O panorama da composição em Portugal  melhorou nos últimos vinte anos em quantidade e em qualidade. Há, hoje em dia, compositores portugueses formados, competentes e activos. Assim que posta, contudo, numa bitola mundial, a composição erudita portuguesa logo empalidece porque raramente produziu ou produz obras-primas. Quando refiro obras-primas, nem sequer estou a falar de um Sacre. Basta referir o Scherzo Fastastique do ainda jovem Stravinsky, obra onde já luz, apesar de tal juventude, o mesmo génio e talento homérico de alguém que viria a legar obras fundadoras à história. Não é à toa que os grandes mestres, nenhum deles português, são amados e estudados por milhões em todo o mundo.


A verdade é que a composição portuguesa muito raramente produziu obras-primas. É doloroso, mas assim é. E essa é a razão principal, aliás, pelo facto de a música portuguesa não pertencer ao cânone internacional, daí resultando a sua pouca relevância nesse plano. Não há apenas razões exógenas, como a periferia geográfica tantas vezes aduzida, para essa conformidade. Creio que as razões principais são outras e mais intrínsecas, do foro da qualidade: falta de matéria prima. Assim foi na história. Assim é ainda.


Mas há alguns sinais de mudança nestes últimos anos. Ao arrepio de tal tendência idiossincrática, as obras de câmara reunidas no recente CD monográfico da Naxos de Pedro Faria Gomes, nomeadamente a Sonata para violino e piano, emanam precisamente aquela luz intensa que se reconhece nas obras-primas e apenas nelas.


Foi um momento inefável ouvir tal sonata interpretada no Teatro Nacional de São Carlos pelo Dryads Duo, deixando a milhas, aliás, o repertório canónico de Prokofiev e de Messiaen que também aconteceu naquele ringue. Momento absoluto.


Creio que a música de Pedro Faria Gomes veio para ficar. Paira acima do tempo e do espaço, diluindo a fronteira aquém-além Pireneus. E resistirá sem dúvida ao autoclismo da História.

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