No final da tarde de 29 de Setembro de 2026, teve lugar no Centro Comunitário de Vialonga (Vila Franca de Xira) um concerto protagonizado pelo duo “Oboé e Piano em Português”, projecto formado pelo pianista Pedro Ferro e pelo oboísta David Costa, em 2021, que se dedica ao incentivo à criação, divulgação e valorização do repertório português para oboé e piano. O projecto destaca-se pela sua estreita colaboração com compositores nacionais através da encomenda de novas obras, da estreia em palco e da gravação de repertório inédito. Habituado a assistir a concertos de música erudita, através da presença do Ensino Artístico Especializado da Música no Agrupamento de Escolas local há cerca de vinte anos — conhecido pelo projecto da “Orquestra” —, o público vialonguense preencheu significativamente o auditório para calorosamente escutar três das obras que integram os dois CDs do grupo, ambos distribuídos pelo MPMP Património Musical Vivo: “Cântico Negro — Oboé e piano em português” (2021) e “Oboé e piano em português, vol. II” (2024).
A premissa de captar a personalidade de um indivíduo através dos sons é comum a várias obras de referência da música erudita, como se verifica (a título de exemplo) no catálogo de Robert Schumann, Modest Mussorgsky, Claude Debussy ou John Cage. Na obra Sete Retratos a Branco e Preto (2024), que abriu o concerto, Nuno da Rocha (n. 1986) propõe o retrato sonoro de sete amigos e criadores que lhe são próximos: I. Postiga (dedicado a Roberto Leão); II. Paraíso (dedicado a Eduarda Melo); III. Balanço (dedicado a Alfredo Teixeira); IV. Inferno (dedicado a André Hencleeday); V. Balancear (dedicado a Gil Bastos); VI. Agigantar (dedicado a Sara Valente); e VII. Devir (dedicado a Nuno Matos Duarte). A linearidade do “traço” foi soberbamente atribuída ao timbre nostálgico e aveludado do corne inglês, cuja linha melódica — o “contorno” dos retratos — contrastou com o claro-escuro das texturas do piano. Estas foram alcançadas pela conjugação do timbre tradicional (nos registos grave e agudo) com o registo médio “preparado”, ou seja, modificações específicas do timbre por via da aplicação de determinados objectos nas cordas do instrumento. A interpretação de David Costa e Pedro Ferro evidenciou uma enorme cumplicidade: além de serem músicos muitíssimo experientes, colaboram há largos anos, desde a época de estudantes no Conservatório de Lisboa. Essa proximidade traduziu-se na íntima interligação musical e, sobretudo, na serenidade que pautou toda a apresentação.
A segunda obra do programa, Canto I, In memoriam (2012), foi escrita por Alfredo Teixeira (n. 1965) — precisamente o terceiro criador retratado por Nuno da Rocha. Concebida como uma elegia, a peça é dedicada a três importantes figuras da cultura portuguesa falecidas no ano de 2012. O primeiro andamento presta homenagem a Antonio Tabucchi (1943-2012), escritor italiano que se apaixonou pela cultura portuguesa e, em particular, pela obra de Fernando Pessoa; o segundo é dedicado ao pianista e compositor de jazz Bernardo Sassetti (1970-2012); e o terceiro recorda o cineasta Fernando Lopes (1935-2012). Ao contrário da obra anterior, que procura retratar os homenageados, no Canto I sente-se que Alfredo Teixeira utiliza o oboé e o piano para estabelecer um diálogo simbólico com a memória dos falecidos. Este carácter discursivo foi solenemente assumido pelo duo através de interpretação inspiradora que, mesmo que por breves momentos, assumiu uma “conversa” de Tabucchi, Sassetti e Lopes com o público.
O programa encerrou com a Sonatina Breve para oboé e piano, op. 39 (2016), da autoria de Anne Victorino d’Almeida (n. 1978), uma das compositoras contemporâneas portuguesas mais activas (e que, em 2012, também dedicou uma Missa Requiem à memória de Bernardo Sassetti). Sendo a obra mais formalista do programa, contrastou com o carácter marcadamente laudatório e elegíaco das peças anteriores. Ao nível interpretativo, destacamos o rigor e a clareza com que o duo entregou a obra, apresentando-a com mestria os seus contrastes e nuances.
O projecto “Oboé e Piano em Português” parte ainda esta semana para uma breve digressão que aposta, em simultâneo, na descentralização cultural e na internacionalização. Após o concerto em Vialonga, o duo realizará uma série de apresentações em escolas e salas de espectáculos nacionais, nomeadamente em Braga e em Santa Maria da Feira, além de dois concertos em Paris (França): no Showroom da Buffet Crampon (1 de Outubro) e na Sala Pessoa da Casa de Portugal – André de Gouveia (3 de Outubro). Resta-nos desejar os maiores sucessos ao projecto, esperando que iniciativas como esta, que unem músicos portugueses à música portuguesa, sejam cada vez mais frequentes no panorama nacional.
fotografia: © Nelson Ferreira