Para a iconografia musical de Vianna da Motta

A estação de metropolitano “Aeroporto”, em Lisboa, pertencente à linha vermelha, foi inaugurada a 17 de Julho de 2012, em conjunto com as estações de metropolitano de Moscavide e da Encarnação, no âmbito da expansão desta linha até ao Aeroporto Humberto Delgado.1 O projecto arquitectónico é da autoria de Leopoldo Almeida Rosa e as intervenções plásticas são de António.2 Numa estação de metro que acolhe centenas de turistas que diariamente chegam a Lisboa, pode indubitavelmente afirmar-se que todo o programa iconográfico funciona como um cartão-de-visita da cidade e do País. São retratos de várias personalidades, mas interessa-nos a representação de Vianna da Motta.3 Esta obra de António é baseada no retrato a óleo4 da autoria de Columbano Bordallo Pinheiro (1857-1929), que se encontra no Museu Nacional da Música.

O retrato de Columbano insere-se no movimento Realista; apresenta uma paleta de tonalidades escuras, em manchas, concentradas no piano, na roupa de Vianna da Motta e nos tons que circundam o rosto. O tratamento da luz é cuidado, realçando as teclas do piano, as mãos e o rosto. As mãos pousam sobre o teclado, em acordes sólidos; a expressão facial é séria, absorta e parece fitar quem o retrata. Verifica-se uma ausência de partitura, sendo a ênfase da representatividade colocado no piano. É possível que se tenha pretendido destacar a carreira como pianista e não tanto como compositor.

Na estação de metro do Aeroporto, há uma adaptação da pintura a óleo para caricatura. Representado a preto e branco, Vianna da Motta está sentado ao piano. O instrumento tem o tampo aberto e é visível na sua totalidade (o que não acontece no retrato). Uma partitura (ilegível) é adicionada, encontrando-se sobre o instrumento. Os seus dedos repousam sobre as teclas, mantendo-se a ideia de um acorde. As mãos são exageradas – enfatizando-se assim o seu talento como pianista e lembrando as caricaturas de Liszt – tendo um tamanho algo desproporcional relativamente ao resto do corpo. A roupa é elegante. Vianna da Motta apresenta-se em idade mais avançada (comparativamente ao retrato de Columbano), acentuando-se a calvície.

O maior trabalho caricatural está no rosto, na sua fisionomia e expressão. A cabeça apresenta-se deformada, mais esguia, com o rosto alongado e com a testa exagerada. A orelha é grande demais, bem como o nariz. O bigode é maior. O sobrolho está franzido, conferindo-lhe um ar carrancudo. Olha directamente o observador.

Comparativamente ao retrato a óleo, há que referir que este tipo de suporte não permite um trabalho tão refinado ao nível do traço e da perspectiva, assumindo uma ideia visual muito mais simples e adaptando-se, também, ao decorum da estação de metro: uma visão moderna, caricatural, uma visão do século xxi de Vianna da Motta, ideal para todo o público em trânsito que passa por este local.

Outra fonte aqui analisada tem muito mais interesse pela sua funcionalidade e valor como peça de colecção do que pela inovação iconográfica. Trata-se de uma edição comemorativa do centenário do nascimento de Vianna da Motta, dos CTT, datada de 1986, que contém dois selos. É uma reprodução exacta do já mencionado retrato de Columbano Bordallo Pinheiro, apenas com cercadura e texto adicionados. O selo de 1 escudo adopta uma cercadura em tom dourado, que se funde com os tons do retrato, e o selo de 9 escudos uma cercadura em tom prateado, por sua vez contrastante, diferenciando assim o valor dos dois selos da colecção.

A terceira e última fonte analisada é, talvez, a mais desconhecida. Trata-se de um busto que se encontra no jardim do Torel, em Lisboa. Localizado junto ao Campo dos Mártires da Pátria, mas bastante escondido dos transeuntes que passam por aquele planalto de Lisboa, o jardim é também um miradouro com vista que permite um olhar privilegiado para a Avenida da Liberdade, a Baixa lisboeta e o rio Tejo. O nome Torel provém de uma família, Thorel, talvez de origem holandesa, com uma propriedade no local.5

O jardim actual possui vários lagos e o referido busto de Vianna da Motta, de bronze, está assente sobre plinto de pedra, instalado numa base de dois degraus. Obra de Anjos Teixeira, filho, (1908-1997), executada em 1953, foi inaugurada quatro anos mais tarde, a 22 de Abril de 1957. Apresenta este monumento a seguinte legenda: “Vianna da Motta, 1868-1948, Insigne pianista, mestre dos músicos do seu tempo”.

No campo da iconografia musical, muito se encontra ainda por investigar no que concerne a Vianna da Motta. Por exemplo, o documentário sobre a sua vida e obra produzido pela RTP6, com introdução de João de Freitas Branco, revela fotografias da época e imagens de arquivo que são extremamente pertinentes para a (re)construção dos estudos sobre o músico e compositor e que nunca foram devidamente estudadas. Talvez seja este um ponto de partida para uma monografia que analise a iconografia e iconologia de José Vianna da Motta e possa trazer novos dados sobre a vida e obra desta figura ímpar quer do panorama musical português do seu tempo, quer de toda a nossa História da Música.

NOTAS

1 ALVES, Isabel (ed.), Waves of influence – cinco séculos do Azulejo Português, Lisboa, Metropolitano de Lisboa, 1995; PEREIRA, José Castel-Branco, Azulejos no Metropolitano de Lisboa, Lisboa, Metropolitano, 1990.

2 António Moreira Antunes nasceu em Vila Franca de Xira, a 12 de Abril de 1953. Caricaturista político, ficou conhecido pelas suas colaborações em vários jornais e revistas: Diário de Notícias, A Capital, A Vida Mundial, O Jornal e Expresso. Foi precisamente neste último jornal que publicou o seu mais famoso e contestado cartoon, com o Papa João Paulo ii com um preservativo no nariz.

3 BRANCO, João de Freitas, Vianna da Motta: uma contribuição para o estudo da sua personalidade e da sua obra, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987; CASCUDO, Teresa e Maria Helena Trindade (edd.), José Vianna da Motta: 50 anos depois da sua morte, Lisboa, Instituto Português de Museus, 1998; LOPES-GRAÇA, Fernando, Vianna da Motta: subsídios para uma biografia incluindo 22 cartas ao autor, Lisboa, Editorial Caminho, 1984.

4 Este retrato é realizado a partir de fotografia de Manuel Alves San Payo (1890-1974), que, entre os anos de 1920 e 1950, foi o mais bem sucedido fotógrafo português. Pelo seu atelier passaram as figuras mais notórias da vida nacional, gente de sociedade, políticos, artistas e intelectuais, que registou através da sua espantosa qualidade de retratista.

5 SANTANA, Francisco (dir.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, Carlos Quintas e Associados, 1994.

6 Centenário de Vianna da Motta: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/centenario-de-vianna-da-motta/#sthash.Uex02Zra.dpbs (22/04/1968).

Título Retrato de Vianna da Motta

Autoria Columbano Bordalo Pinheiro — 1857– 1929

Ano de conclusão 1928 — assinado e datado no canto superior esquerdo Columbano 1928

Técnica Pintura a óleo

Suporte Tela

Dimensões 70× 90cm

Propriedade Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado

N.º de Inv. 640

Local Actual Museu Nacional da Música

Historial Doação de Emília Bordalo Pinheiro, viúva do pintor, em 1930

Conservação Pintura em excelente estado de conservação, com pontuais problemas de despigmentação. Etiqueta vermelha da casa parisiense Chenue (emballeur) no suporte de madeira da tela. Moldura dourada pela casa Manuel João da Costa (dourador), segundo etiqueta no verso.

Texto publicado na Glosas n.º 17, p. 38-40.

O espelho de mim: análise de dois auto-retratos de Bernardo Sassetti

(…) Em 1994, Bernardo Sassetti intensificou a dedicação à fotografia, movido não apenas pela paixão por esta arte, mas por uma real necessidade de associar a imagem à música que escreve. Tal como aconteceu com a sua música, a fotografia foi, para Sassetti, mais do que a própria realidade, o espelho das coisas que dela se imaginam. (…)

Excerto da Biografia de Bernardo Sassetti (www.casabernardosassetti.com)

Lembrem-se que um bom par de sapatos faz sempre uma grande diferença.

Bernardo Sassetti, Excerto do texto Pianistas Pianistas (www.casabernardosassetti.com)

Analisar elementos iconográficos e iconológicos nas fotografias de Bernardo Sassetti pode parecer um acto frio e cirúrgico. Compartimentá-las, dissecar os seus detalhes, pode até parecer quase perverso. Mas fiquem os leitores descansados, que esta análise pretende, antes, tentar chegar à sua essência. Acima de tudo, estas são fotografias marcadas por uma intimidade. E dão uma visão tão plena do âmago do artista que chega a ser assustador e perturbador mergulhar nele.

Para além da referida intimidade, estas fotografias são marcadas por uma grande dose de experimentação. Vemos o fotógrafo que ousa tentar, insatisfeito, impaciente, numa constante busca de algo que, inevitavelmente, sabe que poderá nunca alcançar. Partes do próprio corpo do artista são fotografadas. Outras são de outros corpos. Pés, mãos, olhos, testa. Com uma ênfase nas rugas, nas linhas da pele. Elas são, tal como está enunciado na sua biografia e acima citado, “mais do que a própria realidade, o espelho das coisas que dela se imaginam”.

1. A primeira fotografia intitula-se “Pés (Rio Tejo)”, tirada em 2010 numa área húmida que bordeja o Tejo, junto às salinas, perto de Alcochete.1 Bernardo Sassetti mostra os seus pés descalços. As inúmeras fotografias tiradas neste formato demonstram uma certa fixação por esta parte do corpo. Os pés são vistos como um objecto de curiosidade constante e de quase fetiche. A fotografia é, na maioria das vezes, realizada de cima para baixo, com os pés descalços. Muitas têm o elemento água associado, um elemento fluido – os pés descalços na casa de banho, na água livre, que corre, ou no leito seco de um rio. Os pés são objectos altamente simbólicos, numa série de contextos, épocas e sociedade. São os pés que caminham, que nos conduzem, que trilham caminhos. Já na Bíblia, no Antigo Testamento, Deus diz que todo o lugar onde pisarem as plantas dos pés, a elas pertencerão (Dt. 11:24). Sassetti mostra pés descalços, por forma a sentir o chão, a terra. São ponto de contacto com sensações únicas e primordiais. Uma busca do sentir. Do profundo sentir. A terra seca e já fragmentada salpica os pés que a pisam. A ausência da água, que já abandonou o terreno – deixa a descoberto alguns ramos sem vida e uma luva de borracha, suja, marca do Homem na Natureza.

2. No segundo auto-retrato temos um contraste experimental ao nível do jogo de luzes e de sombras.2 O cenário, interior, foi preparado para fotografar amigos. Mas, enquanto preparava a sessão, eis que surge um momento íntimo, de experimentação. A objectiva aponta e dispara no automático. A imagem tem camadas, tal como o nosso interior, tal como nós próprios. Uma cortina, um homem, uma janela. A cortina, transparente, deixa ver o vulto humano, mas apenas nos seus contornos. A janela ilumina, por trás. Entre duas fontes de luz – a janela, emissora, e a cortina transparente, a receptora – está a sombra contrastante e esbatida do corpo. As mãos estão contra a cortina, bem abertas. Quase como se estivéssemos a testemunhar O Grito de Munch, mas ainda mais exasperante. A figura humana parece prisioneira. E, ironicamente, não há grades, mas uma fina cortina transparente de luz. Esta é uma das poucas imagens em que vemos as mãos. As mãos que tocam, que compõem, que escrevem e que fotografam. Que deveriam ser a parte obsessiva do músico, ao invés dos pés. Mas as mãos, aqui, não tocam, não escrevem. Parecem ser parte de um grito surdo. Apesar de esta fotografia ter sido tirada enquanto ante-câmara de um momento de vida feliz, considero que há aqui algo muito íntimo, sensível, privado e até, quase, doloroso.

A análise de dois auto-retratos de Bernado Sassetti revelou-se tão gratificante quanto difícil. Gratificante porque me permitiu contactar com o seu génio, com a sua alma, com a sua sensibilidade. Olhar, reflectir, compreender, desfrutar da sua arte, do seu pensamento. Difícil porque obriga a olhar para interior, muitas vezes escondido, muitas vezes que dói. Obriga a libertá-lo e a purificá-lo. Se a fotografia foi para Sassetti mais do que a realidade, e foi o espelho das coisas que dela se imaginam, foi também um espelho de mim, ao escrever este pequeno artigo. Por tudo isso, nunca, mas nunca, será demais olhar e recordar Bernardo Sassetti.

notas

1 Beatriz Batarda refere: “(…) O Bernardo subiu o Tejo a bordo de um semi-rígido num passeio organizado por Carlos Caetano, responsável pelo Náutico Clube Boa Esperança sediado no Cais do Sodré. Iam a bordo o Bernardo, Carlos Caetano e Paulo Santos quando fizeram a paragem que proporcionou esta imagem. O Bernardo voltou para casa maravilhado com o passeio.”

2 Beatriz Batarda refere: “Imagem feita em 2010. O Bernardo fotografou um casal de amigos em casa deles, em teatro de sombras. Esta imagem foi feita na preparação para essa sessão.”

Fotografia: Bernardo Sassetti

Texto completo publicado na Glosa nº 14, p. 42-44.

Laboratório de Iconografia Musical: o retrato de Scarlatti na Casa dos Patudos

Domenico Scarlatti, sexto filho de Alessandro, também músico e compositor, iniciou as suas actividades como compositor teatral, embora a sua produção alcance os valores mais elevados nas obras de música religiosa e, especialmente, nas sonatas para cravo. Estas sonatas constituem, no total, mais de quinhentas obras (558 ou 5591). O conjunto das fontes manuscritas e impressas de Scarlatti é uma questão complexa: existem trinta volumes de sonatas, escritos com caligrafias diferentes (embora seja claro que há um copista principal em ambos), copiados a pedido da própria Maria Bárbara de Bragança, no fim da vida do compositor (mais precisamente entre 1742 e 1757).

Seguramente o próprio Scarlatti terá supervisionado a cópia, plena de indicações pormenorizadas. Estes volumes são constituídos por dois grupos diferentes e o primeiro grupo de quinze volumes, ricamente encadernado e decorado com as armas reais de Espanha e de Portugal, pertenceu à Rainha, que mais tarde o ofereceu a Farinelli, não se sabendo como foi parar, em 1835, à Biblioteca Marciana de Veneza. O segundo grupo, que tem, apesar de tudo, algumas diferenças de cópia de sonatas repetidas, está conservado na Biblioteca Palatina de Parma desde o final do século XIX. Todavia, nenhum dos conjuntos tem todas as 555 sonatas (este é o número total dos dois conjuntos de manuscritos), havendo algumas de cópia única num ou noutro. Consideram-se, no entanto, para a tradição textual de Scarlatti não apenas estes manuscritos mas também as edições de Londres (1738, trinta sonatas), de Roseingrave (também de Londres, 1739), os dois volumes impressos em Paris em 1742, a transcrição de Charles Avison (Londres, 1744) e diversas cópias manuscritas de sonatas individuais ou de conjuntos, mas genericamente de menor valor. A edição de Londres, que se intitula Essercizi per Gravicembalo, foi dedicada por Scarlatti ao rei D. João V, que lhe concedera o título nobiliárquico de Cavaleiro da Ordem de Santiago.

O compositor terá despertado, porventura, a atenção do monarca português quando, no cargo de mestre da Capela Giulia, no Vaticano, compôs obras teatrais e sacras (os dois Miserere ainda se conservam no arquivo do Vaticano), das quais se destaca o magnífico Stabat Mater. Nesta época, Scarlatti tinha uma segunda ocupação, como mestre de capela em casa do Marquês de Fontes, embaixador de Portugal em Roma. Nessa qualidade, a 6 de Junho de 1714, fez representar uma obra de circunstância, o Applauso genetliaco del signor infante di Portugal, tendo, talvez, esta obra influenciado decisivamente a sua vinda para Portugal.

Com efeito, em 1716, D. João V tinha conseguido que Lisboa fosse elevada à categoria de Patriarcado e, para corresponder a tal honra e magnificência, o rei fez vir para Portugal cantores, músicos e compositores de excelência. Em 1720 Domenico Scarlatti mudou-se para Lisboa, para o serviço da corte, com os principais deveres de compor e de dar aulas de música ao irmão mais novo do rei, D. António, e à filha do rei, Maria Bárbara.

A relação entre o compositor e Maria Bárbara viria a perdurar desde os tempos de juventude da princesa, em Lisboa, até aos tempos de rainha, no país vizinho, tendo Scarlatti seguido no seu séquito para Espanha. Até 1746 Scarlatti esteve exclusivamente ao serviço dos príncipes das Astúrias, ou seja, de Maria Bárbara e de Fernando VI.

Curiosamente Kirkpatrick (1982) identifica dois retratos de Domenico Scarlatti. Um deles, onde não é totalmente certo (embora bastante provável) de que seja o compositor e do qual apenas sobrevive a gravura de Charles Joseph Flipart (1721-1797), feita a partir de pintura de Jacopo (ou Iacobus) Amigoni (também Amiconi). Neste retrato, à direita do observador, em segundo plano e numa tribuna, estarão Farinelli e Scarlatti (figura mais à direita do observador).

Fernando VI e Bárbara de Bragança com a sua corte. Gravura de Joseph Flippart (1721-1797) a partir de pintura de Jacopo Amigoni (1682-1752).

Domenico Scarlatti (?). Detalhe da gravura de Joseph Flipart.

O outro retrato, que serve de capa a este número da revista glosas, foi vendido pela família de Scarlatti em 1912 e adquirido a Mariano Hernandez por José Relvas, em Madrid, quando foi embaixador de Portugal em Espanha, a 19 de Janeiro de 1913, por 250 pesetas2. Actualmente continua na Casa dos Patudos, agora Casa Museu, sendo um dos ex libris da colecção. Está atribuído ao pintor italiano Domingo Antonio de Velasco e datado de ca. de 1739.

No retrato vemos Domenico Scarlatti, em pé, junto a um instrumento de tecla, possivelmente um cravo. Pela posição das teclas pretas do registo grave é possível verificar que o instrumento não possui oitava curta. Scarlatti apoia aí a sua mão esquerda, transmitindo ao observador a importante condição de músico e instrumentista. A escolha do instrumento não terá sido aleatória, uma vez que a maioria da sua produção como compositor foi para instrumento de tecla. Na outra mão segura duas folhas, numa das quais é possível ler ‘Ao Senhor D. Domenico Scarlatti’. Poderá ser este documento que simboliza a comunicação da condecoração dada por D. João V (a cruz da Ordem de Santiago), que o músico exibe ao peito? Indica-nos Marshall: “In 1738, perhaps as a compensation for the favors that were being showered on Farinelli by the king and queen, Scarlatti was made a knight of Santiago by Maria Barbara’s father. (Domingo Antonio de Velasco’s portrait of Scarlatti commemorates this halcyon period in Domenico’s life.) In return, Domenico dedicated to João V the handsome volume of thirty Essercizi per gravicembalo issued at London or Venice in 1738, with a title page by Jacopo Amiconi” (2003: 161). Poderá também a carta significar o convite para ir para Madrid, acompanhando a princesa, sua aluna, Maria Bárbara de Bragança, assumindo novos cargos na corte espanhola?

No retrato da Casa Museu dos Patudos Scarlatti veste casaco (aparentemente, veludo), casaco este que se sobrepõe a um magnífico colete, com o dourado (fios de ouro?) como cor de fundo e com padrão floral. A camisa e as mangas são em linho com renda fina. Em baixo (à direita do observador) é possível ver parte de uma espada (ou punhal) que completa o traje do músico. É de realçar que poderá ter havido uma autorização de D. João V para a utilização de traje tão fino (linho, seda, fios de ouro) com a insígnia, uma vez que os estatutos da ordem de Santiago impunham o austero hábito de cor negra como utilizou, por exemplo, o pintor D. Velázquez.

Serve de fundo ao retrato um panejamento verde que deixa a descoberto uma parte de um relógio que, por sua vez, assenta em coluna. Este relógio, extremamente ornamentado e decorado com figuras mitológicas, marca uma hora exacta: duas horas e vinte e um minutos. Permanece um mistério o porquê da indicação de uma hora tão exacta e propositadamente visível ao olho do observador. O relógio, em si, poderá ser uma simples alusão ao tempo que passa de forma inexorável simbolizando a enorme quantidade de afazeres do músico, compositor, professor e mestre de capela.

Resta ainda lembrar o facto de a figura de Scarlatti ter seduzido o prémio Nobel da literatura, José Saramago, ao introduzi-lo como personagem (secundária)3 no livro Memorial do Convento: “É homem, italiano de nação, está há poucos meses na corte, e é músico, mestre de cravo da infanta, mestre da capela real, o nome dele é Domenico Scarlatti, Escarlate, Não é bem assim que se diz, mas a diferença é tão pouca que podes chamar-lhe Escarlate, afinal, é como toda a gente lhe chama, mesmo quando julgam estar a dizer certo”. Sobre o encontro no Paço entre Scarlatti e outra personagem, o Padre Bartolomeu de Gusmão, findada a lição de música da infanta, Saramago descreve:

“O italiano dedilhou o cravo, primeiro sem destino, primeiro como se estivesse à procura de um tema ou quisesse emendar os ecos, e de repente pareceu fechado dentro da música que tocava, corriam-lhe as mão sobre o teclado como uma barca florida na corrente, demorada aqui e além pelos ramos que das margens se inclinam, logo velocíssima, depois parando nas águas dilatadas de um lago profundo, baía luminosa de Nápoles, secretos e sonoros canais de Veneza, luz refulgente e nova do Tejo, já lá vai el-rei, resguardou-se a rainha na sua câmara, a infanta debruça-se para o bastidor, de pequenina se aprende, e a música é um rosário profano de sons, mãe nossa que na terra estais […]”.

Notas

1 Existem algumas dúvidas referentes à catalogação das obras. Por exemplo, a sonata K. 52 subsiste em duas versões muito diferentes, catalogadas como A e B na nova edição Fadini e não contadas como duas sonatas diferentes. A autora agradece as indicações de José Carlos Araújo.

2 Indicação da ficha de inventário da Casa dos Patudos. Por sua vez, Noro (1993: 100) indica o ano de 1913 como data de compra do retrato, sendo muito generalista no que toca ao anterior proprietário, referindo-se a ele apenas como “um certo Dr. Hernando, de Madrid”.

3 Na obra de Saramago a música de Scarlatti aparece como força espiritual (e também terapêutica, quando aplicada a Blimunda) para a concretização do sonho de construir e de fazer voar a passarola. Na hora de partida e de fazer voar a máquina, o cravo é esquecido, sendo depois destruído por Scarlatti, por receio da Inquisição.

Texto publicado na Glosa nº 12, p. 4-5.

Música entre Artes #5

A rubrica Música entre Artes de Novembro traz-nos uma obra manuscrita da autoria do Padre Joaquim José da Rocha Espanca, Jr. (17 de Março de 1839 — 26 de Novembro de 1896) identificado como “a Callipoli oriundo”, isto é, usando o nome em Latim Callipole [=Vila Viçosa] para identificar a sua naturalidade. Nesta vila fez a instrução primária, aprendeu latim, canto, música, piano e órgão. Em 1856 entrou para o Seminário de Évora, aí completou os estudos e fez o curso de Teologia. Dedicou-se às letras e à música sacra, para a qual compôs muitas obras inéditas para piano, piano e canto, para instrumentos de sopro, para instrumentos diversos e canto, por exemplo.

A iconografia musical aqui analisada é referente ao Responsório das Matinas In Festo Immaculatae Conceptionis Beatae Mariae Virginis. Obra a quatro vozes, as três partes vocais encontradas (“Tiple, Contralto e Baixo”) estão datadas de 1873. Observamos a capa da parte do Baixo. Não se sabendo se a mão é da autoria do próprio Padre Espanca ou se de algum copista, é necessário, contudo, destacar a beleza do trabalho manuscrito. O texto está emoldurado por uma corrente de anéis, em cinza, que sustêm duas cartelas em azul, uma em cima e outra em baixo. Na cartela azul no topo, está inscrito: “Responsórios cortados ou pequenos”. Na de baixo indica-se “Pertence à Confraria de Nossa Senhora da Conceição de V.ª Viçosa”. Lateralmente, decoram motivos vegetalistas, i. e., videiras com parras e cachos de uvas. Envoltos nesta profusão frondosa estão instrumentos musicais, dispostos simetricamente.

 

 

É possível identificar, de baixo para cima, um contrabaixo (ou violoncelo?) e um fagote, uma trompete em forma de “S” e uma tuba (ou tuba wagneriana?, eufónio?), dois clarinetes e duas flautas. Os instrumentos apresentam poucos pormenores ao nível organológico, e um traço que é mais de um copista do que de um artista plástico. Contudo, não deixa de ter interesse a escolha dos instrumentos musicais, onde se incluem aerofones muito em voga no meio filarmónico militar e civil em Portugal.

Música entre Artes #4

(continuação)

Na sequência do texto do passado mês de Setembro, onde se analisaram painéis de azulejo do artista argentino Alberto Cédron (1937-2007), concluímos a série com um último exemplo, referente ao reinado de D. Maria I, que recebeu os cognomes de “a Piedosa” e “a Louca”.

O retrato de D. Maria I (1734-1816) aqui apresentado é uma cópia da pintura de José de Leandro de Carvalho, com data de 1808. Relativamente ao seu reinado, são destacados os seguintes factos históricos: a construção da Basílica da Estrela, as fundações da Real Academia de Ciências e da Real Biblioteca Pública, em Lisboa, a acção do intendente Diogo Inácio de Pina Manique, o Palácio de Queluz (serviu como um discreto lugar de encarceramento para a rainha D. Maria I quando a sua loucura continuou a piorar) e a iluminação pública.

Interessa-nos, do ponto de vista da iconografia musical, a questão da iluminação pública e do que esta traz “à luz” do observador. No último quartel do século XVIII, a noite de Lisboa era ainda território de marginalidade e insegurança, vigiada pelo serviço civil dos Quadrilheiros, homens comuns, escolhidos pela sua seriedade, para dar conta de ocorrências nas diferentes zonas da cidade. O medo do desconhecido impedia os lisboetas de saírem, não só receosos da criminalidade, mas também dos condenados pela Igreja de actos subversivos nocturnos, como as mulheres acusadas de bruxaria ou os judeus. Sair à noite significava colocar-se em perigo e, ao mesmo tempo, sob suspeita. Em 1780, por insistência de Pina Manique, Lisboa é iluminada por lamparinas de azeite de parca profusão, pagas não pelo Estado mas através de um imposto cobrado aos cidadãos. O preço demasiado alto do azeite e a revolta da população levam a que doze anos mais tarde Lisboa regresse à escuridão. Só em 1801, depois da subida do número de assaltos e assassinatos, D. Maria I decreta que seja resolvida a questão da iluminação pública e criada a Guarda Real da Polícia.

O que vemos no painel de azulejos é o acender de uma dessas lamparinas que ilumina não só a rua, como também o que se passa no interior de um edifício. No primeiro andar (da direita para a esquerda do observador) vemos: um homem (vestido de mulher) cujo ténue reflexo se observa no espelho, um escritor solitário e três viúvas alcoviteiras; no segundo andar: uma mãe dando jantar aos seus cinco filhos, o marido a agredir a esposa, nua, após esta ter sido apanhada no quarto com o amante (que foge pela janela) e, por fim, uma reprodução do quadro “o Fado” de José Malhoa. Neste quadro, Malhoa retratou Amâncio, um fadista desordeiro, a tocar guitarra portuguesa, e a sua amante Adelaide, conhecida como “Adelaide da facada” (certamente pela cicatriz que tinha na face esquerda), em atitude de escuta, num cenário intimista que remete para um pobre quarto com mesa, uma garrafa de vinho e um copo.

Não deixa de ser um paradoxo como Cedrón escolhe representar uma obra muito posterior à época em questão: a tela de Malhoa tem duas versões, uma pintada em 1909 e outra em 1910. Assume-se que, numa alusão ao fado, Cedrón tenha optado por uma citação icónica de algo familiar ao olho de todos os portugueses. Um apontamento que destacamos é o encontro, frente a frente, do cão e do gato preto, por certo simbolizando as rixas típicas de uma cidade que, iluminada, se entrega cada vez mais aos prazeres e à vida boémia.

Música entre Artes #3

(continuação)

 

Na sequência do texto do passado mês de Agosto, onde se observaram painéis de azulejo do artista argentino Alberto Cédron (1937-2007), continuamos, hoje, com os exemplos referentes aos reinados de D. João IV e D. João V.

O retrato de D. João IV (1604-1656) aqui apresentado é uma cópia da pintura atribuída a José de Avelar Rebelo, com data de 1643. Relativamente ao seu reinado, são destacados os seguintes factos históricos: a aclamação como rei a 1 de Dezembro de 1640, o bloqueio de Goa pelos holandeses, a constituição da Biblioteca de Música no Paço da Ribeira, o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra e a Guerra da Restauração.

Interessam-nos, do ponto de vista da iconografia musical, os episódios da Restauração, pela representação da música militar, com detalhes de trombetas e tambores. Trata-se de uma trombeta recta natural que está na mão de um cavaleiro e de dois tambores cilíndricos bimembranofones, à cintura de dois moços. De realçar que estes pormenores contêm muitas semelhanças com os painéis de azulejo da Sala das Batalhas do Palácio Fronteira, quer na figuração dos músicos e instrumentos musicais, quer nos detalhes das fortalezas e suas muralhas. Sendo D. João IV músico e compositor, há também a destacar o impulso que deu à Biblioteca de Música do Paço da Ribeira, infelizmente perdida no terramoto de 1755.

 

 

No segundo painel, referente a D. João V (1689-1750), temos o rei representado de acordo com o retrato de 1717, de Domenico Duprà, alusivo à batalha no cabo Matapan. Destacam-se no seu reinado a construção do Aqueduto das Águas Livres, o casamento com Maria Ana da Áustria, a construção do convento de Mafra, o ouro e diamantes provenientes do Brasil, a batalha de Matapão e a embaixada a Roma, ao Papa Clemente XI. É neste último episódio que encontramos a música claramente representada pela trombeta e timbales, em músicos a cavalo, que tocam anunciando a passagem do cortejo. De forma implícita — uma vez que a imagem não reproduz esses pormenores — deveremos ter também em conta a reprodução da basílica de Mafra, que abriga nas suas torres sineiras dois carrilhões (o da torre norte proveniente de Liège, da fundição de Nicolas Levache, e o da torre sul proveniente da Antuérpia, da fundição de Willem Witlockx) e, no interior da basílica, os seis órgãos históricos.

 

 

(continua)

Música entre Artes #2

O argentino Alberto Cedrón (1937-2007) é considerado um dos maiores artistas plásticos do seu país e também um dos mais abrangentes, já que a sua obra abarca desenho, ilustração, pintura, escultura, arte mural, gravura, entre outros. As suas próprias palavras indicam: “ Por diversas circunstancias del destino me tocó andar por muchos lugares de este planeta, siempre con mi profesión, oficio o como quieran llamarle. Empecé dibujando en las paredes de la cocina de mi casa a los seis años, desde allí no paré nunca. Dibujé sobre paredes, papel, piedra, latón, arcilla, chatarra; en fin materiales diversos, soportes diversos y también momentos históricos diversos” (http://www.albertocedron.com.ar/).

De 1994 a 1996 Cedrón realizou uma série de quarenta painéis de azulejo (2,20 x 1,60 m) que compõem a “História de Portugal”, desde a sua fundação até à adesão do país à antiga CEE, actual União Europeia. Estão os referidos painéis nos Jardins da Fundação Berardo, no Funchal, ilha da Madeira.

Interessam-nos cinco painéis de azulejos referentes a cinco reinados, com pormenores relevantes ao nível iconográfico musical, que serão abordados em três crónicas. Na deste mês de Agosto serão analisados os painéis referentes aos reinados de D. Dinis e D. Fernando.

No primeiro são colocados em destaque, na perspectiva do artista (ou do encomendador), os principais marcos sociais e políticos e históricos do reinado de D. Dinis (1261-1325): o desenvolvimento do comércio e criação da bolsa dos mercadores, a constituição da primeira frota naval portuguesa, a plantação do pinhal de Leiria, a criação da primeira universidade portuguesa (Coimbra), a extinção dos Templários e criação da Ordem de Cristo. Temos também o milagre das rosas, lenda relacionada com a sua esposa, a Rainha Santa Isabel. Por fim, a cultura trovadoresca.

 

 

D. Dinis foi um reconhecido trovador medieval, também ele compositor de várias Cantigas de Amor. Era neto de Alfonso X de Castela (o Sábio). Foi na corte do seu avô que se compôs (ou recolheu) a poesia e a música que integram as Cantigas de Santa Maria, uma gigantesca colecção de canções devocionais louvando a Virgem Maria ou narrando milagres a ela atribuídos.

Nesta imagem de Cedrón vemos um trovador que canta e toca um cordofone dedilhado, com formato periforme. Parece ser um instrumento do tipo do alaúde mas o cravelhame não é o correcto para tal instrumento. Assume-se que foi intenção do artista representar mais o tipo de acompanhamento dos trovadores do que um instrumento em particular. Acompanham-no duas mulheres, uma cantando e a outra não cantando. Talvez o artista pretendesse uma evocação da presença feminina nas Cantigas de Amigo.

No segundo painel, referente ao reinado de D. Fernando I (1345-1382) destacam-se as guerras luso-castelhanas, a construção da muralha fernandina de Lisboa, o tratado de aliança com a Inglaterra e o descontentamento popular pelo casamento do rei com Leonor Teles. Neste último episódio vemos vários populares aglomerados em descontente manifestação, identificando-se, em primeiro plano, um mendigo, coxo, que leva um instrumento cordofone. A prática musical estava bastante aliada à mendicidade e às esmolas, nas classes baixas. O cordofone, mais uma vez, não é exacto no que concerne à organologia. Quiçá uma sanfona e um cego pudessem melhor representar a visão do artista referente às classes populares mendicantes (conforme nos atestam outras fontes iconográfico-musicais), mas tal não foi a opção de Cedrón.

 

 

 

(continua)

Música entre Artes #1

música entre artes .
uma rubrica da revista Glosas .
a proposta de um breve olhar sobre representações da música noutras artes .


No passado ano de 2020 celebrou-se o centenário de nascimento da fadista Amália Rodrigues (Lisboa, 23 de Julho de 1920 – Lisboa, 6 de Outubro de 1999). A pandemia que vivemos no presente causou uma injusta sombra sobre as celebrações. Certos da necessidade de assinalar a efeméride com a devida pompa, a organização prolongou-a para o ano corrente ano de 2021.

São várias as actividades em programa e muitos os intervenientes. Os CTT, no âmbito da Filatelia e Coleccionismo, lançaram a 23 de Julho de 2020 uma emissão que celebra o centenário sob o título “Amália Rodrigues | 100 anos”. Analisam-se, de forma simples, três elementos desta emissão: dois selos e um bloco filatélico.

Fig. 1a e 1b | Um dos selos mostra um balandrau de cores fortes da colecção da Fundação Amália Rodrigues e, como fundo, Amália no Brejão na década de 80; o outro selo mostra um xaile negro com flores coloridas e, como fundo, Amália em concerto na década de 80. Contrastam os dois trajes mostrando duas facetas de uma mulher – moderna e, ao mesmo tempo, sempre tradicional (ou do mundo, ao mesmo tempo sempre portuguesa).

Fig. 2 | O selo do bloco filatélico tem do lado esquerdo Amália num concerto em Cartago, em 1972; no centro a Amália no programa de rádio «Comboio das Seis e Meia», de 1952; e à direita Amália no jardim de sua casa na Rua de São Bento, na década de 90; o fundo do bloco é o vestido usado numa digressão ao Japão, na década de 80, com uma jóia na lapela. Ao lado, três terços, símbolos de devoção.

Pretendeu-se mostrar vários elementos iconográficos que caracterizam Amália enquanto mulher e enquanto fadista. Privilegiam-se aspectos do feminino (roupa e jóias), com particular incidência no requinte, mas sem esquecer a tradição do xaile português. Amália é mostrada em público (palco) e na intimidade (casa). Os CTT honram a fadista numa edição que se recomenda a todos os amantes de iconografia musical e do fado.

Geografias: Rafaela Albuquerque

Geografias : Roma

Rafaela Albuquerque

de A a Z

[dropcap size=small]A[/dropcap]mor | É algo inexplicável. Qualquer palavra parece pouco face a um sentimento tão profundo e delicado. Felizmente, tenho a sorte de o poder sentir em pleno, quer profissionalmente, quer pessoalmente. Deveria ser o valor número um da nossa humanidade. .

[dropcap size=small]B[/dropcap]arbarina | Todas as personagens devem ter dois lados visíveis, quanto à sua personalidade. A Barbarina é muito interessante, porque tanto aparenta ser aquela rapariga de 14 anos muito fresca e cheia de energia, como, ao mesmo tempo, apresenta já alguma maturidade e melancolia, presentes na ária L’ho perduta (a única ária em modo menor de toda a ópera), onde, de forma subentendida, diz que acabara de perder a sua virgindade.

[dropcap size=small]C[/dropcap]anto lírico | O meu meio de expressão. Posso dizer que é das coisas mais difíceis. Mas, quando é bem feito, é mágico.

[dropcap size=small]D[/dropcap]isciplina | Essencial para quem quer ser cantor de ópera. Todos os dias é precisa uma disciplina interior muito grande. É muito fácil cantar ópera de uma forma superficial. A disciplina é algo que nos irá distinguir dos outros. O prazer de fazer bem e cada vez melhor.

[dropcap size=small]E[/dropcap]SML | A Escola Superior de Música de Lisboa ensinou-me muito. Tive a sorte de poder estudar, trabalhar e partilhar ideias com a professora Sílvia Mateus, uma pessoa cheia de talento e imaginação, quer como encenadora, professora ou cantora, o professor Nuno Vieira de Almeida, com quem partilhei muita música e de quem retenho sempre muitos conselhos e a partilha da sua grande sabedoria: pessoas que nos marcam e palavras que ficam para a vida.

[dropcap size=small]F[/dropcap]elicidade | Quando penso em felicidade, penso na sensação de estar em cima de um palco a representar. Um cantor de ópera deve ser também um actor, e poder representar é das coisas que mais alegria me dão.

[dropcap size=small]G[/dropcap]osto O gosto pessoal é muito importante. É aquilo que nos faz diferentes de todos os outros cantores. Não interessa imitar, fazer o mesmo que já foi feito. A magia está em criar. Fazer algo de novo, diferente. Mesmo interpretando a mesma ópera. Em tudo o que faço, é sempre a minha interpretação. Claro que muitos gostam e muitos não gostam. Chama-se Arte.

[dropcap size=small]H[/dropcap]istória da Música Portuguesa | Uma história muito rica e pouco explorada e partilhada. Dou um exemplo: Aqui em Roma, tenho acesso a grandes maestros, encenadores, cantores, orquestras, etc. Uma vez, estávamos a falar de música, a partilhar opiniões, e decidi mostrar Eurico Carrapatoso (um compositor que admiro imenso) e a reacção foi memorável! Todos disseram que a sua música era de grande qualidade e que merecia ser ouvida, tocada por todo o mundo. O mesmo acontece com a maior parte das obras que temos. Em Itália, dão prioridade ao que é italiano, às suas óperas, obras, compositores. Em Portugal, apesar de estarmos bastante melhor, penso que temos ainda um longo caminho a percorrer.

[dropcap size=small]I[/dropcap]nstinto | Uma das coisas mais importantes, neste mundo da Ópera. Toda a nossa vida é uma aprendizagem. Mas há algo que não se ensina: o instinto, a musicalidade, o verdadeiro sentir. Em cima do palco, acontecem sempre coisas que não esperamos e o instinto é extremamente importante para tudo parecer muito natural. Ou seja, na vida real, agimos, muitas vezes, por instinto. No palco, apesar de termos quase todos os movimentos escritos, o instinto, face a qualquer situação, permitirá que haja uma grande naturalidade no desenrolar da Ópera. Isto falando fisicamente. O instinto musical é ainda mais especial.

[dropcap size=small]J[/dropcap]uventude | Uma parte da nossa vida, cheia de energia, força, quando achamos que podemos mudar o mundo. Eu, pessoalmente, gosto muito de viver cada dia como se fosse o último. Tudo o que faço é sempre muito intenso. Talvez daqui a uns anos já não seja assim, mas acho que faz parte e é a altura da minha vida em que posso investir, lutar, fazer, estudar…

[dropcap size=small]L[/dropcap]endas | Adoro lendas! Tudo o que tenha fantasia, imaginação, contos, fascina-me. Uma das primeiras coisas que me contaram, quando cheguei ao Teatro dell’Opera di Roma, foi a lenda de um fantasma que anda pelos corredores e aparece sempre na primeira récita de cada ópera. Ainda não o vi…

[dropcap size=small]M[/dropcap]asterclasses | Extremamente importantes para a formação de um cantor. Podemos e devemos aprender e absorver tudo o que pudermos de toda a gente. Todas as pessoas têm algo a ensinar, seja positivo ou negativo. O que fará a nossa carreira, na minha opinião, é a junção de todos os ensinamentos que fomos colectando ao longo da vida.

[dropcap size=small]N[/dropcap]ão quero… Ser obrigada a mudar de país. O meu sonho era morar em Portugal, mesmo tendo concertos e óperas fora. O meu lugar é, e sempre será, Lisboa.

[dropcap size=small]Ó[/dropcap]pera |O que mais gosto de fazer na vida. É a minha vida, de facto. Tenho muito respeito pela Ópera e espero poder servi-la da melhor forma.

[dropcap size=small]P[/dropcap]astel de nata | Muitas saudades! De Belém, do sabor, do cheiro… de tudo! Quando penso em Pastel de Nata só me vem a palavra Saudade à cabeça.

[dropcap size=small]Q[/dropcap]uero… | Ser feliz, cantar, amar, rir.

[dropcap size=small]R[/dropcap]azões de viver | Família, o melhor namorado do mundo, Amigos, a Ópera, a minha gata linda! Tenho mais do que razões de viver!

[dropcap size=small]S[/dropcap]audades | É um sentimento muito forte e muito presente nesta fase da minha vida. Tento lidar com isso da melhor forma possível, mas não posso dizer que é fácil. Estando no Teatro dell’Opera com contrato a tempo inteiro, não posso ir a Lisboa tantas vezes como queria. Mesmo no Natal, é complicado. Por exemplo, este ano acabo o Rigoletto a 18 de Dezembro, e a 27 de Dezembro começam os ensaios para a Traviata, em Janeiro.

[dropcap size=small]T[/dropcap]eatro dell’Opera di Roma | Um teatro lindo! Cheio de história! E nunca me vou esquecer de que foi o primeiro teatro de ópera a dar-me a oportunidade de cantar e de fazer aquilo de que gosto, investindo, ao mesmo tempo, na minha formação na Fabbrica Young Artist Program. A Fabbrica dá-nos a possibilidade de crescer, quer a nível profissional, quer a nível pessoal. O contacto diário com a vida no teatro é incrível e algo que só se aprende estando lá, vivendo aquele dia-a-dia ansioso, mas ao mesmo tempo fascinante.

[dropcap size=small]U[/dropcap]rgências Mudar a visão das pessoas, em Portugal, em relação à ópera. Parece-me uma coisa bastante urgente. Estando em Itália, deparo com a grande diferença de investimento, de respeito existente pela Música Clássica, em geral. Entristece-me.

[dropcap size=small]V[/dropcap]itória | Todas as vitórias são importantes. Mas só as alcançamos trabalhando, discutindo, criando: e, na minha opinião, as derrotas são tão ou mais importantes!

[dropcap size=small]X[/dropcap]aile | O xaile português, do Fado. Um símbolo muito nosso. Tradições que representam o nosso país e que, felizmente, se mantêm. Respeito muito o Fado e tenho muito orgulho em ser portuguesa.

[dropcap size=small]Z[/dropcap]erlina | É a personagem mais importante, até agora, que fiz no Teatro dell’Opera di Roma. A próxima será em Setembro de 2019 e já me sinto ansiosa! Agora estou a fazer a Barbarina com o famoso encenador Graham Vick e será o mesmo a fazer o Don Giovanni, onde representarei a Zerlina. Trabalhar com Vick é uma grande honra. Todos os dias aprendes qualquer coisa nova: cenicamente, o texto, a caracterização. O trabalho que fizemos com a Barbarina foi muito interessante e mal posso esperar para aprofundar ainda mais a personagem de Zerlina. Será, seguramente, uma personagem que ficará no meu coração.


Rafaela Albuquerque iniciou os estudos na Academia de Música de Santa Cecília aos 4 anos de idade. Completou o ensino secundário em Canto e, simultaneamente, o 8.º grau de violino. Na Escola Superior de Música de Lisboa, termina a licenciatura em Canto, em 2014.

Protagonizou “Dido”, em Dido e Eneias de Purcell, “Donna Anna” em Don Giovanni e “Fiordiligi” em Così fan tutte de Mozart, com encenação de Sílvia Mateus (2013-2017). Em colaboração com a Orquestra Gulbenkian, protagonizou “Sofia” em Il Signor Bruschino de Rossini e “Lauretta” em Gianni Schicchi de Puccini, com encenação de Claudio Desderi.

Foi a melhor classificada na categoria Canto, no concurso Prémio Jovens Músicos, em 2015. Pertence ao ENOA (Gulbenkian) desde Fevereiro de 2015.

Em 2017, foi seleccionada para o Young Artist Program do Teatro dell’Opera di Roma, onde actualmente trabalha como soprano solista. Para o Teatro dell’Opera di Roma, cantou os papéis de Zerlina em Don Giovanni, Annina em La Traviata, Musetta em La Bohème e Barbarina em Le Nozze di Figaro, esta última numa encenação de Graham Vick.

Participou em diversas masterclasses, com June Anderson, Renata Lamanda, Lucrezia Messa, Jessica Pratt, Claudio Desderi, Cecilia Gasdia, Roberto Abbado, Jordi Bernacer, Luca Salsi e Stefano Montanari.

João Bruno Soeiro na Rússia

Geografias : Rússia

João Bruno Soeiro

de A a Z

[dropcap size=small]Á[/dropcap]urea | A minha mãe foi, desde tenra idade, não só o âmago da minha educação, mas também uma grande amiga e um exemplo avassalador de força, honestidade e respeito. Tenho-lhe o maior dos orgulhos e a maior das gratidões por tudo o que fez, por mim e por muitos outros.

[dropcap size=small]B[/dropcap]erklee | Esta lendária escola foi, para mim, tanto um sonho que se realizou (quase que por acaso), como um meio único para desenvolver todo o meu potencial, com as melhores condições imagináveis e rodeado de um grupo de pessoas extraordinárias, com as quais criei relações para a vida. Um enorme privilégio!

[dropcap size=small]C[/dropcap]arrapatoso | O Professor Eurico tem um lugar especial no meu coração. Que personalidade contangiante, que amor pela música (e pelas artes) e que erudição inspiradora! Já para não falar do apoio fulcral que me deu, em várias fases do meu percurso, e, claro está, da música linda, tão linda com que ele agracia este mundo.

[dropcap size=small]D[/dropcap]escanso | Continua a ser algo subvalorizado para se atingir produtividade máxima e para se viver uma vida digna e feliz. Se o trabalho árduo é absolutamente fundamental, o descanso não o é menos. A questão reside, pura e simplesmente, em “como descansar”, uma vez que também há formas mais e menos produtivas de fazê-lo. Mas, que é algo que deve ser feito com frequência, disso não duvido.

[dropcap size=small]E[/dropcap]xercício | Apesar de existir uma grande moda de ginásios e de “treinos” e workouts, hoje em dia, a verdade é que também a ideia de “mente sã em corpo são” continua a ser altamente desvalorizada. Porque, o que continua a transmitir-se em demasia, é a ideia que a pessoa deve exercitar-se para ter um six-pack espectacular, ao invés da ideia de que deve simplesmente ser algo que faça parte natural da rotina de cada um, para se viver uma vida melhor.

[dropcap size=small]F[/dropcap]amília | As pessoas que me são mais próximas, sejam família formal ou amigos chegados, são o meu “tudo”. Tenho a felicidade de ter uma base emocional muito ampla, devido ao apoio extraordinário dos meus familiares e do meu núcleo de amigos, a maioria dos quais conheci ainda nos tempos da escola, e que considero verdadeiramente como meus irmãos.

[dropcap size=small]G[/dropcap]nessin/Gambarian Foi na Academia Gnessin que começou a realizar-se o meu sonho de tornar-me músico profissional ao mais alto nível, e foi lá que passei infinitas horas ao piano e na companhia da minha professora, Maria Gambarian. Quando conheces, pela primeira vez, uma pessoa que estudou com Igumnov e Neuhaus, que conheceu Prokofiev e travava amizade com Shostakovich e Khachaturian, os teus joelhos tremem… mas quando ela te olha com o olhar mais genuíno do mundo e te diz que acredita em ti, o teu mundo vira-se do avesso e, de repente, tudo é possível!

[dropcap size=small]H[/dropcap]ip-hop | Sempre me aparvalhou que as pessoas dissessem “música hip-hop”, quando hip-hop não é um estilo de música (nem de dança), mas uma cultura da qual emergiu a música rap. E foi, precisamente, esse o primeiro estilo de música ao qual eu, surpreendentemente, dei atenção, ainda bem miúdo. Muitos e bons anos ouvi religiosamente José Mariño e o seu inesquecível Repto, na Antena 3.

[dropcap size=small]I[/dropcap]nês | Costumo dizer às pessoas que, se não fosse a minha irmã, é bem possível que eu nunca me tivesse tornado músico. Foi ela que me introduziu à música e me mostrou muitos dos músicos e artistas que iriam influenciar-me e definir o meu caminho.

[dropcap size=small]J[/dropcap]ordan | Como fanático de basquetebol e pessoa que cresceu nos anos 90, Michael Jordan foi o grande ídolo que, mais tarde, no meu percurso musical, me relembrou permanentemente de que só com uma persistência obsessiva e uma cultura de trabalho de ferro conseguimos ultrapassar-nos e atingir os mais altos objectivos. E, ainda hoje, ele continua presente, lembrando-me sempre de que “os limites, como os medos, são, muitas vezes, só uma ilusão”.

João Bruno Soeiro numa sessão de gravação

[dropcap size=small]L[/dropcap]otkev | Tenho colaborado, nos últimos anos, com o Ensemble Loktev de Peças e Danças, o mais importante agrupamento infantil/juvenil de música e dança na Rússia, fazendo arranjos para o seu variadíssimo repertório. Uma experiência mágica, que espero poder continuar a desenvolver, e que me permita, eventualmente começar a escrever música original a ser estreada por eles. Ao mesmo tempo penso: para quando uma experiência semelhante em Portugal? Seria maravilhoso!

[dropcap size=small]M[/dropcap]aria | Não há nome mais influente na minha vida. Vários membros da minha família o têm. Mas a mais importante Maria na minha vida é a minha querida mulher, que é, pura e simplesmente, “a miúda dos meus sonhos”.

[dropcap size=small]N[/dropcap]eca Arrisco dizer que o meu avô foi, muito provavelmente, a figura mais preponderante de toda a minha juventude. A sua influência no meu crescimento e na minha formação foram gigantes. As infinitas conversas que tivemos (sobre tudo) são, até hoje, marcos profundíssimos nos meus valores e na minha maneira de ver o mundo.

[dropcap size=small]O[/dropcap]uvir | Sempre gostei mais de ouvir do que fazer qualquer outra coisa. Quer fosse ouvir música, a natureza ou um amigo. Penso que o mundo, hoje em dia, carece gravemente de quem ouça. E talvez seja por isso que as redes sociais se tornaram no que há de mais popular na nossa era: todos querem ser ouvidos. Mas o problema é que, lá, ninguém ouve ninguém verdadeiramente… Uma cacofonia aterradora…

[dropcap size=small]P[/dropcap]iano | Foi com ele que tudo começou e com ele que tudo continua, para mim. E tudo por culpa de Thom Yorke. Será que é com ele que tudo acabará?

[dropcap size=small]Q[/dropcap]ueen | Apesar de os ouvir desde que nasci (obrigado Inês!), continuo a dar por mim estupefacto com a obra feita por estes rapazes. Desde a inconfundível voz e as letras definitivas de Freddie Mercury aos solos de Brian May, passando pela beleza da composição, da subtileza e força dos arranjos e das misturas… Que oferenda!..

João Bruno Soeiro

[dropcap size=small]R[/dropcap]ússia | Este é um tema que dava para um livro…! A Rússia tornou-se na minha segunda casa e tenho com ela uma predilecta relação de amor-ódio. Pungente, bem ao estilo de Dostoyevsky. Mas orgulho-me muitíssimo do meu percurso aqui e estou-lhe infinitamente grato por tudo o que ela me deu.

[dropcap size=small]S[/dropcap]éries | Tornaram-se numa poderosíssima força do meio audiovisual, de tal forma que até os principais festivais de cinema estão agora a criar iniciativas dedicadas a elas. Eu estive quase, quase a escrever música para uma série em Portugal, no ano passado, de maneira que espero que, muito em breve, surja uma nova oportunidade!

[dropcap size=small]T[/dropcap]eresa | A Professora Teresa Menéres foi não só a minha primeira professora de piano, mas também uma grande educadora musical, a todos os níveis. As incontáveis horas passadas com ela, não só ao piano, mas a ouvir gravações, concertos e concursos, foram fulcrais no meu crescimento musical intensivo e na formação de uma cultura musical verdadeiramente refinada e completa.

[dropcap size=small]U[/dropcap]ltramar Talvez por o meu pai ter sido Oficial da nossa Marinha que eu sempre tenha ficado com o bichinho de explorar permanentemente o mundo, contactar com novas gentes, ver novas terras, e claro está, ouvir os sons de todos os povos.

[dropcap size=small]V[/dropcap]era | Esta palavra é, em russo, não só um nome próprio, mas o substantivo “crença”. E foi isso que a Professora Vera Belozorovich me deu: acreditar em mim próprio, nos meus ouvidos e na minha personalidade artística. Com ela, tornei-me num músico com luz própria, livre e repleto de cores e texturas na minha busca pianística e musical.

[dropcap size=small]X[/dropcap] | É curioso, porque, quando olho para esta letra, não penso à primeira no nosso “xis”, mas na sua correspondente no alfabeto cirílico, que se lê sensivelmente como um “j” espanhol. E o mais engraçado é que, com esta letra começam algumas das palavras mais horríveis, mais básicas e mais estruturais da língua russa.

[dropcap size=small]Z[/dropcap]eza | A minha avó materna é o maior exemplo de amor, bondade e pureza. Uma fonte de paz eterna que está sempre comigo.


João Bruno Soeiro

João Bruno Soeiro nasceu em Lisboa em 1983. Começou a estudar música somente aos 19 anos na Academia de Amadores de Música, com Teresa Menéres e Vera Belozorovich (Piano), Eurico Carrapatoso (Composição) e Fernando Flores (Música de Câmara).

Em 2009 é aceite na Academia Gnessin, em Moscovo, onde conclui o Curso Superior de Piano na classe da Professora Maria Gambarian, em 2013. Nesse mesmo ano recebe uma bolsa de estudos para ingressar no mestrado em Composição de Música para Cinema, TV e Videojogos, na Berklee College of Music, que conclui com distinção no ano seguinte.

Desde aí que se tem dedicado maioritariamente a essa actividade, dividindo também o seu tempo na colaboração, como engenheiro de som e produtor, com o CineLab SoundMix, o maior e mais importante estúdio privado de pós-produção áudio na Rússia.

Recentemente lançou o seu primeiro álbum, “Vizinhos”, sob o heterónimo B.U.B.A, através do mpmp: a banda-sonora do documentário com o mesmo nome, realizado por Cândida Pinto para a Bienal de Veneza de 2016, sobre a arquitectura social de Siza Vieira.

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