MPMP homenageia Jorge Listopad

Falta pouco! No âmbito das comemorações do centenário do escritor e encenador Jorge Listopad (1921-2017), o MPMP Património Musical Vivo convidou o jovem compositor Miguel Resende Bastos, galardoado com o Prémio Musa 2020, a adaptar o célebre ciclo O diário de um desaparecido de Leoš Janáček. E a estreia desta revisitação é já no próximo Sábado, dia 28 de Maio, pela 21h30, na Biblioteca Nacional de Portugal.

Os poemas falam-nos de um jovem aldeão que se apaixona por uma cigana. A partitura de Janáček é aqui entrecortada com textos de Listopad, que tinha pelo compositor checo, seu conterrâneo, enorme admiração. Dará voz a estas palavras o actor David Pereira Bastos.

O espectáculo conta com direcção cénica dos actores Miguel Loureiro e Tiago Barbosa, sendo a música interpretada pelo prestigiado tenor francês Fabien Hyon, pelas sopranos Ana Raquel Sousa e Beatriz Volante, pela contralto Rita Filipe e pelo Ensemble MPMP sob a direcção de Jan Wierzba.

O tenor Fabien Hyon é laureado HSBC 2017 do Festival d’Aix-en-Provence e, em 2015, foi distinguido com a menção Révélation Classique pela Sociedade Francesa de Direitos de Artistas e Músicos Intérpretes (ADAMI). Foi ainda artista residente do Teatro Imperial de Compiègne, e laureado no Concurso Internacional de Gordes e no Concurso Internacional de Toulouse (onde conquistou o Grand Prix de Mélodie Française juntamente com a pianista Juliette Sabbah). É mestre pelo Conservatório National Superior de Música e Dança de Paris, tendo aí estudado com Malcom Walker, Susan Manoff, Anne Le Bozec e Olivier Reboul. De seguida, estuda na Capela Musical Rainha Elisabete com José Van Dam, Sophie Koch, Jocelyne Dienst e Alain Garichot, tornando-se depois Artista Associado da instituição.

O espectáculo, de entrada livre, será apresentado no Foyer do Grande Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal. O MPMP sugere reserva de lugar através de [email protected].

A iniciativa do MPMP Património Musical Vivo conta com o apoio da Direcção-geral das Artes.

‘Arcos levantados’ para a Camerata Atlântica!

Bows Up! é o mais recente trabalho da Camerata Atlântica, projeto fundado em 2013 por Ana Beatriz Manzanilla, violinista da Orquestra Gulbenkian e diretora artística da formação lisboeta. Com efeito, os “arcos levantaram-se”, apresentando-nos um pouco do que de bom a música portuguesa para orquestra de cordas tem a oferecer. O período temporal circunscreve-se aos séculos XX e XXI, retratados pelas obras de Sérgio Azevedo, Joly Braga Santos e António Fragoso. Esta ordem cronológica inversa deve-se ao modo de apresentação dos mesmos na capa do disco, embora tal também não corresponda com a ordem de aparecimento dos compositores ao longo das obras escolhidas.

O CD, lançado já a 3 de dezembro de 2021, perfaz um total de quase uma hora e conta com uma série de estreias mundiais, já que parte do repertório trata obras dedicadas à própria Camerata, obras essas encomendadas a Sérgio Azevedo, que foi também assistente musical deste projeto. O compositor coimbrense, considerado um dos mais importantes da sua geração, é o responsável pela renovada e livre orquestração da Suite romantique (1916) de Fragoso, obra inicialmente pensada para violino e piano, trabalho encomendado pelos seus herdeiros aquando do centenário da sua morte e que o representa, agora, neste álbum da NAXOS Records.

 

 

Com efeito, o CD inicia-se com as contribuições de Sérgio Azevedo: a Sinfonietta para cordas (2019); parte do Concerto romântico (2018), inspirado na já citada Suite romantique; e Música para cordas – em memoriam Béla Bartók (2021), um tributo aquando do 140º aniversário de nascimento do compositor. A primeira obra, disposta em 3 andamentos, narra um caminho de ascensão — de Inquieto a Hino —, embora encerre de forma abrupta. Destaco a fluidez com que o caráter da obra neoclássica se vai reconfigurando, passando de um coral renascentista para um estilo de dança folclórica, caraterística conseguida pela notável qualidade composicional, mas também interpretativa. Segue-se um Prélude, cuja sonoridade denuncia as inspirações afrancesadas de Fragoso. Neste caso, apenas se incluiu o primeiro andamento do tributo, já que é o único exclusivo para formação de cordas (os restantes incluem também harpa e percussão). Face ao papel solístico virtuoso, saliento a exímia e cuidada prestação do violino. Já na peça intermédia do álbum, Sérgio Azevedo evoca Bartók, algo muito claro no primeiro andamento — Fantasia contrappuntistica — cujas melodias remetem para a aclamada Música para cordas, percussão e celesta. Ainda que as ligações dos restantes três andamentos não sejam tão lineares, conserva-se a natureza cromática e contrapontística, elementos que dialogam na perfeição em Deciso, no qual se dissolve, progressivamente, a tensão construída, conduzindo ao belíssimo terceiro andamento, Mesto.

Por fim, chegamos ao Concerto em ré menor (1951) de Joly Braga Santos, uma das obras portuguesas mais tocadas em todo o mundo. Apresenta-se mediante um ambiente neo-modal, com forte influência do canto popular alentejano, fusões herdadas de Freitas Branco, seu predecessor. A linguagem de Braga Santos marca-se tão própria quanto bela, sendo destacada pelo brio da interpretação. Entre as passagens mais proeminentes, destaco o final do primeiro andamento, Largamente maestoso — Allegro, assente num preenchido ostinato que conduz ao pesaroso motivo do segundo andamento, um Adagio non troppo, também este com secções de enorme competência. A compilação finaliza com um rondó rápido, em ambiente de festa, de planos contrapontísticos fascinantes.

Ainda que exclusivo das plataformas digitais, o lançamento inclui também um single que estreia mundialmente as Duas melodias de Luís de Freitas Branco, material disponível em https://open.spotify.com/album/4Vl0k0dNwsKtd7Xv8BMgch. Também nesta obra a interpretação foi apaixonante, sem nunca perder a matriz de coesão e equilíbrio. Segundo o pequeno livro de comentários sobre as obras e compositores a tratar, elemento disponibilizado com o CD, este bónus deve-se ao entendimento do compositor como o primeiro de uma linguagem de compositores modernos, na qual se encontram também António Fragoso e Joly Braga Santos, embora este entendimento não seja categoricamente consensual entre a comunidade musicológica. Ainda assim, considero que os textos complementares perfazem uma adição de muita qualidade e interesse, apesar de não poder deixar de frisar a ausência de comentários em versão portuguesa, num álbum que se propõe festejar a música nacional. Esta falha marca-se ainda mais relevante se confrontada com alguns parênteses tecidos, já que se é verdade que Portugal está, muitas vezes, atrasado em relação à evolução europeia, são também estes esforços que podem colmatar tal fosso.

 

 

Em relação à escolha da capa do disco e do single, destaca-se a escolha de uma foto do Palácio Fronteira, em Lisboa, que, ao ser apresentada sob uma edição diferente, tanto a nível de cores, quanto de perspetiva, parece tratar dois cenários distintos, ainda que complementares. Não obstante, a ligação entre o repertório interpretado e a belíssima casa-museu do século XVII não se mostra clara, pelo que julgo ser consequente da ligação entre a diretora artística da Camerata Atlântica e o espaço, no qual colabora também como diretora musical.

É, sem dúvida alguma, importante apoiar projetos como este, pelo que deixo também aqui a minha felicitação à Fundação GDA, à Direção Geral das Artes, à Câmara Municipal de Cascais, à Fundação Dom Luís, à editora AvA Musical Editions e ao  Auditório Boa Nova, local no qual tudo foi gravado, ainda em 2020. Além da sempre recomendada compra física, é também possível ouvir em formato online, tudo isto em https://camerataatlantica.pt/shop/bows-up/.

Música entre Artes #11

Domingos Maria Xavier Rebelo (1891-1975), mais conhecido por Domingos Rebelo, foi um pintor açoriano e autor de algumas das mais emblemáticas imagens da iconografia do arquipélago.

Os emigrantes, datada de 1926, é uma das mais conhecidas obras do artista, e lembra sem dúvida um dos fenómenos sociais mais presentes nos Açores. É um retrato bastante presente na grande parte das famílias açorianas: a busca de melhores oportunidades e de uma nova vida por terras estrangeiras. Esta pintura a óleo é uma representação icónica da experiência emigrante daquela época. A despedida junto ao porto da cidade de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, carrega em si a identidade de um povo repleto de símbolos e tradições.

Para além de toda a simbologia, Domingos Rebelo imortaliza variadíssimos elementos que caracterizam a alma das gentes das ilhas. Desde o quadro com o Senhor Santo Cristo à viola da terra, o artista cria todo um cenário que marcou e continua a marcar a cultura de um povo através da representação do traje popular, dos baús de madeira, a cesta de vimes e a saca de retalhos.

 

 

No primeiro plano, do lado esquerdo da pintura, está representada a viola da terra, um instrumento com uma construção vinculada à identidade deste povo. É fascinante o repositório de símbolos destacados no instrumento como forma de tradução e expressão da personalidade açoriana. Analisando o corpo do instrumento, vemos que estão ilustrados dois corações, que representam o de quem parte e o de quem fica. Por isso, são ilustrados de “costas” voltadas um para o outro e separados pelas cordas do próprio instrumento. Por outro lado, estão unidos por um cordão umbilical que, por sua vez, se une numa lágrima que representa a saudade. A busca da riqueza através da emigração é representada pelo ás de ouros ou até mesmo pelo Espírito Santo, uma das maiores festas celebradas nas nove ilhas dos Açores. Por fim, temos representado o açor no cavalete, ave que deu origem ao nome do arquipélago.

Um senhor com ar triste, a observar o mar, remete o observador para um dos símbolos mais poderosos da obra. O mar é o caminho, mas também o obstáculo.

A pintura de Domingos Rebelo marcou Tomaz Borba Vieira (1938-) que, em 1987, decidiu homenagear o pintor através de Os regressantes.

 

 

O autor, nesta obra, realiza uma metamorfose dos símbolos representados na pintura original. É o resultado da própria emigração com a alteração de uma cultura por outra. A viola da terra transforma-se numa guitarra eléctrica, e com ela adivinham-se novos estilos musicais e sonoridades. A viagem deixou de ser representada pelo mar azul, mas sim pelo cinzento de uma pista de aeroporto e pela poluição das sociedades desenvolvidas. A carroça é agora um automóvel, a cesta de vimes um rádio, o baú uma mala de viagem, os trajes típicos encontram-se substituídos por roupas modernizadas e o quadro do Senhor Santo Cristo é uma imagem da Torre CN de Toronto, cidade que até aos dias de hoje representa e acolhe muitas das comunidades açorianas no Canadá.

O jovem a chorar no lado esquerdo da obra de Domingos Rebelo é agora um adolescente de boné que lhe tapa parte do rosto, símbolo de deslumbramento de quem está a ser captado pela câmara de filmar, segurada pelo senhor ao centro da imagem. Aqui é possível observar a evolução até mesmo dos sentimentos retratados nas duas diferentes pinturas: o que antigamente remetia à saudade e tristeza, agora é reflectido na fascinação e felicidade daqueles que vão rever ou conhecer os seus familiares que permanecem nas terras açorianas.

D’Os emigrantes a’Os regressantes os símbolos são outros, as vivências não são as mesmas e as próprias cores e técnicas dos artistas são diferentes. É evidente cada alteração, mas, no fundo, o objectivo de quem vai à procura de uma vida melhor é, muitas vezes, o regressar às suas origens.


Filipe Lemos assina o “Música entre Artes #11” a convite de Luzia Rocha.

Os Noivos no Coliseu

O Coliseu do Porto receberá hoje, 19 de Maio, às 21h, a segunda apresentação em Portugal da opereta Os Noivos, com música de Francisco de Sá Noronha, importante violinista e compositor oitocentista de quem celebrámos o bicentenário em 2020. Esta obra foi estreada em Outubro de 1880 no Brasil, e teve no passado 13 de Maio, na Casa das Artes de Famalicão, a sua primeira apresentação absoluta em território português.

Este projecto operático surgiu da parceria de Sá Noronha, emigrado no Brasil desde os seus 18 anos, com o dramaturgo brasileiro Artur Azevedo, com quem desenvolveu outras obras do género. Azevedo e Noronha criam “uma comédia de costumes que tem como pano de fundo a vida rural nas fazendas da periferia carioca sua contemporânea”, como nos lembra a musicóloga Luísa Cymbron, principal estudiosa de Francisco de Sá Noronha, nas notas que acompanham a comunicação deste projecto.

 

 

O espectáculo é co-produzido pela Musicamera – que tem, aliás, promovido com grande afinco a música de Sá Noronha, sobretudo considerando o projecto Descobrir Noronha – e pelo Estúdio de Ópera da ESMAE, sob a direcção artística de António Salgado e a direcção musical de José Eduardo Gomes, contando ainda com a encenação de António Durães. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.

Nova gravação italiana de Freitas Branco

Foi recentemente lançada mais uma gravação com obras de câmara de Luiz de Freitas Branco, que inclui o registo das duas sonatas para violino, do trio com piano e de um prelúdio para violino e piano. O italiano Alessio Bidoli é o responsável por este novo projecto, editado pela etiqueta Sony Classical, em que o violinista se junta ao pianista Bruno Canino e ao violoncelista Alain Meunier.

O percurso discográfico de Alessio Bidoli passou recentemente pela música de Nino Rota, mas o milanês também já se tinha dedicado ao registo de Saint-Saëns, Wieniawski ou Grieg. O violinista conta que deparou com Freitas Branco “por acaso”: a gravação das sinfonias do mestre português estava numa loja em que procurava alguma música nova. A partir daí, encontrou as partituras e decidiu aprofundar mais o seu estudo das obras para violino do compositor, que foram escritas entre 1908 e 1928, duas décadas de grande evolução da sua música em termos estilísticos, segundo nos lembra Franco Pulcini nas notas que acompanham o CD.

 

 

Alessio Bidoli nasceu, em 1986, no seio de uma família construtora de violinos na Lombardia – o seu próprio violino foi construído pelo avô. É actualmente professor no Conservatório de Bari, tendo estudado em Lausanne, Salzburgo, Siena, Imola e, claro, no Conservatório Giuseppe Verdi da sua cidade natal. Foi também no Conservatório de Milão que estudou Bruno Canino, tendo sido lá professor durante 24 anos, ainda que seja natural de Nápoles. O pianista lecciona hoje em Fiesole, tendo tocado ao longo da sua longa carreira com algumas das mais importantes orquestras mundiais, como a Berliner Philarmoniker e a New York Philharmonic. Já Alain Meunier nasceu em Paris, onde se formou, tendo sido professor na Accademia Chigiana durante 33 anos.

 

 

O CD está disponível para compra on-line ou escuta nas habituais plataformas de streaming.

Salvini e a tradição de canto lírico nacional

Dar-se-á no dia 20 de Maio, pelas 18h30, a apresentação do livro As minhas lições de canto. É a última obra do renomado professor de canto e compositor Gustavo Romanoff Salvini, a qual será agora divulgada, postumamente, em versão completa. A sessão terá lugar no Conservatório de Música do Porto e será dirigida por Tânia Valente, musicóloga responsável pela revisão da obra, a qual incrementou também com uma série de comentários.

 

Gustavo Romanoff Salvini nasceu na Polónia Prussiana, ainda no século XIX, embora os seus estudos e carreira lírica se tenham consolidado já em Itália, país no qual se refugiou, em consequência de perseguições políticas. A sua entrada em Portugal deu-se através do Real Teatro de São João, no Porto, cidade onde acabou por fixar-se e na qual, após um incidente, se especializou na carreira de ensino. Foi neste período que Salvini se deu conta da ausência de uma tradição de canto lírico nacional, dada a forte influência de italianismos, pelo que, encantando-se com a sonoridade e poesia da língua portuguesa, o também compositor decidiu publicar, em 1865, uma compilação de 40 canções, o Romanceiro musical. Passado pouco menos de duas décadas, esta compilação voltou a ser publicada, já como Cancioneiro musical português.

Ainda assim, Salvini almejava mais do que o consolidar do canto em português, projetando também a criação de um estilo de canção de câmara erudita nacional, processo que depreendia uma reforma da música em Portugal. Desta forma, Salvini escreveu também um método de canto inédito, pensado para os cantores portugueses que, até então, não tinham qualquer método técnico rigoroso em vernáculo. As minhas lições de canto configura-se, portanto, como o primeiro método escrito em Portugal, embora a carência de apoios tenha impedido a sua publicação ao longo da vida do autor. Foi só em 1931 que os herdeiros de Salvini, juntamente com Bertino Daciano Guimarães, lançaram parte desta obra, sendo que, nesta primeira versão, se demarca a carência das partituras do popular método Vaccai, uma série de exercícios técnicos criados pelo compositor italiano Niccola Vaccai, exercícios estes nacionalizados por Salvini.

Só em 2020 é que esta obra, ainda inovadora, já que continua a ser dos poucos métodos de canto escritos em português, foi publicada na sua completude, graças à já mencionada investigadora Tânia Valente, a qual é, também ela, cantora. Além do interesse prático, este livro denota, de igual forma, um grande interesse histórico, pois reflete o ensino da música em Portugal e o panorama europeu no final do século XIX. Esta segunda versão, a ser apresentada já no final desta semana, encontra-se sob a alçada da AvA Musical Editores e conta não só com o apoio do Conservatório de Música do Porto, mas também do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical.

Entrevista a Nuno Coelho

Nuno Coelho vem acumulando distinções e convites das mais importantes orquestras mundiais na sua interessantíssima carreira enquanto director de orquestra. O público português já se habituou a vê-lo regularmente na Fundação Calouste Gulbenkian, onde é Maestro Convidado, mas os seus caminhos estão, cada vez mais, dispersos por todo o planeta. A sua recente nomeação para maestro titular da Orquestra Sinfónica do Principado das Astúrias, obtida por unanimidade entre cerca de três dezenas de candidaturas, foi o pretexto ideal para uma conversa com o jovem maestro português.


 

Como surgiu a oportunidade para este novo projecto nas Astúrias?

Eu trabalhei com a orquestra pela primeira vez em 2019. Desde então, fizemos quatro projectos juntos, com obras de Schubert, Ligeti, Bruckner, Brahms e a ópera Hänsel und Gretel de Humperdinck. Já nos conhecemos bem e isso era muito importante para mim antes de aceitar este desafio. Quanto ao processo de candidatura, como é uma orquestra pública, houve um concurso geral em que apresentei um projecto com algumas ideias que gostaria de desenvolver como maestro titular. Para finalizar, houve uma pequena entrevista com o júri e depois anunciaram o resultado.

 

 

Quais serão os principais desafios e expectativas, tendo já trabalhado de perto com esta orquestra?

Como maestro principal, há todo um trabalho extra-musical que é preciso fazer e que é novo para mim: relações com os músicos, questões laborais, relação com o poder político e com a imprensa, com o público, promotores… Musicalmente, serão bastantes semanas por temporada para programar, escolher repertório que sinto que a orquestra necessita e eu posso desenvolver, equilibrar música contemporânea com os gostos do público, repertório espanhol, escolha de solistas… Neste contexto de pós-pandemia há, além disso, um grande trabalho a fazer para recuperar o público que se perdeu e ainda não voltou às salas de espectáculo ― isso sente-se muito em vários países, e em Espanha também. Vamos criar festivais e novos formatos de apresentar concertos, fortalecer a ligação com a cidade e região e as várias companhias culturais para assim captar a atenção do público e fomentar o cruzamento de público das várias artes.

Em que direcções apontarão em termos de programação e repertório?

Com a OSPA, o meu foco será sobretudo no repertório pós-romântico germânico (Mahler, Bruckner, Strauss) e no período do Impressionismo e século XX (Ravel, Debussy, Messiaen, Janáček, Bartók, para nomear alguns). Além disso, conto também reforçar a programação do período clássico ― com obras canónicas de Haydn, Mozart e até Schubert. Nas próximas temporadas gostaria também de continuar os projectos de ópera, quer em versão concerto, quer na Ópera de Oviedo, onde a orquestra toca três ou quatro produções por ano.

É uma oportunidade importante do ponto de vista da evolução de carreira?

Acho que pode ser muito positivo. Permite-me trabalhar e desenvolver um projecto com a mesma orquestra a longo prazo: desde o trabalho técnico e musical com a orquestra, passando por novos formatos de concertos e formas de apresentar a música clássica em que tenho pensado. Posso agora finalmente pô-los em prática e experimentar.

Em que medida os (vários!) prémios de direcção que recebeu foram importantes nesse percurso? 

Sempre vi os concursos como forma de aprender e motivação para melhorar. Alguns correram bem, outros menos, mas o importante é vê-los como etapas e não como um fim. Além disso, são uma forma de mostrar o nosso trabalho para o júri, orquestras e colegas, estabelecendo assim uma rede de contactos. Houve membros de júri que se revelaram extremamente importantes mais tarde na minha carreira e que se lembravam de mim desde esses concursos em que participei, mesmo que não tenha ganho. Ganhando há, obviamente, maior visibilidade e promoção. No caso do Concurso de Cadaqués, o prémio são convites para dirigir 40 orquestras pela Europa e Ásia. É incrível e permite lançar as bases para o futuro.

 

 

Quais as apresentações que gostaria de destacar?

Não estando relacionado com os prémios, lembro-me particularmente de duas estreias: a primeira vez que dirigi na Concertgebouw em Amesterdão com a Orquestra Filarmónica de Amesterdão (da qual fui assistente durante dois anos) e a estreia profissional em Portugal, na Fundação Gulbenkian, em 2017.

O trabalho com compositores (e estreias) tem sido uma marca da sua carreira. Há previsão de algo do género nesta próxima fase?

É verdade, é algo que gosto muito de fazer e criar essa relação de confiança com os compositores. Quanto à OSPA, ainda não posso adiantar muitos detalhes: estamos neste momento a finalizar a temporada e a apresentação só acontecerá em Junho. Iremos ter uma colaboração estreia com um grande e jovem compositor espanhol ao longo das três temporadas e além disso haverá uma aposta forte em tocar repertório contemporâneo, em estreia ou não. O objectivo é incluir uma obra do séc. XX ou XXI pelo menos uma vez por mês, preferencialmente com mais frequência ainda.

Têm prevista alguma apresentação de música portuguesa?

Ainda não posso adiantar, mas é algo que gostaria de mostrar aos nossos “vizinhos” ― sobretudo os compositores com quem tenho trabalhado na Gulbenkian. Adorava também fazer o Vathek ou alguma sinfonia de Joly Braga Santos, muitas delas ainda por estrear em Espanha.

Haverá alguma digressão da orquestra a Portugal?

É um dos grandes objectivos para o médio-prazo. A orquestra já veio ao CCB há pouco tempo e faz concertos regularmente em Santander, A Coruña e Madrid. Assim como com a JONDE (Orquestra de Jovens de Espanha, que irei dirigir em Janeiro de 2023 e com a qual temos concertos no Porto e Lisboa), também com a OSPA seria muito interessante poder mostrar o nosso trabalho em Portugal.

Teremos oportunidade regular de ouvir a Orquestra das Astúrias em streaming?

Durante a pandemia a orquestra transmitiu vários concertos em diferido no YouTube. Além da cidade de Oviedo, a orquestra serve toda a região das Astúrias e faz regularmente concertos em mais duas cidades: Gijón e Avilés. Após os confinamentos e com o retomar de alguma actividade cultural, essa foi a forma de manter o contacto com o público. Actualmente (e para o futuro), acho que pode ser um incentivo a um maior perfeccionismo e uma forma de divulgar o trabalho que realizamos. Isto não invalida o esforço prioritário de mostrar às pessoas a importância do concerto ao vivo, esse momento de concentração e partilha directa entre a orquestra e o público.

 

 

Que projectos próximos nos poderia revelar?

Até ao fim da temporada tenho bastantes projectos com orquestras um pouco por toda a Europa: Dresden, Lille, Valência, Madrid, Hannover… No verão, estarei uns tempos por Portugal e irei dirigir a 5ª Sinfonia de Mahler com a Orquestra de Jovens do Alto Minho e de seguida a Sinfonia Fantástica com a Orquestra de Jovens da Flandres, na Bélgica. Na próxima temporada, além dos projetos com a OSPA e guest-conducting com várias orquestras na Europa e América do Norte, estamos também a preparar um projecto muito estimulante e criativo com a Gulbenkian e vários cantores portugueses ― ainda não posso adiantar pormenores, mas será um espectáculo único a acontecer em meados de Novembro.

PODCAST | Homenagem (09/2021)

Prossegue o podcast Glosando pela música da lusofonia, um programa da revista Glosas com transmissão em directo na rádio-café Lusophonica, no Farol de Santa Marta, em Cascais, nos últimos domingos de cada mês.

glosas.mpmp.pt relembra agora a décima-primeira emissão, transmitida a 26 de Setembro do ano passado. A musicóloga Isabel Pina apresentou um guião sob o tema “Homenagem”, termo que, na sua origem, evoca o “juramento de fidelidade que prestava ao soberano o vassalo que recebia feudo”, e que ora assume, entre outras, a acepção de “inscrição com que se dedica ou oferece a alguém uma produção literária ou artística”. O alinhamento centrou-se em obras de Luiz de Freitas Branco (Prelúdios, 4.ª Sinfonia), Joly Braga Santos (3.ª Sinfonia), Lopes-Graça (O túmulo de Villa-Lobos, 24 Prelúdios, Requiem e Sinfonia per orchestra).

A edição encontra-se agora disponível no canal MixCloud da Lusophonica. Se não teve oportunidade de ouvir, poderá fazê-lo aqui:

Uma academia de música para Guiné-Bissau

A Academia de Música José Carlos Schwarz parte de um colaboração internacional entre o governo da Guiné-Bissau e o Conservatório Bonfim, em Braga, Portugal. O objetivo prende-se com a recuperação do ensino musical no país, já que a escola de música nacional encontra-se encerrada desde 1998, aquando do eclodir da guerra civil. O nome deste projeto revitalizador é uma homenagem a um grande poeta guineense, José Carlos Schwarz, o qual foi responsável pela criação de um estilo nacional, assente em poesia crioula, que ainda hoje tem repercussão no repertório de intervenção do país. É curioso saber também que Schwarz materializa, à semelhança desta Academia que a ele faz tributo, a ligação entre os dois países, já que na sua juventude passou também por terras lusitanas.

Foi Rebeca Venturin de Sousa, professora licenciada em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA, em Lisboa, departamento no qual fez também o seu mestrado, já na vertente de Etnomusicologia, que tomou as rédeas deste projeto. A sua ligação ao país africano remete-nos para a sua infância, já que Rebeca viveu os seus primeiros oito anos de vida em território guineense, em consequência do serviço dos seus pais num campo missionário em Bafatá. Tal fez também com que o projeto tenha conseguido instalações, cedidas pela Missão Baptista, que conduz já uma escola com cerca de novecentos alunos.

O projeto carece agora de materiais, discriminados no site da Academia, https://www.academiademusicajcschwarz.com, entre os quais encontramos objetos mais específicos, como cadernos de música e instrumentos musicais, mas também material de escrita e para trabalhos manuais.

Para mais informações, não deixe de contactar a responsável pela angariação, através do email, [email protected], ou telemóvel, +351 966 355 338.

Musas de Maio no MPMP

 

A agenda de Maio do MPMP celebra Leoš Janáček e Jorge Listopad. Vem isto a propósito do Prémio Musa 2020, na sequência do qual encomendámos ao compositor premiado, Miguel Resende Bastos, uma obra musico-dramática dedicada ao 100.º aniversário do nascimento do célebre encenador de origem checa, Listopad (1921-2017). Propôs-se a recomposição d’O diário de um desaparecido, partitura icónica de um dos seus compositores favoritos, Janáček, história de um jovem aldeão que se apaixona por uma cigana, ora adaptada para vozes e invulgar sexteto.

O desafiante papel de tenor é confiado ao jovem Fabien Hyon, Révélation Classique da ADAMI em 2015, laureado HSBC 2017 do Festival d’Aix-en-Provence e distinguido também nos concursos internacionais de Gordes e de Toulouse, neste último conquistando o Grand Prix de Mélodie Française. Juntam-se-lhe as sopranos Ana Raquel Sousa e Beatriz Volante e a contralto Rita Filipe, mais o Ensemble MPMP, sob a direcção musical de Jan Wierzba; Ricardo Campos concebe o desenho de luz e a Miguel Loureiro cabe a recitação e a direcção cénica. O espectáculo é de entrada livre mas os lugares são poucos: sugere-se inscrição antecipada para quem ousar mergulhar na sonora noite de 28 de Maio, às 21h30, no Foyer do Grande Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal.

 

 

Por falar em Miguel Resende Bastos, é no dia 26 de Maio, aniversário de Ruben A., que é lançado digitalmente, nas habituais plataformas de streaming, o disco resultante do concerto de estreia do Prémio Musa 2020. Para além de o disco incluir a obra premiada, Um adeus aos deuses, reúne também as partituras que foram escritas de propósito para aquele evento: Silêncio para quatro de Camila Salomé Menino, Torre de Barbela de Solange Azevedo, Mensagem sentida sem sentido de Diogo Novo Carvalho, O mundo à minha procura I de Agnelo Marinho, Caranguejo de José Tiago Baptista e O mundo à minha procura II de Manuel Brásio. A recitação dos textos de Ruben A. coube a Carmen Granja, com o Ensemble MPMP, sob a direcção de Jan Wierzba, a interpretar os sons novíssimos.

 

 

Ainda a propósito do Prémio Musa, mas recuando à sua primeira edição, a de 2019, temos agora, finalmente, a estreia da última peça que o laureado Hugo Ribeiro compôs no âmbito da sua residência no MPMP. Trata-se de et caetera, um divertido e exigente quinteto de sopros, que conhecerá assim a sua estreia absoluta no dia 21 de Maio, na Timbre Seixalense, auditório que o MPMP visita pela primeira vez. O alinhamento do programa inclui obras de Eurico Carrapatoso e de Maria de Lourdes Martins já no ano passado interpretadas pelo Ensemble MPMP, aquando da sua viagem ao Brasil, mas na bagagem de regresso veio uma novidade: a partitura d’O palácio dos ventos de Marcos Lucas, compositor docente na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, que conhecerá assim a sua estreia lusitana e que é, na temporada de 2022 do MPMP, o primeiro (de vários) momentos de evocação do bicentenário da Independência do Brasil e da amizade entre as duas nações.

 

 

Enquanto o quinteto de sopros do Ensemble MPMP prepara o programa luso-brasileiro, o quarteto de arcos junta-se, por convite, à trupe que (re)põe a circular Cinco formas de morrer de amor, um espectáculo da soprano Catarina Molder com direcção cénica de Lígia Roque e desenho de luz de Rui Simão. Produzida pela Ópera do Castelo, co-produzida pelo Teatro Nacional de São João, onde foi estreada, a peça vai agora até Loulé, no dia 13, e leva música de Chausson, Chagas Rosa, Chostakovich (Lady Macbeth), Luís Soldado e Clã, com arranjos do jovem compositor Francisco Lima da Silva.

 

 

Na Biblioteca Municipal de Marvila vai continuando, de vento em popa, um ciclo de clubes de escuta. A sessão de Catarina Távora, para público benjamim, realizou-se já no passado dia 2; a de Martim Sousa Tavares, para público adulto, dá-se no dia 18, às 18h30, com o tema “Thomas Mann e sentir versus pensar”. Os interessados em participar nestas reuniões informais sobre música — a do nosso tempo, a mais antiga, a que temos à nossa volta e a de que raras vezes ouvimos falar — podem inscrever-se através de [email protected] .

 

 

Por fim, a 29 de Maio, pelas 10h30, regressamos — cela va sans dire — à rádio-café Lusophonica. O guião caberá, neste mês, a Tatiana Bina, há vários anos colaboradora do MPMP, como sempre procurando propor uma escuta inesperada do que somos, musical e lusofonicamente falando.

 

Para mais informações, visite www.mpmp.pt/agenda .

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