama sobre o cenário da música clássica, incluindo programação de espectáculos, curiosidades, factos históricos e contemporâneos. Terças, às 16h10.

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Raríssimo Jommelli descoberto na BNP

Foi recentemente publicada em Itália, pela Libreria Musicale Italiana, uma obra inédita de Niccolò Jommelli (1714-1774), compositor napolitano de reputada importância no barroco europeu. Conhecido principalmente pela sua vasta produção operática, o músico italiano é também autor de algumas obras sacras, notadas habitualmente para um ou dois coros e baixo contínuo. No entanto, a recente descoberta apresenta um extraordinário efectivo de quatro coros (16 vozes) e três órgãos, para já único no catálogo de Jommelli.

 

 

A única fonte conhecida deste raro tesouro está na Biblioteca Nacional de Portugal, catalogada com o n.º 549 do Fundo do Conde de Redondo. O musicólogo António Jorge Marques, que se vem destacando no estudo e divulgação da obra de Marcos Portugal, dedicou desde 2003 o seu olhar a este manuscrito, cuja autoria não estava, à partida, identificada. A perda do primeiro caderno do documento impossibilitava essa tarefa, impedindo o conhecimento do seu título ou do respectivo ano de composição. Foi a análise caligráfica que possibilitou a atribuição da obra a Jommelli, tendo mais tarde sido compreendido que este Laudate Pueri Dominum terá sido estreado durante a cerimónia de Segundas Vésperas da Festa de S. Pedro e S. Paulo, em 1750, na Basílica de São Pedro, em Roma.

 

 

Trata-se, enfim, do único manuscrito autógrafo do compositor italiano na Península Ibérica, revelando uma obra que, além de completamente desconhecida, é inesperada pelas suas dimensões, e em que se destacam as experiências feitas por Jommelli na exploração da relação musical e até espacial entre coros. O Laudate Pueri Dominum foi a primeira obra que o napolitano apresentou no Vaticano, estando ainda por compreender totalmente as razões do seu apagamento do repertório sacro. A este respeito, António Jorge Marques traz-nos alguma luz sobre o assunto no ensaio (que lhe valeu uma menção honrosa no 6.º Concurso Internacional Principe Francesco Maria Ruspoli, 2014, em Vignanello, Itália) que acompanha a edição agora disponível.

PODCAST | Da minha língua vê-se um piano (09/2020)

Desde há alguns meses tem sido possível ouvir, no último domingo de cada mês, o novo podcast Glosando pela música da lusofonia, um programa da revista Glosas com transmissão em directo na rádio-café Lusophonica, no Farol de Santa Marta, em Cascais.

A glosas.mpmp.pt relembra agora a terceira emissão, transmitida a 27 de setembro, com o convidado Martim Sousa Tavares,que nos trouxe o mote “Da minha língua vê-se um piano”. Esta sessão ficou marcada pelas interpretações de grandes pianistas nacionais, entre eles Bernardo Sassetti, Mário Laginha, Filipe Raposo e João Paulo Esteves, e dos cantores Carlos do Carmo, Camané, Vitorino e Rui Veloso. Dos vários compositores apresentados, destacam-se Óscar da Silva, Alexandre Rey Colaço, Carlos Ramos, José Afonso e Sérgio Godinho, numa viagem pela música de língua portuguesa (ver alinhamento completo abaixo).

Se não teve oportunidade de ouvir, poderá fazê-lo aqui:

 

 


Licenciado em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa, e em Direção de Orquestra na Italian Conducting Academy e no Conservatorio di Musica di Brescia, onde foi aluno de Gilberto Serembe e Umberto Benedetti Michelangeli e se diplomou com nota máxima e laudas, Martim Sousa Tavares obteve em 2018 o Mestrado em Direção de Orquestra na Bienen School of Music, Northwestern University, na classe de Victor Yampolsky, com bolsas Fulbright e Eckstein Foundation, concluindo os estudos com honras académicas. Em Brescia fundou a Orchestra di Maggio e, em Portugal, a Orquestra Sem Fronteiras, com a qual se tem apresentado em dezenas de locais entre Portugal, Espanha e Brasil. É coordenador de projetos educativos do MPMP. É também autor do programa Casa de Partida (Antena 2) e tem sido ouvido enquanto comunicador em diversos contextos.


 

Alinhamento

 

Eduardo Burnay (1877-1926), Fado (do álbum Poetic Scenes)
Óscar da Silva (1870-1958), Nº3 Fado, Páginas Portuguesas (do álbum Poetic Scenes)
Alexandre Rey Colaço (1854-1928), Fados para piano (do álbum Poetic Scenes)

Vasco Dantas, piano

 

Bernardo Sassetti (1970-2012); Mário Laginha (1960-), E depois do Adeus (música original de José Calvário, letra de José Niza, na voz de Paulo de Carvalho); Traz outro amigo também; Grândola Vila Morena (originais de José Afonso) (do álbum Grândolas)
Bernardo Sassetti, piano
Mário Laginha, piano

 

Bernardo Sassetti (1970-2012), Lisboa que amanhece (original de Sérgio Godinho); Talvez por acaso (original de Manuela de Freitas e Carlos Manuel Proença); Porto Sentido (original de Rui Veloso); Cantigas do Maio (original de José Afonso); Retrato (do álbum Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti)
Bernardo Sassetti, piano
Carlos do Carmo, voz

 

Mário Laginha (1960-), Fado Barroco; Amor é fogo que arde sem se ver (música original de Alain Oulman com poema de Luís Vaz de Camões); Não venhas tarde (original de Carlos Ramos); Rua da fé (do álbum Aqui está-se sossegado)
Mário Laginha, piano
Camané, voz

 

Filipe Raposo (1979-), João Paulo Esteves (1961-): Fado da prostituta; Meu querido Corto MalteseQueda do império (do álbum Vem devagarinho para a minha beira)
Filipe Raposo, piano
João Paulo Esteves, piano
Vitorino, voz

 

Ricardo Ribeiro (1981-), Canto Franciscano (popular “fado menor” com letra de Ary dos Santos) (do álbum Respeitosa Mente)
João Paulo Esteves, piano
Ricardo Ribeiro, voz

 

Jorge Palma (1950-), Frágil; Na terra dos sonhos (do álbum Jorge Palma Ao Vivo)
Jorge Palma, piano e voz

 

Rui Veloso (1957-), Canção de Nova York

 

Tom Jobim (1927-1994), Chico Buarque (1944-), Piano na Mangueira

A que preço vender o ‘streaming’ de música?

Uma transformação radical (e ainda inconclusiva)

Ouvir música é um dos fenómenos culturais que mais se transformou nas últimas décadas graças ao advento da Internet e, em especial do streaming. A capacidade de, “à distância de um clique”, aceder a uma discoteca “infinita”, a qualquer momento do dia, através de qualquer dispositivo electrónico que se encontre à nossa mão (uma TV, um smartphone, um iPad, um computador…), remeteu a tecnologia dos discos compactos para a extinção. Neste processo, o novo fôlego dos vinis é bem um sintoma de que só pelo aspecto ritualístico e pelo charme do objecto-arte se conseguirá, e ainda assim em contexto de nicho, contrariar a inconteste vitória de plataformas como o Spotify.

Mas nem tudo são rosas. O streaming libertou o mundo de toneladas de plástico, mas o seu impacto ecológico acaba, por outras vias, por ser potencialmente maior;1 e, depois, o mercado é extremamente competitivo, com inúmeras plataformas a disputar o mesmo espaço sem que alguma delas consiga revelar uma clara vantagem diferencial: por isso, apesar de o Spotify ser a maior delas, o seu futuro permanece sombrio em face de constantemente duvidosos indicadores financeiros.2

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A melhor notícia: o streaming diluíu a pirataria?

Como observou Mariana Freixo Nunes,3 o volume de vendas da indústria da música começou a diminuir na década de 1990, graças sobretudo ao aumento de pirataria através da Internet; os artistas e as editoras iniciaram batalhas legais e investiram em campanhas de sensibilização para explicar o valor da propriedade intelectual; hoje, os tempos são claramente de mudança: em 2016, o revenue de música gravada cresceu 14%, o maior aumento desde 1998, e, nesse crescimento, o streaming ultrapassou os formatos tradicionais.

Para o tema aqui em observação, entre as conclusões mais interessantes a que a investigadora chegou contam-se a de que, com efeito, o streaming fez perder espaço à pirataria, e a de que, face a um serviço de streaming gratuito, os utilizadores que responderam ao seu inquérito estariam dispostos a pagar, em média, um extra de € 6,99 por uma plataforma sem publicidade. Destaque-se que este valor varia entre os € 4,95 para estudantes até aos 18 anos, e os € 17,30 para estudantes entre os 24 e os 34 anos. Estes números são particularmente intrigantes quando emparelhados com a actual tabela de preços do Spotify, que oferece subscrição, em Portugal, de € 3,49 para estudantes € 6,99 para não estudantes.4

Estará o Spotify, deliberadamente, a “perder dinheiro”? Pretenderá assim cativar o maior número possível de utilizadores? Certo é que o preçário do Spotify é altamente variável em função da região de que é proveniente o utilizador: se na Índia começa em $ 1,58, na Dinamarca chega aos $ 14,39.5 Naturalmente, a empresa procura responder ao poder de compra do utilizador mediano de cada país, mas será que não está a nivelar-se por baixo – ou, se quisermos, a basear a sua política de preços numa competição com a gratuitidade da pirataria?

Parece tratar-se, nesta perspectiva, de uma lógica de value based pricing que tabela “por baixo” de forma indiferenciada (excepto inter-regionalmente) e massificada, e que leva em conta não o valor da música em si mas do serviço de streaming, sujeito este a uma percepção altamente contaminada pelo fenómeno ainda recente da pirataria. Poderão as plataformas de streaming subir os preços à medida que mais utilizadores se “sensibilizem pela causa” e (ou) a gratuitidade absoluta que a pirataria potenciava se desvaneça na memória da geração que experimentou a Internet dos anos 1990?…

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Desagrado inconsequente?

Podemos argumentar que o facto de as plataformas de streaming terem contribuído para o decréscimo da pirataria foi uma boa notícia para os artistas. Mas se este pricing aparentemente dependente do imaginário da música gratuita poderá parecer justo para o consumidor, sê-lo-á para o “criativo”?

A questão tem levantado muita discussão, e há muitos artistas – inclusivamente alguns dos que mais volume de streams e downloads atingem – que se têm insurgido contra as margens medíocres que tais plataformas oferecem aos criadores. No ano passado este mal-estar ganhou grande amplitude em virtude de uma ideia anunciada pelo Spotify com um timing assaz infeliz: em plena pandemia, num momento histórico e global em que a Covid-19 afectou a dinâmica dos concertos ao vivo, cancelando milhares de concertos por todo o mundo, a empresa sugeriu que os artistas vissem reduzidos os seus royalties contra a possibilidade de o algoritmo oferecer-lhes mais visibilidade6

Em 2019, no Reino Unido, um inquérito empreendido pela The Ivors Academy e pela Musicians’ Union mostrou que 82% dos participantes havia recebido menos de £200 como rendimento provindo de plataformas de streaming; para 92%, esse valor representava menos de 5% dos seus rendimentos totais; 50% considerava ter perdido rendimento de música gravada nos últimos dez anos; 43% adiantou que os baixos rendimentos fizeram com que procurassem trabalho fora da área. O desagrado culminou numa petição endereçada ao governo com 17 000 assinaturas e, ultimamente, com uma investigação a decorrer, especula-se sobre se o Spotify não será mesmo forçado, em virtude de nova legislação, a rever a sua política de royalties.

Segundo Graham Davies, CEO da The Ivors Academy, “This survey is further demonstration that the song and the songwriter are undervalued. Too much streaming money is going to the major labels, this is an outdated model and needs reform”.7 E há, para além de reclamações relativas ao magro revenue geral, aquelas que se reportam à forma de distribuir o lucro pelos artistas. Neste quesito merece destaque, pela positiva, a estratégia do Deezer, uma plataforma concorrente do Spotify, ao optar por um user centric payment system: os artistas deixam de ser remunerados pelo número global de streams a partir do total de subscrições arrecadadas, são-no pelo número particular de streams em função de cada subscrição particular (ver imagens seguintes para uma melhor compreensão desta diferença distributiva).

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Em cima: o sistema de distribuição tradicional em praticamente todas as plataformas de streaming.

Em baixo: o User Centric Payment System proposto pelo Deezer (ver https://www.deezer.com/ucps,consulta a 14/02/2021).

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O streaming é o futuro, mas a que preço?

Como concluiu Jodi Beggs, “a good pricing strategy is critical for any industry, from automobiles to music. Even though economists and psychologists have plenty to say about prices beyond Economics 101, it is unfortunate that there is as yet no blueprint for recording artists. Also, a proper discussion and understanding of the tradeoffs involved between low and high priced alternatives is missing”.8

E, na falta desta reflexão mais profunda, Beggs avança com algumas ideias exploratórias que mereceriam, de facto, investigação, propondo que pode dar-se o caso de os preços baixos com que se vende música gravada estejam, inadvertidamente, por razões várias, a baixar a percepção de qualidade (e, logo, a baixar o volume de vendas) de determinada música, a baixar até o nível de envolvimento do ouvinte com o produto adquirido e, naturalmente, a condicionar o consumidor a não pagar aos artistas o que eles considerariam um preço “justo” pelo trabalho realizado.

Acrescento que o referido peso da gratuitidade do fenómeno da pirataria pode estar a impactar negativamente as gerações que a experimentaram, como factor de inércia motivacional. Veremos o que nos reserva o futuro, mas diria ser urgente discutirmos já de que maneira pode o preço da música melhor ajustar-se às necessidades dos artistas, à dignificação da música e à disponibilidade dos ouvintes. Em particular, valeria a pena reflectir sobre a proposta de um value based pricing que tivesse como princípio valorativo não o serviço mas a música, tal como de certa forma recentemente sugeriram Tobey Ko e Henry Lau: “an alternative pricing scheme for the digital music market, where the musician’s differentiated characteristics such as fame, popularity, and listener share […] is incorporated into the pricing decision by the record label […]. We argue that in the co-existence of free music streaming, the retail price of a musical product should be allowed to vary in a manner that reflects the differences in market environment and the musician’s characteristics”.9

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1 Maeve Campbell, “Is our addiction to Spotify ruining the planet? The environmental cost of streaming is invisible”,Euronews (16/03/2020), https://www.euronews.com/living/2020/03/16/is-our-addiction-to-spotify-ruining-the-planet-theenvironmental-cost-of-streaming-is-invi .

2 David Trainer, “It Sounds Like Spotify Is In Trouble”, Forbes (13/10/2020), https://www.forbes.com/sites/greatspeculations/2020/10/13/it-sounds-like-spotify-is-in-trouble/?sh=4c7bf77c813b .

3 Mariana Freixo Nunes, On-Demand Music Streaming and Its Effects on Music Piracy (Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2018). 

4 www.spotify.com (consulta a 13/02/2021). 

5 Jason Heffler, “Spotify premium prices differ around the world – here are the countries paying the most and least”, EDM (27/07/2020), https://edm.com/industry/spotify-premium-prices-by-country

6 Nastia Voynovskaya, “A Pandemic Is Not the Time for Spotify to Undercut Artist Pay”, KQED (09/11/2020), https://www.kqed.org/arts/13888879/a-pandemic-is-not-the-time-for-spotify-to-undercut-artist-pay .

78 out of 10 music creators earn less than £200 a year from streaming”, The Ivors Academy (07/12/2020), https://ivorsacademy.com/news/8-out-of-10-music-creators-earn-less-than-200-a-year-from-streaming-finds-survey-ahead-of-songwriters-and-artists-giving-evidence-to-a-select-committee-of-mps/ ; Murray Stassen, “Is Spotify in for a rough ride from UK politicians?”, Music Business (15/01/2020), https://www.musicbusinessworldwide.com/is-spotify-in-for-rough-ride-from-the-uk-government/

8 Jodi Beggs, “Pricing Music”, Music Business Journal, http://www.thembj.org/2012/05/starbucks-or-pennies-a-musicians-dilemma-2/ (consulta a 14/02/2021). 

9 Tobey Ko e Henry Lau, “A Brand Premium Pricing Model for Digital Music Market”, International Journal of Trade, Economics and Finance 6/2 (04/2015), http://www.ijtef.org/vol6/454-BE00009.pdf .

A estreia da Academia Ludovice Ensemble!

O Ludovice Ensemble, em colaboração com a Associação Musical Pro-Organo (AMPO) apresentam em Aveiro a primeira edição de um curso e festival internacional de Verão, a Academia Ludovice Ensemble. O evento realiza-se entre 19 a 25 de Julho de 2021 e é dedicado ao ensino, aprofundamento e divulgação de práticas históricas interpretativas das artes performativas nos campos da música, dança e teatro do período barroco. Haverá também concertos, conversas e visitas a órgãos e monumentos históricos.

O curso destina-se a três tipos de público: profissionais da música, dança e teatro;  alunos do ensino superior; jovens estudantes dos conservatórios e restante ensino artístico (entre os 13 e os 17 anos) através da Academia Júnior.

O público em geral é bem-vindo, na qualidade de assistente ou de ouvinte participativo.

As pré-inscrições encontram-se abertas, e encerram a 31 de Maio.


Direcção pedagógica e artística: Fernando Miguel Jalôto

Direcção executiva: Ricardo Toste

Tema: G. Ph. Telemann, Der getreue Music-Meister [O fiel mestre de música]


Corpo docente / Artistas:

MÚSICA

Orlanda Velez Isidro — Canto

Joana Amorim – Traverso e flauta de bisel

Pedro Lopes e Castro — Oboé barroco e flauta de bisel

Pieter Affourtit — Violino e violeta barrocos

Sofia Diniz — Viola da gamba

Diana Vinagre — Violoncelo barroco

Marta Vicente — Contrabaixo barroco e violone

Fernando Miguel Jalôto — Instrumentos históricos de teclado; baixo contínuo

Vasco Negreiros — Conjuntos vocais, direcção e coro

DANÇA e TEATRO

Jean-Denis Monory — Teatro, declamação e gestualidade barrocos

Catarina Costa e Silva — Dança barroca

ACADEMIA JÚNIOR

(Introdução aos instrumentos de cordas barrocos e práticas de conjunto de música barroca para alunos de instrumento moderno dos 13 aos 17 anos)

César Nogueira — Coordenação

Flávia Castro — Baixo contínuo e acompanhamento


Mais informações: https://academia-ludovice-ensemble.webnode.pt/

À memória de Passos Manuel

O Teatro Nacional de São Carlos transmite hoje, 2 Abril, pelas 21h, um concerto gravado na passada semana com uma obra fulcral no conjunto da escrita de Eurico Carrapatoso. O Requiem à memória de Passos Manuel, Op. 48, obra composta em 2004, numa encomenda da Fundação Passos Canavarro a propósito das comemorações do bicentenário de nascimento do ilustre político português, será interpretado por João Merino, o Coro do TNSC e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção de João Paulo Santos.

Os bilhetes para o concerto ainda estão disponíveis.

A Glosas teve a oportunidade de recolher uma pequena e bem-humorada entrevista com o compositor.



Como vê esta nova oportunidade de apresentação do Requiem?

Eurico Carrapatoso — Com alguma emoção. É uma obra dilecta. E de maturidade. Escrita em 2004-2005, na sequência de obras centrais do catálogo do início do século XXI, tais como O lobo Diogo e o mosquito Valentim e a ópera A floresta, é bem representativa de tudo aquilo que sou e que faço.

Tem acompanhado os ensaios?

EC — Sim. É um episódio da vida que fica, algo que um avô poderá contar a seus netos. “Sou do tempo em que assisti aos ensaios do Requiem à memória de Passos Manuel de vosso avô que vos quer muito: estava de máscara e muito desinfectadinho. Mediram-me a temperatura na entrada dos artistas. Todos os músicos da orquestra estavam de máscara como eu. O próprio maestro dirigia com suas mãos assépticas. O barítono solista só tirava a máscara nas suas deixas. E o coro estava engaiolado em jaulas isoladas*, como uma montra de aves canoras, fazendo lembrar até uma célebre rua de Amesterdão.” É nesta altura que a avó me diz para ter tento na língua e “atenção às crianças.” Acima de tudo, foi emocionante ver a entrega de todos, a vontade de fazer bem, de celebrar a arte e a vida numa comunhão absoluta de sensibilidades, numa época que mereceria um título à García Márquez: “O Amor nos Tempos de Pangolins”. Vivir para contarla.

Recorde-nos brevemente a génese desta obra.

EC — Passos Manuel é uma figura ilustre da história portuguesa, dada a sua dimensão quer como político visionário, quer como homem de cultura. A sua acção política é particularmente relevante a partir da década de 1830 e, como Ministro do Reino entre Setembro de 1836 e Julho de 1837, deixou um conjunto de reformas espectaculares ao nível da economia e, mormente, da educação e da cultura. A sua imagem está, desde então e para sempre, associada ao perfil do grande democrata, reformista, progressista, patriota e liberal indefectível. Também célebre é a sua atitude sempre contemporizadora para com os seus adversários políticos, de um trato diplomático e de uma educação subtil impecáveis que sempre vigoraram, mesmo no ambiente explosivo próprio do quadro obsidiante de guerra civil que Portugal viveu naquela época — um verdadeiro vórtice político, com todas as convulsões que acompanharam a transição do Ancien Régime absolutista para o liberalismo. Sempre sereno nesse maremoto, Passos Manuel foi a imagem da calma helénica, tendo tratado os adversários com honra e distinção. Retirou-se da vida política em 1838 e em 1841 adquiriu a Alcáçova de Santarém, nas proximidades da Porta do Sol, onde fixou a sua residência permanente e onde haveria de falecer em 1862. Passos Manuel atravessou o poder sem se demorar, serviu sempre desinteressadamente o seu país, não tendo dele recebido nem honras, nem empregos, nem benefícios. É, para mim, um paradigma de dignidade cujo exemplo é infelizmente pouco seguido, dado o devorismo que, não raro, se foi insinuando na conduta dos políticos (vide as caricaturas sarcásticas de Rafael Bordalo Pinheiro, com os políticos sebentos a mamarem na grande porca) e que tantas vezes caracteriza uma parte da classe política do nosso próprio tempo.

Ainda se recorda da estreia, com Jorge Vaz de Carvalho e, como hoje, a direcção de João Paulo Santos?

EC — A estreia na jóia do gótico, a Igreja da Graça em Santarém, foi mágica. 18 de Janeiro de 2006. A obra no seu elemento.

Quais as restantes apresentações que gostaria de destacar?

EC — Em 2008, na Sé de Santarém, o Requiem foi feito no decurso da liturgia do Dia dos Fiéis Defuntos: especial. Foi também apresentado na Igreja de São Francisco, em Évora! Local mágico. Cidade eterna. Recordo ainda um concerto na Igreja de Santo António, em Haia, já em 2014: a excelência dos músicos holandeses a celebrarem comigo a arte e a vida.

Algum projecto próximo que gostasse de nos revelar neste momento?

EC — Estou a escrever. Estou activo. Isso não é mau nestes tempos de seca. Este ano será estreada uma obra de homenagem ao Quatuor pour la fin du temps por intérpretes de excelência mundial. Lá para Novembro, no Centro Cultural de Belém, assim a situação sanitária o permita.

 

*Este concerto inaugura uma estrutura concebida à medida do palco do TNSC que permite acolher em espaços individuais, de acordo com as normas de distanciamento agora vigentes, os 48 coralistas.

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