David Perez foi um dos compositores mais relevantes no panorama musical europeu da segunda metade do séc. XVIII. Nascido em 1711, em Nápoles, estudou música no Conservatório de Santa Maria di Loreto na cidade partenopeia, um dos principais centros de excelência e inovação de criação musical na época. A sua primeira ópera, La Nemica amante, foi estreada em 1735 no Teatro do Palazzo Reale de Nápoles. No período entre 1740 e 1748 permaneceu na cidade de Palermo, onde assumiu o cargo de maestro da Cappella Palatina. Em 1752, aceitou o convite do Rei D. José I para ocupar o prestigioso cargo de Compositor da Real Câmara e Mestre das Suas Altezas Reais. Dirigiu a vida musical da Corte portuguesa, permanecendo em Lisboa até a sua morte, em 1778. Perez compôs música sacra de grande relevância, obras instrumentais e didácticas, assim como mais de 44 obras dramáticas. De entre estas, 14 foram escritas em Portugal, entre quais as magnificentes Alessandro nell’Indie e La Clemenza di Tito (1755), para a efémera Ópera do Tejo. A sua produção musical influenciou a maioria dos compositores portugueses coevos, muitos dos quais, como João Cordeiro da Silva, João de Sousa Carvalho e Luciano Xavier dos Santos, foram seus discípulos directos.

L'Isola Disabitata_Queluz

Libretto impresso para a representação de Queluz (1767)

O libretto da serenata L’Isola disabitata foi escrito pelo maior poeta para Música do séc. XVIII, Pietro Metastasio, em 1752, e teve a sua primeira apresentação a 31 de Maio 1753 em Aranjuez, na Corte dos Reis Católicos, com música do compositor austríaco de descendéncia italiana Giuseppe Bonno (1711-1788). Vários compositores famosos, como Niccolò Jommelli (Ludwigsburg, 1761), David Perez (Queluz, 1767), Tommaso Traetta (Bologna, 1768) ou Joseph Haydn (Eszterháza, 1779), usaram este texto com grande êxito. Em Portugal, a obra de Metastasio obteve alguma popularidade, foi traduzida e editada em português e provavelmente apresentada igualmente no teatro dramático durante o séc. XVIII. A trama do libretto, quase realística, cuja narração trata de viagens marítimas longínquas para as Índias Ocidentais, raptos pelos piratas e abandonos numa ilha deserta, despertou bastante interesse entre o público português. Na sua introdução ao texto poético, Metastasio compara a figura de Costanza (cujo nome contém igualmente o jogo de palavras com a virtude da Constância) àquela mitológica de Ariadne, abandonada na ilha de Naxos por Teseu. O drama pode ser qualificado como uma reformulação galante do mito em modelo de fábula com final feliz, combinando os ideais arcádicos e a estética consolatória típicos da época. Além da primeira execução com música de David Perez em 1767, L’Isola disabitata teve várias apresentações nos teatros reais portugueses, com música de Niccolò Jommelli (Ajuda, 1780 e São Carlos, 1798).

Perez L'Isola Disabitata

D. Perez, “L’Isola Disabitata”: frontispício do ms. conservado na Biblioteca da Ajuda

A Serenata L’Isola disabitata aparentemente poderia ser classificada como uma obra menor de David Perez, em comparação com as monumentais óperas escritas para a Ópera do Tejo. Contudo, resulta ser uma obra emblemática cheia de significados importantíssimos que são agora objecto de um estudo musicológico – tendo em conta que depois do devastador Terramoto de 1755, num período bastante extenso de quase dez anos, não houve apresentações de ópera, as formas semi-encenadas, entre quais a Serenata, ganharam popularidade e tornaram-se coexistentes durante a segunda parte do séc. XVIII. Foi escrita para ser apresentada no Palácio de Queluz, cujos donos, o Infante D. Pedro e a futura Rainha D. Maria I, alunos privilegiados do compositor, criaram com Perez uma ligação estreita. A proximidade entre o casal real e o músico napolitano pode ser demonstrada pelo lugar central que o retrato de Perez obteve no fresco pintado na volta da Sala dos Embaixadores do Palácio.

No libretto impresso, conservado na BNP, estão indicados o lugar e o ano, mas não a ocasião de execução da obra. Os interpretes da época foram os castrati Giovanni Battista Vasquez, Giuseppe Orti e Lorenzo Maruzzi e o tenor Luigi Torriani, discriminados como “virtuosos da Real Câmara”, principais solistas dos teatros reais durante as décadas de 1760 e 1770.

Hoje em dia sobrevivem duas partituras manuscritas desta obra, feitas pelo mesmo copista. Uma está conservada na Biblioteca da Ajuda e no frontiscípio traz a formulação, em italiano, “para ser apresentada na Real vila de Queluz no ano de 1767”. A outra cópia conserva-se na Biblioteca do Conservatório S. Pietro a Majella em Nápoles.

O estilo musical de L’Isola disabitata combina a vertente galante elaborada das árias conjugada com cenas de recitativos secos e acompanhados de grande eficácia dramática, que respeitam a métrica e a intensidade dramatúrgica do texto poético de Metastasio.

O legado de David Perez representa uma parte importante da história da música portuguesa e europeia. Contudo, lamentavelmente, a sua obra dramática permanece hoje completamente desconhecida. Através de um trabalho sistemático de recuperação das serenatas escritas para o Palácio de Queluz, o Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal pretende divulgar L’Isola disabitata, num projecto de investigação que prevê o estudo sobre o contexto de execução e criação e a edição crítica, a nosso cargo, e a estreia mundial da obra pela orquestra barroca Divino Sospiro.

 

Texto publicado originalmente na Glosas 12, Maio de 2015 (pp. 42-43): disponível aqui.

Sobre o autor

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Iskrena Yordanova terminou o mestrado em violino na Academia Superior de Música de Sófia (Bulgária). Aperfeiçoou a técnica e o repertório de violino barroco estudando, entre outros, com Enrico Onofri e Chiara Banchini. Apresentou-se em recitais em Portugal, Espanha, França e Itália. Desde 2004 é concertino da orquestra barroca Divino Sospiro, de que é membro fundador. Com este ensemble trabalha regularmente como solista, sob a direcção de Enrico Onofri, Christophe Coin, Rinaldo Alessandrini, Chiara Banchini, Marc Hantaï, entre outros, em concertos e festivais em numerosos países europeus e extra-europeus. Gravou para a etiqueta japonesa Nichion e para a Decca, com Il Giardino Armonico. Colaborou ainda com Keneth Weiss no Festival de Aix-en-Provence, com Christophe Coin (Ensemble Baroque de Limoges) e com a Academia 1750. Foi docente da Universidade de Évora. Na mesma Universidade, doutorou-se em Musicologia, com uma tese sobre as oratórias de Pedro António Avondano. Tem-se dedicado à pesquisa e à edição de repertório português do séc. XVIII. Foi comissária da exposição "Della Gloria, e dell'Amor - Olhares sobre a Obra de Niccolò Jommelli (1714-1774) em Portugal", no Teatro Nacional de São Carlos (2014). Dirige actualmente o Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal, com sede no Palácio Nacional de Queluz.