Tania Achot (1937-2022)

A Tania morreu ontem, 6 de Janeiro. A Tania foi uma das pessoas que contaram, e muito, para o nascimento de uma consciência colectiva do que é a arte de tocar piano. A ligação entre um trabalho manual, ou até mesmo físico, e uma realidade artística dada pela obra é a função de todos os músicos. Mas essa realidade nem sempre passava, há uns anos atrás, pois as palavras sensibilidade, talento, inspiração, toda uma “tralha” romântica, toldavam a realidade nua e crua da profissão artística. Sem querer falar de mim, sinto que isso é inevitável na homenagem que lhe quero prestar, e ela merece a 100%. A Tania foi a minha professora durante muitos anos. Apesar de não estar nessa altura no ensino oficial — são conhecidas as pegas dela e do seu marido Sequeira Costa contra o ensino ministrado no Conservatório Nacional —, foi com ela que concluí o meu exame do curso superior de piano nessa instituição.

Esse labor árduo e essa consciência da importância de uma técnica pianística foi ela quem me transmitiu. A preocupação constante com o som e a sua qualidade eram um dos seus maiores cavalos de batalha. Não é possível expressar o que quer que seja sem as ferramentas próprias. Mas o entusiasmo artístico, a apreciação da obra, assim como a apreciação de alguns intérpretes foi igualmente obra sua. José Manuel Beirão, numa fase de iniciação, e depois Tania Achot foram os responsáveis pela minha formação pianística e também por uma certa maneira de ver e apreciar a música.

Para além disso, a Tania era uma fulgurante pianista, os seus recitais a solo e a dois pianos com o Sequeira Costa na Gulbenkian estão para sempre gravados na minha memória. A sua graça inimitável quando “descobria” uma obra e me falava sobre ela, exemplificando-a ao piano no estúdio H do Edifício Castil, são outra grata memória que tenho dela. Lembro-me do seu entusiasmo a falar-me do segundo caderno d’O Cravo bem temperado de Bach e da sua demonstração por A mais B de que os prelúdios e fugas desse caderno ainda conseguiam superar os do caderno primeiro; lembro-me do seu entusiasmo a falar-me da Sinfonia n.º 6 de Mahler que não conhecia e tinha ouvido no dia anterior — sentou-se ao piano e de cor tocou três ou quatro acordes que eram indubitavelmente dessa obra. Lembro-me também do seu “mau feitio”, que podia ser difícil mas que era, para mim, pelo menos, digamos que “contornável” e estava ligado a um sentido de humor único.

Dou um exemplo: quando gravámos as Bodas de Stravinski, uma obra para quatro pianos, percussão, coro e solistas vocais, eu fazia par com ela. A uma certa altura, num dos ensaios na Aula Magna, dei por mim a discutir com ela qualquer coisa relacionada com a obra; a discussão era obviamente amigável mas não deixava de ser uma discussão. A Tania reparou entretanto que um homem, provavelmente da equipa técnica, nos observava atentamente, e diz-lhe para esclarecer: “olhe que este senhor não é meu namorado!”…

Passaram-se bastantes anos, depois da sua reforma, em que deixei de a ver, apesar de ir sabendo dela pela família e alguns amigos. Voltei a encontrá-la no lar onde também está a minha mãe. A princípio, talvez por causa da máscara, não me reconheceu, mas eu afastei-me e tirei-a. Disse logo o meu nome. No dia seguinte voltámos a ver-nos e aí, já mais segura de si, vira-se para mim depois de voltar a dizer o meu nome, com apelido e tudo, e pergunta-me (e isto era típico da Tania):
— O que é que estás a estudar agora?
— Tania, estou a trabalhar uma sonata de Beethoven e uma obra de Strauss.
(Olha para mim com um ar desconfiado e dispara:)
— Do Johann?
— Não, Tania, do Richard.
(Fica logo com ar mais sossegado, e diz-me: )
— Ah, está bem!

Era assim a Tania, única e inimitável. Uma personalidade entre mil. Uma memória para sempre!

Aqui fica a sua versão do estudo de execução transcendente Chasse-neige, de Liszt. Uma obra que ela adorava e que tantas vezes discutiu comigo.

 

Sobre a ‘Carmen’ no São Carlos: há coisas que não consigo entender

Há coisas que não consigo entender e esta produção da Carmen que agora estreia é uma delas. O São Carlos apostou numa produção vinda da English National Opera, ao que parece do Sr. Calixto Bieito, encenador. As produções deste senhor são esquisitas e pedem às vezes coisas esquisitas aos participantes; até aqui tudo bem, tem que haver para todos os gostos, embora eu não veja a razão para ter que ver mulheres em fato de banho, e sexo em carros — dizem — numa produção da Carmen.

O que já não entendo tão bem é a péssima utilização dos nossos recursos vocais no referido teatro. Em primeiro lugar, o tenor Paulo Ferreira já cantou esta produção em Bilbao — é no mínimo de estranhar que não tenha sido convidado para o fazer no seu país. Numa produção estranha para a qual são precisos vários ensaios não seria útil e até inteligente utilizar um jovem cantor português que está a fazer uma magnífica carreira internacional e que já conhece a encenação?

Uma coisa destas seria impossível em Inglaterra onde as direcções e os governantes se batem pelos seus artistas (era por isso que Janet Baker dizia em entrevistas que estreava os seus papéis operáticos sobretudo no seu país, pois se sentia assim mais confortável do que no estrangeiro), mas em Viena, Paris ou aqui ao lado, em Madrid, isto também não sucederia. Que falta de noção se apoderou de nós?

De Micaelas conto pelo menos três ou quatro portuguesas que fariam maravilhosamente o seu papel: em primeiro lugar Dora Rodrigues mas também Sónia Alcobaça, Susana Gaspar ou Ana Maria Pinto. A senhora Brandon deve ser uma enorme diva, que eu desconheço, para ser convidada em vez de quatro excelentes cantoras portuguesas.

Enfim, até nem arranjámos um Zuniga e lá teve que vir (de Inglaterra, presumo eu) o senhor Keel Watson — elementar, “my dear Watson”. Concluo portanto que este país tem uma trampa de cantores (facto que desconhecia) e que estamos prestes a tornarmo-nos numa colónia inglesa.

O governo não abre os olhos a isto? Shame on them!

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