O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens; é tê-las feito.

Agostinho da Silva

O nosso grande compositor Gilberto Mendes, nos seus noventa anos de idade, continua a causar impacto. A composição flui viva em sua pena clara, sem subterfúgios, direta, a expor sua mensagem sonora rica e diversificada. O compositor tem suas preferências nítidas que não ficam enclausuradas unicamente na criação de seus ilustres ascendentes musicais, mas viajam para outras latitudes e o cinema, o jazz band, o mar de sua Santos eterna servem de subsídios que, transfigurados, aportam em seu vasto catálogo. É surpreendente seu interesse por tudo que o cerca. Hoje não mais viaja para o exterior. Entende o seu tempo físico, que, apesar de não o desapontar, tem regras inexoráveis. Gilberto personaliza o pulsar vulcânico controlado.

Em meados do ano passado fui visitá-lo. Com regularidade estamos em contato, mormente por telefone. Durante o almoço, a saborear ostras em restaurante da maior confiança de Gilberto, confessou-nos, à minha mulher e a mim, que estava a finalizar um romance. Romance? – perguntei-lhe pasmo. A viagem literária do compositor, a brotar da imaginação, surgiu-me no instante como fato inédito. E é. Aos noventa anos!!! Gilberto disse-me à altura que procurou divertir-se ao criar personagens para Danielle em surdina, langsam (São Paulo, Algol, 2013). E como se diverte…

O romance de Gilberto Mendes não tem o manejo linguístico e formal de especialistas do ofício. Nem poderia tê-lo. Seria pedir muito àquele que destinou sua vida às sonoridades, à palavra que serviria aos seus desideratos musicais e à cena teatral em função de uma adequação à mensagem musical e estética. Danielle… sintetiza muitos dos devaneios gilbertianos, que percorrem dezenas de títulos em suas composições. Nestes, Gilberto é insólito, desconcertante, divertido ou trágico. Quem neste país fez o mesmo com tanta naturalidade? Seu catálogo está povoado de personagens em hilariantes situações. Revelam o degustador da vida em sua acepção. Sob outra égide, sua pena firme e crítica comentou concertos durante decênios e denunciou irregularidades a contagiar a sociedade. O homem em sua convicta ideologia de esquerda não se furtaria a apontar descasos culturais e sociais de variadas origens. Mas jamais com o ranço que caracteriza tantos adeptos.

Danielle em surdina, langsam passa-se em dois tempos, numa espécie de forma bipartida  mas com alternâncias geográficas. O “tempo” de Danielle… obedece ao presente (Alemanha) e ao passado (Santos). Em todo o curto romance o personagem central,  Mathias Emmanuel, se vê frente à reminiscência e à realidade. Fundem-se os tempos.

Impressiona a vitalidade imaginativa de Gilberto Mendes. O personagem Mathias Emmanuel é músico e o autor o acompanha dos primórdios pianísticos em Santos até o porto final,  Alemanha, no qual estaria definitivamente radicado como compositor. O alerta já se apresenta no peristilo do livro. Há, no personagem criado por Mendes, um misto de alter ego e de ecos dos anos 1930-1940. Lugares caros a Gilberto em sua cidade berço, situações vividas e encontráveis nas sua “biografias” reais, mas metamorfoseadas, a depender das circunstâncias, a lembrança lúdica da infância e adolescência em que a música para Mathias Emmanuel estaria amalgamada à descoberta do perfil feminino em sutilezas por vezes sensuais,  “olhar os joelhos e pernas das colegiais”, a libido a confundir-se com amor, mas a propiciar o conhecimento. Pureza, temor, arrojo, concretude, seja nos braços de uma prostituta que se parecia com Hedy Lamarr, seja no observar uma estudante adolescente, Danielle – paixões mensuráveis em contextos diferentes. Surpresa acompanhar a lista de sinônimos que Mathias elabora na Alemanha para termos como meretriz e casa de tolerância. O personagem, em noite insone em Dresden, recorda-se da quantidade de agências de vapores que adentram pela Ponta da Praia. Gilberto converte essas listagens na transcendência humana do observar. A matéria banal a volatizar-se na poética imaginação.

Danielle… encanta pelos instantes etéreos, trágicos, libidinosos, puros. Os personagens flutuam como névoas nessa viagem através das décadas. Desfilam pelo romance, esporadicamente, nomes que marcaram a música no século XX, tanto a erudita como a popular. Mathias devaneia num universo lúdico-sonoro-sensorial.

É deliciosa a leitura do romance de Gilberto Mendes, mormente ao sabê-lo pleno de entusiasmo pela vida em história reveladora de alguns de seus segredos. Desvelados? Não diria. Há mistérios insondáveis em Gilberto Mendes. Mathias Emmanuel e “Danielles” encantam, e o desdobramento final surpreende. Leitura prazerosa. Gilberto…

 


 

ARTIGO PUBLICADO NA GLOSAS 8 ( Clique aqui para ler o artigo na versão impressa ).

Sobre o autor

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José Eduardo Martins nasceu em 1938 na cidade de São Paulo. Estudou Piano com José Kliass, Marguerite Long e Jean Doyen. É autor de diversos livros sobre música, de quase uma centena de artigos publicados em diversas revistas e periódicos de vários países, e realiza paralelamente edições críticas das obras do compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852-1931), por ele redescoberto. Doctor Honoris Causa pela Universidade Constantin Brancusi da Romênia e Acadêmico Honorário da Academia Brasileira de Música. Recebeu em Bruxelas, em 2004, na Embaixada do Brasil, a Ordem do Rio Branco. Em 2011, foi agraciado com a comenda 'Officier dans l'Ordre de La Couronne', outorgada por Sua Majestade Alberto II, Rei dos Belgas.