A Glosas esteve presente no ensaio-geral e na estreia da nova produção da ópera em três actos e doze quadros Dialogues des Carmélites, de Francis Poulenc (1899-1963), cujo libreto é baseado no drama homónimo de Georges Bernanos (1888-1948), actualmente em cena no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC). Esta coprodução do TNSC e do Teatro da Cornucópia conta com a direcção musical de João Paulo Santos, encenação de Luís Miguel Cintra, cenografia e figurinos de Cristina Reis e desenho de luzes pelo encenador e cenógrafa, em parceria com Rui Seabra e Paulo Godinho. O elenco é totalmente composto por cantores e cantoras nacionais, bem como pelo Coro do TNSC, dirigido por Giovanni Andreoli, contando com a prestação da Orquestra Sinfónica Portuguesa.

A leitura que nos é proposta compreende o espaço aberto pelo texto e música desta obra. Da concepção dos cenários e vestuário à movimentação em palco, passando pela iluminação e escolha de intérpretes, tudo me pareceu convergir num conceito que, tal como Luís Miguel Cintra avança no ensaio de encenação oferecido nas notas ao programa, vai para além do drama religioso. O depuramento e simplicidade desta produção parecem convidar-nos a participar numa reflexão acerca do conflito gerado pela natureza fragmentária e atomizada da identidade individual e as utopias e ilusões que cada pessoa apropria de forma a controlar a ansiedade resultante da consciência dessa vulnerabilidade.

 


São, neste sentido, particularmente pungentes os três grandes e omnipresentes painéis concebidos por Cristina Reis. Podem representar a “tempestade” que o Marquês de la Force antevê no primeiro quadro do primeiro acto. Mas é sobretudo o carácter não figurativo dos largos traços a tons de azul e cinzento que lhe confere uma “dimensão quase épica” (utilizando a descrição do encenador). É neles que se vão abrindo portas por onde entram e saem os diversos participantes nos diálogos. São portanto esses painéis que vertem cada individualidade que, a seguir, ganha consistência social na interacção que estabelece com as demais e com o inelutável curso da História de que todos os seres são causa e consequência. Os painéis podem não ser a tempestade, mas são com certeza tudo aquilo que a idiossincrasia de cada pessoa, quer em palco, quer na plateia, os fizer ser. A sua natureza épica é resultado desse forte potencial de retroacção entre a cena e o auditório. A sensação de insegurança presente nestes Diálogos é, assim, justificada – permitam-me o paradoxo – pela representação da indefinição.

Este aspecto é reforçado pelo emprego inteligente de tópicos luminosos. Veja-se a utilização de luz branca na construção de metáforas do desfecho da ópera, ao longo dos seus doze quadros. Ela surge quando se fala da “tempestade”, mas também quando a Madre Superiora partilha com Blanche o seu entendimento do que consiste ser uma carmelita. É com a mesma luz que Constance é iluminada, quando no início do segundo acto nos é dado a ouvir um acorde glacial, assim como mais adiante, quando a jovem noviça refere que a morte da Madre Superiora “…devia ser a morte de outro, uma morte pequena demais para ela…”. Seria essa luz branca a iluminar todo o grupo de freiras enquanto entoavam o seu Ave Maria ou depois, já encarceradas, ao professarem o voto de martírio. As margens desse mesmo foco expandir-se-iam, apoteoticamente, a todo o palco, seguindo os passos de cada condenada, ao encaminhar-se para a extinção. Que luz é essa, afinal? Premonição de morte? Caminho de resolução do «eu»? Consolidação de um propósito de vida? A tranquilidade de uma certeza finalmente adquirida?

Podendo incorrer numa análise simplista de interpretações tão ricamente matizadas, arrisco dizer que a escolha do elenco foi ponderada de maneira a enfatizar traços essenciais de cada personagem. Daí que as nuances mais escuras, por vezes na vertigem para a estridência, que o timbre lírico de Dora Rodrigues começa a denotar, me pareçam adequadas à representação da angústia de Blanche, a angústia de uma juventude que ainda não encontrou o seu caminho. A sua outra face é Constance, aqui encarnada por Eduarda Melo. Claridade, energia, tranquilidade e fantasia personificadas, a sua alegria de viver, quer correndo e dançando, quer docemente cantando, surge como apologia da esperança que compensa o terror do desconhecimento. A cumplicidade e complementaridade entre ambas as personagens são potenciadas em momentos-chave como aquando do voto de martírio se fixam, olhos nos olhos: Constance sabe que foi Blanche quem se opôs e por isso toma o seu lugar, protegendo-a ante da censura das outras irmãs. A desilusão de Constance é pois maximizada, quando a companheira noviça se levanta e corre, fugindo à assunção daquilo que, desde o início, afirmava aspirar, isto é, a certeza de um ideal.

Num raciocínio equivalente, Luís Miguel Cintra pergunta-se se as três freiras mais velhas “[…] não serão três versões do eu que ainda não conseguiu a sua unificação interior […]”. A primeira Madre Superiora – Madame de Croissy – esteve a cargo da soprano Ana Ester Neves. É uma voz escura, mas calorosa, cujo vibrato rápido conferiu a urgência e o pânico a uma personagem cujo fim último só se concretizaria postumamente, através de Blanche. Luís Miguel Cintra caracteriza essa hereditariedade simbólica criando uma inversão da lógica de uma Pietá: é a Madre que sucumbe no colo da discípula. Esta estratégia contribuiu para a acentuação de um dos mais fabulosos momentos do libreto, com a dissolução progressiva da existência linguística da Madre através da voz de Blanche: “La révérende mère désire… La révérende mère désirait… aurait désiré…”. Era todavia Madre Marie de l’Incarnation a provável sucessora da Madre desaparecida. Foi a ela que esta confiou a tutoria de Blanche. Caracterizada em certos momentos por uma linha vocal quase geométrica nos contrastes intervalares, Maria Luísa de Freitas foi capaz de expressar o paradoxo de uma personagem que se afirma pela força, quase violenta, de uma segurança que, afinal, não possui. Em certa medida, Marie confunde-se também com Blanche, distinguindo-se desta apenas no desenlace final: o cadafalso não será ainda o seu momento. Com uma outra atitude, Ana Paula Russo confere ao papel da Madame Lidoine a integridade que vem esclarecer por que razão foi ela e não Marie a suceder Madame de Croissy no priorado do Carmelo: a voz que escuto como incisiva é a voz do compromisso para com a Ordem, a voz do compromisso com aquilo que defende e acredita e com aquelas e aqueles que representa: “… c’est moi qui répondrai de vous toutes et je suis assez vieille pour savoir tenir mes comptes en règle”.

Confesso que não sei se, como Cintra refere, as três seniores são três estádios de um mesmo «eu». Mas ter ficado com esta dúvida é, para mim, prova da riqueza da interpretação da equipa de que o encenador faz parte. O potencial épico desta produção ou, melhor, o potencial épico da obra eloquentemente transmitido por esta produção, resulta do cultivo destas ambiguidades, de espaços onde o público é convidado a projectar o seu percurso de vida, o seu próprio lugar no mundo. As mulheres em palco são afinal uma só. Essa mulher é toda a Humanidade. Tese esta que vai ficando clara com a aproximação do final, com descontinuidades entre tempo, espaço e pessoa delicadamente introduzidas na acção. Os disfarces de Blanche, com a casaca branca setecentista; do Padre, com fato e gravata à século XX; de Madre Marie, com a gabardina; e, sobretudo, do coro assistindo às execuções, envergando as mesmas roupas que nós, espectadores e espectadoras, usamos neste tempo em que vivemos. Remissões constantes à contemporaneidade, à aparentemente inexpugnável História que nos sentencia destinos decididos e no-los lê, no-los impõe, tal como no terceiro quadro do último acto, de janelas elevadas, distintas, distantes, dominantes.

Na cena final, o coro ao fundo do palco, cujas caras não distinguimos, é em suma o nosso reflexo espelhado. A execução destes indivíduos, já não de freiras, já não de mulheres, nem sequer de pessoas, é o aviso, o alerta de que a insurreição será brutal e fatalmente silenciada. O som da guilhotina desta produção emudece cada vítima da violência no auge do seu grito de liberdade. Mas embora silentes, as bocas abertas com que perecem continuam a gritar, desta feita na nossa consciência. O supremo acto de resistência é, portanto, o da criação destes fabulosos Dialogues des Carmélites. Nas palavras de Luís Miguel Cintra,

Temos, os que se dedicam às artes, um doentio desejo de prestar testemunho junto dos outros, dar prazer e consciência. Digo-o orgulhosamente, não com vaidade. Acredito que, por definição, temos um lugar de excepção, um lugar em relação à sociedade e que também fizemos um “voto de martírio”. Se acreditarmos nisto, esta maneira de pensar podia tornar estas Carmelitas num grupo à parte, uma quase metáfora dessa condição. […] [Do artista com] consciência do tempo da História Humana que já sobre 1957 passou, o momento político que estamos a viver apesar do aviso de tantos “artistas”, já passados 50 anos, com o branqueamento crescente da desumanização capitalista através do falso bom senso das bem intencionadas bases ideológicas do estado democrático, actual fachada hipócrita do poder do dinheiro.

Conseguiram.

 


 

DIALOGUES DES CARMÉLITES
Francis Poulenc (1899 – 1963)
Ópera em três actos e doze quadros
Baseado no drama de Georges Bernanos

Teatro Nacional de São Carlos
3, 5 de Fevereiro às 20h00 e 7 de Fevereiro às 16h00

Direcção musical
João Paulo Santos

Encenação
Luís Miguel Cintra

Cenografia e figurinos
Cristina Reis

Marquês de la Force
Luís Rodrigues

Blanche
Dora Rodrigues

Cavaleiro de la Force
Mário João Alves

Madame de Croissy
Ana Ester Neves

Madame Lidoine
Ana Paula Russo

Madre Marie de l’ Incarnation
Maria Luísa de Freitas

Irmã Constance de St. Denis
Eduarda Melo

Padre Capelão
Carlos Guilherme

Irmã Mathilde
Teresa Netta

Madre Jeanne de l’Enfance du Christ
Carolina Figueiredo

1.º Comissário
João Terleira

Monsieur Javelinot; 2.º Comissário ; 1.º Oficial
Ricardo Panela

Thierry; Carcereiro
Christian Lujan

Madre Gerald
Helena Vieira

Irmã Antoine
Helena Afonso

Irmã Catherine
Mariana Castelo Branco

Irmã Félicie
Ariana Russo

Irmã Gertrude
Sara Afonso

Irmã Alice
Rita Marques

Irmã Valentine
Rita Crespo

Irmã Anne de la Croix
Inês Madeira

Irmã Marthe
Catarina Rodrigues

Nélia Gonçalves

Irmã Saint-Charles
Rita Tavares

Coro do Teatro Nacional de São Carlos
Maestro titular Giovanni Andreoli
Orquestra Sinfónica Portuguesa
Maestrina titular Joana Carneiro

Nova Produção TNSC
Co-produção Teatro da Cornucópia

Sobre o autor

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Mestre em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, é actualmente bolseiro do Programa Doutoral "Música como Cultura e Cognição" da mesma instituição. Os seus interesses de investigação centram-se no espectáculo músico-teatral, nos géneros de comédia musical, e nas respe​c​tivas redes nas sociedades portuguesa e brasileira da segunda metade do séc. XIX às primeiras décadas do séc. XX. É colaborador da Linha de Investigação "Música no período moderno" do CESEM - Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, integrando o projecto "'Teatro para Rir': a comédia musical em teatros de língua portuguesa (1849-1900)", o SociMus - Advanced Studies in the Sociology of Music e o NEMI - Núcleo de Estudos em Música na Imprensa. Foi Secretário da Direcção da SPIM, Sociedade Portuguesa de Investigação em Música, entre 2013 e 2015. É também coordenador do Coro Académico Romanos Melodos.