A arte é esquiva. Raras vezes aparece quando queremos e surge quando menos esperamos.

Penso que este meu bordão recorrente se aplica a esta obra, na forma como o Tiago Derriça a conclui. O último andamento é um coral. Arquitectura firme, ficamos com a ideia que os três andamentos anteriores para este momento confluem, construindo-o. É o momento onde se preserva a essência das coisas. Música enxuta. A simplicidade é uma qualidade inicial da arte sempre que ditada pela erudição de tal opção. Aí se vê o dedo de mestre, na coragem de revelar o arquitecto que há nele e que não tem medo dos espaços singelos.

Um Habsburgo qualquer comentou a quantidade de notas de uma obra de Mozart. Mozart, o único imperador desta cena que a história se encarregou de filtrar, respondeu-lhe que tinha tantas notas quanto as estritamente necessárias.
Sejam muitas as notas, sejam poucas, a arte define-se no estritamente necessário, como neste coral do Tiago. Não é todos os dias que o compositor tem a felicidade de denunciar a simplicidade.

Outra obra do Tiago que conheci há pouco foi o Concerto para piano e orquestra. Tive o privilégio de assistir à sua estreia em Março de 2023, no CCB. A obra foi defendida pela Marta Menezes e pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo Pedro Neves. Foi um daqueles momentos raros em que ali, à minha frente e diante dos meus olhos, estava a acontecer o nascimento de uma obra-prima. Não sou muito de farroncas patrioteiras, mas fiquei orgulhoso de ser português, confesso. Lá fora, os outdoors publicitários espalhados pelos espaços do CCB que anunciavam o concerto, davam o único destaque à Pastoral de Beethoven. Lá fora, onde não fiquei orgulhoso de ser português, estavam os mupis não sei se da vergonha, se da comédia, mas seguramente os mupis de um país de pacóvios que, por estas e por outras, não sai da cepa torta. Dizem muito sobre a auto-estima de um povo. É triste, mas assim é.


Saio sempre maior da experiência beethoveniana. Mas naquele dia senti-me ainda maior por não ter ficado para a 2ª parte onde se celebrou a liturgia pastoral. Foi o meu protesto. Tinha mesmo de marcar a minha posição porque, naquele dia, naquela hora e naquele sítio, era a obra magnífica do Tiago Derriça que tinha de ser destacada

Isto, sem desdouro para o maestro e para a OML naquela 123456ª leitura do locus classicus que veio ao mundo nos idos de Dezembro de 1808, no Theater an der Wien não-sei-quê-não-sei-que-mais. 

Fotografia de Tiago Derriça: @manuelluíscochofel

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