O Natal começa a 30 de Novembro, pelo menos para a música clássica portuguesa. Quem já está dentro do espírito natalício pode acompanhar dois concertos nesta data. Mas o fim-de-semana também traz a estreia de uma nova ópera em Matosinhos.
Às 17h, Casa do Jardim da Estrela, há nova apresentação gratuita de A Noite de Natal. A partir do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, é sobre uma menina solitária que encontra um amigo e passa com ele muitos dias até descobrir, durante o Natal, que ele é o menino Jesus. A música é de Eurico Carrapatoso e as ilustrações de Mariana, a miserável. O espetáculo terá a narração de Catarina Távora e contará com a harpista Ana Ester Santos e o pianista Duarte Pereira Martins.
Na Igreja do Santo Condestável, às 21h, com entrada gratuita, acontece o espetáculo Vilancicos e Natal Português. O Coro de Câmara Lisboa Cantat, sob direção do maestro Jorge Carvalho Alves, interpretará vilancicos e motetos da época renascentista, canções tradicionais portuguesas recolhidas ao longo dos anos e registadas, por exemplo, nas Primeira e Segunda Cantatas de Natal, de Fernando Lopes-Graça, no Magnificat em talha dourada, de Eurico Carrapatoso, ou nas composições de Fernando Lapa. O programa foi concebido em torno do nascimento de Jesus, desde a Anunciação à visita dos pastores, a Sagrada Família e a visita dos Reis Magos.
Com música de Tomás Marques, Telmo Marques e Fernando Lapa, AURORA, ópera para uma epopeia dos tempos modernos, é uma ópera em que a adolescente Aurora visita alguns cantos dos Lusíadas, numa viagem interior onde se cruza com o Velho do Restelo, Adamastor e Calíope, musa da poesia. A direção musical é de Raquel Couto, a encenação é de Nuno M. Cardoso, o libreto de Eduarda Freitas, com o Coro Lira e Solistas All’Opera. A produção é de Adriana Leite. As apresentações ocorrerão nos dias 30 de novembro, às 21h30 e 1 de dezembro, às 16h, no Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery.
Porque é maravilhoso! Apercebo-me de que vou indo… e poucas vezes páro para pensar numa questão como esta. Diria que há o prazer da música em si, enquanto fenómeno, e há o prazer de criar relações e me relacionar, interna e externamente, com as emoções, com um texto, com uma imagem, com uma situação, com uma memória, com o/um corpo, com uma ideia, com uma — ou com as — pessoa(s), com o espírito… Eu gosto de criar em geral, mas fazer música toca e preenche-me mais do que qualquer outra coisa. Muitas vezes é um processo de cura e exteriorização. Se calhar também é onde me sinto o mais honesta e verdadeira comigo própria e, por consequência, com o meu redor.
Para quem?
Motiva-me conseguir expressar algo que provoque e que anime uma experiência emocional nas pessoas, tentando servir sempre a música o melhor que me é possível. Gosto de sentir o ouvinte mais como companhia, não tanto como público-alvo. Depois, o resto é como a pedrinha que cai num lago e provoca uma série de ondas circulares. Podes escolher mais ou menos onde vai cair, mas depois já não depende de ti (e ainda bem)…
Desde quando?
Se estás a falar puramente de registo, acho que o primeiro momento foi quando escrevi uma peçazita de piano quando estava no segundo grau do conservatório. A vontade, depois, começou a materializar-se quando estava no liceu e tinha uma banda rock. Mas acho que, no geral, sempre gostei mais de deambular no instrumento do que estudar o que devia…
Até quando?
Não penso num “até quando”. Continuo enquanto fizer sentido, enquanto der prazer e a vida o permitir.
Uma folha em branco: como nasce o primeiro som?
Quase nunca começo com uma folha em branco. O mais frequente é vir em ricochete de algo. Quando face ao vazio, fico a ouvir em silêncio, sem estímulo visual, e espero.
Ritual diário ou manifestação ocasional?
Sou tendencialmente da turma do ritual diário, mas celebro muito o espontâneo, faz-me sentir viva.
Compor ao piano, ao papel, ao computador?
Varia consoante a fase do processo. A ideia e/ou material nasce(m) quase sempre num instrumento, na voz, num gesto, etc., onde o papel entra como apanha-ideias, organizador e mapa formal. O desenvolvimento e construção acontece depois, em grande parte ao computador, com o qual uso maioritariamente a voz para compor (daí precisar de estar sozinha, hehe).
Que tal um concerto para gaita-de-fole e orquestra?
E que outra obra concertante?
Bom, se calhar perguntaria ao Nuno Côrte-Real o que é que ele achou da experiência, hehe… Acho que, se algum dia compor um concerto, será pela/para a pessoa e não tanto pelo instrumento.
Há “música portuguesa” na tua música?
Se for responder literal, ou melhor, folcloricamente, sim, há música portuguesa em certas peças que já escrevi. No entanto, não busco conscientemente um estilo ou objectivo nesse sentido.
Modos de escuta no quotidiano:
Principalmente ao andar na rua ou de transportes.
Géneros musicais:
Epa, isto das categorias é ingrato… alternativo, rock, MPB, artpop, erudita, electrónica, jazz, tradicional, músicas do mundo, pfff…
A ter de ouvir um concerto inteiro: uma dupla sertanejaou Maria Leal?
Venha a dupla sertaneja.
Ludovico Einaudi ou Rodrigo Leão?
Rodrigo Leão.
Das Märchen ou Opus Clavicembalisticum?
Das Märchen.
Proposta para André Rieu:
Um concerto intimista na ZDB.
Ópera ou teatro?
Tenho dificuldade em pensar nesses termos. Estatisticamente vejo mais teatro que ópera (também não é difícil perceber porquê). Talvez também porque, como criadora, olho para a ópera menos como género e mais como um campo musical aberto, que pode ir para qualquer lado. Se calhar isso já não é ópera… portanto… vou-te responder com dança.
Cinco compositores de eleição e cinco obras musicais:
Chostakovich, Bernardo Sassetti, Björk, Meredith Monk, Ligeti (isto não tem nenhuma ordem).
Concerto para violino n.º 1, Prokofiev
Missa em si menor, BWV 232, “Agnus Dei”, J. S. Bach
The Unanswered Question, Charles Ives
A Bird in the Garden, Fátima Fonte
A sagração da Primavera, Stravinski
Music to Hear, Mark Anthony Turnage (Oops, olha, pus 6!)
Cinco pintores e cinco telas:
Mark Rothko, Nadir Afonso, Frida Kahlo, Paul Klee, Artemisia Gentileschi.
A dança, Paula Rego
Campo de trigo sob um céu de tempestade, Van Gogh
Guernica, Picasso
Horizonte com névoa, Carlota Monjardino
Reclining Nude, Suzanne Valadon
Cinco escritores e cinco livros:
José Saramago, Tolstoi, Adília Lopes, Lewis Carroll, Italo Calvino
Buru Quartet, Pramoedya Ananta Toer
The Grapes of Wrath, John Steinbeck
The Waves, Virginia Woolf
Livro do desassossego, Bernardo Soares
Beloved, Toni Morrison
Cinco realizadores e cinco filmes:
Alice Rohrwacher, Céline Sciamma, Almodóvar, David Lynch, Kiarostami
O segredo de um cuscuz, Abdellatif Kechiche
Dancer in the Dark, Lars von Trier
Caramelo, Nadine Labaki
Les uns et les autres, Claude Lelouch
Offside, Jafar Panahi
Roma, Alfonso Cuarón (Não sei contar até cinco…)
Campo ou cidade?
Campo. Mas adoro a efervescência da cidade.
Praia ou montanha?
Venho dos Açores onde os dois coexistem, hehe. Mas vá, praia…
Neve ou deserto?
Neve.
Jornal ou rádio ou televisão ou internet?
Normalmente, internet. Não tenho televisão e, excepto quando no carro, (infelizmente) não tenho hábito de rádio. Mas nada como se sentar num café com o jornal.
Sons insuportáveis:
Garfo a arranhar o prato, ou do género. Motos, que tudo abafam ao passar na rua.
Sons idílicos:
Mar. E aquele dó sustenido da trompa no 2.º compasso d’A sagração da Primavera.
Sonhos por concretizar em geral:
Não sei que voltas a vida vai dar… mas sempre quis tirar um ano de caravana por aí fora. Ou ir de barco para os Açores. Viver no campo com um estúdio para compor não seria nada mau. Estou a pensar simples.
Sonhos por concretizar enquanto compositora:
Estabilidade financeira e ter mais tempo para fazer outras coisas dava jeito, haha. Bem, há tanto que gostava de fazer… mas o que será, será. Eventualmente fazer edição fonográfica de alguns trabalhos… No fundo, tudo quanto faça, desde que tenha algum significado, desde que me permita conhecer melhor o mundo, e contribuir para algo, então é tudo jóia.
Composições em curso:
(Em curso como quem diz, é mais o que está programado nos próximos tempos…) Estou agora a preparar os arranjos para Songs for Shakespeare, um ciclo de canções dos OGRE Electric (Maria João, João Farinha e André Nascimento) que será lançado em disco no início do próximo ano, em dois concertos no Porto (Casa da Música) e Lisboa (Capitólio), 2 e 5 Fevereiro, respectivamente. Com o Ensemble MPMP! Estou também a preparar um episódio da série televisiva de ficção operática Cortina vermelha, de Catarina Molder, com rodagem em 2022. Canções para um trabalho discográfico com previsão para 2022. Peça para piano, encomenda de Jill Lawson e do Musicamera, com estreia em 2022. Uma nova ópera com estreia prevista para 2023, encomendada no seguimento do Prémio Carlos de Pontes Leça do OperaFest Lisboa.
Na próxima quarta-feira, dia 27 de novembro, o Museu da Música Portuguesa — Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril, assinala os 30 anos da morte de Fernando Lopes-Graça num concerto intitulado “30 Anos de eternidade”. O evento é promovido pela Musicamera Produções e está dividido em duas partes.
Às 19h há um colóquio intitulado “A obra de Graça no contexto nacional e europeu“ com a presença de César Viana, Sérgio Azevedo e Mário Vieira de Carvalho, e moderação de Conceição Correia. O objetivo do encontro é discutir as influências e referentes estéticos da música de Lopes-Graça, a partir de suas respostas aos estímulos que lhe foram chegando dos meios internacionais não se filiando em nenhum dos academismos da música do pós-guerra.
Às 21h, ocorrerá um concerto com o Quarteto Lopes-Graça, a participação da soprano Natasa Sibalic e da pianista Taíssa Poliakova Cunha, com programa integralmente composto por obras de Lopes-Graça. O Quarteto foi constituído, em 2005, por professores da Escola de Música do Conservatório Nacional, em Lisboa, com o objetivo de dotar a escola de um grupo de referência na área das cordas friccionadas. Actuaram nas mais importantes salas e eventos musicais do país. Têm vários CDs dedicados ao compositor, incluindo a obra integral de Lopes-Graça para Quarteto e Piano, com Olga Prats. Foram indicados para os Prémios Play para Melhor Álbum de Música Clássica / Erudita.
Esta peça põe em músicaSingra o navio…, um dos poemas que integram Clepsidra de Camilo Pessanha. Como boa parte dos poemas desse livro, trata-se de um soneto decassílabo, estrutura poética eminentemente clássica. Essa estrutura — rigorosa, clara e explícita — é integrada por um material poético que, como é característico do autor, é rico em significados ambíguos e implícitos, em sugestões e alusões. Neste caso, a temática é marítima, evocando imagens de naufrágio. Essas imagens vão sendo gradualmente reveladas: inicialmente, o sujeito poético assume uma certa distância face ao que observa (“Sob a água clara / Vê-se o fundo do mar […] / A distância sem fim que nos separa!”); depois, descreve imagens aparentemente inocentes e delicadas do fundo do mar (“Seixinhos da mais alva porcelana […] / Repousam, fundos, sob a água plana.”); por fim, constata que o que vê, afinal, são destroços de naufrágios, e que os seixinhos e conchinhas de que falava são, na verdade, restos de unhas, dentes e ossos.
A música procura seguir de perto o texto poético, sobretudo a nível semântico e fonético. Assim, as imagens poéticas do texto — como o “navio”, a “fria transparência luminosa”, a “água plana”, os “destroços” ou a “fúlgida visão” — sugeriram diferentes texturas orquestrais que, frequentemente, se sobrepõem em sonoridades mais complexas. Além disso, a peça procura servir-se das inflexões naturais do texto, da sua prosódia e sonoridades, da lógica de abertura ou fechamento das vogais, de simetrias ou padrões métricos e estróficos: assim se inspira na musicalidade do próprio poema. Nesse contexto, insere-se num conjunto de peças que tenho composto sobre poesia portuguesa (especificamente de Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e Fiama Brandão), de que tem resultado o meu cada vez maior fascínio pelas potencialidades musicais da língua portuguesa.
Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina…
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira…
Dentinhos que o vaivém desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…
Camilo Pessanha (in Clepsidra)
Sobre a experiência
Não é todos os dias que se tem a oportunidade de trabalhar com a Orquestra Gulbenkian. E não é todos os dias que se tem a oportunidade de trabalhar desta forma com uma orquestra: em várias fases, separadas por vários meses, havendo a possibilidade, após uma primeira sessão de ensaios, três meses antes do concerto final, de rever ainda a partitura (assim se escapando à habitual pressão que o pouco tempo de ensaios provoca). Só por isso seria já especial este projecto. Mas outras razões o tornaram tão interessante: o trabalho com o maestro e compositor Magnus Lindberg, que nos deu sempre excelentes soluções (tanto a um nível mais estritamente compositivo como a um nível mai pragmático); o trabalho com os cantores (no meu caso, com a Inês Simões), a cujo talento e incansável aplicação todos nós, compositores, muito devemos; e o trabalho paralelo com os outros compositores, que nos permitiu trocar muitas ideias, enriquecendo-nos mutuamente. No meu caso, foi também fantástico poder realizar um dos meus sonhos: escrever um Lied orquestral.
NOTA BIOGRÁFICA
Licenciado em Economia (Faculdade de Economia; Universidade do Porto; 2006), Mestre em Composição e Teoria Musical (Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo – ESMAE; Instituto Politécnico do Porto – IPP; 2010) e Doutorando em Composição (King’s College; Universidade de Londres; 2012). Como principais professores destacam-se D. Andrikopoulos, F. Lapa e G. Benjamin (Composição); C. Guedes (Música Electrónica); M. Ribeiro-Pereira, J. Oliveira Martins e Silvina Milstein (Teoria Musical). Contactou ainda com Lachenmann, Klaas de Vries, Lindberg, Harvey e Saariaho, e em workshops com o Remix Ensemble, Quarteto Diotima e Orquestra Gulbenkian.
Em 2009, foi Jovem Compositor em Residência na Casa da Música. Recebeu encomendas da Casa da Música, Festival Musica Strasbourg, European Concert Hall Organisation, Chester&Novello, Banda Sinfónica Portuguesa e Antena 2/RDP.
As suas obras têm sido tocadas em Portugal e no estrangeiro, destacando-se os Festivais de Música Contemporânea de Witten, na Alemanha (2009), e de Estrasburgo, em França (2010 e 2012). Conquistou o 3.o Prémio no Concurso Internacional de Composição Gian Battista Viotti (Itália, 2007); Menção Honrosa no 3.o Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim (2008); e 2.o Prémio no Concurso Internacional de Composição GMCL / Jorge Peixinho (2014). Em 2010, representou Portugal na Tribuna Internacional de Compositores.
É professor de Composição, Análise e Estética musicais (ESMAE-IPP; 2009) e investigador em teoria das artes (CITAR/Universidade Católica; 2014).
Com o objetivo de levar música às várias freguesias da cidade de Lisboa, o Sons da Cidade chega às suas últimas apresentações e em grande forma: com obras de Lopes-Graça! O ciclo foi pensado para todos os apreciadores de música erudita e, também, para todos aqueles que queiram estrear-se em obras de Lopes-Graça, Beethoven, Chostakovich, entre outros compositores.
Um projecto da Câmara Municipal de Lisboa, em colaboração com a Metropolitana, a 10.ª edição do festival Sons pela Cidade teve oito concertos, com um programa integralmente interpretado pelos músicos da Metropolitana. Ainda dá tempo de assistir aos últimos concertos deste ciclo!
Hoje, no auditório da Biblioteca de Marvila, às 21h, há o concerto Geração Lopes-Graça com os Solistas da Metropolitana: Nonna Manicheva, Inês Marques (violinos), Andrei Ratnikov (viola), Jian Hong (violoncelo), Jill Lawson (piano).
No sábado, dia 16, às 17h, na Igreja da Madre de Deus (Museu Nacional do Azulejo), é possível apreciar Lopes Graça & Chostakovich, com os Solistas da Metropolitana Nuno Rodrigues e Mariana Moita (violinos), José Freitas (viola), Catarina Gonçalves (violoncelo). A entrada é livre.
Ao sabor das cordas e do vento: poético, religioso, sensual, com expressão, com ironia, com humor, enérgico, melodioso, granítico, livre. A propósito de uma das minhas obras mais recentes, para violino, violoncelo, guitarra e piano, a ser brevemente estreada pelo Performa Ensemble.
“Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão…”*
A esses trabalhadores das pedras, dos campos e dos mares,
A esses trabalhadores de templos e de montanhas,
A esses escultores da pedra “tosca, bruta, dura, informe”,
A esses cinzeladores dos cantos de granito, da viola e do bandolim,
A esses cantadores de ado, dedilhadores de cordas e de vozes inesquecíveis,
A esses antepassados de sangue, artistas de outros mundos,
Aqui ficam, para eles e para elas, estas páginas do outro mundo…*
de O estatuário do Padre António Vieira
Em lugares de fragas e de casas de granito de que guardo memórias indeléveis, nasceram e viveram meus pais, avós, tios e tias. Alguns, imigrantes e emigrantes dos anos 40 e 50 e décadas seguintes, em Lisboa, em França e mais tarde na Argentina, traziam do Parque Mayer e do cinema português os fados clássicos da Severa, de Alfredo Marceneiro, da Amália Rodrigues, de Carlos Ramos, de Júlia Barroso.
Das músicas que ouvia na infância e juventude, e que invadiam os meus dias, a memória guarda as cantorias dos campos e dos montes, das estradas (coros nocturnos das mulheres da seca do bacalhau), das desfolhadas, dos marcadores do tempo no trabalho da pedra, das músicas litúrgicas (com órgão de tubos!), das músicas dos ranchos e dos zés-pereiras, das canções de roda, das música clássicas em aparelhos de rádio das tabernas, das músicas latino-americanas em jazz band, de uma grafonola, em dezenas de discos trazidos de França por um desses tios emigrantes. Memórias ao mesmo tempo de privações e de encantamento em tempos de guerra…
Fazem parte dessas memórias as reuniões de família, os fados clássicos cantados e tocados por esses trabalhadores das fragas, canteiros de Santa Luzia e de terras minhotas, mistura de um mundo proletário e rural, pobre e luminoso. Bandolins misturavam-se com vozes e violões de tios e primos fadistas da aldeia. Canções da segunda Grande Guerra em literatura de cordel faziam as minhas delícias sem consciência da tragédia colectiva.
A um vizinho que emigraria em breve para o Brasil, eu, com a idade de onze anos, pedi-lhe, apontando sem medo, pousado num banco da mercearia: “D-me aquele violão!” – “Talvez!… Depois… Quando for!”… Regressou passadas décadas e o violão sobreviveu à ausência (dizem…).
Aprendi nesse meio a tocar bandolim (“banjelim”, assim se dizia, o que também sobrevive ainda!), ensinado pelos “virtuoses” da família: um primo e uma prima, bem mais velhos do que eu. Na pequena casa de meus pais, onde, num milagre de sociedade matriarcal, chegaram a viver doze pessoas – entre irmãos, pais e avós paternos – estudava o meu banjelim em corridinhos e músicas de repertório das “olds band” da terra: as tunas. Cantava às vezes, e um fiozinho de voz soa-me na memória ainda hoje; e ouvia, deliciado, debaixo de uma vinha, as fábulas de Esopo e de La Fontaine contadas por uma exímia contadora de histórias: a minha avó de outras fragas, dos montes longínquos e vizinhos da minha aldeia. Neste ambiente anónimo e inóspito, ao lado de um tear, andou por ali um violino, um banjo, um violão e, mais tarde, já na “idade da razão”, o meu piano velhinho (como cantaria o fado da Mouraria…), comprado por subscrição familiar a velhas senhoras da aldeia, e que me havia de acompanhar em África nos tempos de guerra colonial.
Em todas estas manifestações e expressões musicais, mulheres e homens da família, tocadores e tocadoras, cantadores, cantadeiras e cantoras (de igreja), pais, tios, tias, irmãos, irmãs, primos e primas, desempenharam um papel social, individual e colectivo de cultura popular, memorável e indescritível.
Logo que recebi convite para escrever uma obra cuja temática era o fado, com a liberdade para qualquer interpretação que dele o compositor quisesse fazer, foi meu propósito trazer à memória, como homenagem, esses familiares (todos no reino dos deuses!) que me prodigalizaram na minha infância e juventude momentos de profunda emoção e fascínio musical.
Evocações semelhantes, da família, já existem noutras obras: Momentos-Memórias I e II (guitarra portuguesa e guitarra clássica), Cori Memori, Monda-coro para 8 instrumentos, Mare-a-Mare, ETHNON, Cantorião, Le chanteur du Val, Músicas de Villaiana, antepassados directos de Cantos das Fragas, dos seus simbolismos musicais e laços de sangue.
Figuras lendárias, estes fadistas de família, são as suas vozes e os seus instrumentos que eu quis evocar, de forma directa e simulada, cruzando vivências de memórias e de afectos, actualizando ormas e gramáticas, entrecruzando idiomatismos instrumentais e de escrita, com o irrigar invisível de bandolins e violões na alma dos instrumentos…
Conciliar uma cultura tradicional com a cultura contemporânea sem as desfigurar, elevando-as a um outro nível de arte, foi um atravessar de fragas ao compor esta obra. Mais ainda quando a expressão popular assenta numa estrutura gramatical elementar, em conflito com a complexidade e ineditismo das sonoridades da contemporaneidade erudita, de hoje ou de outros tempos.
A pulsação no seu estado puro, o diatonismo primordial, o vocabulário básico e algumas constantes estilísticas do fado coexistem, absorvidas, nesta partitura, por outras estruturas de tempo e de alturas, entre outras fórmulas oriundas das mesmas fontes linguísticas e culturais. As músicas e as culturas de onde terá tido origem, como expressão musical, o fado tradicional, foram assim o apoio para a abordagem deste projecto insólito e provocador. O resultado deste processo de fusão de diversas fontes é uma espécie de palimpsesto (pergaminho sobre cujos escritos os antigos escreviam novos textos).
Também a afinação das cordas do bandolim, do violão, das guitarras portuguesas e da guitarra clássica (viola dedilhada), foram o alicerce de alturas e de intervalos sobre os quais se estruturam estas páginas. A ornamentação, o continuum dos intervalos, o salmodiar da música árabe, o cantar das Beiras, entre outras fontes, configuram este “fado contemporâneo”, recriado com roupagens mais sosticadas, sublimando-se nas fórmulas dos filósofos, na “coincidência dos opostos” e nos arquétipos como resposta última.
Expressão musical rejuvenescida por músicos, poetas, cantores e cantoras de novas gerações, o fado contém, nesta música, além de reminiscências das cantigas de escárnio e de mal-dizer e das cantigas de amigo, melodias de amor, de humor e de ironia, num mundo novo imaginado, regenerado, libertado e aberto a outros sentidos – da “moira” grega (destino) ao fado lisboeta e coimbrão (balada coimbrã…), ou ao lado de outras terras…
O desafio a volta desta espécie de fado assumido pelo compositor consistiu em balouçar-se entre presença e ausência, identidade e transgressão, submissão e desfiguração, ambiguidade e incompatibilidade em jogos de sorriso e humor, ironia e diálogo, revisitação e transfiguração. A expectativa de achados num jogo de conflito de alma e de atritos de coração, numa manipulação de heterodoxias, hibridismos, eufemismos, idiomatismos e até de guralismos, entre antagonismos de sangue e de arte, entre simplicidade de ritmos, de harmonias e de melodias artísticas face a um universo por natureza marcado pela sosticação do gesto criativo, pela busca do desconhecido, pela procura da alma individual – essência daquilo a que se chama arte contemporânea –, esses conflitos interiores, dúvidas e incertezas, estéticos e culturais, conduziram a caminhos abertos e a respostas sem dúvida insólitas.
Fazer ouvir no violino o bandolim, no piano as guitarras, no violoncelo e no piano o violão foi uma aventura; explorar as estruturas originais de afinação das cordas dos próprios instrumentos foi outro risco; olhar diferentemente o instrumento, a melodia, o ritmo, a harmonia, as formas melismáticas antigas e intemporais de diversas culturas, alargar processos, técnicas e vocabulários, num diálogo entre o lúdico e o lírico, o insólito e o reconhecível, o sentimental e o cerebral, a profanação e a sacralização – eis a viagem fascinante pelas memórias do meu fado. Deste calcorrear sinuoso de caminhos de fragas, íngremes e tortuosos, nasceu esta espécie de fado imaginário sob forma de minúsculos interlúdios e minúsculas variações.
Da ideia original para a obra, Cantos das Fragas (“cantos” no sentido de cantar e no sentido dos cantos da pedra cinzelados no granito pelos homens ou pela natureza), podiam dar-se os títulos Fado dos Canteiros, Fado da Cantaria (parafraseando fados da Mouraria…), Fado Leandrino (de Leandro, tio, émulo de Marceneiro) ou Fados de Guerra, Balada Coimbrã, Trovas do Minho…
As vozes cantadas por bandolins, guitarras portuguesas e violões das fragas das minhas origens são o legado de gerações e gerações, o arquétipo e a essência, em música, talvez, para além do fado, da terra portuguesa.
Entre os dias 8 e 17 de Novembro ocorre o LEFFEST, Lisboa Film Festival. Como novidade, a presente edição do Festival de Cinema procura estabelecer uma relação com outros campos artísticos, entre eles a música clássica. Destacamos três concertos a não perder:
— o cine-concerto O Cavaleiro da Rosa, de Robert Wiene, adaptado a partir da obra homónima de Richard Strauss interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção do Maestro Pedro Amaral. Trata-se de uma co-produção LEFFEST – OPART / TNSC. A apresentação ocorrerá no dia 10 de Novembro às 17h, no Teatro Tivoli BBVA, os bilhetes podem ser adquiridos <a href="http://Bilhetes Der Rosenkavalier online.
— o concerto Kafka (un) Musical ! (?), da autoria de Nuno Vieira de Almeida, que trará, pela primeira vez em Portugal, as obras de Petr Eben, Max Brod e Krenek, para além de revisitar os emblemáticos Kurtág e Bizet. Agendado para o dia 12 de Novembro às 18h no Auditório do Liceu Camões,terá como soprano Susana Gaspar, violino Ana Pereira, leitura de Vítor d’Andrade e Nuno Vieira de Almeida no piano. A concepção é de Nuno Vieira de Almeida.
— o cine-concerto Les Vampires, uma fusão da série Les Vampires (1915), de Louis Feuillade, pela primeira vez nos cinemas portugueses, com a música de Rodrigo Amado Unity, com Rodrigo Amado no saxofone, Hernâni Faustino no contrabaixo, Rodrigo Pinheiro no piano e Gabriel Ferrandini na bateria. As apresentações nos dias 12, 13 e 14 de Novembro às 21h no Teatro Tivoli BBVA ocorrem no âmbito do “Cinema Erótico – Desafiando os Limites”.
O MPMP Património Musical Vivo, com apoio do Ministério da Cultura / Direcção-geral das Artes, anuncia a sexta edição do Prémio Musa, criado com o intuito de distinguir a excelência musical da composição contemporânea de tradição erudita ocidental e de, nesse contexto, promover a língua portuguesa como veículo expressivo.
A presente edição celebra a obra de José Mário Branco. As obras a concurso devem ser compostas para voz solista, acompanhada por qualquer permutação de instrumentos à escolha do compositor dentro do seguinte conjunto: flauta (dobra flautim), oboé, clarinete, fagote, percussão (até dois executantes), guitarra, harpa, violino, viola, violoncelo. O júri será composto pelos compositores Daniel Moreira, Nuno da Rocha e Sara Ross.
O autor distinguido com o Prémio terá direito a prémio pecuniário no valor de 1500 € (mil e quinhentos euros); associação ao MPMP enquanto Compositor Residente na temporada 2025, materializada numa encomenda, no valor de 1500 € (mil e quinhentos euros), de uma ou mais nova(s) obra(s); e gravação e integração da obra premiada em álbum digital.
As candidaturas podem ser enviadas até 15 de Fevereiro de 2025. O regulamento está disponível online.