aeQUALIS: arte pela inclusão

No dia 7 de fevereiro realizou-se no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, um espetáculo inclusivo denominado de aeQUALIS, com duas sessões, respetivamente às 17h00 e às 21h30, numa organização da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM), um departamento da Secretaria Regional da Educação da Madeira. Participaram oito agrupamentos artísticos (Ser mais Teatro; Orquestra Orff; Ensemble de Guitarras; Ensemble de Acordeões; Grupo de dança Kaleidoscope; Novéis Tangedores; Consort Bisel e Coro Infantil, todos da DSEAM), com um total de 140 participantes em palco, dos quais 98 alunos, 27 utentes com necessidades especiais, 4 colaboradores externos e 11 professores.

Foi, sem qualquer dúvida, um momento muito especial, quer para os artistas, quer para o público ainda pouco habituado à inclusão. Da nossa parte podemos apenas referir que nos sentimos completamente emocionados com tudo o que vimos e ouvimos. Uma perfeita simbiose das artes de palco em que os nossos jovens e adultos com necessidades especiais estiveram plenamente integrados, desempenhando os seus papéis de forma brilhante. De realçar o excelente empenho dos professores envolvidos, pela forma como souberam criar e levar à cena algo tão importante neste período tão conturbado em que as pessoas, cada vez mais, pensam apenas no seu bem-estar, esquecendo que a nossa missão deve ser a de servir os outros.

O mundo vive acelerado, focado no sucesso e na competição desenfreada, onde, supostamente, só vencem os mais fortes e os mais capazes. Neste espetáculo refletimos sobre os lugares comuns que ocupamos, sujeitos a permanentes mudanças. Assim, quem é mais forte e mais capaz hoje pode ser mais fraco e menos capaz amanhã. É tudo uma questão de tempo…

Dois personagens conduzem a narrativa — um paraplégico e um invisual —, seres em condição de diferença, como pode acontecer a qualquer um de nós, num determinado momento, em algum lugar do mundo, sem pré-aviso, invadindo os nossos sonhos, movendo a realidade e arrastando-a até à aceitação da mudança. Começa numa “questão de pele” e evolui depois para as questões de ética e de direitos humanos.

Este espetáculo foi feito com energia, cooperação e generosidade pessoal e profissional pela equipa que lhe dá corpo, movendo diferentes expressões num curto espaço de tempo, sentindo e contornando dificuldades… até tornar possível a sua apresentação. Não quisemos mergulhar profundamente nas questões da igualdade e da equidade, simplesmente aflorá-las, tomando como inspiração o mote da semana: “Inclusão — tornemos o desafio real”. Mais um exercício de inclusão social e artística, reunindo momentos de igualdade e de diferença, num processo criativo que foi muito gratificante para todos nós.

 


 

ENTREVISTA

 

Ester Vieira (coordenação artística)

 

Depois de 25 anos de arte inclusiva na Madeira, o que representou para si, que está desde início neste projeto, o espetáculo aeQUALIS?

aeQUALIS, é o quarto projeto de simbiose inclusiva, ocorrido desde 2012, ano em que o Núcleo de Inclusão pela Arte foi integrado na Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia. O primeiro ocorreu em dezembro de 2012, celebrando o 25.º aniversário de três grupos Artísticos: a Orquestra Juvenil da DREER (NIA), o Coro Infantil e o Si Que Brade. O segundo ocorreu em 2013, designou-se “Especial Natal” e reuniu a Orquestra de Sopros, o Coro Infantil, o Coro Juvenil, o Alta Cena (teatro juvenil), o Grupo de Iniciação ao Teatro (NIA) e Carla Jarimba (membro da Orquestra Orff do NIA), a solo. O terceiro, em maio de 2014, reuniu os grupos de teatro Línguas de Palco, GMT Oficina Versus e Kaleidoscope (Dança).

Mas foi em aeQUALIS que mais nos aproximamos do formato simbiótico inclusivo, porque tudo foi pensado em função do processo criativo, focado na maior interação possível entre os intervenientes. Apesar de partirmos de peças já existentes nos diferentes grupos, quisemos criar um guião que nos permitisse sair do previsível, misturando diferentes linguagens artísticas e os seus intervenientes, com base numa mensagem geradora de consciência inclusiva no que se refere às pessoas com necessidades especiais.

Explique-nos o significado do título aeQUALIS.

Ao discutir o guião quisemos eleger e defender valores que levassem ao respeito pelas diferenças individuais e pela aceitação e inclusão da pessoa com necessidades especiais, dita “diferente”. E começamos por nos questionar: ser diferente implica igual tratamento, no seu todo? Afinal, o tratamento adequado face à diferença deverá ser feito em que base? Na base da igualdade ou da equidade? Alguém resumiu, com a frase “Não há maior desigualdade do que tratar pessoas desiguais de forma igual”.

aeQUALIS corresponde à origem latina da palavra ‘igual’, que tem hoje diferentes conotações que nos distanciam da atitude assertiva face à diferença. Igual significa aquilo “que não apresenta diferenças”, “que é sempre o mesmo”, “que não varia”. Ao escolher a palavra aeQUALIS quisemos questionar a condição da pessoa, chamando a atenção para a atitude social. Afinal em que é que somos iguais e em que é que somos diferentes? A tónica da resposta recairá naturalmente sobre o conceito de “equidade”, por oposição a uma igualdade massificada que esquece a pessoa e as suas diferenças pessoais. O espetáculo termina com a questão para o público: “E você é igual ou é diferente?”…

Quais as mais-valias deste espetáculo para o público ainda pouco esclarecido e atento à plena integração das pessoas com necessidades especiais?

Já no próprio título e no curso de todo o espetáculo, a relação com o público é pedagógica. Queremos que as pessoas observem o que lhes é dito, o que lhes é mostrado, e que se deixem tocar sobre uma realidade que pode também ser a sua, já amanhã… A mensagem é riquíssima e reconhecível: escolhemos alguns momentos emblemáticos da pessoa com necessidades especiais: na família, na escola, na discoteca, na emigração, nas barreiras físicas, na cegueira inesperada, na arte…

As linguagens mostram aqui uma atitude no campo artístico que poderia ser transportada para o todo social e político. Mostram que é possível dar um lugar a todos, independentemente das suas capacidades, e mostram também que as capacidades das pessoas estão para além da sua aparência ou dos seus próprios limites. Mostra que há pessoas com necessidades especiais que são mais felizes no exercício da arte, mas que há outras pessoas que, apesar da sua condição, também são artistas.

Este trabalho registou pequenas e grandes intervenções, permitiu aos intervenientes a experimentação de diferentes papéis e desempenhos, permitiu a proximidade com pessoas diferentes e a desmistificação de muitos preconceitos existentes, mesmo nos mais novos. Os músicos tornaram-se atores. Os bailarinos dançaram, interagindo diretamente com a música e a dramatização feita pelas pessoas com deficiência. O coro recitou os textos de António Gedeão, Luiz Vaz de Camões e Fernando Pessoa… Os solistas com e sem necessidades especiais cantaram em conjunto. No final e em tom de apoteose todos “mudam a cor da camisola”, simbolicamente, mostrando que o mundo só mudará se cada um mudar a sua atitude, todos os dias.

Com este trabalho todos ficaram a ganhar: os alunos, os utentes, os professores, os colaboradores, as famílias, os funcionários do Teatro e o público.

 Só o facto de 140 pessoas se apresentarem em palco de forma tão equilibrada e genuína, com uma mensagem tão real, gerou no público uma atitude emotiva e empática.

Que projeto gostaria de ver implementado no futuro, seguindo esta lógica de verdadeira inclusão através das artes?

Passados que são 25 anos de práticas no modelo inclusivo, posso dizer que, até agora, houve uma enorme evolução dos nossos utentes na sua relação com as linguagens artísticas e nos formatos de apresentação ao público. Temos hoje uma “marca” (dita “modelo artístico inclusivo”) que está bem identificada em termos de inclusão artística, no âmbito da Música e do Teatro. Neste momento, embora seja imprescindível manter a qualidade e o nível a que chegamos, sentimos que é preciso mais no que respeita à qualificação dos grupos, dos repertórios, das performance artística, do intercâmbio artístico, das logísticas de suporte e da própria investigação e transformação do modelo artístico inclusivo.

Para que a evolução deste modelo seja uma realidade, há que garantir uma equipa técnica estável e experiente, no sentido de conseguirmos apoiar e surpreender com novos desafios e resultados mais inovadores.

 


 

Duarte Rodrigues (docente de Teatro)

Quais as maiores dificuldades encontradas no percurso para se chegar a este espetáculo?

O trabalho começa com o processo normal: a identificação e caracterização das personagens, a sua relação no tempo e no espaço. Depois, passamos aos jogos cénicos e finalmente à marcação de cena, cumprindo a encenação conforme a sua estética. É claro que estes jovens (de iniciação ao teatro), apresentam imensas dificuldades no processo criativo devido a uma falta de consciência do real, às suas experiências de vida, à instabilidade emocional, à interferência comportamental, à sua pouca ou nenhuma instrução académica e à privação de acesso às atividades culturais enquanto público. A mudança de espaço interfere com a sua capacidade de concentração, requerendo um timing de adaptação e treino acrescidos, o que os torna muito particulares enquanto grupo artístico. Apesar de serem jovens escolhidos pela sua aptidão artística e autonomia social, nem todos são completamente autónomos na deslocação e no desempenho. Por estas e outras particularidades, estas pessoas exigem muito do diretor artístico, exigindo o acompanhamento de mais um assistente permanente quer nos ensaios quer nos espetáculos, tendo em conta as entradas e saídas, trocas de roupa e de objetos cénicos, momentos de intervenção, atitude, concentração e interação.

Na sua qualidade de responsável pelo grupo SER MAIS TEATRO, do Núcleo de Inclusão pela Arte, como considera ter sido o resultado desta experiência?

Como em qualquer simbiose artística, é uma experiência enriquecedora, uma vez que é na variedade que está o enriquecimento. Neste caso, para além da variedade no género (música, dança, canto e teatro), tivemos ainda a variedade de artistas, no ser, no sentir e no estar. Artistas com e sem necessidades especiais, numa convivência social e artística, como mais-valia do processo e do resultado final. Os outros artistas são modelos de referência que os incentivam, motivam e encorajam na sua performance, contribuindo para um maior nível de desempenho. Há um conhecimento vivo dos outros géneros artísticos e uma perceção mais alargada do valor e rigor do papel de cada um e da noção de pertença a um todo. Por outro lado, há um valor acrescentado para todos os outros intervenientes, cujo resultado se vai refletir no reconhecimento do direito à diferença, no respeito e atenção ao outro e no convívio mútuo. É um contributo importante no percurso artístico de todos, por diferentes razões.


 

José António Silva (docente de Guitarra)

Como sentiram esta simbiose humana, artisticamente falando?

Foi uma experiência diferente que aproximou realidades diferentes. Vimos que o Ensemble de Guitarra se sentiu empenhado, interessado em participar, o que criou uma boa dinâmica de grupo. Foi uma boa experiência, artisticamente rica.

Os seus alunos do Ensemble de Guitarras manifestaram algum sentimento depois desta experiência?

Na nossa opinião achamos que os alunos sentiram o impacto emocional e gostaram de ter participado, tendo ficado mais sensibilizados para as diferenças. Este projeto resultou porque todos se empenharam e deram o seu melhor.

Ouvimos alguns alunos:

Aluno Marcelo Ramos (baixo elétrico)
Foi uma experiência bastante interessante pois pude observar e interagir com pessoas que gostam muito de arte e que, apesar das suas dificuldades, deram o seu máximo para aprenderem coisas novas com os mais experientes e que, mesmo vendo a diferença de capacidades, decidiram continuar, o que foi inspirador para quem já estava mais à vontade com o mundo artístico. Como aluno do Ensemble de Guitarras esta experiencia permitiu uma evolução tanto a nível musical como a nível da mentalidade, pois fez-me perceber que algumas pessoas não são “presas” pelas condições e problemas que têm.

Aluno Tomás Mentes (guitarra)
Senti-me bem e foi uma boa experiência. Agora vejo que pessoas com deficiências são capazes de fazer tudo o que gostam e mais alguma coisa. Depois deste espetáculo percebi que somos todos iguais.

Aluna Joana Correia (guitarra)
Na minha opinião, a simbiose humana foi um acontecimento didático que leva cada integrante a melhorar alguns aspetos artísticos e também outros a nível mais pessoal. Acho que é um processo muito proveitoso visto que nos exige maior dedicação para lidar com diversas situações em que é necessário limar algumas diferenças. Esta experiência mostrou que apesar da diversidade humana somos todos capazes e de igual valor. Assim sendo, fez transparecer a igualdade e valorização do ser humano.

Aluno Nestor Fernandes (guitarra)
Acho que foi uma oportunidade de ver que as pessoas com deficiência têm a mesma ambição, lutam para fazer tudo correto, não existiram papéis pequenos… O ambiente nos ensaios foi também acolhedor. Vejo agora pessoas com deficiência de outra forma, trabalhadoras, especialmente capazes de concluir algo que gostam.


 

Márcio Faria (docente de Acordeão)

Como docente, não só interpretou o seu instrumento como representou o papel de uma pessoa em cadeira de rodas. O que sentiu?

Em primeiro lugar devo confessar que desde que se iniciou o projeto esta foi uma das questões que mais me colocaram. Perguntaram-me se me sentia bem na cadeira, se não me fazia confusão andar numa e o mais interessante é que muitas dessas pessoas acabavam por afirmar que não tinham a coragem de se sentar numa, pensando na sua conotação negativa. Respondo à pergunta da mesma forma como respondi anteriormente. Cada vez que me sentava na cadeira os sentimentos que surgiam eram o prazer e a vontade de dar o meu melhor a uma personagem, dignificando e enaltecendo a coragem e o respeito por todas as pessoas que por alguma situação da sua vida foram obrigadas a viver nesta condição, e a consciencialização de que para mim, até aos dias de hoje, sabia que terminava a minha interpretação e tinha a dádiva de “me levantar” para continuar a minha vida. No entanto, o mais importante, para mim, era desempenhar da melhor forma o meu papel neste projeto de modo a poder corresponder às exigências estabelecidas.

Alguma coisa mudou na sua vida depois desta interpretação?

Acredito que todos nós aprendemos com as experiências novas que vão surgindo na nossa vida. O meu papel neste espetáculo exigiu que tivesse uma interação mais pessoal com os membros do grupo de teatro do Núcleo de Inclusão pela Arte. A participação neste projeto fez-me ponderar sobre duas grandes questões que muitas vezes e por diversas razões acabo por não valorizar. Qual o meu papel, enquanto ser humano, neste mundo, e qual a minha atitude perante a diferença. O facto de parar e refletir sobre estas questões fez-me tornar numa melhor pessoa e vão alterar a minha perspetiva de vida.


 

 

Roberto Moritz (docente de cordofones madeirenses)

Sei que o Roberto já integrou outros espetáculos inclusivos organizados pela DSEAM. Como classifica essas experiências?

Mesmo já tendo outras experiências de participação noutros espetáculos desta natureza, este marcou-me particularmente pela forma como foi concebido: numa verdadeira simbiose de expressões artísticas. É sabido que estes projetos têm como propósito de combater a exclusão social de pessoas que à partida não têm as mesmas oportunidades devido a condições específicas. É antes de mais uma oportunidade de partilhar um palco com estas pessoas que, podemos observar, se sentem realizadas e se sentem felizes. E por isto são pessoas especiais.

Depois destas experiências o que mudou em si como professor?

Diria que para além de professor, enquanto pessoa, penso que é uma forma de reforçar um sentido de alerta para com as necessidades dos outros – com ou sem necessidades educativas especiais.


 

Sara Faria (docente de Flauta de Bisel)

A Sara também tocou e interpretou um papel de uma pessoa cega. O que destaca dessa experiência?

Há muito a destacar e a relatar desta experiência! Em primeiro lugar, diria que me sinto abençoada pela profissão que tenho, pelas vivências que a mesma me proporciona. E esta foi, sem a mínima sombra de dúvida, uma experiência que me marcou!

Enquanto docente, é fabuloso dar a conhecer aos meus alunos outras formas de ver a vida. Mostrar-lhes que o mundo, pelas suas vicissitudes, horrores e, paradoxalmente, pela beleza que têm as pessoas diferentes. Todas passam aqui na vida, passam por nós, têm uma identidade e personalidade e merecem a oportunidade de viver. Através dessa possibilidade de conhecimento, sinto que posso contribuir e que, mais do que formar médicos, engenheiros, ou professores, estamos a formar bons cidadãos e a caminhar aos poucos para uma sociedade inclusiva e justa.

No que diz respeito à minha experiência pessoal, sou alguém que gosta de abraçar desafios e vivenciar outras áreas artísticas. A interpretação de uma pessoa cega, nas condições em que essa pessoa surge no nosso espetáculo, confirma a lição de que, na vida, nada é para sempre, nada é certo e nada é seguro! Ensina-me, uma vez mais, que a arrogância, a mania da superioridade e o “ter as coisas como garantidas” não preveem um bom destino e são atitudes desumanas.

Por outro lado, destaco o contacto com os utentes do Núcleo de Inclusão pela Arte (NIA), com quem nunca havia convivido. Conheci seres humanos que, entre muitas características próprias, apresentaram-me uma que admiro sobremaneira: a de não ter medo ou vergonha de mostrar os seus sentimentos, sejam eles uma capacidade incrível de amar, um desespero por um erro que cometeram, um ataque repentino de raiva ou uma gargalhada espontânea. Esta capacidade de sentir a vida na sua plenitude, não ter “filtros” de comportamento, é difícil até de entender, mas é espontânea e é um ensinamento para nós, os ditos “normais” que nos castramos diariamente, e que não nos permitimos SENTIR. Sinto necessidade de agradecer à Ester Vieira e ao Duarte Rodrigues a oportunidade que me deram.

E, para acabar este meu relato que já vai grande, constato o excelente trabalho de grupo efetuado entre os docentes que estiveram envolvidos neste projeto. A envolvência e entrega de cada um (embora de maneira distinta mas, afinal, somos seres humanos diferentes) permitiu comprovar, uma vez mais, que através das artes contribuímos para uma educação pela cidadania.


 

 

Slobodan Sarcevic (docente de Acordeão)

Pela sua vivência, quer no seu país de origem (Sérvia), quer durante os seus estudos na Ucrânia, como compara a arte inclusiva praticada nesses países e na Madeira?

Um olhar prismático sobre o assunto colocado leva-me a afirmar que projetos desta natureza existem, mas num formato menos declarado. No meu país de origem, a Sérvia, ou na Ucrânia, onde completei os meus estudos académicos, a situação económica limita a maior exposição das diferentes práticas artísticas. Aqui essas ações artísticas são mais apoiadas, afunilando os gastos para as vertentes e níveis de interpretação diferentes, favorecendo os envolvidos e o público em geral.


 

 

Zélia Gomes (docente do Coro)

Para os seus alunos do coro, e pelo que lhe manifestaram ao longo de vários ensaios, o que ficou para cada um deles?

Julgo que ficou o interesse e gosto por trabalhos a favor da inclusão de grupos em situação de vulnerabilidade na sociedade, especialmente crianças, adolescentes e jovens com necessidades educativas especiais.


 

 

Yuriy Tsikothskyy (docente da dança)

Como sentiu este espetáculo no todo?

Em primeiro lugar valeu-me o ter de preparar os meus alunos para valores como a igualdade, o respeito e o civismo. Um trabalho gradual, diário, em cada aula e em algumas semanas. Senti o espetáculo forte e mesmo dramático! Sensível e ao mesmo tempo agradável ao nível da execução.

Que importância pode ter o misturar os seus alunos com outros, ditos ‘diferentes’?

Tenho a certeza de que os  alunos tiveram uma experiência única, que  espero não fique por aqui.

Mudaria alguma coisa para melhorar este espetáculo?

Como foi a primeira vez que participei num projeto destes, dificilmente mudaria algo. Mas não há regras de desempenho. Neste tipo de trabalhos, temos é que estar sempre atentos para fazermos um mundo melhor, a partir da  área em que trabalhamos.

 


 

Informação adicional

  • Cerca de 10% da população, ou seja, 650 milhões de pessoas, vivem com uma deficiência. São a maior minoria do mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), este número está a aumentar devido ao crescimento demográfico, aos avanços da medicina e ao processo de envelhecimento.
  • Nos países onde a esperança de vida é superior a 70 anos, cada indivíduo viverá com uma deficiência em média 8 anos, isto é 11,5% da sua existência.
  • 80% das pessoas com deficiência vivem nos países em desenvolvimento, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
  • Nos países membros da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE), segundo o Secretariado desta Organização, a proporção das pessoas com deficiência é nitidamente mais elevada nos grupos com menos instrução. Em média, 19% das pessoas menos instruídas têm uma deficiência, em comparação com 11% das mais instruídas.
  • Na maioria dos países da OCDE, a incidência das deficiências é mais elevada entre as mulheres do que entre os homens.
  • O Banco Mundial estima que 20% das pessoas mais pobres tenham uma deficiência e em geral são consideradas como as mais desfavorecidas pelos membros da sua própria comunidade.
  • As mulheres com deficiência sofrem múltiplas desvantagens, incluindo a exclusão devido ao seu sexo e deficiência.
  • As mulheres e raparigas com deficiência estão particularmente expostas a maus tratos. Um estudo realizado em Orissa (Índia), em 2004, mostra que quase todas as mulheres e raparigas com deficiência eram agredidas fisicamente em casa, 25% das mulheres com uma deficiência mental tinham sido violadas e 6% das mulheres com deficiência haviam sido esterilizadas à força.
  • Segundo a UNICEF, 30% dos jovens que vivem na rua são deficientes.
  • Entre as crianças com deficiência a mortalidade pode atingir os 80%, em países onde a mortalidade total das crianças com menos de 5 anos diminuiu para menos de 20%, segundo o Ministério do Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, que acrescenta que, em certos casos, parece que as crianças são “eliminadas”.
  • Estudos comparativos das leis sobre pessoas com deficiência mostram que apenas 45% dos países têm uma legislação anti-discriminatória ou que faça referência específica às pessoas com deficiência.

Educação

  • Nos países em desenvolvimento, 90% das crianças com deficiência não frequentam a escola, segundo a UNESCO.
  • A taxa de alfabetização mundial relativa aos adultos com deficiência não excede os 3%, e 1% no caso das mulheres com deficiência, afirma um estudo do PNUD, de 1998.
  • Nos países da OCDE, as pessoas com deficiência que seguem estudos superiores continuam a estar sub-representadas, embora o seu número esteja a aumentar, segundo a mesma Organização.

Emprego

  • Cerca de 386 milhões de pessoas em idade de trabalhar são deficientes, segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT). No seu caso, o desemprego atinge os 80% em alguns países. Os empregadores partem, com frequência, do princípio de que as pessoas com deficiência não são capazes de trabalhar.
  • Ainda que as pessoas com deficiência constituam 5 a 6% da população indiana, as suas necessidades em matéria de emprego não são tomadas em consideração, segundo um estudo do Centro Nacional da Índia para a Promoção do Emprego para as Pessoas com Deficiência, apesar de a Lei sobre as Pessoas com Deficiência lhes reservar 3% dos empregos na função pública. Apenas cem mil dos cerca de 70 milhões de deficientes indianos conseguiram obter um emprego na indústria.
  • Segundo um estudo dos Estados Unidos, de 2004, apenas 35% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar arranjam emprego, em comparação com 78% das pessoas sem deficiência. Dois terços dos desempregados com deficiência inquiridos declararam que gostariam de trabalhar, mas não conseguiam arranjar emprego.
  • Segundo um estudo realizado pela Universidade Rutgers, em 2003, as pessoas com deficiência física ou mental continuam a estar largamente sub-representadas no mercado de trabalho americano. Um terço dos empregadores inquiridos declaravam que as pessoas com deficiência não poderiam realizar convenientemente as tarefas exigidas. A segunda razão mais comum apresentada para não contratar pessoas com deficiência é a necessidade de ter de proceder a adaptações dispendiosas.
  • Segundo um inquérito americano a empregados, realizado em 2003, o custo dessas adaptações não ultrapassava os 500 dólares; 73% dos empregadores informavam que não tinha sido necessário fazer qualquer adaptação para os seus empregados.
  • Segundo as empresas, as pessoas com deficiência têm uma taxa mais alta de conservação do emprego, o que reduz o elevado custo de renovação de efetivos, segundo um estudo dos Estados Unidos, realizado em 2002. Outros inquéritos americanos revelam que, ao fim de um ano de trabalho, as taxas de conservação do emprego das pessoas com deficiência é de 85%.
  • Milhares de pessoas com deficiência são bem-sucedidas como pequenos empresários, segundo o Ministério do Trabalho dos Estados Unidos. O censo de 1990 revelou que a percentagem de pessoas com deficiência que trabalham como independentes ou têm experiência de gestão de uma pequena empresa (12,2%) é superior à das pessoas sem deficiência na mesma situação (7,8%)

Violência

  • Nas zonas de guerra, por cada criança morta, três são feridas e ficam com uma deficiência permanente.
  • Em certos países, 25% das deficiências são devidas a ferimentos ou atos de violência, segundo a OMS.
  • As pessoas com deficiência têm maior probabilidade de serem vítimas de violência ou violação, segundo um estudo inglês de 2004, e têm menos hipóteses de obter a intervenção da polícia, proteção jurídica ou cuidados preventivos. Segundo os resultados da investigação, a taxa anual de violência contra crianças com deficiência é pelo menos 1,7 vezes mais elevada do que a relativa aos seus pares não deficientes.

 

Sobre o autor

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Carlos Alberto Meneses Gonçalves é Doutor em Ciências do Trabalho pela Universidade de Cádiz (Espanha), onde recebeu o Diploma de Estudos Avançados na área científica de Psicologia Social. É licenciado em Administração e Gestão Escolar e diplomado com o Curso Superior de Música (Piano e Canto). Foi professor em diversas instituições, incluindo o Conservatório de Música da Madeira, a Universidade da Madeira, o Instituto Superior de Ciências Educativas e o Instituto Politécnico de Setúbal. É investigador integrado do CIPEM (Centro de Investigação em Psicologia da Música e Educação Musical), no Instituto Politécnico do Porto, e do INET-md (Instituto de Etnomusicologia - Estudos de Música e Dança (FSCH/Universidade Nova de Lisboa). É Director de Serviços de Educação Artística e Multimédia da Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos do Governo Regional da Madeira.