O concerto de ano novo das talentosas Olga Heikkilä, soprano finlandesa, e Joana Vieira Shumova, pianista portuguesa, que teve lugar no passado dia 8 de Janeiro na Igreja da Misericórdia em Tavira, foi uma lufada de ar fresco no panorama musical algarvio. Mantendo a tradição de leveza e alegria que caracteriza esta época festiva, o programa soube dosear muito bem o conhecido e desconhecido.

Iniciou com três famosas árias de ópera do compositor italiano Giacomo Puccini (1858-1924): “O mio babbino caro” (Gianni Schicchi), “Signore, ascolta” (Turandot) e “Quando m’en vo” (La Bohème). O melodismo fluido e sensual, típico de Puccini, rapidamente cativou o público. Olga Heikkilä soube utilizar muito bem o espaço cénico da Igreja da Misericórdia, incluindo a escadaria que dá acesso ao altar. A qualidade de afinação que possui, o controlo, a experiência permitiram-lhe um amplo movimento, raro de se ver nos concertos que aqui se apresentam com regularidade.

Foi muito bem acompanhada ao piano por Joana Vieira Shumova. A jovem pianista portuguesa tem uma consistente carreira internacional corroborada por diversos prémios. Virtuosa mas discreta, possui uma vivacidade do toque, um pulsar que sabe ir ao encontro da voz respeitando inflexões, respirações e até algum improviso, garantindo à cantora a segurança que lhe permite soltar-se e brilhar.

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A ópera deu lugar à opereta com Johann Strauss (1825-1899): “Mein Herr Marquis” (Die Fledermaus), a célebre área do riso em que a criada Adele, descoberta pelo patrão na festa em que entra disfarçada de senhora da sociedade, faz troça deste para evitar ser reconhecida. Seguiu-se-lhe uma ária mais séria, “Meine Lippen, sie küssen so heiss”, concernente a Giuditta de Franz Lehár (1870-1948), para logo se ouvir “Youkali” (Tango Habanera) de Kurt Weill (1900-1950). A grande versatilidade vocal e capacidade teatral de Olga Heikkilä ficou particularmente bem demonstrada aqui. Não constitui surpresa ter sido premiada, ao longo da sua carreira, em variadas competições do mais alto nível, decerto não apenas pela qualidade da sua interpretação vocal, mas também pelo grande carisma e pela desenvoltura em palco.

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A grande surpresa, contudo, estava ainda por chegar. Os momentos seguintes foram preenchidos com obras de compositores cuja música raramente temos oportunidade de ouvir ao vivo. Da terra natal de Olga, ouviu-se a ária “Kaiutar” de Jean Sibelius (1865-1957), que conta a história de Eco. Já do norueguês Edvard Grieg (1843-1907), as intérpretes ofereceram “Solveigs Sang”, obra composta para a peça teatral Peer Gynt de Henrik Ibsen. Foi comovente ver o público embrenhar-se tão profundamente nas melancólicas sonoridades do norte da Europa.

Por fim, a ópera e opereta cederam espaço ao musical, com “My Favourite Things” (The Sound of Music) de Richard Rodgers (1902-1979) e “I could have danced all night” (My Fair Lady) de Frederick Loewe (1904-1988). O Encore manteve-se no mesmo género, recordando-nos Judy Garland na vivacidade e frescura com que foi interpretada a canção “Somewhere over the Rainbow”, composta por Harold Arlen (1905-1986) para O Feiticeiro de Oz e que desde então permaneceu perene no imaginário de todos.

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Mais informações sobre Olga Heikkilä podem ser consultadas aqui.

Sobre o autor

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Correspondente da GLOSAS no Algarve e investigadora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente realiza um Pós-Doutoramento no âmbito da Estética Musical, sendo bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Doutorou-se em Filosofia Contemporânea em 2002 com uma tese sobre o pensamento de María Zambrano, tendo sido orientada por Maria Filomena Molder. Publica regularmente em revistas científicas. Iniciou os seus estudos em piano com quatro anos de idade, canto e dança um pouco mais tarde, actividades que não seguiu profissionalmente, mas também nunca largou, porque é impossível deixar o que nos alimenta a alma.